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Jan 17

Neon Genesis Evangelion: O Cavaleiro do Apocalipse

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Lancaster | PERMALINK | 87

Categorias: Neon Genesis Evangelion

Evangelion

Quando falamos do encolhimento do mercado de quadrinhos japonês e da decadência da animação japonesa, alardeada por várias fontes internas da indústria nipônica, temos que pensar em Neon Genesis Evangelion, projeto multimidiático do estúdio Gainax, criado e encabeçado por Hideaki Anno. Aquilo foi a verdadeira profecia do fim e apontava justamente para as formiguinhas que já naquela época a corroíam por dentro – e que hoje são verdadeiras saúvas de cabeça vermelha. Parece contraditório, porque Evangelion foi – e ainda é – um grande sucesso, como franquia. Mas ele tem, em concepção, muito a ver com as circunstâncias que levaram ao atual estado Evangelionda indústria do mangá e anime no Japão.
Eu tenho que levantar esse tema quanto um dos autores que mais chamaram a atenção para o estado do mercado neste ano que passou, Shuho Sato (criador do drama médico Say Hello to Black Jack, cuja continuação vem sendo publicada pela Shogakukan) afirmou em um post recente no seu blog que "uma grande editora" (sem abrir o jogo quanto a nomes) perdeu vários milhões de dólares ano passado – e que de aproximadamente 70 revistas, não apenas de quadrinhos, mas de moda e outros gêneros publicados por essa editora, estão perdendo dinheiro. Jogando sombras sobre tudo, uma grande revista "cujo nome é conhecido por todos" perde cerca de onze a quinze milhões de dólares anualmente. Mais: de todos os títulos dessa editora, os dez mais vendidos são mangá, e ele prevê que três desses dez mangás serão encerrados esse ano, mas sem nenhum mega-sucesso que possa substituí-los; há um medo generalizado de que a indústria como um todo vá perder cerca de 110 milhões de dólares em 2010.

Evangelion

Não é preciso dizer que essas palavras são alarmantes. Ken Akamatsu, autor de Love Hina e Negima, afirmou em recente postagem no seu próprio blog que o mercado vem se concentrando: os títulos famosos vendem bem; os menores, não. E quem se ferra no processo não são autores famosos como ele ou Eichiro Oda (One Piece), mas sim os autores "classe média" – as vendagens caíram 4.9% em relação aos anos anteriores em 2008, e quando os dados de 2009 vierem à tona, provavelmente não terá sido muito diferente. Nas palavras de Akamatsu: "Como fonte para novelas, Evangelionlonga-metragens e animação, assim como produto por si próprios, os volumes para livraria vieram para ficar. Os volumes podem vender bem, e em volumes astronômicos. Mas isso quer dizer que aqueles que não o fazem, caminham para a obscuridade." Akamatsu vai mais longe e acusa justamente o encolhimento do mercado de revistas japoneses: "No Passado, as principais antologias de mangá tinham um efeito multiplicador na qual os títulos menores poderiam ganhar em visibilidade – mas esse efeito parece estar se esvanecendo. De fato, as chances para tomar contato com mangás menos conhecidos está desaparecendo".
Isso meio que anula um dos argumentos a respeito do atual cenário de quadrinhos japoneses, de que o problema repouse nas revistas (cujo sistema parece estar funcionando a medida em que é introduzido em mercados mais novos), não na indústria em si. Na verdade, a indústria não cresce – apenas se concentra a medida em que encolhe. Os títulos que vendem mais realmente estão vendendo mais, mas os que vendem menos... vendem menos ainda. E isso Evangelioné algo perigoso, profundamente perigoso.
Mas por que esse encolhimento? Bom, a razão básica é a crise econômica que assolou devastadoramente o Japão e da qual o país ainda não saiu. É um problema interno que afeta a indústria, mais do que um problema da indústria – só que em um país aonde ela tem tamanha importância, o problema é grave e não é a toa que o governo japonês faça tanto por sua exportação e popularização no ocidente. As perspectivas para esse ano são de que o país deve perder sua posição de segunda maior economia do mundo para a China – esta sim, em processo contínuo de crescimento – e isso não ajuda a melhorar nem um pouco a auto-estima dos Japoneses. Mas a verdade é que há uma raiz mais funda nessa questão: o país já está vivendo da nostalgia dos tempos áureos – e a primeira geração a jamais ter conhecido a época de bonança da economia japonesa (que acabou na virada dos anos oitenta para os noventa) já chegou ao mercado de consumo de quadrinhos e animação.
Começaram a sentir o verdadeiro problema?

Gainax

E o que a série de ficção científica e robôs gigantes Neon Genesis Evangelion tem a ver com isso? Se observarmos bem, o sucesso da série deve ser visto mais como o tampo de uma era e o início de outra – uma era muito pouco feliz, diga-se de passagem. Ele representa a ascensão de uma geração otaku, na mesma acepção original do termo americano fanboy: o fã que se torna profissional do meio mas efetivamente não deixa de ser fã em muitos aspectos. A Gainax sempre caiu nessa definição antes de virar mais uma empresa a produzir material dirigido aos fãs hardcore que sempre vão Gainaxconsumir a mesma coisa: Otaku no Video é um misto de docudrama e autocrítica; Nadia é uma elegia feita pela geração otaku a toda uma era de animes clássicos que não têm mais como ser retomados a não ser sob um viés de nostalgia ou desconstrução – pensem bem, depois da retomada do bloco World Masterpiece Theatre da Nihon, surgiu algum material com o mesmo destaque dos materiais do gênero produzidos nos anos setenta por bambas como Isao Takahata e Hayao Miyazaki? E o tão apedrejado final de Evangelion (o capítulo 26 da série original) é uma resposta óbvia de Hideaki Anno a todo o fanatismo despertado por sua série – convertendo tudo o que aconteceu em uma brincadeira metalinguística por retroatividade. O crescimento acabou, a euforia acabou, e o que veio a seguir foi uma falta de perspectivas e incertezas. Os heróis confiantes deram lugar, realmente, aos bananas. E se pensarmos bem, Shinji Ikari, o protagonista quase vegetativo da série, é apenas um sintoma de uma doença maior. O que tem em comum Evangelion, o pornô softcore de Aki Sora e boa parte dos haréns desde Love Hina (como a comédia ultrajante Yomero Choice, por exemplo)?

Evangelion

É que temos protagonistas reativos, que não tomam realmente iniciativas e são meio que conduzidos pelas circunstâncias, ou pela vontade e influência de personagens bem mais fortes ao redor. Mesmo em um material praticamente pornográfico como Aki Sora, o protagonista não é um pegador – ele simplesmente segue, sem grande iniciativa, a vontade das mulheres ao redor (só falta a ele dizer, no automático: "tá bom, se você quer…"). O horroroso Yomero Choice vai pelo mesmo caminho: o personagem é a inércia em forma de gente. Mas se pensarmos bem, essa inércia vem sendo captada Evangelionem produtos que nada tem a ver com material otaku, como Bakuman, mostram personagens que estavam nesse mesmo contexto de inércia e reatividade até aparecer algo que os sacudisse desse mundo (outro exemplo: o personagem principal de High School of the Dead perdeu a namorada de infância por seu próprio bunda-molismo e teria permanecido bovinamente nessa situação se um bando de zumbis não tivesse invadido sua escola) – como se fosse um sinal de que na verdade a inércia é um estado normativo comum entre boa parte dos jovens japoneses. Q&A, de Mitsuru Adachi, parece captar isso com um certo viés crítico – Adachi rachou a casca do ovo atemporal que o protegia em seus trabalhos pregressos a partir de Cross Game e a quebrou de vez em Q&A, ao mostrar uma cidade que encolhe sob os efeitos de uma crise econômica e um personagem que só faz qualquer coisa quando empurrado por um fantasma – ele sim, ativo, com iniciativa e atitude. Mas morto.
Mais emblemático do que isso impossível.
Um trecho de artigo publicado no website ANMTV a respeito do estado atual da indústria de animação mostra bem a situação: Até o presidente da Telecom Animation, Koji Takeuchi, se pronunciou sobre o estado do mundo da animação japonesa atualmente. "A indústria tornou-se decadente e parece cansada. Muitos dos títulos atualmente produzidos são obscuros e opressivos, as mensagens de esperança e de diversão desapareceram".
Ou temos isso, ou temos a alegria fabricada dos títulos voltados para o público hardcore, com Evangelionbananas cercados por mulheres que o espancam. E isso me parece menos diversão legítima do que um sintoma de desespero e fuga. No website Japan Pop Cuiabá, saiu recentemente uma divertida matéria sobre o fenômeno da Tsundere que pode ser lida AQUI – e que é bem esclarecedora. O termo Tsundere de acordo com o artigo pegou mesmo a partir de 2002, mas já era presente desde os anos 80 se pensarmos bem. Só que personagens assim eram um elemento cômico, não o fetiche que viriam a se tornar – como atesta o surgimento dos Tsundere Cafés, aonde os clientes são atendidos de forma rude pelas garçonetes, mas quando eles dão sinal de que vão embora, elas se tornam um poço de melado.
Para mim, o conceito de Tsundere é um compensatório do japonês por rejeições ostensivas. É a seguinte fantasia: todas as garotas que dizem não e que te repelem na verdade estão reprimindo seus sentimentos – assim, você se sente bem, porque sabe que a garota que te repele na verdade te adora. Não é que ela queira distância de você. Claro, isso na imaginação do público alvo. Repare que tsundere que se preza aparece em animes e mangás voltados ao público masculino jovem – até aparecem em quadrinhos para leitores mais velhos Evangelion(seinen), mas quando isso acontece esses seinens ou são revistas otaku, ou tem um pé na baixaria. Ou ambos (até acho que se Love Hina fosse coerente, Keitaro teria pego Mutsumi quando ela jogou aquele verde no natal. NENHUM ser humano do sexo masculino, não-comprometido, resistiria a uma moça curvilínea de trajes exíguos dizendo em público, na frente de seus amigos, que gosta de você – e acreditem, isso nada tem a ver com shipping, tem a ver com atitude de homem mesmo). Mas o ponto – para deixar de me desviar – é esse: Tsundere é isso, é auto-compensação, o que é um sinal assustador dos tempos. Antigamente os bananas queriam deixar de ser bananas para conseguir a mulher de seus sonhos. Hoje a mulher de seus sonhos é alguém que goste de dar ordens em um banana. :D
Antes, os protagonistas padrões de mangá eram pilotos de robôs gigantes de trezentos metros. Hoje são criaturas sem iniciativa que, em histórias dramáticas, agem como o Shinji de Eva; quando estão em comédias, agem como um Keitaro Urashima de Love Hina sem perspectiva. E olha que ambos tem em comum o fato de carregar a cruz de sua própria Tsundere nas costas. Asuka, alguém?

Tsundere

Eu diria que antes, os personagens eram essencialmente positivos nos anos 70 e 80 porque seu público viveu décadas de euforia econômica. Mesmo um personagem trágico como Joe Yabuki (Ashita no Joe) representava a dor do parto dessa postura inconformista, de que não se conseguiria a vitória sem preço. Depois, veio o desânimo e Eva representa isso, a geração que deu de cara com o seu padrão de vida em processo de desmonte. Hoje chegamos ao pior ponto: a geração que nunca conheceu a euforia. E o resultado foram os herbívoros.
Para quem não sabe: os Herbívoros são uma geração que não tem interesse realmente em mulheres mas não quer dizer que eles são homossexuais; eles apenas não querem a obrigação social que representa ter uma namorada ou esposa… ou, traduzindo de forma popular: não querem mulher porque dá muito trabalho (como aquela piada do sujeito preguiçoso que estava morrendo de fome, e lhe ofereceram arroz. "Com casca ou sem casca?", perguntou ele; "Com casca". "Ah, então me enterrem logo naquela cova…").

Evangelion

E isso se reflete também na sua abordagem para a carreira – e ser herbívoro não é apenas uma atitude restrita ao fator sexo: eles também não querem saber de uma carreira de verdade e preferem uma ocupação mais modesta e sem stress, porque deram de cara com uma sociedade com problemas que não foram resolvidos pela dedicação ao trabalho – e decidiram dar de ombros. Sua relação com as mulheres apenas reflete isso: uma mulher não se junta a um homem que não tenha futuro. Eles sabem disso, mas não ligam pra futuro. Uma namorada não é só uma menina com que Evangelionvocê passeia, beija e faz sexo; ela traz toda uma carga social embutida. Eles sabem disso e mesmo gostando de mulheres (quero acreditar nisso), eles não querem arcar com essa carga.
Acredito seriamente que o crescimento das Tsundere nos quadrinhos e dos herbívoros na vida real estão ligados de forma completa em sua raiz. E o elo de ligação entre ambos explica porque os animes de hoje são menos interessantes do que os de 20, 30 anos atrás. É o país que refletem hoje. E isso tem relação muito grande não de forma obrigatória com a crise atual, que simplesmente foi a cereja do bolo de algo que vem desde o começo dos anos noventa: a ressaca do ufanismo dos anos 70 e 80. Os japoneses antes eram um povo seguro de si e isso se refletia na sua produção. Patrulha Estelar representou a recuperação da auto-estima nacional durante os anos setenta, recarregando o ego nipônico após a desmilitarização do país nas mãos dos americanos; o sucesso de Eva aponta justamente para a falência desse modelo. E para que eu explique algumas coisas, teremos que fazer um spoiler monstruoso do que foi o polêmico final da série.
EvangelionO final de Evangelion tem que ser visto a luz de uma cena em especial no capitulo 23 da série original, quando a Dra. Ritsuko mostra o bando de Rei Ayanamis sem alma, meras cascas flutuando no liquido. O que ela diz perderia força se não fosse um detalhe: aquele bando de corpos sem alma SORRI para todo mundo quando elas percebem as pessoas olhando para elas por trás dos vidros. Esses sorrisos não aparecem no mangá – e foi uma perda, porque mina todo o conteúdo e agressividade de mensagem da cena. Ritsuko diz que fez tudo por Gendo, mas não importava o que ela dizia, o que ela fazia, o diacho – porque ela, uma mulher de verdade, não conseguia ser aceita como era, ser respeitada ou amada; não importava o que fizesse, Gendo sempre iria preferir uma boneca sem alma, que sempre sorriria para ele quando ele quisesse (repare que a rei sorria para Gendo e para mais ninguém).
É quando se torna visível justamente aquele eco do que viria a ser o discurso do superflat, da área borrada que surge do real e do virtual. É isso o que Rei Ayanami é.
O autor mandou a trama pro espaço naquele ultimo capítulo bizarro. Mas é como se dissesse: aquilo é só uma fantasia. As "realidades alternativas" são o molde das fantasias dos fãs hardcore – tanto que quando mostrou a vida perfeita que Shinji construiu para si, era composta todos os clichês de comédias românticas otaku, tipo Midori no Hibi e as séries da Pioneer. Rei Ayanami chega à escola atrasada e com uma nova personalidade, com um pão na boca.
E quando vemos, aquilo vira uma página de storyboard.
E quando vemos, vira uma página de roteiro de animação.
E de repente, Shinji está lendo o roteiro e entendendo que aquilo é uma das realidades possíveis que ele pode entrar e viver para si, sem precisar sair mais de lá. Ou seja, o mundo real é duro e ninguém consegue se relacionar entre si. Mas agora, a instrumentalidade – o grande plano de Gendo – permite que todo mundo possa construir sua própria realidade e viver nela. Não lembra nada, não?
Sendo direto: Esqueçam a busca por significados religiosos e similares – é tudo cortina de fumaça e muita gente caiu como um patinho. Na verdade, EVA É UM EXERCÍCIO DE METALINGUAGEM DIRIGIDO A GERAÇÃO OTAKU. E o otaku maior na verdade É O PRÓPRIO GENDO IKARI! Ele é, simbolicamente falando, otaku e o próprio modo de vida otaku, Evangelione a tragédia é gerada basicamente pelo fato dele estar em posição de poder sobre às pessoas que vivem a sua sombra, sempre inabalável em sua obsessão – ou melhor seria dizer alienação? Porque em retrospectiva seu objetivo sempre foi criar seu próprio mundo. Reparem também que mesmo que a chupada no final de Space Runaway Ideon de Yoshiyuki Tomino seja mais aparente no longa-metragem, Anno já o havia absorvido em conceito. Em Ideon, todos os lados tem que morrer e ascender a um estágio superior – todos viram luz e acabam se dirigindo a um mundo em formação oceânica, mergulhando na água, como se o infundissem de vida. Anno efetua uma variação de conceito, todo mundo vira liquido, o mesmo liquido, mas ao mesmo tempo que todos viram um, todos podem criar seu próprio mundo perfeito. Ou seja, deixam de ter individualidade, deixam de ser pessoas, mas se enclausuram cada um em seu mundo onde ninguém pode tocar.
E o que Shinji faz? Ele pela primeira vez na série inteira, REAGE. É como se ele se ligasse para onde seu caminho de alienação o leva – é o que ele construiu para si e mais ninguém. Só que essa mensagem não foi ouvida – há gente que considera Rei Ayanami a mulher ideal e vejam que Gendo é um dos personagens que mais foram incorporados via cosplay na época áurea de popularidade de Evangelion.
Hideaki Anno acertou tanto na identificação com seu público que os fãs mais radicais, ao invés de acordarem, atenderam ao chamado de Gendo e decidiram Evangelionvirar papinha. É bom lembrar que o autor foi um otaku (fã hardcore) na juventude, pertencente a primeira dentição do movimento, inspirada pelo impacto de Patrulha Estelar e do primeiro Gundam – e acabou fazendo a migração para a indústria. Talvez por isso a franquia seja tão explorada sob essa desculpa dos "mundos paralelos em que cada um pode viver": Anno simplesmente suicidou Evangelion como obra orgânica e autoral e assumiu ali a natureza comercial do projeto, pronto para ser consumida e reciclada continuamente em diversas versões ao gosto do freguês. E tome Evangelion: Iron Maiden, Evangelion: Shinji Ikari Raising Project, Petit Eva (não perguntem) e versões infinitas dos personagens – assim como também praticamente deu uma bênção assumida (metalinguagem, gafanhoto, metalinguagem) ao que já era feito de qualquer forma – os inúmeros fanzines que podem ser encontrados em eventos como o Comic Market e redes de gibiterias que os comercializam como a Toranoana. Acho engraçado ver os fãs com medo de uma versão americana do projeto nos cinemas, com uma Neo Nova Iorque. Dentro desse conceito, seria apenas mais Evangelionuma versão alternativa vinda do mundo maravilhoso do líquido aonde todos se tornaram uma pessoa só e todos ao mesmo tempo vivem em seus próprios mundinhos fechados, isolados das pessoas ao redor. Repararam que isso é justamente aquilo que o artista plástico Takashi Murakami definiu com o conceito do Superflat?
A mensagem de Anno com o final original de Evangelion foi, em miúdos, "fiquem com suas bonecas sorridentes sem alma, desgraçados filhos da p***. Ignorem o mundo de verdade, tranquem-se no seu mundinho. Tô nem aí." Não custa lembrar que o nome do episódio 26 é Tomem Conta de Vocês Mesmos.
E eles se trancaram. O articulista japonês e estudioso do fenômeno otaku, Toshio Okada (ele próprio egresso do meio), lançou em 2008 o livro Otaku wa Sude ni Shindeiru. Ele parece olhar com encantamento o começo da cultura dos fãs no fim dos anos setenta, e aponta um perfil de tribo urbana em construção (o termo otaku em si data de 1983, através de um artigo hoje famoso do ensaísta Nakamori Akio na grande imprensa que, com uma boa dose de ironia, os definiu como "doentes por mangá") – que degringola ao atual estágio de consumo de produtos moe e fetiches infinitos, descritos pelo autor como um "meio de se isolar emocionalmente e intelectualmente da sociedade" – e não custa repetir, ele mesmo foi um deles, e pelo visto perdeu a paciência com esse universo.
EvangelionSó que se pensarmos bem, a mudança da atitude "de grupo" do meio (apontada por Okada) para uma atitude isolacionista tem sua raiz na mesmo evento que gerou uma guinada da indústria para o fã hardcore: o estouro da bolha de crescimento em 1990, gerando o que seria lembrado dali em diante como "A Década Perdida". Podem conferir: a ascensão dos produtos otaku, o moe, as animações exibidas em horários inóspitos e que tinham traço de audiência, mas que valiam a pena por retornar em produtos voltados a esse público específico (como bonecas de PVC, acessórios de roupa e como não poderia deixar de ser, as indefectíveis almofadas com as personagens "em tamanho natural")… tudo isso tem sua raiz na busca da indústria de animação, quadrinhos e licenciamentos por portos seguros quando o cidadão comum perde poder aquisitivo e segurança financeira. Voltar suas baterias a aquela meia dúzia que, não importa o que se faça, vai comprar de qualquer maneira.
É óbvio, não? O crescimento do consumo otaku é a face da Década Perdida no mercado de Evangelionquadrinhos e animação japoneses. Mais: isso aconteceu da mesmíssima forma que a migração dos quadrinhos americanos para o mercado direto de gibiterias na primeira metade dos anos oitenta marcou o estabelecimento e crescimento de uma cultura nerd nos Estados Unidos. E esse crescimento da cultura otaku na indústria já era visível em 4 de Outubro de 1995, quando o primeiro episódio da série foi veiculado na TV Tokyo. Evangelion sempre foi um anime sobre a relação direta entre a cultura otaku e a Década Perdida que estava em curso, e Shinji Ikari nada mais é do que sua face – ele é um espelho justamente de uma juventude que chegou aos anos noventa sem certeza do futuro, apática, sem iniciativa, com as garantias com as quais seus pais cresceram devidamente estilhaçadas. Gendoh seria a cultura do fã hardcore, ignorando as pessoas ao redor na busca da construção de seu mundo perfeito de fantasia e isolamento – o que efetivamente ele consegue alcançar. Evangelion já previa esse nivelamento entre a cultura do fã e o modo de vida japonês denunciado posteriormente pelos autores da corrente superflat – e é difícil desconsiderar isso quando observamos que todas as obras pregressas do estúdio não lidaram diretamente com histórias e gêneros, mas com o imaginário desses gêneros e a relação que seus espectadores tem com eles. Como eu disse lá em cima, Nadia: The Secret of Blue Water não é apenas uma aventura juvenil, mas Evangeliono último capítulo em uma tradição de animações de aventura juvenis que não teriam mais lugar dali para a frente – começa infanto-juvenil e termina elegia para um espectador que só pode entender essa leitura caso tenha tido a vivência dessas animações do passado. Gunbuster é outra revisão do passado (encampado via homenagem pelo quadrinho clássico para meninas Ace o Nerae) pelos olhos de uma geração futura que absorveria os cânones dos quadrinhos femininos para consumo masculino e o reformataria via fanservice e codificação fetichista (precisamos fazer uma lista do que veio depois disso?). A Gainax sempre teve uma atitude pós-modernista em seu discurso e o maior erro que se pode cometer ao interpretar Evangelion é ignorar a chave metalinguística que esteve presente em todos os trabalhos do estúdio… e não poderia deixar de estar presente ali. Talvez com mais força do que nunca.
Porque está na cara que o Primeiro Impacto, que causou a extinção dos dinossauros em Evangelion, é o que restou da indefectível presença simbólica das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki que tanto marcaram com sua sombra em vários animes e mangás até os anos oitenta: explosivo, poderoso...

Evangelion

... mas agora algo imensamente distante em termos de perspectiva, que leva as novas gerações não sentirem mais tanta relação assim com o evento e suas consequências. A verdadeira bomba, presente e visível, é o Segundo Impacto – o fim do crescimento econômico japonês e das garantias sociais que ancoravam os valores tradicionais. Dentro de uma perspectiva imediatista, suas cicatrizes doem mais do que as de qualquer bomba atômica. E sem rumo nem esperança, nem futuro… por que dedicar esforço e trabalho a ponto de não se ter mais uma vida?
Shinji Ikari
é antevisão e paradigma de uma geração de homens inofensivos e sem iniciativa (que inclusive em sua bananice pedem para que uma mulher chute sua bunda da cadeira). E analisando friamente, ele não é o único sem rumo ali.

Evangelion

Shinji também é fruto de um cenário aonde a mais recente crise econômica mundial nada mais foi do que um golpe de misericórdia dentro do processo de desmonte de um sentimento de credibilidade social do povo japonês. A mesma crise que em que a maioria disposta a fugir do mundo ao redor cria uma geração de fetiches que se tornam razão de ser – porque esse público não está interessado realmente no conteúdo ou narrativa de uma história, mas em reconhecer nela elementos pontuais que Evangelionalimentem esse fetiche (como meninas de óculos, orelhas de gato, roupas de empregadinha pseudo-vitoriana, etc). O fato de Evangelion ter sido um fenômeno de massa durante sua exibição a ponto desses episódios finais terem gerado tamanha controvérsia se explica por ser um extraordinário exemplo de zeitgeist – um material que independentemente de suas qualidades ou não como história, representa o espírito de seu tempo como ninguém.
O mais assustador é que quando foi anunciada a nova série de longas de Evangelion, dez anos depois da exibição dos dois longas cinematográficos que se seguiram à série regular (Death and Rebirth e The End of Evangelion), Anno mencionou que dez anos haviam se passado e nada havia conseguido o mesmo impacto cultural de sua série, justificando uma nova produção. Independente desse argumento servir ou não de justificativa… bem, é verdade.
Talvez o problema esteja no atual estado de espírito do Japão e as consequências na indústria sejam mera consequência – as pessoas não são tão manipuláveis quanto certas correntes da comunicação gostam de acreditar que sejam. Há uma reação do receptor que é traduzida e interpretada sob a própria experiência dos mesmos. E há mensagens que tem maior capacidade de se espalhar como fogo em um milharal do que outras.
O Japão não mudou muito desde a exibição da série original, a quantidade de seres apáticos refletindo um espírito igualmente anêmico apenas se multiplicou e o mercado apenas encolheu, entre a busca pela segurança do público reduzido e pela inabilidade das publicações de massa em deter a queda de suas vendas. Quando olhamos as estréias dos animes em 2010, temos um anime sobre calcinhas (Chu-Bra), empregadinhas vitorianas e mordomos (Ladies Versus Butlers), misturas bizarras de cardgame com apelação (Weiß Survive R), a transformação de K-On! em alto-conceito (So Ra No Wo To – leia-se, "K-On em versão militar"), vampirismo com sugestão pedófila (Dance in the Vampire Bund), e aqueles animes que fazem você se perguntar quem é que assiste aquilo no Japão (Omamori Himari, Hidamari Sketch). E claro, não faltarão personagens sem atitude, para o humor ou para o drama – e eventualmente uma fêmea, com muito mais testosterona nas veias do que ele, chutando seu traseiro até que ele se mexa. Talvez esse tenha sido o legado da Gainax para as gerações posteriores – o fã que toma as rédeas do mercado e se dirige autofagicamente a si mesmo, fazendo com que ele se concentre em pontos reduzidos enquanto o mercado de massa perde força aos poucos. E essas gerações viraram LCL, como Anno fez questão de avisar – simultaneamente despojadas de sua própria identidade e imersas em seus próprios mundinhos.
Quem diria que o que deveria ser aviso acabou se tornando o anjo que trouxe a chegada do Terceiro Impacto, afinal de contas?

Evangelion

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Comentários:

Nome: Júlio Nunes da Silva Filho 17/01/10 02:48
Lancaster, sobre o texto, eu só tenho um comentário:
Ele deveria ser colocado em qualquer escola de jornalismo com "O" exemplo basico de como deve ser feita uma analise cultural de VERDADE, não o que nós lemos na nossa "imprensa cultural", não importando o meio de divulgação.
Para você, todos os cumprimentos do mundo!
Atenciosamente
Júlio Nunes da Silva Filho

Alexandre: Muito obrigado. :)
Nome: Antonio Pereira 17/01/10 03:00
Tava querendo entender aquele final faz tempo, até enchi seu saco aqui pedindo o artigo, lol. Agradeço bastante o artigo, realmente essa interpretação do final faz bastante sentido, eu tinha entendido outra coisa do final.

Alexandre: Eu acho até que ela se tornou bem óbvia quando o Anno, quando estava prestes a lançar o End of Evangelion, comentou em entrevistas que "os fãs de anime deveriam ter mais respeito por si mesmos" e "voltar a realidade". Evangelion nunca foi sobre religião de verdade.
Nome: Marcio E. Goncalves 17/01/10 03:16
Otimo texto.

Mas ainda prefiro minha analise de que Evangelion eh so um Ultraman pseudo-intelectualizado...rs

Alexandre: Bom, é difícil negar que o Anno deve gostar MUITO de Ultraman... XD
Nome: Júlio Nunes da Silva Filho 17/01/10 03:38
Lancaster, tenho uma sugestão tecnica para o site; a colocação de um icone para imprimir, e outro para salvar.
Atenciosamente
Júlio Nunes da Silva Filho

Obs.: Eu admito; cai como um patinho também...

Alexandre: Acho que naquele primeiro momento, todo mundo caiu... XD
Nome: Gk 17/01/10 03:39
Primeiramente gostaria de parabeniza-lo pelo ótimo texto, pra mim atualmente o Maximum Cosmo é a melhor referencia em sites de anime e mangá no Brail.
Decadencia dos animes e mangas no japão, a viz (shueisha e shogakukan) e a kodansha disputando a tapa o mercado do ocidente, a criação de projetos de mangá global, vc não acha q isso são sinais de q o Japão pode deixar de ser maior potencia de animes e mangás e passar esse posto para algum pais do ocidente?

Alexandre: Sinceramente o Yoshiyuki Tomino chegou a prever isso durante a sessão de perguntas e respostas que veio após sua palestra na UERJ. E já surgiu um marco qualitativo da nova ordem com o Scott Pilgrim. Só falta um marco comercial, e ele ainda não apareceu, nem na França, nem nos Estados Unidos. Será a existência dele – e o fato dele não se encerrar em si mesmo (no sentido de dar origem a outras iniciativas comerciais assim que estiver em seu auge) que definirá essa semente de virada.
Nome: Alexandre Nagado 17/01/10 03:43
Parabéns pelo texto. Esse tipo de problema é real. Vejo muitos garotos que se dizem "otaku", que na verdade apenas querem consumir e consumir modinhas.

Preencher o vazio com "coisas" e não alimentar ou distrair a mente com boas histórias.

Transpondo para a música uma parte do seu raciocínio, é o mesmo vazio da tribo dos "emos", fechados em mundinhos onde o suicídio é bonitinho se a garota não te olha.

Enfim, espero que as pessoas leiam e entendam essas palavras.

Abraços!
Nagado

Alexandre: Obrigado, Nagado. :) A minha impressão é que nem o Anno ficou contente com o fanatismo que Eva gerou a certa altura do campeonato – e a série já vai fazer quinze anos desde sua estréia e nada mudou muito. Talvez tenha ficado até pior.

PS: Pouca gente da área tem uma visão tão lúcida sobre o assunto e eu gostaria de poder fazer textos assim de vez em quando. E eu gostaria que pensasse com carinho em uma sugestão de marketing. Faça uma versão "light" (com uma lauda, mais ou menos), para atrair os leitores mais apressadinhos. Uma vez fisgados, eles poderiam seguir um link para o texto inteiro e entender melhor o assunto.

Alexandre: É uma boa idéia – que acho que perde um pouco a força pelo fato desse blog ser durante 90% do tempo um blog de news (um formato que adotei mais pela necessidade de mantê-lo atualizado diariamente) e os artigos serem eventuais. Vou parar para pensar em soluções práticas.
Nome: Pedro Bouça 17/01/10 04:28
Magnífico artigo, Alexandre. A melhor análise de Evangelion que eu já vi na vida!

Nunca tinha me tocado na lógica de Gendo = Otaku, o que sempre me fez considerar o comportamento dele na série totalmente inconsistente, mas agora tudo faz sentido.

E me fez lembrar por que é que o final da série, por mais frustrante que seja, ainda é melhor que os outros "finais" de Evangelion que pintaram desde então: Nele o Shinji toma uma atitude e amadurece!

Pena que ninguém entendeu (e, francamente, essa era a coisa mais óbvia daquele final!).

Alexandre: Pior que depois que eu entendi isso, o final deixou de ser frustrante e passou a fazer sentido. Na verdade, o End of Evangelion passou a me parecer desnecessário.

Mas admito que gostei da nova leva de longas — e nela o fator emo do Shinji vem sendo muito diluído, o que não deixa de ser bom, mas também meio que inutiliza o final velho. Como parece que o quarto longa não terá nada a ver com nada, vamos ver no que isso vai levar.
Nome: Alexandre Nagado 17/01/10 04:28
Uma coisa sobre Evangelion: não sei se é a idade ou a falta de identificação com os personagens, mas nunca consegui acompanhar a série. Tentei ver uns episódios. Achei a produção ótima, mas não senti empolgação.

Entretanto, o tema de abertura é um dos meus favoritos. Tem a pegada de uma autêntica animesong clássica.

E lembrei que a Univ. de Tóquio já teve seu seminário de cultura otaku. O professor, Toshi Okada, se decepcionou com os alunos. Não estavam interessados em analisar as histórias e seus significados, e sim em consumir. Queriam saber detalhes dos personagens (o mais forte, o mais destemido...) e não o que havia por trás. Ele começou a empreitada em 1995 e parou em 97. Desistiu, desanimado com a mente fraca e condicionada dos alunos da Todai. Deve ser esse sentimento que você imagina que o Hideaki Anno teve. Se eu estivesse no lugar deles, sentiria o mesmo.

Abraços!

Alexandre: É por aí mesmo – mas de qualquer forma Evangelion se tornou um grande negócio – e o próprio Anno assumiu isso. Acredito inclusive (embora eu esteja gostando do resultado) que os novos longas sejam apenas para capitalizar a nova empresa dele, a Khara. Por que afinal de contas, ele é co-proprietário da marca ao lado da Gainax, com a qual ele não tem mais relação. Por que não aproveitar o fato de que ele tem uma marca vencedora para fazer seu próprio estúdio decolar?

E pensando bem, o tratamento que ele está dispensando a Evangelion serve como um belo cartão de visitas para o que ele possa fazer no novo estúdio assim que os quatro longas forem concluídos.

Mas como obra, Eva morreu com aquele final da primeira série. Muita gente ficou revoltada, mas mais e mais me convenço de que o resto (death and rebirth, end of evangelion) é desnecessário. Eva não precisava reciclar Ideon.
Nome: Jussara Gonzo 17/01/10 04:52
Não sei... tenho minhas reservas quanto ao fato de que o autor tinha TUDO isso na cabeça quando criou Evangelion. Toda esta concepção e crítica social e tals. É que nem a história de um casal em que ambos são cornos. Na visão dos machistas a MULHER é que foi uma safada e o marido só deu o troco, na visão das feministas o HOMEM é que foi safado e a mulher é que deu o troco.

Às vezes enxergamos significado demais em algo. Tudo depende da interpretação, de quem olha e das experiências passadas do observador para encontrar algum sentido no emaranhado que pode significar uma ou muitas coisas. - NÃO que eu esteja dizendo que Evangelion não tenha sim, um discurso embutido em suas linhas. Ele tem, mas acho que não é bem assim... Mesmo porque pessoas vivendo em seu próprio mundo fechado não precisam ser necessariamente Nerds ou Otakus. Pode ser qualquer pessoa cujo ego foi ferido pelo "mundo real".

Alexandre: Mas você tem que levar em conta que em 1995, a Década perdida e o crescimento do peso da cultura otaku na indústria já estava em curso. Martian Successor Nadesico veio apenas um ano depois, e aquilo já é consequência da nova ordem, a cultura do fã hardcore saindo do armário (e Deus me perdoe, adoro aquele desenho...).

Mas o que você disse é totalmente válido. Essa raça "herbívora" de homens (e se duvidar ate de mulheres também) mostra apenas o mal atual da maioria das sociedades civilizadas: a apatia. Antes do 11 de Setembro um infeliz virou e disse "A História acabou" porque nada, digamos, mais 'interessante' acontecia. A Guerra Fria tinha acabado... os Estados Unidos não tinham mais alvo e assim acharam que tinham ganhado o jogo e... que chato! Que tédio! Ganhamos... o que a gente faz agora?

Pois bem, não dizem para tomar cuidado com o que desejas? Veio o Terrorismo e a Hecatombe Ambiental - de uma vez. Não que eles nao existissem antes, mas foi preciso derrubar as Duas Torres (lembrei de Senhor dos Anéis agora...) e vir os furacões e tsunamis e tudo para que as pessoas acordassem. O mundo real pegou os nerds e os apáticos pelos tornozelos, sacudiu e disse "Hello-o! Eu AINDA estou aqui!"

Alexandre: Pois é. O Fukuyama virou a piada da década. Ninguém que se preze o leva a sério hoje em dia. Mas a verdade é que o mundo não pode ser ignorado. E a bem da verdade, os mangás que construíram a indústria tinham uma relação muito profunda com o mundo ao redor.

Só que isso não curou a apatia da maioria, pois agora eles estao apáticos porque entraram numa guerra para perder. Não importa que MILHÕES de pessoas em todo o mundo tenham protestado contra a segunda guerra do Golfo... foi inútil! Não importa o quanto o Al Gore se esgoele (não que ele seja tão bom moço assim...) e pessoas façam campanhas ambientais... é tarde demais para salvar o planeta.

Alexandre: E eu acho que o sucesso de Avatar também tem seu fator zeitgeist embutido – como atestou o surgimento de uma "depressão pós-avatar"... simplesmente a certeza de que é tarde demais para se salvar o planeta cria a ansiedade pela busca de um outro planeta, porque este já estaria perdido. Mas é outra discussão. ;)

A apatia atual é porque o cidadão comum... respeitado... crente de que suas opiniões são sempre respeitadas... de que seu esforço sempre vale a pena... descobriu que é apenas uma das 7 bilhões de formiguinhas tropeçando na vida e cuja importância sempre foi superestimada pelos comerciais da TV.

Se antes do início do século XXI a apatia era porque as pessoas não tinham mais nada para fazer, como numa cena do Clube da Luta em que o protagonista explica para os membros:

"Nós somos os filhos do meio da história, sem propósito ou lugar. Não tivemos Grande Guerra, não tivemos Grande Depressão. Nossa grande guerra é a guerra espiritual, nossa grande depressão é a nossa vida. Fomos criados pela televisão para acreditar que um dia seríamos ricos, estrelas de cinema. Mas não seremos. E estamos aos poucos aprendendo isso. E estamos muito, muito putos."

Agora a apatia é porque não podemos fazer mais nada. Acho que isso, misturado com toda essa crise no Japão e no mundo, é que esta tornando todos "herbivoros"... e daqui a pouco as pessoas não vão nem mas ter saco de se dar ao trabalho de criar seus próprios mundos... vão fazer que nem o Mr. Despair do Sayonara Zetsubou Sensei.

Alexandre: Mas o ponto é que o Eva captou essa apatia, desde o começo (e tentando restabelecer o tópico). Tem um outro fator que deve ser levado em conta, é verdade – que Evangelion não estava pronto desde o começo, o roteiro vinha sendo escrito a medida em que os episódios eram produzidos – mas é impossível levando em conta o histórico da própria Gainax antes de Eva que certas linhas de associação não estivessem lá desde o começo. Talvez a influência da linha niilista de Ideon estivesse – o próprio Anno assumiu isso. Mas a guinada lá pelo meio da série com certeza me parece gerada pela reação do público, e a própria reação do Anno a essa reação.


(cacete! que post longo eu fiz...)

Alexandre: Mas posts longos é que são legais. ;)
Nome: Matheus 17/01/10 05:59
Teria sido então esse (um dos) motivos para o fracasso da primeira série de Gundam quando ela foi exibida na TV pela primeira vez?
Em um mercado onde o povo japonês tinha confiança em si mesmo e gritavam de braços abertos seu orgulho a nação veio Gundam e mostrou um protagonista desesperado e uma guerra sem sentido onde os dois lados são igualmente despreziveis (seria como colocar o povo japonês no mesmo patamar dos americanos num periodo pós-guerra onde a necessidade de se auto-afirmar era quase obrigatória), ou sou só eu que estou viajando na maionese :P

Alexandre: Eu acho que isso é possível. Mas temos que levar em conta que a série foi inicialmente dirigida a um público infantil e ele não estivesse com saco para esse tipo de discussão. Pode reparar que nos longas-resumo, os elementos infantis que restaram foram bem limados e a história ficou mais orgânica. O fato é que nas reprises Gundam foi se tornando cult e isso abriu a porta da marca para os cinemas, aonde encontrou seu verdadeiro público – que com certeza era mais velho. O fato de Gundam ter sido, ao lado de Patrulha Estelar (que se tornou um desses mega-fenômenos nacionais ao ser exibido, que todo mundo assistia), o gatilho que fez surgir a figura do otaku no final dos anos 70, só sinaliza que Gundam foi bem-recebido por adolescentes e adultos, não necessariamente as crianças que o assistiram. Provavelmente a série não emplacou de cara por ser adulta demais para o público que o atingiu. E Ideon, muito mais ainda.

E aproveitando a pergunta a Gainax previu alguma coisa quando o fez o seu segundo maior hit Gurren Lagann?
Algo como a volta aos personagens confiantes e o que poderia ser o retorno ao estilo mais classico de se contar historias após a derrocada dos mangás e animes "moe" e de personagens bananas?

Alexandre: Eu duvido. Anno não está mais lá e Gurren Lagan, que é muito legal, me parece em muitos aspectos um exercício de nostalgia – e a Gainax gosta desse tipo de coisa, apesar de ter jogado sua identidade no lixo com Mahoromatic e outras tralhas. Mas o sucesso do material sinaliza que o público pode estar de saco cheio da catatonia.

Me parece que são os proprios criadores de animes desse tipo os que mais se irritam com essa alienação do publico otaku, no mercado recente que é recheado de animes e mangás com essa tematica de fans de nicho eu vejo alguns casos de animes que mesmo pertecendo a essa mesma base de fans, os criticam e tentam apresentar coisas novas no meio (creio que similar ao que o superflat tenta fazer, criticar e contradizer o movimento mas sem tentar criar uma ruptura brusca do mesmo)...

Obs : Exemplos de animes e mangás que eu vejo desse tipo são aqueles do Akiyuki Shinbo, Mamoru Hosoda, Makoto Shinkai, Fullmetal Panic, Suzumiya Haruhi, Kara no Kyoukai e (por incrivel que pareça) adaptações de simuladores de encontro da Key.

Alexandre: Sinceramente, tudo isso me parece otaku demais. E olha que eu gostei muito da primeira série de Full Metal Panic. O Makoto Shinkai me parecem tecnicamente muito bom e eu adoro o trabalho do Akiyuki Shinbo mesmo quando tenho minhas reservas quanto ao material (Negima!?, por exemplo). Pomba, ele fez de um desenho idiota como Debutant Detective Corps algo genial! Mas eles fazem parte do seu contexto e é no contexto atual que reside o problema.

Espero que profissionais desse tipo mesmo após o fim da bolha moe ainda tenham trabalho e pelo menos sejam lembrados dentre as poucas coisas boas que existiram numa época negra dos animes e mangás (e ao que parece o fim esta proximo)...
Alias isso é opinião pessoal mesmo :P...

Alexandre: Eu também gostaria de acreditar que o fim está próximo, mas honestamente pouca coisa me faz crer do contrário...
Nome: Carlos Eduardo 17/01/10 06:02
Nossa Lancaster, esse foi o seu melhor texto até agora (na minha opinião).

Eu sinceramente tinha entendido a mensagem do final de Evangelion, mas na época que eu assisti eu era bem novo no mundo otaku, agora que você começou a falar em tsunderes, otakus hardcore (Gendo), herbívoros (Shinji) tudo começou a se encaixar melhor. É claro que a mensagem: "Levanta da poltrona! Vá fazer algo que preste da sua vida!" tá lá pra qualquer um que olhe, mas eu sinceramente não enxergava a Rei daquela forma, não via a Asuka como uma Tsundere (até pq eu nem ao menos conhecia esses termos xD).

A série Buffy tem uns episódios bem parecidos, quando a Buffy descobre que esteve o tempo todo internada em um hospício e essa história de monstros e demônios é pura alucinação do tempo que ela esteve internada. Ela "desperta" da loucura e vê que tudo não passou de alucinação, nisso ela tem que escolher se prefere continuar louca e salvar os "amigos" e o "mundo" que existia na imaginação dela, ou se ela quer ficar no mundo real. É claro que no fim é tudo uma armação de um demônio (e tinha como ser de outra forma?), mas dá pra sentir que essa é uma possibilidade que o autor tentou usar para acordar os fãs (que devem ter reagido muito negativamente) sem muito sucesso.

Artigo excelente, meus parabéns, dá vontade de sair espalhando esse texto por aí. O melhor desse texto foi poder enxergar Evangelion sob a ótica de quem conhece a cultura japonesa e os problemas que as pessoas estão passando por lá.

Alexandre: Obrigado. :) Mas duvido que os fãs de Buffy tenham reclamado – afinal a possibilidade foi desmentida muito a seguir. ;)
Nome: Marcelo Santarem 17/01/10 06:09
E eu que fiz cosplay do Gendoh, entre 1999 e 2001, mais por ouvir os outros dizendo que eu era o próprio — mesmo não cospleiado — que por ser fã da série, que esta matéria tratou de esclarecer — bem como minar minha vontade de revê-la pra tentar captar-lhe as nuances que, espectador ingênuo que sempre fui, nunca consegui ver (ao passo que um colega "recém-convertido" à época as desfilou de primeira; e, agora, vem você dizer que também ele estava equivocado, como toda a geração que acompanhou, fascinada, a trama, que parecia original e autoral, sem resvalar pro intelectualismo de determinadas correntes da FC ou que tanto impregna produtos ditos autorais e tanta raiva me dá ).
Apenas é difícil pensar que o Anno se propôs ao trabalho de criar e desenvolver a trama, suas "mitologias" e todo seu arcabouço dramático apenas pra esfregar na cara dos otakus de então seus fetiches e taras.
O longa seria uma versão intelectualizada dessa mensagem devastadora, então?

Alexandre: O longa eu diria que foi mais uma prestação de contas. O final causou um rebuliço monstruoso em toda a mídia, com direito a gente escrevendo para os jornais e os comentaristas culturais discutindo adoidado. A reação foi tão negativa (mais ou menos como aconteceu com o final de O Prisioneiro na Inglaterra dos anos 60) que fizeram o longa para dar um final mais "entendível". Mas como o final também foi uma declaração do autor de que ele estava de saco cheio, acho que ele não teve problema nenhum em decalcar sequências inteiras do segundo longa de Ideon e ainda por cima admitir, na cara de pau.
Nome: João 17/01/10 08:31
Vou imprimir pra ler, e também ler a matéria sobre Ideon, que serviu de inspiração para NGE. Depois comento.

Alexandre: Sinta-se a vontade. :)
Nome: Josemi 17/01/10 08:31
Acabei de ler agora. Também nunca havia entendido aquele final. Depois de ler o seu artigo meu desgosto com a série diminuiu um pouco. Tremendamente esclarecedor. Ótimo texto!

Alexandre: Obrigado – e sinceramente, o final também ganhou pontos comigo depois que eu entendi aonde Anno queria chegar. Mas entendo o pessoal que ficou revoltado na época – só podia dar polêmica.
Nome: Pedro Bouça 17/01/10 08:41
Realmente End of Evangelion é intragável. Meu único comentário quando assisti originalmente foi que eu preferia o final da série...

Alexandre: End of Evangelion foi uma decisão comercial feita em nome da imagem da franquia. E comercialmente se mostrou acertada, porque a franquia ainda rende até hoje, quinze anos depois.

Dos novos longas eu só vi o primeiro (passou na Animax daqui). Achei bem feito, mas ainda é só uma atualização dos primeiros (e melhores) episódios da série. Teria de ver o resto (particularmente o final, já que por razões óbvias muito de cada "encarnação" da franquia depende do final) para dar o meu parecer.

Alexandre: Então você vai ter que esperar mais dois anos... ;)
Nome: Bruno 17/01/10 09:50
Texto no mínimo interessante. Nunca poderia imaginar que essa série teria tal significado... estou até sem palavras. Basicamente estou comentando aqui só para elogiá-lo pelo magnífico trabalho que teve ao redigir um texto tão... perdão; no momento não consigo pensar num adjetivo apropriado.

Alexandre: Ora, obrigado. :)
Nome: Kaesar 17/01/10 09:50
Caro Lancaster, o que eu posso dizer?!

Esse texto simplesmente MATOU A PAU!

Alexandre: Obrigado, Léo.

Eu pontuo como a pá-de-cal na atual auto-estima Japonesa a eliminação nas olimpiadas de 2016. Afinal os Japoneses possuíam a melhor estrutura, de longe, para abrigar os jogos, sendo que eles estavam ansiosos para abrigar o evento na esperança de reverter os efeitos da crise.

Alexandre: Sim, mas a escolha do Brasil foi política e todo mundo sabe disso. Por mais que muita gente chie contra o Lula, foi o Brasil que saiu da crise primeiro e está se destacando nesse cenário; não vou me deter muito no assunto porque o blog não é sobre isso, mas há interesse em que o Brasil faça obras de infra-estrutura até para garantir que certos negócios decolem, e a olimpíada é uma grande oportunidade para captar dinheiro nesse sentido. Então isso acabou pesando a favor daqui. Não era a toa que os japoneses queriam a olimpíada também.

Obs: Não se vc assitiu, mas procure pelo documentário The Great Happiness Space (tem legendas em português), ele fala sobre a realidade dos Clubes de Hosts no japão, é algo que chega a ser assustador pois eles sao procurados não pelo sexo em um primeiro momento, e sim pela companhia agradável e animada.

Alexandre: Não conheço o documentário, mas faz sentido. Mais: muitas das "acompanhantes" adolescentes por consumismo não fazem serviço sexual – ficam fazendo companhia e apenas conversando com homens mais velhos, solitários (inclusive dentro de casa, porque o seu casamento não passa de uma conveniência social).

O Japão precisa urgentemente rever sua sociedade, não há dúvida – e isso é tão importante quanto a sua recuperação econômica. Sério.
Nome: Sérgio Bruno Leite 17/01/10 10:34
Dentre todas as referências colocadas no texto, ótimo texto por sinal, o que pode ser visto é que além da relação com o superflat e o consumo de cultura de massa na pós - modernidade fica bem evidenciado que o grande trunfo de Anno foi justamente a utilização de vários meios para atacar em várias frentes, pegando por um apelo extremamente pós-moderno, a multiplicidade de interpretações, pega por uma história que tem identificação com os Japoneses pelos vários motivos citados e agrega inúmeros significados e várias interpretações mais intrincadas. Fazendo assim de uma única obra, uma obra diferente para cada interlocutor sem deixar de ser assim um elemento que agrega as pessoas por sua presença, sendo possível ver o Evangelion desde inúmeros doujishins hentais, à cosplays descompromissados com a série e mesmo rodas de discussões altamente referêncializadas sobre o assunto. Muitas vezes na discussões o Eva é mostrado como obra prima, como exemplo de saber-fazer, o trunfo de Anno é saber-fazer ser pós-moderno.

Gosto muito de seu blog, leio assiduamente. Fico no aguardo de novas atualizações com ótimos textos, gosto também das news, não as abandone :O.

Alexandre: Obrigado, Sérgio. Realmente cada interlocutor tende a interpretar da sua própria forma, independentemente das intenções do autor. Eu acredito que Eva seja fruto de um contexto – e a bem da verdade a "Década Perdida" deixou feridas que até hoje não cicatrizaram. Não dá mais para pensar o que foi feito dos animes e mangás do Japão sem levá-la em conta.

E eu não vou abandonar as News, pode deixar – até porque elas são uma necessidade. Matérias levam tempo para ser feitas e o blog precisa estar vivo enquanto isso não acontece. :)
Nome: Hadrian Marius 17/01/10 10:58
Evangelion nunca foi sobre religião... para mim sempre foi um desenho pretensioso de robôs gigantes que tinha cenas de lutas bem feitas, o primeiro personagem principal que me deu vontade de espancar, e que criou mais tipo-clichê para o mundo otaku/anime (Rei Ayanami) apesar de ser fã de uma de suas clones - Ruri Hoshino. E sim, eu curti o episódio final...

Alexandre: Eu sempre tive a impressão que Ruri foi a pioneira em transformar Rei Ayanami em alto-conceito... XD

"A apatia atual (...) o cidadão comum (...) descobriu que é apenas uma das 7 bilhões de formiguinhas tropeçando na vida."

Ora, essa é a Melancolia de Suzumiya Haruhi!!

Alexandre: E se pensarmos bem o sucesso monstruoso dela entre o fandom também é um indicativo de tudo o que foi falado ali em cima. ;)
Nome: Pedro Henrique 18/01/10 01:00
Só posso dizer que seus textos são inspiradores. Realmente muito interessante sua análise. Principalmente porque percebi, enquanto lia o texto, que eu sou uma pessoa que alterna entre o "estou fazendo algo útil" pro "estou dando de ombros pro mundo".

Alexandre: Valeu, P.H. – mas essa descrição que você deu é mais ampla e cabe em mais gente do que você pensa...

Bem, pelo menos a explicação do episódio final já está feita. Agora espero um texto nos mesmos moldes sobre o Lenda dos Heróis Galáticos (minha atual série favorita, descoberta nesse blog).

Alexandre: Esse valeria a pena mesmo. Talvez eu tire algum ponto do ano para terminar de vê-la e escrever isso. Sim, terminar de vê-la é uma dessas coisas que quero fazer há anos e não consigo. :)

Valeu.

Alexandre: Valeu digo eu.:)
Nome: Matheus 18/01/10 05:29
Por falar em Suzumiya Haruhi, este é outro que mais recentemente fez um estranho protesto contra a alienação otaku (que por sua vez são os proprios fãs do anime em sua maioria) nos novos episodios exibidos em 2009 com o infame arco do Endless Eight.

Alexandre: Olha que eu acho que o sucesso de Haruhi Suzumiya foi fruto justamente desse contexto que eu coloquei acima – a suprema garota onipotente. Acredito que seu público a recebeu de forma tão intensa por lá porque no fundo pode ter a fantasia de ser conduzido, comandado, guiado por ela para sair da apatia. Claro, ela é bonitinha e isso também tem conotação sexual.
Fantasias assim são o terreno perfeito para uma ascensão do fascismo se pensarmos bem.


E Lenda dos Herois Galaticos é fenomenal, um Yamato extremamente mais realista e cinematografico. Esperarei ansioso por uma materia desse tipo ^^.

Alexandre: Bom, pelo visto vou ter que terminar de ver... ;)
Nome: Gabriel 18/01/10 05:36
Li o texto e só tenho uma pergunta, será que os consumidores do mercado de mangás estão ficando tão a ponto de não perceberem o que estão comprando, ou até mesmo nem se importam com suas imagens? Francamente esses produtos são tão sem nexo e sem profundidade, com qual o objetivo é só excitar o consumidor, não é como títulos da Jump que pra mim tem sim mensagens e profundidade, tirando séries como To Love Ru e os outros echii de lá, mas até alguns deles tinham uma boa história como Anedoki. E bem que eu estava achando que Evangelion ter realação a esse assunto, ma ssem querer, mas que era bastante otaku era,apesar que não era antes do final, tanto que só me interessei no dois ultimos episódios.

Alexandre: Alto lá: A Jump é uma revista de massa. Então ela também reflete o grande público, mas ele se guia a um leitor na faixa entre os 11 e 14 anos – são o seu grande alvo. Então é natural que surjam todas essas mensagens positivas sobre amizade, perseverança e vitória (pré-adolescentes PRECISAM disso). Os ecchis estão lá porque é nessa idade que um homem começa a se interessar em mulher e eles são uma coisa até meio discreta para inflamar um pouquinho a imaginação de um garoto, que dá para ser lida em público. Para você ter uma idéia, até os anos 80 a Bloch publicava aquelas revistas de terror como "Drácula", "Lobisomem" e similares. E todas aquelas histórias curtas tinham volta e meia uma ceninha de nudez gratuita. O motivo é porque o editor considerava que o leitor estava nessa idade e precisava de algo para levar ao banheiro (sim, pelos motivos que você está pensando) e não desse tanto na cara, na frente da mãe. Sério, essa história me foi passada por um dos artistas que trabalhou por lá!

Os produtos otaku entram em outra categoria – e seus leitores não são garotos de 11 a 14 anos, sejamos sinceros.


Gosto muito do seu blog por causa dessas discussões e as explicações sobre esse mercado, mas tenho uma outra pergunta, o certo seria os consumidores de mangá deixarem um pouco de lado essa idéia de otaku e passarem a agirem como o público que as revistas como a Shonen Jump e Shonen Magazine esperam, ai sim o mercado voltaria a se estabilizar? Mas também precisaria de um enfoque nas novas séries certo?

Alexandre: Olha, esse é um assunto mais complicado. Para começo de conversa, o problema não é como os consumidores devem agir – é como a indústria deve agir. Ela só identifica uma demanda e a atende, e os otaku compram. Capitalismo é isso. Mas as editoras menores já surgem tentando atingir os otaku porque eles são um porto seguro. Temos que dar palmas a Shonen Gangan porque ela foi uma revista que surgiu dentro da Década Perdida e que mirou em um público mais popular, mas a própria Square Enix é um vivandeiro de revistas otaku como a Gangan Joker e a GFantasy (convenhamos, fujoshi é a fêmea do otaku, mas a espécie não se reproduz XD).

Mas acho que o problema está mais na indústria de animação do que na dos quadrinhos em si – e isso afeta os quadrinhos porque sempre existiu esse espírito de braços dados entre a animação e os quadrinhos. Os editores de quadrinhos tem feito a parte deles, divulgando a mídia, fazendo promoções, tentando atrair de várias formas o leitor. Mas sempre surgiram produtos de massa na animação nos anos oitenta e eles sempre ajudaram a impulsionar os quadrinhos sem que houvesse perda qualitativa – o desenho animado de ranma 1/2 estreou em pouquíssimo tempo após o lançamento da série, foi tudo coordenado, e não houve perda por isso. Hoje, se fazem produtos que terão audiência zero mas gerarão os tubos em produtos, por conta do mercado otaku. Não se preocuparão em criar um roteiro que faça diferença – o importante é enfiar meninas de saias curtas, agindo como crianças mas com corpo de pin-up e mostrando a calcinha o tempo todo, com acessórios a gosto. Ou apenas agindo como criança para agradar homens adultos que gostam disso.

Não a toa, ela está encolhendo.

E acho que talvez o ideal seria que ela se voltasse em um esforço conjunto à massa. Talvez pudesse haver uma aliança da indústria de quadrinhos e animação nesse sentido, porque há muito produto de massa entre as editoras que poderia servir para esse fim – e que nem consideram animar. Porque o grande problema aqui é que o otaku representa economicamente um porto seguro. Reduzido, mas seguro.
Nome: Jussara Gonzo 18/01/10 10:04
Esta matéria está dando o que falar, heim?

Uma coisa que esqueci de comentar: no caso de um personagem como o Mashiro de Bakuman ele também era um personagem sem atitude nenhuma e só acordou impulsionado pela idéia de casar com a garota que gostava. Alias e COMO acordou! Quase morreu fazendo mangá.

Talvez a mensagem dos autores seja: "ACORDEM, herbívoros desgraçados!" - mas o problema é que o personagem só acordou para o lado profissional da vida (que, na atual época de crise, é o mais urgente) e para outros continua uma mosca morta...

Deste modo cria-se um novo tipo de personagem antipático (pelo menos para os leitores não-otakus): se antes era pela falta de ação agora é por muita de ação... (e a insistencia de não-ação para outras áreas também importantes da vida).

Receio que os autores de mangá atuais não estejam conseguindo trabalhar tão bem com o público nem criar personagens que realmente se identifiquem com um leitor que seja diferente do Otaku médio. Em outras palavras, estão seguindo o mesmo caminho dos comics americanos...

Alexandre: Aí temos o fator do lapso cultural falando. O Japonês tem um discurso do valor do trabalho. Mas por mais que eu goste de Bakuman – e eu gosto muuuuuuito dessa série – temos que lembrar que quem impôs esse "cinto mútuo de castidade" foi a Azuki. Mas repare que há personagens lá dentro que condenam isso. O Shuji tem uma vida normal, tem uma namorada, eles são um casal bacana e eles são os primeiros que gostariam de ver essa palhaçada acabar de vez. Na verdade, acho que falta ao Mashiro justamente isso: uma garota que o tente a um relacionamento normal – e a essa altura, não a Katou.

Pode parecer estranho eu discutir relacionamentos de personagem, mas o ponto é que não é isso realmente que está em jogo na história: é um discurso. Até porque os próprios autores já sentiram que a história está se desbalanceando: Mashiro deveria ser o principal, mas Shujin rouba a cena e praticamente protagoniza sequências inteiras da história. Porque ele tem mobilidade. Porque ele tem uma vida fora dos quadrinhos. E realmente dentro do ritmo de produção de uma história semanal é difícil ter uma vida fora do meio. No final, Mashiro representa uma tentativa de reforço e retomada de um discurso conservador e é essa a raiz do problema: a apatia veio porque o discurso conservador não trouxe soluções para a vida das pessoas comuns. Shujin, talvez sem querer, acabou se tornado a voz de um discurso do equilíbrio. Que precisa ser vocalizado de forma concreta por outros autores.

Por mais que a fase romântica de Bakuman tenha sido um desastre, a primeira vez que vi o Ohba pesar a mão no roteiro (mesmo quando Death Note deu no saco para mim, você sentia uma mão tecnicamente irretocável sob o comando de tudo), eu acho que Mashiro e Azuki precisam ir pra rua e namorar nem que fosse por dois quadrinhos, até pelo significado disso. Trabalhem e tenham objetivos na vida, mas também tenham uma vida, gente. XD
Nome: Cindy Dalfovo 18/01/10 12:17
Nossa... isso que é uma análise! Essa é a melhor análise de um anime e de uma cultura que eu já li... sério, é simplesmente... incrível, espetacular, e certamente define um novo padrão do que eu considero uma boa análise...

Sabe, me deu até vontade de ver Evangelion de novo, pq esse tipo de coisa nem passou pela minha cabeça quando vi o anime... dá até vontade de ver vários desses animes icônicos e ficar tentando observar o que eles mostram sobre a cultura de seu meio, depois dessa verdadeira desconstrução de um anime... não, de uma cultura, de uma década de jovens apáticos...

Já mencionei que o texto ficou sensacional?

Alexandre: O que posso dizer depois de tanta ênfase? Obrigado. ;)
Nome: Daniel 18/01/10 02:04
Olha, eu assisti Evangelion a uns 10 anos atrás, quando passava na (extinta?) Locomotion e acho difícil na época eu, um pivete de uns 13 anos que queria ter 14 pra poder pilotar um Eva, compreender tudo isso, mas o fato é que nem depois de 10 anos eu tinha parado para pensar em Evangelion dessa forma. Brilhante análise, ótimo texto. Parabéns!

Alexandre: Obrigado. :)
Nome: Tiago 18/01/10 03:46
Nunca li algo tão bem escrito analisando algo que gosto (que não é evangelion).
Parabéns pelo texto e pelo seu trabalho aqui. Superior.

Alexandre: Obrigado pelo elogio, mas agora fiquei curioso: o que é que você gosta mencionado aqui? :)
Nome: Gustavo 18/01/10 04:19
O que mais posso acrescentar que não tenha sido dito? Um texto fantástico, finalmente, depois de 15 anos, explicaram Evangelion.

Eu acho que o problema da sociedade japonesa atual é na verdade uma manifestação da crise na sociedade de consumo.

Confesso que já tive meu problema de "Shinjite", mas consegui me recuperar. Contudo, minha visão de mundo ainda está bem anti-social. Tenho solidariedade pelos nossos colegas otakus japoneses.

Alexandre: O problema é que eles se tornaram parte do problema, sejamos honestos. E quando isso acontece as soluções nunca são fáceis.
Nome: Yukino 18/01/10 06:27
Lancaster, você me diverte (epa!) com esses textos.
Continue assim. Parabéns.

Yukino

Alexandre: Opa, obrigado, Yukino. "Diverte" é uma surpresa porque geralmente não é o tipo de comentário que se faz sobre um texto desse tamanho... :D
Nome: Marcio 18/01/10 06:50
Tudo o que posso acrescentar é... Excelente matéria!

Alexandre: Valeu, Márcio. Abração!
Nome: Pato_Supersonico 18/01/10 07:21
Meus parabéns, claro colega. Sinto uma forte sensação de que valeu a pena ter existido neste mundo apenas por ter lido um artigo tão brilhante. Divulgarei este artigo pela internet com todo o entusiasmo. Pode me chamar de maluco (até porque não é segredo para ninguém que moezeiros não batem bem da bola), mas considero o final original de EVA a coisa mais tocante que já vi na vida.

Acho que é porque na época eu tinha um espírito que lembrava mesmo o dos otakus japoneses, eu era uma pessoa muito depressiva, apática e desiludida com a vida, que lia mangás e assistia a seriados de ficção americanos (Stargate SG-1 era o meu favorito) porque eram a única coisa que me davam alguma vontade de viver. Só não me enforcava de vez porque não queria morrer sem saber como Love Hina iria terminar, como o SG-1 iria sair das enrascadas em que se metia, que anime o Gonzo iria labçar depois de Last Exile, e coisas afins.

Mas, quando eu vi aquele final, senti como se aquilo tivesse sido feito para mim (e pelo que vi em seu artigo, vejo que foi realmente algo feito para mim, em um certo sentido). Quando eu vi o Shinji sentado naquela cadeira exteriorizando suas angústias, senti como se aquele ali no monitor do meu PC fosse eu falando coisas que antes eu não conseguia expressar nem para mim mesmo. Já o capítulo final me hipnotizou, pois como eu disse, era como se os personagens de Evangelion estivessem falando comigo como se me conhecessem pessoalmente.

Me mostraram como eu não estava sozinho em meu sofrimento (depressão quase sempre vem acompanhada de sensações de solidão e de desamparo), que havia muita gente nesse mundo que sofria até mais que eu, que tinham os mesmos temores que eu, e ainda assim sorriam, levavam a vida para frente e construíam seus futuros. Pessoas que temiam e sofriam, mas sonhavam e lutavam. Também me esclareceram bem sobre a minha auto-imagem, além de outras coisas, mas não vou entrar em detalhes aqui, já que você assistiu o episódio e certamente já conhece as mensagens transmitidas nesse episódio.

Só vou dizer que aquela sensação de liberdade que aquela cena final (a das palmas) foi a sensação mais poderosa que senti na vida. Não apagou essa sensação de desamparo e impotência, que ainda me acompanham, mas pelo menos despertou novas e positivas sensações, especialmente a vontade de viver, a certeza de que experimentarei muitas alegrias se continuar vivendo, e a consciência de que os sofrimentos que também enfrentarei serão apenas obstáculos passageiros dos quais me orgulharei de ter ultrapassado.

Claro, ninguém consegue mudar assim, em um estalo. Continuo o otaku-moezeiro desprezível de antes, que leva uma vida no respectivo estilo, mas aprendi que não faz bem para mim tentar me justificar, ou pior, ficar enfeitando. Sei que tem algo errado comigo e não tenho medo de descobrir o que é, inclusive certas verdades inconvenientes, mas aí já é outra loooooooooooooooooonga história.

Alexandre: o_Ô;

Sério, essa declaração me assustou. Mas você percebeu.


Sobre a questão da atualmente mentalidade do cidadão-comum japonês, eu sinceramente não vejo no horizonte nada muito animador. Se você está lembrado sobre meus comentários lá naquele post sobre o crescimento das antologias mensais, saiba que eu não mudei de opinião desde então. Economia e cultura possuem uma inter-relação muito forte entre si, em um grande sistema aonde a atitude das pessoas acaba atuando como elemento de ligação entre essas duas grandes forças que determinam os rumos que os povos tomam em sua jornada de existência neste mundo.

Embora eu concorde que, do ponto de vista sociológico, alguns dos princípios da cultura japonesas estejam obsoletos (ainda é possível observar práticas feudais no cotidiano japonês), sinceramente para mim essa questão não está diretamente relacionada com a atual crise econômica, pois você, caro Lancaster, e quem acompanha este blog, sabem o quanto as empresas japonesas estão, em se tratando de exploração de mercado, muito mais avançadas com relação as suas equivalentes de outros países, e a maior prova disso é ver você sempre apontado para os exemplos que eles nos dão. O verdadeiro problema é que o Japão está, basicamente, na mesma situação que o Brasil de antes do Plano Real e da modernização da economia brasileira dentro dos princípios neoliberais.

Alexandre: E se pensarmos bem lembra como foi chamada a década de oitenta aqui no Brasil?

E é bom dizer que o governo Sarney esmagou toda a euforia do Brasileiro, em um processo que teve sua pá-de-cal com o Plano Collor. O Brasil chegou a um fundo do poço e se pensarmos bem, tudo foi um longo processo para sair dele. Mas quem nos arremessou ao fundo do poço foi o Sarney. O Collor foi só o cara que estendeu a mão, e quando chegou lá, deu um chute no queixo do Brasil que estava escalando as pedras e gritou "Te peguei, seus bostas!", jogando o país lá no chão de novo.

O Japão não teve um Sarney (por sorte dele), mas não tem culpados para apontar – e em termos de auto-estima isso é ainda pior.


Com a crise do atual modelo de Estado-de-bem-estar-social e do sistema desenvolvimentista, o Estado japonês já não está cumprindo seu papel de motor do desenvolvimento, e pior, tornou-se um estorvo para a indústria japonesa com sua pesada carga tributária. O peso do custo do Estado aumenta o preço final dos produtos, prejudicando as exportações de produtos de alto valor agregado, especialmente eletrônicos, que são a base da sobrevivência do Japão ao contrabalancear a importação dos alimentos e matérias-primas necessários para a própria subsistência do povo japonês. Essa carga também cai sobre a população, minando seu poder de compra e impedindo que o mercado interno absorva os desempregados gerados pela perda de mercados externos.

Isso gera um ambiente econômico pouco dinâmico, que se reflete na atitude dos japoneses. Esse ambiente sombrio em que atualmente vivem influencia seus hábitos de consumo - inclusive culturais - e as empresas não podem fazer nada mais que se ajustar a este cenário.

Assim, caros leitores deste blog, sinto-lhes dizer que não há muito o que as editoras japonesas possam fazer com relação ao atual estado do mercado cultural japonês, que é influenciado por fatores que estão além do poder destas empresas. Elas até estão fazendo o que podem, mas não há muito o que possam fazer, além de tentar arrancar um dinheiro extra dos únicos consumidores desmiolados o bastante para continuar gastando irresponsavelemnte nestes tempos que exigem cautela.

Alexandre: Ou seja, a indústria de anime e mangá só saem da lama quando o Japão sair dela também. E como foi dito logo acima nos comentários, a perda da Olimpíada para o Brasil foi um murro na sua auto-estima que só ajudou a tornar as coisas piores.
Nome: João 18/01/10 09:49
Excelentes textos sobre EVA e IDEON, Lancaster. Sobre NGE, que para o bem e para mal se tornou um marco da indústria de animação japonesa, muito interessante a observação sobre a meta-linguística da série. Já sabia que aquele papo de Anjos, Adão, Lilith, etc. que muito fã interpretava literalmente, eram apenas simbolismos da história, mas o lance de que Evangelion realmente "brinca" com a cultura otaku foi uma grande sacada.

Outra coisa bacana do texto foi toda a analogia entre NGE e o atual estado do mercado japonês.

Também achei muito interessante o texto sobre Space Runaway Ideon, o "pai espiritual" de NGE. Realmente existem muitas semelhanças entre as séries, e com certeza não foi acidental.

Alexandre: Eu acho que as pedras do caminho foram sendo reveladas ao longo dos anos, até pelas próprias observações públicas do Hideaki Anno e pelo histórico da Gainax. Quanto a Ideon, o próprio Anno admitiu a influência em entrevistas posteriormente – até porque ela era grande demais para passar batido.
Nome: Cadu Simões 18/01/10 10:17
Oi Alex, leio seu blog já algum tempo, mas nunca comentei antes. Mas esse artigo me forçou a fazer isso pela primeira vez, e como todos aqui, só posso te elogiar por essa excelente analise que conseguiu costurar cultura e economia, indo do particular (um único mangá/anime) para explicar o macro (todo o mercado de quadrinhos japoneses), e vice-versa.

Aliás, por acaso vc é historiador? Pergunto isso pois esse tipo de analise é muito comum na metodologia da Nova História, em especial da micro-história, no qual um dos meus historiadores favoritos é especialista, Carlo Guinsburg (quando crescer, quero ser um historiador tão bom quanto ele =)).

Por fim, espero algum dia ver artigos analisando os quadrinhos brasileiros com a mesma qualidade analítica e crítica que você possui pra analisar os quadrinhos japoneses.

Novamente, parabéns.

Alexandre: Muito obrigado, Cadu. Eu não sou historiador – acabei de me formar em Jornalismo na UGF, só falta colar grau. :)
Nome: Philippe Marlowe 19/01/10 12:41
Excelente matéria, Lancaster, realmente dessa vez você se superou. Me lembro quando a gente já tinha discutido sobre o final de Evangelion e você pela primeira vez me apresentou sua teoria... Acho que essa mensagem do Anno se torna ainda mais relevante hoje do que na época em que Evangelion foi criado(sinceramente, podíamos até ter séries feitas com o único intuito de vender brinquedos, mas longe de fanatismo... também na mesma época as séries Gundam estavam mais populares como modelos plásticos do que o que era visto na TV, vide Victory ou G Gundam).

Bem, tudo que eu tenho a acrescentar é que o Anno ainda usou de algumas referências não tão óbvias. EVA tem alusões claras não só a Ideon, mas a Majuu Sensen, um mangá obscuro dos anos 70 da autoria do Ken Ishikawa e produzido aos moldes de Devilman. Bem, ao menos no que diz respeito a premissa básica da história, isto é, antes dos fãs transformarem aquilo em algo maior do que foi feito pra ser...

Enfim, é curioso perceber que desde EVA, o Anno nunca mais se envonveu em nenhum projeto realmente ambicioso, só alguns trabalhos mais despretensiosos.

Alexandre: Verdade. Karekano foi o primeiro trabalho direto de adaptação que ele fez, mas olhando bem ele começou querendo interpretar dentro de seus moldes, e a autora reclamou. Então a adaptação passou a ser a seco. Mas os primeiros capítulos, mais livres, ainda são os melhores.

Ainda acredito que o verdadeiro motivo dos novos longas é capitalizar o novo estúdio dele. Mas não duvido que Evangelion tenha deixado um gosto ruim em sua boca. Não que ele reclame – cada badulaque com as imagens de asuka e rei rende uns caraminguás em sua conta, afinal.
Nome: Carlos Eduardo 19/01/10 07:24
Já disse que uma das melhores partes desse blog são os comentários não?

Agora falando sobre um comentário da Jussara, o mundo não acabou e nem vai acabar. O que pode acontecer é do mundo se tornar inabitável para seres humanos, mas ele não vai acabar e nem vai mudar grandes coisas. A questão do homem hoje em dia é conseguir se encaixar nele. O que mudou, mudou, não vai voltar a ser o que era, o que se pode fazer é tentar buscar novos equilíbrios (e o mundo nunca foi um equilíbrio perfeito, mas o que há hoje é um caos), o que até pode ser feito. É necessária a redução da população, não é sair matando as pessoas, mas controle de natalidade rígido. Se as pessoas querem que a humanidade continue existindo a população vai ter que ser reduzida para uns 600 milhões em 100 anos. Segundo o que eu já li e discussões de faculdade 600 milhões é o número máximo de seres humanos que podem coexistir em harmônia com a Terra. Tudo pode ser remediado (remendado seria a palavra ideal), só é preciso investimento.

Alexandre: O que traz problemas. Por exemplo, se falarmos de controle de natalidade em massa, vai vir um dos abutres de Dom Bento Ratzinger querendo se meter entre os assuntos de estado, tentanto empurrar educação religiosa e criar uma geração de zumbis impotentes que achem que a Terra é um vale de lágrimas. Ora, se ela for, ela pode ser destruída a vontade. Quando veio a pílula anti-concepcional, Odair José compôs "pare de tomar a pílula" e se orgulha de ter influenciado várias mulheres simples a não tomá-la. Quando uma menina é estuprada e tem que abortar, mesmo que venha um natimorto, vem uma criatura de batina e joga a população e a lei conta ele – e se vale do apoio dos coronelzões, basta lembrar da censura feita ao Je Vous Salue Marie, de Godard (que é um filme de segunda, bom dizer), que foi encabeçada não por nenhum ministro, mas pelo próprio José Sarney nos anos 80. É preciso não apenas investimento, mas um ataque concreto contra aqueles que usam de sua influência para prejudicar as leis nesse sentido – especialmente em países mais pobres e fora do nosso radar, onde o peso desse tipo de mensagem pode ser pior.

Sobre Bakuman, bom, a meu ver a série trata basicamente sobre esperança e motivação. Eu comecei a acompanhar quando ela já tinha uns 20 capítulos, o que a série me fazia sentir era vontade de realizar meus sonhos.
Quando se começa a ler Bakuman é bem isso que se sente, aquela euforia deles de que vão conquistar o mundo, de que se esforçando eles podem fazer qualquer coisa, é uma mensagem de esperança.

Alexandre: Eu sei como é isso. Também senti essa empolgação quando a série começou.

Quando a série começa a se desenvolver eles começam a mudar, a realidade fica cada vez mais opressiva (e é interessante como eles têm usado caretas ultimamente), os garotos que queriam mudar a Jump se vendem e passam a fazer qualquer coisa pelo sucesso, eles se rebaixaram até a fazer gag mangá.

Alexandre: Eu acho que as caretas foram o diferencial do Obata em relação aos seus trabalhos nesta história. É um cenário bem realista, precisava de um contraponto para as coisas visualmente não ficarem muito mornas.

Agora que as esperanças de lançar o Tanto foi por água abaixo eu acredito que vai começar uma nova fase. Se eles vão publicar na Jump eu não sei, se eles vão se tornar autores para outras revistas, se eles vão desistir de se tornarem mangakás juntos, se vão trabalhar em outra coisa etc. só o tempo dirá, só sei que agora eles estão maduros e vão ter que decidir o que vão fazer da vida.

Alexandre: Bom, um está prestes a se casar. Mas não acho que a dupla vá se desfazer. Ainda é uma história juvenil e acredito que seu final será "para cima".

Sobre o Shujin e o Mashiro eu acredito que seja proposital, a pessoa que desenha mangá vai passar o resto da vida sentado desenhando enquanto a pessoa que escreve tem tempo para ter uma vida pessoal. A carga de desenho é imensa, são poucos os mangakás que conseguem entregar um capítulo semanal toda semana, eu estava lendo o Love Hina Infinity (eu tenho ojeriza à série, mas dei o artbook de presente para uma amiga - óbvio que ela é lésbica e curte a série pelo fanservice - e aproveitei para ler) e vi que a série era desenhada por 4 pessoas sempre em um esquema de desenhar sem interrupções por 8 semanas para poder publicar por 7, invariavelmente eles não teriam como entregar um capítulo a cada 8 semanas pq um capítulo tomava 8 dias para ser feito, e ele era feito a 4 mãos por pessoas que dormiam 7h por dia e tinham uma hora livre no dia para fazer o que quisessem, o resto era hora de comer, de ir ao banheiro, mais pressão impossível.
Eu posso não respeitar Love Hina por ser a coisa mais idiota que eu já li, mas respeito os profissionais que se dedicaram à criação desse material.

Alexandre: Eu guardo essa edição porque vale a pena para quem vai desenhar mangás, na boa. Mas realmente a produção de mangá semanal exige muito de quem está nela. Isso explica também porque muita gente nova e talentosa no ramo está começando carreira nos mangás mensais.

Notando isso é muito triste a realidade de quem desenha mangás, a pessoa vai passar o resto da vida dela sozinha em uma mesa desenhando, as outras vão estar vivendo suas vidas, mas elas mesmas vão ver tudo passar, aquele que é o protagonista fica relegado ao cantinho, pq o melhor amigo dele que escreve tem uma vida, mas a carreira que ele escolheu não o deixa viver, ele não tem tempo para viver, ele precisa passar cada minuto do dia sentado.
Acho que o pior deve ser o que está acontecendo agora, ele tem tempo livre mas ele já passou tanto tempo daquela forma isolado desenhando que ele já está atrofiado socialmente, as únicas pessoas com quem ele consegue se entender são os outros mangakás. Outras pessoas nunca passaram por aquilo que ele passou.

Alexandre: Detalhe: a namorada dele também não tem tempo – é sabido que idols japonesas são pra lá de ocupadas em sua carreira. Mas na vida real, ela já estaria zanzando com outros garotões do meio e o nosso herói, após o acesso de raiva pós-chute... voltaria a desenhar. O que mais ele pode fazer?

Ah, sobre as especulações de quem seria qual personagem... O mangaká preguiçoso que faz Otters é o Hideaki Sorachi de Gintama. Metade do que tá em Bakuman bate com os comentários do Sorachi nas páginas extras em Gintama. Nunca vi ninguém reclamar tanto do editor, aliás, eu sou fã do Sorachi, acho ele um exemplo, ele reclama da Jump mas todas as reclamações dele são válidas.

Alexandre: Eu ainda acredito que ele seja calcado no Yasuaki Mita (Makuhari), que tem todo um histórico bizarro na Jump.

Queria descobrir quem é o Eiji, tenho a impressão de que ele é o Oda mas vai saber, ele pode ser o Masashi Kishimoto também.

Alexandre: Não sei dizer, realmente.

O cara que faz o Kishi me lembra demais o Hiro Mashima, é ele sem tirar nem por. Quem mais da Jump que tem esse perfil? Será o autor de Toriko? xD

Alexandre: Olha, acredito que ele seja mais calcado no pessoal que fez carreira ao lado de Obata e Ohba durante o período em que eles cavavam seu espaço na Jump, mais do que nos autores de agora.
Nome: R. Moss 19/01/10 12:47
Putz. @_@ Sensacional. Arrasou agora hein.

Como nunca dei bola para Eva (e odiei, pra falar a verdade) me resgardo de debater pontos chave nesse texto.

E depois dessa fico até com vergonha de relembrar textos que li que tentavam explicar Eva em pouco mais de 20 linhas...

Alexandre: Bom, Evangelion é um desses materiais que você pode adorar ou odiar, mas você tem que ver. Independentemente do que se pense ou não, ele ainda é o anime mais significativo dos últimos 20 anos.
Nome: R. Moss 19/01/10 03:36
Assisti, não entendi e não gostei.

Mas sei bem da importância que teve e o que representa.

Só não vejo motivo para terem endeusado tanto o Anno, que só por ele ter dirigido Kare Kano, o pessoal começou a chamar aquilo de grande anime também. -_-

Sobre ser o mais significativo dos últimos 20 anos, concordo se você se refere somente ao Japão.

Alexandre: Pior que você não deixa de ter razão: no ocidente Dragon Ball Z foi mais importante do que Evangelion em termos do impacto e do espaço que abriu para os animes.
Nome: Pato_Supersonico 19/01/10 06:27
"Só não vejo motivo para terem endeusado tanto o Anno, que só por ele ter dirigido Kare Kano, o pessoal começou a chamar aquilo de grande anime também. -_-"

Você mesmo deu a resposta, caro colega. O endeusam pela importância que sua obra teve e pelo que ela representa. =)
Nome: Qwerty 19/01/10 07:22
Comecei a ler [e dei uma olhada por cima no resto] e sempre senti que é por aí - a revolução trazida por Evangelion é mais na forma, nos estereótipos de Rei e Asuka que -elas próprias- são marteladas até hoje no Ocidente [e muito mais no Japão].

Bem, gosto em partes do gênero moe [e cia.], mas realmente o excesso dele vem trazendo muito mal para a indústria. Infelizmente as pessoas não querem ver muita coisa em uma era onde existe muito - vejo muita pouca tolerância e muita gente se isolando em seus mundinhos virtuais, somente vendo o mesmo de sempre.

Sinceramente, não vejo como a indústria pode mudar isso...

*depois que ler MESMO comento mais*

Abraço,

Alexandre: Okay, sinta-se a vontade. :)
Nome: Pedro Henrique 19/01/10 10:16
Um conselho que devia ser dado aos tais "herbívoros" citados no artigo é um dito pelo consagrado diretor japonês Akira Kurosawa em seu livro "Retrato Autobiográfico": "O homem não deve ter medo de se envergonhar". Pra complementar, deveriam assistir uma dose homérica do anime Kaiji, pra aprenderem a virarem homens.

E quanto ao comentário do R. Moss, só posso dizer que, nos últimos vinte anos, o melhor anime, independente de suas influências, continua sendo Cowboy Bebop.

Alexandre: Olha, eu adoro Cowboy Bebop, mas desconfio que o melhor anime que assisti em muitos e muitos anos foi o próprio Kaiji que você citou... ;)
Nome: Jet Fidelis 20/01/10 04:52
Salve Lancaster.

Excelente matéria. Realmente é um ponto de vista bem esclarecedor sobre o final da série. Não que eu não tinha percebido que existia a mensagem "levante da cadeira e vá viver a vida", mas não imaginava que a mensagem era num sentido mais amplo da coisa.

Parelelamente, acredito que o Hideo Kojima é o Hideaki Anno no mundo dos games (reza a lenda que existe uma amizade entre ambos), que usa várias dessas metáforas na famosa série Metal Gear (desde os tempos do MSX). Fora, que eu acho que Zone of the Enders é uma homenagem sincera a Evangelion (e Gundam, claro) por parte do Kojima.

Voltando ao Anno, acredito que se Ideon é o pai de Evangelion, a "mãe" foi o Zeorymer. Acho o jeito que vários personagens agirem muito similares ao de Evangelion, principalmente a relação que o personagem tem com seu pai e o jeito de agir dele nos primeiros OVAs.

Alexandre: Olá, Jet. Você não é o primeiro a me apontar as semelhanças com Zeorymer: ele tem um status muito cult no Japão – a história original saía em uma revista de perfil mais erótico (o mangá original era repleto de cenas de sexo explícito e tinha relativamente pouco a ver com o desenho animado), não é como se ele fosse ficar famoso por lá, mesmo. Como o Anno tem um perfil de fã que migrou para a indústria, não é impossível que ele conheça o material.
Nome: Warty 20/01/10 11:17
Cara, chegando atrasado, fiquei sem PC e só pude ler o artigo agora. Incrível, estou espalhando ele por aí. Muito bom mesmo.

PS: eu fiquei com tanto medo do post do Pato Supersônico que parei de ler na metade, foi o único que não li. hauahauah

Então não tenho muito o que comentar. Parabéns pelo texto.

Alexandre: Muito obrigado, Warty – e sinceramente eu também me assustei com o post do Pato... :D
Nome: Beto 20/01/10 11:56
Excelente Texto. Parabéns, Alexandre! Esse eu vou imprimir e guardar assim como eu fiz com o do Adachi que você fez.

Parabéns novamente e abraço.

Alexandre: Abraço também, Beto.
Nome: murilo 20/01/10 06:10
Tanto pela aceitação, quantidade de comentários e qualidade já merece o título de Top Pot do Maximum Cosmo!

Alexandre: Sem dúvida: em poucos dias ele se tornou o campeão de comentários de toda a história deste blog. :)
Nome: Power Otaku ^_^x 20/01/10 10:31
Excelente texto (copiando para guardar aqui e reler outras vezes). O resto o pessoal falou por mim. ^_^x

Alexandre: Obrigado. :)
Nome: Kirara 21/01/10 10:57
Adorei a matéria! \o/ sério cara, ficou demais!
Eu tinha minhas suspeitas quanto ao final de NGE... Mas sempre pensei "Não... é Otaku demais para ser isso..." E no final... realmente simbolizava outra coisa! Obrigada por ter esclarecido!

Agora entendo o por que de tantos animes pra otaku hardcore atualmente... se isso não mudar acho que vou deixar de ser otaku por que animes bons e com poucas doses de fanservices estão ficando raros... o.o

Alexandre: Obrigado, Kirara. :) Mas sinceramente, eu estou cada vez mais encontrando o que busco em animes mais antigos. A animação pode ser inferior a de hoje, mas mais e mais encontro uma substância que não encontro nos dias de hoje – e isso é péssimo, porque eu acredito realmente que é para frente que se anda.
Nome: Sem ideia para um nome 22/01/10 06:14
Eu li a sua matéria em um forum de games pelo qual um usuario postou para agente ler e depois de ler muitos comentarios teve um post de um user que realmente matou a pau essa discursão em poucas palavras. Vou modificar um pouco do que ele escreveu de minha autoria para dar mais sentido a proposta desse site:

"Culpa a economia? Pelo amor de deus.......o japão após a segunda guerra era o que?

Um país totalmente destruido e pobre, mas não evitou de fazerem algo a respeito e conseguiram passar a frente de todos em tecnologia.

O mercado de animes do japão sofre do mesmo mal do george lucas.

Quando havia pouco investimento, pouca tecnologia e pouco reconhecimento as empresas e os produtores conseguiram tirar o melhor do pouco.

Hoje se tem animação digital de ponta, computação gráfica, orçamento milionarios e reconhecimento no mundo inteiro os caras acabam fazendo lixo.

Sera que com as limitações não vem as grandes coisas?

PS. Sem falar que essa nova geração de japoneses é muito mimada, vivendo basicamente para satisfazer os seus desejos.

Mas a verdade é que os pais deram o duro para construir um grande país e os filhos hoje estão aproveitando a folga."


PS: Não irei mencionar o site e o user por questões de preservação de anonimato.

Alexandre: Eu li com atenção e sinceramente?

Acho que ele está certo.

A economia realmente causou a situação atual, mas nada justifica essa atitude. Pelo contrário, é a chance deles realmente virarem a mesa e mudarem todas as regras. Crise é sinônimo de oportunidade.

E aparentemente eles não perceberam isso.

Agradece ao anônimo.
Nome: Sem ideia para um nome 23/01/10 02:35
Lendo essa matéria me lembrei do mangá Sanctuary, do autor Sho Fumimura, o mangá foi lançado em 1990, na época em que a crise do japão estava apenas começando, e é incrível que as perspectivas de um futuro muito ruim para o japão realmente acontecessem durante esses 20 anos que se passaram. Até a crise das montadoras dos Estados Unidos, abordada em alguns capitulos do manga, realmente aconteceu há pouco tempo.

Mas infelizmente tentar fazer alerta ou passar mensagem positiva para essa nova geração de japoneses é inútil na maioria dos casos.

No manga de Sanctuary, volume 3, o Asami – durante uma reunião entre os partidários – apresentou a seguinte proposta politica:

Partidários: ... Fale logo qual a sua proposta política!

Asami: Em primeiro lugar, pretendo abrir as fronteiras do Japão !!

Partidários: !!!!!! Mas abrir o quê?!
O Japão nao é isolacionista faz séculos...

Asami: Sim, na teoria somos um pais aberto; mas na prática não há um país mais exclusivista que o nosso! E é exatamente por isso que eu quero derrubar as bases e promover a liberação total do mercado japonês !!

Partidários: !!!!!!!!!?!?!?!

Asami: Ouçam até o fim ! Em primeiro lugar, pretendo abrir as frentes de trabalho!! Todo trabalhador estrangeiro, de países do sudeste asiático por exemplo, que desejar trabalhar no Japão, será recebidos de braços abertos!

Partidários: Que loucura!! Se fizer uma coisa dessas, vão sobrar trabalhadores japoneses e...

Asami: E é isso mesmo que eu quero... Só assim esses jovens japoneses vão sair do marasmo e parar de recusar trabalhos que sejam duros ou pesados (Nota: são os trabalhos que além da gratificação maior, ainda ajudam na progressão da economia do país. Empregos baixos no Japão, mesmo com o salario menor, são grandes o bastante para garantir o proprio sustento e consumo de diversos items supérfluos, mas o grave é que eles prejudicam o crescimento da economia e isso acabou ocasionando a crise devido ao grande aumento de jovens que trabalham nesse setor com pouca concorrência.)

Asami: Vão começar a pensar com suas proprias cabeças... E usar o corpo que tem para arranjar meios de subsistência!

Asami: Provavelmente, vão começar a lutar entre si para obter um emprego...

Asami: Numa situação como essa, só havera um meio dos japoneses sobreviverem!

Asami: É VOLTAR AS ORIGENS !

Asami: ESSA É A NATUREZA ESQUECIDA DO POVO JAPONÊS! ESTOU ERRADO?!

Um dos partidários: M... Mas... Os jovens hoje em dia não aceitariam isso nunca..."

Asami: Se não aceitarem... Então, não existe razão para a nação japonesa continuar existindo...

Partidarios: Hã?!....

Asami: O que eu estou tentando promover não é o bem estar e a prosperidade de agora!

Asami: É O JAPÃO... O FUTURO DO POVO JAPONÊS !!

Asami: Não existe futuro... para um povo, ou melhor, para uma nação mimada como a nossa...

Partidarios: .................


Alexandre: Realmente – Sanctuary é uma obra-prima e você lembrou de como ele mordeu no nervo correto. Tudo isso já estava sendo previsto.

Voltando ao assunto você sabia que os países do leste europeu como a França, Inglaterra, Itália e Alemanha tambem estava tendo esse problema da nova geração de jovens mimados? Eram filhos dos pais que ajudaram no crescimento economico pós-segunda guerra, o mesmo que estava acontecendo no Japão. Qual foi a solução do governo diante dessa nova geração de jovens sem perspectiva? Exatamente aquilo que foi discutido pelo Asami no manga Sanctuary, esses países abriram portas para a mão-de-obra estrangeira com poucas restrições, e assim ajudaram a dar continuidade ao crescimento economico. Sim, houve consequências como a xenofobia e o surgimento de grupos racistas nesses países, mas o que o povo de lá não refletiu é que foram eles os culpados de todo esse processo – então nada adianta ficar fazendo baderna.

Mas enquanto os países do leste europeu iam progredindo, a economia do Japão ia afundando cada vez mais, graças a incompetência de seu governo e seu sistema extremamente defasado que na minha opinião é mais acomodado que o proprio governo brasileiro.

Alexandre: Uma coisa comum em várias obras de massa para adultos no Japão como Sanctuary, Team Medical Dragon, até mesmo em um mangá de esportes como Giant Killing, é que há essa percepção – de que o maior obstáculo para a correção dos problemas é uma mentalidade retranqueira estabelecida naqueles que estão acomodados em sua posição de topo.

E realmente o maior obstáculo que pode haver para o crescimento é a acomodação. Sem brincadeira nenhuma. Em Sanctuary e Team Medical Dragon isso é bem evidente: o grande público sonha com uma geração de jovens com iniciativa que tome as rédeas do poder em todo tipo de instituição das mãos de gerações de veteranos que por terem sido formatados por um sistema já engessado, acabam preservando uma gerontocracia no poder sob a qual nada vai mudar.


Então de nada adianta tentar passar mensagem positiva para esses jovens japoneses, ou pior, tentar restringir a sua liberdade igual ao modelo comunista dos fanáticos chineses, que recentemente proibiu o google na china e persiste na teimosia de controlar todos os usuários de internet e os meios de comunicação.

A melhor e a grande solução seria seguir o modelo Europeu ou o modelo do Asami de Sanctuary, que possivelmente é reflexo do sucesso da renovação das frentes de mercado de trabalho na Europa.

Alexandre: Olha, isso é importante, mas não é o suficiente. Lembre que a Europa também sentiu o golpe da crise econômica, tanto quanto o grosso dos países do velho primeiro mundo.

Eu execro totalmente o comunismo. Acredito sim no dinheiro e na livre iniciativa, mas cabe ao governo tomar constantemente medidas para o futuro de sua nação e assim impedir o surgimento de bolhas ou especulação como ocorreu nessa ultima grande crise nos EUA, e até mesmo o surgimento desse grande mercado para o publico otaku hardcore sem ter a necessidade de infrigir a democracia e a liberdade do indivíduo.

Alexandre: Somos dois a pensar assim.

E o caso do Japão é gravíssimo, não só pela sua economia, mas também pela sua própria segurança. O enfraquecimento do Japão aumentará o ego do regime comunista da China e, principalmente, da Coréia do Norte, que estão doidos para intimidar os japoneses a qualquer custo. A China de hoje é um país pacífico no âmbito internacional, mas e se no futuro o governo mudar de idéia e querer se tornar uma nova União Soviética para peitar os EUA ? E ainda mais que o país possui um grande armamento de destruição em massa! Ficará o Japão um grande alvo fácil dessa grande ameaça? Se tudo isso acontecerá ou não, só o tempo dirá.

Alexandre: Aí já acho alarmismo. A China não é mais um país comunista de verdade (embora tenha preservado sua estrutura governamental) e mesmo quando o foi, operou por suas próprias regras. Eles perceberam já que é mais interessante ser um país capitalista, operando por suas leis de mercado – sinal de que os comunistas deles foram mais sensatos do que os comunistas da Rússia; souberam qual a hora de pular fora de um barco que nasceu com vazamentos e se revelou completamente furado), mas não querem perder a posição que já tinham, e esperam mudar a economia sem mudar a política. Acredito que isso não vai dar certo...

Mas por outro lado, a Coréia do Norte é, sim, uma ameaça. A China ainda quer ter esse país sob sua influência para não aumentar a força política americana na região, mas eles já deram sinais que não vão encobrir para sempre as gracinhas norte-coreanas.


PS: Mesmo para aqueles que estão contentes em ser otakus hardcores, mesmo que o Japão volte atrás pelo crescimento ecomomico, esse mercado jamais deixará de existir. A única diferença é que eles não serão mais tão abundantes ou não terão mais preços super-inflacionados. Ou seja, vai ser até melhor para esse publico caso isso aconteça. Existe esse mercado de consumo nos EUA e na Europa que estão em posição muito mais saudáveis que o proprio Japão. Ou eles preferem que a sua "fábrica de alegrias" quebre junto com o Japão inteiro ?

Alexandre: É claro que não. ;) Na verdade eles vão continuar investindo nisso porque é um braço de penetração no exterior. Mas este ano, quantas foram as estréias no Japão? Quinze, estou certo? Na época áurea já chegaram a ser mais de quarenta. O mercado está encolhendo e isso pode se reverter em menos animes por ano, e temos que levar em conta que nem tudo é exportável.

PS2: Você não acha que depois da renúncia do otaku bobalhão Taro Aso do cargo de primeiro-ministro japonês junto com o seu Partido Democrático Liberal que estava no poder desde o fim da Segunda Guerra, e agora com a entrada do Yukio Hatoyama do Partido Democrático do Japão, será que agora o Japão quebra as correntes e consegue engrenar de vez ou esta será apenas mais uma farinha do mesmo saco do antigo partido vigente ?

Alexandre: Sinceramente, acho que ainda estamos em uma posição de esperar para ver.
Nome: Sem ideia para um nome 23/01/10 05:33
Essa onda de "fan-service" aconteceu com outras séries famosas e agora tá comendo One Piece pelas beiradas, o mais recente sucesso e carro-chefe da Shonen Jump. E o anime, mesmo sendo o shonen de maior audiência no Japão, luta contra a reprise de DBZ que tem animação pra lá de velha, e não tarda a decair se continuar nesse marasmo.

Isso tudo, como você falou, é reflexo da decadência moral e econômica do Japão que parece que não vai mudar o quadro tão cedo...

Os anos 2000 no mercado de animes foram caracterizados por uma super-inflação de animes genéricos e a afirmação de seu mercado como "linha de produção"; e o público hardcore teve grande ênfase das empresas mesmo sendo um nicho reduzido, deixando o publico de massa de lado – o que acabou encolhendo o mercado.

Na minha opinião pouquíssimos animes da segunda década perdida valeram a pena, e ainda conto nos dedos o que eu gostei: Macross Zero, Full Metal Panic, Basilisk, Golgo 13 e Valkyria Chronicles e só.

Alexandre: Olha, acho que faltou personalidade à animação de Golgo 13 (no qual eu depositei grandes expectativas). E eu achei Macross Zero meia-boca. Não vi Valkyria Chronicles, então não vou falar nada, mas eu gostei da primeira temporada de Full Metal Panic. Só que achei sua continuação, Fummofu, medonha.

PS: Vc já assistiu Valkyria Chronicles? Antes eu o ignorei pois achava que seria mais um dentre muitos animes ruins, fora o fato dele carregar o fardo de ser baseado em um game – já que animes baseados em games quase sempre são lixos.

Alexandre: Bom, vou ser honesto e admito que eu gostava muito de Street Fighter Victory – aquele que passava no SBT. E a opção mais pé-no-chão dos primeiros episódios fez com que ele envelhecesse bem.

Quando eu assisti os primeiros episódios algo me surpreendeu, coisa rara de se ver nos animes de hoje... A animação é excelente, principalmente no que se refere a aplicação artística. Tudo é feito para lembrar uma animação artesanal com varios toques de modernidade, tudo feito com muito bom gosto e inspiração. Cenários bem-feitos que combinam bem com os personagens (diferente do horrivel Macross F que o cenario é CG e faz enorme contraste com os personagens que parecem um pedaço de papel chapado e sem vida)...

Alexandre: Olha, eu odiei o que vi de Macross Frontier, mas tecnicamente aquilo impressiona.

... personagens expressivos e com ótimo detalhamento que inclusive possui aquelas típicas ranhuras dos mangas, tornando bem estiloso e original e as CGs que são apenas usadas nos veículos como carros e tanques de guerra, e mesmo assim são feitas com muito capricho.

Mas a parte mais importante é na história e nos personagens. A série não decepciona e até surpreende. Os primeiros 6 episódios são bem fracos e muito "bobo-alegres" mas ainda assim assistíveis, mas a partir do ep. 7 até o final é que a historia engrena e os personagens são desenvolvidos.

Os personagens visualmente são estereotipados ao extremo, mas quando eles abrem a boca presenciamos alguns dos personagens mais marcantes nessa época de poucos animes interessantes. Pra fazer um resumo bem curto, o Protagonista é o Welkin – gênio e estrategista recém-formado de uma universidade, mas que após uma emboscada é forçado a ser comandante de um recém-formado pelotão que luta pra combater a invação do exército inimigo de uma nação tirana. Mas ele tem um grave defeito: apesar de suas brilhantes estratégias contarem muito nas missões, por outro lado a sua apatia (típica de personagens modernos) devido a problemas na infância e a falta de culhões acabam prejudicando o grupo e até mesmo causando a morte de um deles com o passar dos episódios. No meio dessas pesadas circunstâncias, ele demora pra refletir, mas consegue aprender por si mesmo, e quando isso acontece e ele vira um homem de verdade, já era tarde e tudo parecia perdido. Mas ele aproveitou essa qualidade de homem que ele ganhou recentemente, não desistiu, reuniu seu antigo grupo, levantou a moral de todos, foi até o fim e fez o seu final feliz...

Parecia que tava vendo um anime de 20 a 30 anos atras, fiquei impressionado!

Mas a maior qualidade do anime são os diálogos fortes e marcantes dos personagens, algo que nunca vi parecido desde o Zeta Gundam de 1985. E mesmo que eles caiam um pouco nas convenções dos personagens modernos, ainda sim são diálogos que estão num nível acima, aliás muito acima, da média dos animes modernos.

Se for dar nota pra esse anime eu daria 8 numa pontuação até 10, mas mesmo assim é infinitamente melhor do que os Macross F ou Gundam 00 da vida, e mais um montes desses animes genéricos que destróem o mercado.

Alexandre: Olha, eu posso assistir mas estou cético. Porque essa experiência é comum: queremos ver tanto algo bom que acabamos enchendo de elogios algo acima da média, mas que numa segunda revisão, se revela não tão bom assim. Mas posso dar uma olhada.

PS2: Por fim, cansei de tanto escrever, mas embora o texto tenha ficado gigante, espero que leia – pois só tava querendo me apresentar nesse blog que conheci há pouco tempo, e dar minha opinião. Já não preciso escrever mais tanta coisa no proximo post... E ainda terei que estudar bastante nos proximos mêses e vou ter pouco tempo pra postar aqui novamente.

Então boa sorte para o seu Blog, de longe o melhor que eu já conheci. O unico que sabe lidar com o termo de que "todo moderno tem um classico por trás"

Alexandre: Obrigado – e seja bem-vindo. :)
Nome: Sem ideia para um nome 24/01/10 02:43
Mas a Europa sofreu o baque da crise pois eles foram "contaminados" pela crise das imobiliárias e montadoras norte-americanas. Todos os paises do mundo com economia de livre mercado estão interconectados entre si e se um dos grandes desabam, acaba acontecendo o efeito dominó. O Japão tb não tinha nada a ver com a historia da crise dos EUA mas como a sua economia já estava fragilizada, o pais foi um dos que mais sofreram com a crise, e o grande desafio deles agora é conter a supervalorização do yen que prejudica seriamente a exportação do pais.

No caso da China, você tem razão mas eu ainda acho incerto como eles vão lidar com a sua nova economia de livre comércio sem mudar a sua política...

O Golgo 13 eu assisti o filme clássico de 1983, que eu achei muito bom, e não me decepcionei vendo os 10 primeiros episódios dessa nova série. Ainda tenho que ver o restante pois parei de assisti-lo há dois meses por conta dos estudos, e é dificil de encontrar na internet, parece que os fansubers tem certo preconceito com esses tipos de temática. Mas mudando de assunto quanto vai custar o Golgo 13 nas livrarias aqui no Brasil? Comprava o Nausicaa que era excelente, mas o seu preço proibitivo me fez parar de comprar, cheguei até o vol.3

Alexandre: Vai ser RS 19,90.

O Macross Zero eu curti pra caramba. Tá certo que a nova história que precede o anime classico não passa de uma lorota furada e não acrescentou nada a série, mas o anime é extremamente bem feito e gostoso de assistir. E se lembrarmos da aberração que foram Macross 7 e o mais recente Frontier, o Zero pra mim tá de bom tamanho e não dá a sensação de "esculhambação" com a série original como esses dois citados que mencionei. Não analiso como fã radical, só não gosto de bagunça e descaracterização.

Mas o que vc achou de Macross Plus ? Eu tenho a mesma opinião do Zero, enredo fraquinho e triângulo amoroso de sempre, mas o que vale é a briga épica entre valkyries e seus pilotos – e a animação de primeira.

Alexandre: Eu pessoalmente acho o Plus o melhor produto da franquia depois do Macross original.

Vc já viu a terceira temporada de Full Metal Panic, o Second Raid ? É bom ? Ainda não assisti...

Alexandre: Vi pouco e por isso não vou dar opinião ainda.

O Street Fighter Victory é bem foda ! Tenho o DVD deles que baixei na internet com a dublagem do SBT e não me arrependo de nada. Sem duvidas foi o único anime baseado em games que prestou, mesmo ele não sendo muito fiel ao seu game original.

Mas a qualidade da animação que eu falo, o que considero mais importante é a aplicação artistíca e a qualidade do design que pra mim tem muito mais peso que a sua tecnologia aplicada, tanto que até hoje eu considero o velho anime do Lupan bonito, e Macross, então, o que dizer? Não gosto de animes com visual de gosto duvidoso como Macross Frontier que é 10 em tecnologia e quase 0 na arte. Não gosto em nada o estilo brega e carnavalesco desses varios animes modernos no qual parece ser tendência infelizmente. Fora que pra mim o design dos personagens é bem ruim e tem um acabamento muito genérico e chapado, só as CGs que compoem o cenário que se salvam. Por isso considero o Macross original mais bonito mesmo sendo velhão. Mas mesmo assim tecnologia e arte de primeira não salva um anime se este tiver história e direção deficientes, como Gundam 00.

O Valkyria Chronicles, também já estive cético antes, mas eu assisti porque ouvi bons elogios tanto do anime quanto do game no qual foi baseado. Como eu falei antes é um anime nota 8 que tem tanto suas ótimas qualidades quanto seus defeitos visíveis, mas não leve muito a sério os 6 primeiros episódios que são bem ruinzinhos e apresentam os personagens de forma muito patética, mesmo assim é bom ver para captar algumas partes importantes, mas se prepare que o nivel é parecido com o Macross F sem exagero no fan-service. A partir do episódio 7, o anime decola de vez e acontece como eu descrevi no post anterior de maneira bem "resumão". Não garanto que você vai gostar mas como você elogiou Full Metal Panic, acho possível que você curta pois ambos tem estilos quase parecidos.

Mas agora indo realmente ao assunto da sua matéria, o EVA... Eu assisti 2 vezes esse anime, uma no falecido canal locomotion e outra baixado na internet. Depois de ver o final bizarro vasculhei diversos sites para tentar achar uma explicação e li cada pérola absurda que me faz dar risada toda vez que me lembro delas, pior ainda se lembrarmos do que os fãs hardcores interpretavam sobre ele...

Alexandre: Interpretam até hoje, acredite.

Mas isso acabou me fazendo taxar EVA de um "Power Rangers pseudo-intelectual" e já fiz diversas comparações de ambos com meus amigos em tom de ironia para arrancar boas risadas...

Mas então você, quinze anos depois do anime surgir, escreveu em apenas uma página algo que o proprio Hideaki Anno nunca conseguiu explicar de uma forma clara e precisa mesmo conhecendo o tal significado.

Alexandre: Não acho que um autor iria ficar insistindo com isso – ele mesmo deixou com aquele final quem estava interessado nos mistérios da série à deriva.

Mas dai eu pergunto, porque mesmo o anime tentando transmitir essa mensagem os seus fãs sequer ouviram, e os que ouviram entenderam de maneira totalmente fora do contexto original a ponto de parecer piada? Você acha que o EVA embora um grande sucesso comercial foi um grande fracasso na tentativa de mostrar suas verdadeiras intenções?

Alexandre: Não porque a mensagem está lá para quem quiser escutar. Para mim o final tem até essa conotação, se você não quer aceitar, tem sempre seu paraíso líquido – deixou de ser problema dele. É você mesmo que deve tomar suas decisões. Lembre do nome do último episódio: "Tomem conta de si mesmos."

Eu posso até dar um desconto pro Anno. Na época o projeto de seu anime estava passando por uma série de problemas que iam desde problemas orçamentarios até polêmica e controvérsia em outras midias. Agora resta saber se o seu novo projeto dos 4 filmes remake de EVA, se tentará explicar o enredo de maneira mais clara e objetiva sem aquelas diversas viagens na maionese. E depois de lançar os 2 filmes o que você achou do resultado? Pois eu ainda não vi, mas pretendo agora depois de ler a sua matéria.

Alexandre: Eu acho que é uma versão bem mais equilibrada da história, mostrando um Shinji bem menos emo e uma Asuka melhor dirigida. Não duvido que o fato dele ter se casado, constituído família e ter se estabelecido como cineasta tenha dado a ele uma nova perspectiva da vida, e isso se reflita na nova versão. Mas também acho que o verdadeiro motivo de se fazer essa série de longas é capitalizar seu novo estúdio. E não acho que ele esteja errado – com tantas "versões alternativas", Eva já virou bagunça mesmo...

Depois de ler a sua matéria considero EVA bem mediano, antes achava uma bomba nuclear graças principalmente aos seus fãs desvirtuados. É um anime pra entreter com a luta entre robôs (ou magrelões armadurados?) e com suas bizarrices nunca vistas antes, mas o anime como enredo e roteiro fracassa devido ao mau balanceamento dos elementos figurativos com os simbólicos, com os elementos subentendidos que foram o assunto de sua matéria. Agora resta saber se isso será corrigido nos novos filmes.

PS: Vc não acha que o EVA e o quadrinho americano Watchmen tem varias coisas em comum? Os dois fazem desconstrução de uma temática popular da cultura de massa de seus respectivos países – os robôs gigantes no caso de EVA e a figura de super-herói no caso do Watchmen. E ambos possuem uso frequente de simbolismos, além de serem um misto de drama e aventura que incorpora temas e referências relacionados à filosofia, ética, moral, história e ciência.

Alexandre: É um ponto.

E pra terminar ambos são reflexos de uma era, o Watchmen nos EUA da decada de 80 com o fracasso do "American way of life", decadência econômica e moral da sociedade americana, aumento do crime e desemprego, e o medo da iminente guerra nuclear... O EVA, como diz sua matéria, é o reflexo do japão dos anos 90 com jovens sem perspectiva de futuro e grande pessimismo depois da catástrofe do segundo impacto (recessão economica) e o receio do terceiro impacto... Mas o ponto é que o Watchmen tratou esse assunto de uma forma mais objetiva enquanto o EVA foi mais simbólico, mesmo que falhando em diversos pontos...

Quando o Dr. Manhattan, o "salvador" dos EUA, se exila em Marte depois de perder a fé na humanidade e criar o seu mundo de fantasias para mais tarde acordar, foi algo bem semelhente ao Shinji no ultimo epsodio de EVA, você não acha?

Ou você acha que tô viajando legal depois de fazer essas comparações ?

Alexandre:

Mas um filme que trata melhor, de maneira bem simbólica a ascenção de um jovem depois do estado de apatia é o famoso Matrix, produzido pelos irmãos Wachowski que são fãs confessos de animes e mangas. No filme o sentido do protagonisma de se libertar da Matrix simboliza o jovem apático se libertar das correntes que o deixam presos no mundo real e assim, ter a plena liberdade e a vida.

O Matrix muito provavelmente foi uma mistura de conceitos do anime Ghost in the Shell, EVA e Zeorymer. Os irmãos Wachowski souberam muito bem criar sua grande obra baseados nessa mistura e infelizmente isso foi derrubado nas continuações que tiveram um carater bem comercial.

Alexandre: Os Wachowski assumiram a influência do GITS no Matrix. Inclusive exibiram o desenho animado para os produtores.

Por isso mesmo que após o fiasco da adaptação do Speed Racer eu gostaria muito que os proprios Wachowski pudessem dirigir uma versão live-action do EVA, mesmo com as devidas modificações pra adaptar ao publico dos EUA, pois eles são os unicos que entendem o significado e a importancia da obra sem deixar para esses diretores charlatães que povoam Hollywood, como aberrações como Dragon Ball Evolution.

Alexandre: Depois do terceiro matrix e do Speed Racer em versão "Pequenos Espiões", eu sou cético quanto a isso.

E pra sonhar mais ainda eu gostaria muito que o ator e o diretor norte-americano Clint Eastwood, responsável pelo excelente "Cartas de Iwo Jima" e "Gran Torino", dirigisse uma adaptação live-action do mangá Sanctuary, usando elenco japonês de primeira. Pra mim esse tipo de projeto é cara do diretor.

Alexandre: Existe um longa com atores baseado no mangá. Ainda não vi.

PS2: Agora chega de vez de tanto escrever e finalmente tô sem mais paciencia de digitar novamente um texto gigante como esse. Mas mesmo assim espero que vc tenha paciencia de ler tudo isso que digitei agora..........

Alexandre: Eu li, não foi? ;)
Nome: Gustavo Avelar Molina 25/01/10 05:05
Achei seu texto simplesmente esclarecedor. Não sei se sua intenção verdadeira era desvendar Neon Genesis Evangelion em cada pequeno pedaço, ou se era simplesmente transmitir sua interpretação do que o Anime/Mangá visava nos alertar.
De fato, seu texto me ajudou muito a entender vários pontos significativos de Evangelion, como a sopa, os personagens, os Impactos etc.
Essa decadência da animação japonesa venho notando já há um bom tempo, e concordo muito com o que disse. Não sei se concorda comigo em certos pontos, mas na minha opinião, tem alguns animes saindo que são simplesmente ridículos!
De qualquer forma, as informações que passou, indo além de Evangelion, me ajudaram a organizar causas e consequências do atual estado disso tudo pelo qual o povo japonês tem passado... Não só o povo japonês, porque temos visto muito disso aqui mesmo, no Brasil.
E, voltando para Evangelion, tem algumas coisas que não entendi ainda, mas ainda assim, seu texto foi muito útil.
Ótimo o seu trabalho.
Até mais. o/

Alexandre: Obrigado, Gustavo – e como até apontaram nos comentários, ele não foi o único; mas talvez tenha sido o que fez mais barulho.
Nome: Sem ideia para um nome 25/01/10 09:18
Acabei de assistir os 2 filmes do Rebuilt of Evangelion.

O primeiro ficou muito bem feito, muito mais pé no chão, com uma narrativa bem forte e envolvente e o Shinji, agora menos emo, está bem mais convincente (ele pegou complexo de Seiya do CDZ ? )

Já o segundo filme ficou "What a fuck ???"

Por favor antes de descrever esse filme vou soltar um spoiler mostruoso, então quem não viu não leia !

No segundo filme o Shinji ainda continua convincente como no primeiro e agora é apresentado a impetuosa Asuka, que desta vez não está tão chata e histérica como na série original, mas embora aqui isso fosse uma tentativa de torna-la mais verossímel, estranhei o fato dela ser anti-social comparando ao original, pois pelo que eu sei é através dos olhares de admiração alheia que surge a prepotência de um individuo, mesmo que isso não influencie em seu carisma.

A Rei Ayanami está bem mais humanizada nesse filme e não está tão "boneca" quanto antes. Gostei.

Tudo vai bem até que o Hideaki Anno mostra não ter aprendido a lição do passado e deixa seu ego à frente de se criar uma produção com apelo mais amplo, sem tentar repetir os erros do passado.

O grande defeito do segundo filme foi o surgimento de uma nova personagem piloto EVA, a Mari. A personagem alem de ser muito estereotipada, do tipo "olha quero ser radical e gostosinha ao mesmo tempo" praticamente não acrescenta nada ao enredo original da série, e ainda tem um design pra lá de genérico que mais parece personagem de RBD e não combina em nada com o visual dos outros personagens – é praticamente um "corpo estranho".

O pior de tudo mesmo é que a morte do Touji na série antiga via contaminação de seu EVA foi substituído pela... Asuka! Isso não chega a ser ruim e ajuda a acrescentar bem carga dramática, mas o grande problema é que aparentemente o injustiçado Touji daria lugar a falecida Asuka, até que a tal Mari "RBD" substitui o seu lugar e ainda usa o seu EVA-02... Uma baita e completa descaracterização ! Seria bem melhor os caras terem colocado o Touji com um novo EVA da cor preta não tão semelhante ao da serie televisiva do passado.

Pra terminar e fazer uma conclusão, o Rebuilt of EVA mostrado até agora com os seus 2 filmes, tenta fazer uma versão definitiva da serie da década de 90 se redimindo com aquele monte de versões caça-níqueis que seguer ajudaram a fazer explicação, tornando a serie mais bagunçada e confusa. Talvez vítima de seu próprio superlativismo, Hideaki Anno se descuidou do equilibrio necessário de recontar sua obra original com a caracterização no segundo filme, que foi perfeita no primeiro.

Mas então termina o filme e após os creditos se mostra o preview do terceiro longa a ser lançado, com muitas cenas rápidas misteriosas – e de repente se mostra Asuka usando tapa-olho??? A garota não morreu estraçalhada quando seu cockpit foi esmagado pela ira do EVA-01 usando dummy mode??? Agora os caras parecem que vão resuscitá-la da maneira mais furada possivel bem ao estilo Marvel comics... Se ela morreu deixem-na enterrada debaixo da cova oras! Por isso que considero o Zeta Gundam o melhor anime de mecha já feito; quando um de seus entes queridos morrem já era, não tem mais volta! Diferente desses varios animes de mecha em que a morte do personagem não causa impacto nenhum devido a falta de comoção que temos por estes, no Zeta Gundam aqueles que temos grande afeição de uma hora ou outra morre em decorrência das duras guerras que não tem piedade por ninguem... Espero que isso seja um daqueles sonhos malucos do Shinji, porque se não for assim, o terceiro filme tem grande chance de ser uma bomba.

O primeiro filme eu achei excelente, o segundo apenas mediano. Shinji e Rei Ayanami mais humanizados e carismaticos fazem contraste com uma Asuka mais apagada e com pouco desenvolvimento. A aparição da nova piloto EVA, a Mari, foi bem constroverso alem de ser uma adição inútil a série, assim como ajuda a descaracterizá-la. A otakaiada pode adorá-la mas pra mim é só mais uma dessas milhares de personagens genéricos pro público otaku hardcore... E o que é aquilo que ela veste, uma suit cor de rosa ??? Parece que esses japoneses gostam mesmo de estragar as suas obras por empolgação exagerada, quando tem de tudo pra fazer uma produção magnifica...
Nome: Rodrigo 28/01/10 12:12
Parabéns pelo texto! Ficou muito bem escrito, há fluidez entre as comparações entre as "dicas" que a série dá e a história do Japão, e o conjunto como um todo ficou bastante interessante!

Alexandre: Obrigado. :)

Já sobre EVA em si, acho que todo mundo já comentou o que era possível comentar. Mas senti a falta de uma personagem - que na verdade é secundária- que me chamou a atenção: foi a cientista Ritsuko Akagi. O computador que foi herança de sua mãe (que só quem entendia era ela) e que era divido em três áreas que se pareciam com as funções sociais que se espera de uma mulher (entendendo "cientista" por "emprego"), sua curiosa relação com o "Otaku-Mor" e sua frustração perante as ações "boneca" Ayanami não são tópicos relevantes não? Não tens nada a comentar sobre a personagem? :D:D

Alexandre: Bom ponto – embora eu não tenha me detido personagem a personagem. Mas todos eles, de um modo geral, fazem parte desse cenário de falta de rumo generalizada. Não é difícil ver que Ritsuko na verdade é a Sheryl Formosa de Ideon, que aparentava ser segura, profissionalmente realizada, mas que a medida em que a história avança, revelava-se mais e mais fragilizada (até porque em Ideon, todos os homens de quem ela gostava ou se interessava acabavam morrendo – de forma brutal, inclusive). Só que o problema de Ritsuko é outro – e é bem claro. Ela é justamente um rascunho do que viria a ser a mulher japonesa atual, avessa à casamentos e a um modo de vida tradicional (e com razão, porque o papel da mulher nesse cenário é horripilante), mas que emocionalmente é vulnerabilizada. E é essa vulnerabilidade que faz com que ela seja tão manipulável – e diabos, ela sabe disso. Mas é como falei: as pessoas vivem cada uma se enfronhando em seus mundos, e se afastam cada vez mais. Ela é a profissional que descobre que o sucesso profissional não resolveu seus problemas pessoais, Gendo é o otaku para quem o virtual é mais sedutor do que o real, e Rei é... o próprio virtual.

Queria tirar uma dúvida também, o mangá que foi públicado pela Conrad...veio depois ou antes do anime? Na sua opinião, vale a pena ser lido (sobre qualquer aspecto)?

Alexandre: O mangá do Sadamoto é um produto de qualidade e foi feito como parte da proposta multimidiática do projeto comercial de Evangelion. Saiu antes, foi lançado em Fevereiro de 1995 enquanto o anime saiu em Outubro do mesmo ano, mas a intenção, ao contrário do usual, foi usar o mangá para chamar atenção para o projeto da animação. Valer, vale – e Sadamoto é excelente, mas eu sinto que ele está mais interessado em contar a história de uma forma atraente do que em abordagens metafóricas, o que pode fazer do mangá mais interessante para um leitor comum do que o anime. Em miúdos: depende do seu gosto.

Geralmente, o final de filmes de animes me decepciona porque não atinge minhas expectativas...depois desse artigo, estou com medo de não ter entendido final algum! iuaheiuahediuahediuahe!

Obrigado e, novamente, parabéns pelo artigo!

Alexandre: Novamente, obrigado. :)
Nome: Matheus de Souza 29/01/10 11:37
"Os títulos que vendem mais realmente estão vendendo mais, mas os que vendem menos... vendem menos ainda."
Talvez isso explique o fato de animes/mangás famosos simplesmente não acabarem, com os autores extendendo seus finais o máximo que podem em sagas e mais sagas. Uma tênue linha que separa o cenário geopolítico do mercado de quadrinhos mundial, sem dúvidas, mas que apesar de tênue; bastante concisa.

Alexandre: É mais grave do que você imagina. Quando DBZ acabou, os leitores da Jump caíram pela metade. Eles querem evitar a todo custo que isso aconteça de novo; em um cenário como o de hoje, seria catastrófico.
Nome: Dos Sonhos 30/01/10 09:31
Li o texto e 3/4 dos comentários. Eu não sou otaku - quase fui, na época de Cowboy BeBop e Evangelion e Gundam Wing (pra mim), mas nunca cheguei lá.

Concordo com a maioria do que foi dito, parabenizo pelo ótimo texto (sempre é bom parabenizar e comentar!).

Alexandre: Obrigado, Danilo.

Duas coisas me chamaram a atenção:
A sua análise é fantástica e por isso, eu tenho uma pergunta: qual foi a "faísca" para criação desse ponto de vista? Sabe, não é fácil fazer uma analogia de tal magnitude assim facilmente...

Alexandre: Eu acho que ela foi crescendo dentro de mim ao longo de um bom tempo. O estalo foi durante a primeira vez que a Animax re-exibiu o capítulo final da série. Se tornou claro, até porque a analogia de um mundo de fantasia com storyboards e roteiro de animação era sutil como um elefante. Ninguém pode acusar Anno de não ter tentado deixar seu ponto de vista bem claro.

Fugi um pouco do assunto né? hahaah, é que achei que você foi muito pertinente e inteligente no texto! Bem, a outra coisa tem a ver com Gasaraki (já assistiu?). O final de Gasaraki é comparado com o de Evangelion e realmente há a semelhança "Todos se transformando em um só" e blablabla. Mas, é isso? Não acredito que todos os animes seguem seu tempo e não acredito que haja fundamento para um pessimismo assim, tão forte.

Sei lá.

Alexandre: Eu acho que pessoas são pessoas, e não há como elas possam fugir de seu tempo, mas elas reagirão a ele de diferentes formas – o ser humano não é papinha flutuante de LCL, afinal de contas. Love Hina e Evangelion são materiais opostos à primeira vista, mas são fruto do mesmo contexto. E duvido que no caso de Akamatsu ele estivesse consciente disso.

E quanto a pessimismo, já vivenciamos isso. Pense no rock brasileiro antes e depois do fracasso do Plano Cruzado. Antes as músicas poderiam ser melhores, mas se olharmos bem, uma música como "Bem ou Mal" da banda NXZero (que foi abertura de malhação por um semestre, acho), ao dizer "A inveja que mata/ Não me afeta mais/ Pois o que conquistei/ Tem o direito de ser meu" mostra um discurso muito mais saudável do que o choramingar de toda uma geração (Faroeste Caboclo é uma ode à inevitabilidade do determinismo social se pensarmos bem, e isso reflete toda uma geração de cineastas dos anos 70 e 80 no Brasil também; Cidade de Deus é um grande filme por negar isso na figura do fotógrafo, e desconfio que tenha sido esse o motivo que ele seja tão odiado por uma certa ala da crítica por aqui).

No Japão foi pior: a queda veio depois de duas décadas de fartura irrestrita e crescente. E eles tem uma economia de alta rotatividade, que precisa de consumo contínuo para continuar funcionando. Evangelion periodicamente vai e volta, e o próprio Anno ao dizer que "doze anos depois, nenhum anime continua tão novo quanto Evangelion" é sinal de que nada mudou. E se pensarmos bem, isso é horrível.
Nome: Nimb 19/02/10 05:13
Ótimo Texto, Foi a Única coisa que me manteve acordado essa madrugada.

Admito, caí como um patinho [n+1]

Alexandre: Pelo visto todo mundo caiu. XD
Nome: Jackson 20/02/10 09:20
Obrigado por clarear minha mente! Acabei de terminar de assistir Eva, e fiquei meio confuso mas tirei a conclusão de que no final ele queria dizer "toma vergonha, e vá viver sua vida"!

Depois quando fui assistir o End of Eva pensei, por quê esse final?

Em tempo, a apatia de Shinji e companhia me dá a mesma raiva da inércia de Hohenheim de Fullmetal Alchemist apesar de ambas obras serem bem diferentes, um pouco acho, quando o que se trata é a personalidade do personagem principal.
Nome: Fox 12/03/10 05:52
Impressionante e a primeira vez que compreendo o que ocorreu no final de evangelion comprei o anime por indicação de um amigo, e quando acabei de assistir fiquei completamente deslocado não compreendi e fique extremamente confuso porem comecei a procurar fanaticamente por respostas desde então, e o que encontrei foi uma legião de fãs que admiravam o anime, mas não se preocupavam em compreender o final (meu amigo inclusive disse para que não assistisse os 2 últimos episódios, pois não eram necessários...) então achei o filme e quando achei que iria compreender fiquei deprimido com o fim da serie talvez eu quisesse a mesma coisa que shinji um final feliz e romântico... Depois disso fiquei confuso e me tornei um HERBIVORO como os que você citou, sempre tive essa tendência mais não sabia que existia um nome para pessoas assim. Hoje achei esse texto por acaso mas rapidamente o engoli e a cada parte pude inesperadamente para mim compreender o anime e um pouco sobre mim e porque tinha ficado tão desapontado com o final e porque estavam lançando tantas alternativas,também compreendi o fim da serie que antes me era simplesmente psicodélica e agora vejo a seria com outros olhos pois o que antes era uma mensagem ruim que absorvi por inteiro pois tinha gostado muito da serie, agora vejo como uma mensagem de incentivo a viver a minha própria vida e parar de viver as dos personagens do anime. Isso foi uma experiência totalmente nova uma epifania,que grassas a você ocorreu,admiro a pesquisa que foi feita para a construção do texto e a forma formidável e esclarecedora que foi escrito e agradeço a você por ter sintetizado algo assim me sinto melhor agora por mas tolo que possa parecer....
Nome: Douglas 16/03/10 10:22
Muito bom o texto, como sempre. Parabéns!
Só queria saber se histórias como de Serial Experiments: Lain, Bogiepop Phantom e, porque não, Death Note buscam emular os efeitos de Evangelion ou se ele representam os efeitos da sociedade japonesa atual, pelo menos do que é citado no artigo.
Tenho essa dúvida pela relação que vc cita com a cultura de massa. Já que, se os animê que citei so buscavam "imitar" os efeitos de Evangelion, ficarei decepcinado. Gostaria de saber sua opinião.
Outra curiosidade: ainda existe mangás e animês nesse estilo com sucesso no Japão ou eles criaram um "novo modelo"?

Alexandre: Olha, o que se seguiu a Evangelion foi justamente a tentativa de criar um novo Evangelion. E isso acabou pegando o que era crítica e desgastando, tornando tudo um novo modelo. Daí séries como Rahxephon e Brain Powerd (e até Parallel Dual, que se pensarmos bem, é o deboche escrachado a esse modelo). Mas Lain e Boogiepop têm opiniões claras por trás, são autores que encontraram a crítica como filão. Já Death Note, apesar de tudo, é série policial de massa. O que ela falar sobre a sociedade japonesa é menos intencional do que possa parecer.
Nome: Estela 02/04/10 05:21
Olha, são poucas pessoas que fazem blog e realmente se responsabilizam por ele. Eu tenho em mente umas quatro pessoas. Você conseguiu colocar seus pontos com propriedade e o resultado foi esse texto muito elogiado. Eu não assisti Evangelion, logo não pretendo fazer nenhuma observação nesse sentido. Eu só queria comentar a conclusão, a parte sobre os herbívoros em especial. Esse fenômeno é a consequência direta de uma revolta do homem contra um estado de coisas que diminuiu muito sua humanidade. À medida em que o homem expende seus esforços num trabalho que o maquiniza e atende apenas suas necessidades mais primárias (ter um salário), todo o demais perde o sentido. Em pouco tempo ele cai em si o suficiente para saber que não tem controle sobre a própria vida, porque ele precisa atender os requisitos externos o tempo todo. É totalmente compreensível que os herbívoros sejam tratados como esquisitóides, afinal eles estão na contramão da arrogância natural humana de querer estar na Terra para todo o sempre e em atividade. Desculpe pelo post enorme e pela fuga ao assunto (se fosse redação de vestibular, tava reprovada u.u;) mas achei que talvez você quissesse contribuição sobre o assunto.
Abraço.

Alexandre: Bom, não precisa pedir desculpas – isso acrescenta sempre a discussão. Só que eu acredito que se abandonar à passividade não é tomar o controle da própria vida, é se colocar à margem dela. E o que temos visto é justamente isso: ou a maquinização, que você mesmo citou, ou a fuga. Nenhum dos dois é opção para quem quer fazer algo de sua própria vida, e quando isso acontece em massa, os resultados não podem ser positivos. De modo geral, só vi não-oposição a essa postura da parte de quem pode exercer algum tipo de controle, ao conviver com pessoas passivas e sem iniciativa. E sem iniciativa, nada se constrói. Porque o herbívoro optou por não construir.
Nome: digão 07/04/10 01:12
Excelente ensaio sobre a obra e ofuscante crítica!!!

Realmente merece palmas, Parabéns!

As unidades Eva podem também serem compreendidas metafóricamente como a maturidade que é presa sobre armaduras e parece adormecida e que em algumas horas se transpassam e tomam o constrole sob ponto de vista selvagem e indesejavel, lutando contra os "angels" que seriam os problemas do mundo que não se sabe de onde vem e simplismentem aparecem a fim de não destruir o mundo mas sim encontrar "adão" que seria a verdade ocasionando assim o 3° impacto ou seja o "novo ciclo". Acho eu que esse é o sentido dos Eva são a Maturidade dos pilotos visto o elo entre shinji e o EVA 1 pode-se compreender que ambos são uma extensão um do outro, ou seja, é um outro dele mesmo.
Nome: RodrigoFbi 22/04/10 11:00
Eu realmente fiquei em duvida com os dois finais de NGE eu acho que a 1º(que assisti na animax) foi assim leve mais simples/leve/e pouca confusa pois depois de ler esse artigo eu entendi e a 2º foi mais pesada/mais gostei..

e sobre os filmes ja vi o 1.01 agora to para baixar o 2.0 "Apesar do spoiler monstro acima" ai voce sabe qual a previsao dos outros 2 filmes e se vale a pena ver o manga e onde posso encontra-los em PT-Br para baixar ?

desculpa se disse algo errado aki.

e por fim Exelente post.

Alexandre: Obrigado e desculpe – não dou links de pirataria em meu blog.
Nome: Lucas 20/05/10 03:53
Oi, tudo bem Alexandre? Eu mal assisti li ou assisti todos os episódios e mangás de evangelion, mas entendendo um pouco da história e apesar de ter começado a me interessar por mangás no ano passado eu consigo entender que tudo isso é puramente consequencia desse pensamento estilo "deixa a vida me levar". Eu queria que ainda tivesse uma esperança para esse mundo... Mas só Deus mesmo (me desculpe se for de outra religião ou sei lá;) para nos salvar. Eu tenho grandes sonhos e queria poder realizá-los, mas acho que é impossivel no mundo atual. Não cansarei jamais de tentar conseguir um mundo melhor para os meus filhos e etc. Desejo tudo de bom para você, ótimo texto. ^^ PS.: Achei esse site hoje e já gostei bastante, vou por nos favoritos.

Alexandre: Obrigado, Lucas. Seja bem-vindo. :)
Nome: Robson Lima 05/06/10 03:41
Ufa! Duas horas depois, texto e comentários lidos!

Antes de tudo, parabéns, parabéns e PARABÉNS pela análise cultural PESO de NGE. Não me considero otaku, nem fã de anime (pra ser sincero, eu sou é DCnauta rs); por isso tendo a apreciar animes pelos mesmos motivos que aprecio qualquer outra história - ou seja, enredo, roteiro, personagens.

Talvez seja por isso que nunca tinha me ocorrido essa interpretação que vc apresentou aqui, aliás, excelente sacada. Mas a mensagem de Evangelion, o "take care of yourself" (prefiro o titulo japones, A Besta que Gritou Eu no Coração do Mundo, pelo chamado à individualidade não-alienada), poderia muito bem ser captada fora desse espectro crítico à cultura otaku não?

Evangelion é pra mim um anime muito pessoal, tanto em concepção quanto em leitura, quero dizer, em primeiro lugar, um anime que fala de pessoas e seus relacionamentos, seus "laços/vínculos" que geram a si e aos outros e aquele monólogo todo da Rei no ep.21(?) - o "SEELE, Trono das Almas". A simbologia religiosa é, na minnha opinião, não uma "cortina de fumaça" mas um apanhado de símbolos norteadores pra significação da história. De novo: pra mim, pelo menos, é mais rico entender NGE pelo viés da simbologia judaico-cristã ressignificada no próprio anime. Eu SEI que não é fundamentalmente sobre religião, Deus ou qualquer transcendência que o Anno queria falar - dá pra sentir que, apesar de ter muita pesquisa ali, é só simbologia. Mas inútil ou enganadora, como uma "cortina de fumaça" poderia ser...? Eu acho que não...

Outra coisa. Cara, porque todo mundo tem essa coisa com a Rei? Eu sinceramente não consigo ver a Rei tão desumana assim. Mesmo no anime (desconsidere o mangá e o RoE nesse ponto) a Rei demonstra sentimentos e parece ter a noção, mais que qualquer outro dos personagens, da inevitabilidade de seu destino e da pequenez que ela tem aos olhos do Gendoh. Sim, ela só sorri para ele (Minto: ela sorri pro Shinji uma vez, no pós-Ramiel,é o ep.5 se não me engano). Mas é no episódio 25 que vemos o corolário "eu rezei esperando o dia que ele iria deixar eu morrer. Agora, eu já não tenho certeza" (ou algo do gênero,não to com o material à mão aqui =D), como se dissesse, "ok, eu acho que tem uma vida lá fora afinal não é?" - passo final de "ir lá fora e ver" que coube ao Shinji tomar.

A propósito, é viagem minha ou Rei é, naqueles dois últimos episódios, a "voz da razão" pro Shinji? Algo como o Anno falando através dela?

Em resumo: não acho a Rei tão boneca de carne assim. Também não é um arquétipo feminino desejável (por mim ao menos), fato. Mas qual daqueles personagens é exemplo de alguma coisa boa afinal? rsrs

Sobre as dicas de animes, do "pai" do Evangelion, do superflat, considerações avulsas sobre economia do Japão, pós-modernidade e feudalização pontual de sociedades pós-industriais, o sociólogo em mim te agradece muito! E o fã de boas histórias também! =D

É..acho que é isso. Sobre a Ritsuko que alguém falou lá em cima, tanto o que foi dito quanto seus comentários sobre aquilo subscrevo. Dos personagens adultos, é com quem rola mais identificação.

Abs!

Alexandre: Olha, em muitos aspectos, a Rei ganha variantes de versão em versão. Me atenho em muitos aspectos a série original para fazer o julgamento e no meu entender a Rei quando quase mudou, teve seu plugue puxado para que se mantivesse como é. É coerente dentro dessa premissa e antecede (e de forma melhor executada) o que Mamoru Oshii tentou passar em Sky Crawlers. Infantilização para ser desejável dentro desse ponto de vista, precisa ser imposta e eterna.

Ainda acho uma cortina de fumaça. Parte da brincadeira – podemos falar nesses termos – é essa: inserir significados e simbolismos maiores para manter a discussão perene. Talvez ele tivesse essa intenção no começo e a longo prazo, mas uma vez que a série vinha sendo escrita a medida em que ela era produzida, a reação do público pode ter feito Anno reagir adversamente – na verdade tenho quase certeza que foi isso o que aconteceu. O que vejo nos últimos capítulos é isso: ele começou a dissipar a fumaça. Pode perceber que essa discussão vai perdendo importância.

De mais, obrigado. :)
Nome: Gabriel Lez 17/06/10 11:35
Excelente artigo! Como poucos que eu já li nos últimos anos, talvez. E também excelente interpretação do significado de Eva, que faz muito sentido.
Mas, apesar de eu achar que a sua interpretação seja a melhor e mais adequada para se falar de Eva, também acho que ela se presta a interpretações diferentes, que envolvam religião, mitologia, geopolítica atual, etc.
É uma série multifacetada nesse sentido, e não conheço muitos que vejam nela algo além de "robôs gigantes versus anjos mais minas gostosas problemáticas".
Além disso, o artigo é muito esclarecedor, e creio que reflete uma realidade que ultrapassa o Japão, indo de encontro a uma visão geral ânimo da maior parte da população mundial.
Infelizmente, vejo que a apatia, juntamente com a alienação, tornaram-se um modo de vida para muitos.
Como esse embaraço vai se resolver, eu não faço a menor idéia. Mas, como o primeiro para a solução de uma dada situação é perceber a realidade, acho que o seu texto ajuda a dar o primeiro passo nessa direção.
Um grande abraço, e continue assim!
Nome: Eric Abillama 16/07/10 09:33
Caríssimo senhor "Lancaster",
Quero te parabenizar pela leitura perspicaz sobre Evangelion, e posso garantir - e reforçar o comentário de um dos inúmeros leitores acima - que este artigo é SIM divertido. Foi um banho de água fria e é importante pois nos empurra para pararmos um pouco e refletirmos (bastante) sobre a mídia dos Anime/Manga.
De fato, a média das qualidades dos enredos na Arte Sequencial Japonesa sofreu muito nessas últimas décadas, onde até franquias como Fate / Stay Night (da renomada Type-Moon, salve salve Nasu Kinoko) que, embora tenham ótimos backgrounds e explicaões bem detalhadas para diversos elementos em seus enredos andam apelando para FANSERVICE, e isso é um tanto constrangedor, pois sou apreciador (quase) assíduo dessa cultura e gosto de levá-la a sério, mas devida a imagem que é vendida comumente hoje em dia, cada vez mais o manga expele uma atmosfera de produto e não de expressão artística (tanto que já senti "barreiras" até no curso de Artes Visuais).
Portanto, após essa minha longa divagação (perdoe-me a enrolação lol), quero agradecer por você ter escrito o artigo com tanto ímpeto nas palavras e com notável seriedade. Parabéns e continue com o bom trabalho. =D
Atenciosamente, Eric.
Nome: Setsuna 03/10/10 02:48
Li todo o texto. (depois lerei os comentários dos outros leitores)
Sabe o que é mais triste? Essa praga chegou ao Brasil. Essa praga = esse tipo de comportamento. Gurias com orgulho de ser tsunderes e homens que gostam de ser apáticos e cujo sonho é o tal do harém. E o mais incrível é que tu vês esse tipo de gente em uma classe bem específica da sociedade brasileira...

Alexandre: Você não é a única a me dizer isso – o que é assustador.
Nome: Leandro 13/10/10 07:37
Excelente texto! Cada vez que acesso o site quando posso encontro muita coisa boa.

Quanto a EVA, eu apenas associei o ep final ao Shinji e que seria bom pra pessoas como ele, não tinha conseguido relacionar com a sociedade jovem japonesa, até porque tinha muito pouco acesso a animes naquela época.

Segue a dica do Nagado quanto ao formato do site, as vezes demora muito pra carregar.
Nome: Thiago dos Santos 24/11/10 11:47
Simplesmente incrível. Nunca tinha sacado isto antes. E depois que li sobre EVA busquei sobre FLCL e também estou estupefato. Mas gostaria de perguntar:
1° O que é, de fato, ser adulto?

Alexandre: Não é uma resposta fácil, mas acredito que passe por ser dono de sua vida, ter opinião e não se alienar – fazer parte do mundo ao redor.

2° Ser um adulto psicologicamente maduro, implica necessariamente em fazer sexo, ou encontrar a mulher da sua vida? Pergunto isso por que eu gostaria de saber se posso ser adulto e ser indiferente ao sexo? Por exemplo, transformar a energia sexual em trabalho ou em arte, tal qual as pessoas que sonham em mudar o mundo.

Alexandre: Se isso for uma decisão consciente, é sua decisão e de mais ninguém. Mas se "ser indiferente" for apenas uma forma de fugir de suas pulsões sexuais, você está negando a si mesmo. Acredito que ser adulto seja encarar o que você é e tomar posição ativa em cada um dos aspectos de sua vida. Mas isso é uma decisão pessoal de cada um.
Nome: Henrique 13/01/11 04:56
Em primeiro lugar, parabéns pelo artigo! Revi a série depois de muito tempo e por sorte encontrei sua pagina! Posso dizer que concordo com suas idéias. É bem claro que a parte final da animação tem mais relação com o espectador do que com o enredo, digamos, superficial da trama. Ainda assim, me sinto parte atuante da cultura de massa e consumo (não necessariamente otaku). Na minha visão, o pecado esta na falta de moderação, no extremismo. Penso que até a alienação tem um lado positivo. As vezes acredito ser necessário desligar o cérebro e ver só robôs gigantes batendo em monstros alienígenas...

Alexandre: existe uma diferença entre escapismo e alienação. Todo mundo precisa de sua cota de escapismo. alienação é quando o escapismo corta suas pontes com o mundo.
Nome: Luciano 01/02/11 02:40
Estou de queixo caido. Vou imprimir o texto juntamente com os comentários e mandar para uma amigo fã de NGE. O seu texto é excelente, mas não só isso. Os comentários são extremamente inteligentes. O que mostra que seu público é bastante esclarecido. Sou um dos tantos que viram o anime e ficaram boiando com o final. Assisti ele a 10 anos atrás e felizmente achei uma interpretação digna antes de morrer. Obrigado.
Nome: Kauê 12/02/11 03:05
Alexandre, espetacular sua análise. Ficou nítida que foi fruto de profunda reflexão pessoal, não apenas maturação do que já havia sido mastigado.

Como criador de um blog que trata de assuntos semelhantes, fico envergonhado com o conteúdo (e com a forma) com o qual usualmente atualizo-o, ao me deparar com textos como esse ou o que aborda a temática Superflat.

Realmente tenho interesse em ler sua monografia. Já pensou em disponibilizar ao público?

Alexandre: Obrigado pelos elogios. :) Quanto a monografia, realmente pensei nisso, mas como ele é um texto acadêmico e eu gosto da ideia de tentar chegar a mais pessoas, penso seriamente em partir da monografia para criar um texto mais abrangente e ao mesmo tempo mais simples de se ler.
Nome: Spider-Phoenix 11/04/11 11:38
Excelente artigo como sempre. E além do artigo, também quero parabenizar a todos que comentaram. Os comentários são muito pertinentes e realmente acrescentam muito.

É desse tipo de discussão que eu gosto: falamos de forma passionável sobre um gosto em comum, mas sem cair na linha do fanatismo, do "só pode ter criticismo com o que a massa não gosta e não pode ter criticismo com o que a massa adora". Acho que isso é o melhor. Colocar argumentos. Defender teses. Mas tudo isso, com cada um respeitando o outro e pondo seu ponto de vista.

Agora sobre o artigo, propriamente dito, o achei excelente, mas alguns comentários que eu queria expressar:

Lembro de ter lido que no Rebuild, o Shinji tinha ganhado um level "badass". Mesmo não assistindo, a impressão que eu tive é que o personagem se tornou mais ativo.

Se isso pode ser confirmado, então seria o projeto "Rebuild" uma tentativa do autor de, como o significado do nome - reconstruir - indica, usar o seu fenômeno de maior sucesso para reconstruir o perfil do protagonista jovem e pró-ativo? Será que esse projeto é uma tentativa de "reconstruir" a intenção original do autor? Usar o fenômeno para reconstruir o "estrago" que o dito fenômeno causou no passado. "Reconstruir, usando a própria descontrução". A tal da segunda chance.

E por falar em mensagens subliminares, agora lembrei de ter folheado uma vez, na banca, um manga de Evangelion. Tinha uma parte em que o Kaworu Nagisa beijava o Shinji na boca (!), e aí o Shinji empurrava ele usando a frase "homem não gosta de homem". Lendo esse artigo, me faz pensar se isso seria uma critica ou, simplesmente, uma simbologia do que o modelo de personagem do Shinji se tornou, ou o que esse modelo pode vir a gerar. O que você acha?

Alexandre: Eu acho totalmente plausível. O capítulo 24 do anime apontava para essa emasculação do personagem, como se fosse um caminho natural para o processo de fragilização em que Shinji estava se afundando. Já o rebuild mais e mais parece levantar a teoria da segunda chance mesmo, de que não é um remake, mas uma continuação. Nesse sentido o "Rebuild" ganha um novo sentido: é a saga da reconstrução de Shinji como pessoa, alguém que afundou ao longo de toda a série e no final reagiu. Agora ele está tendo a oportunidade de se refazer. Ainda é deprimido, ainda tem marcas, mas não é mais o invertebrado de antes.

PS: sobre o comentário da "Mari RBD", sabe que só agora eu consegui ver a semelhança. Pela descrição que eu li dela , ela me lembra um pouco a Roberta Pardo da referida novela (que no BR ganhou a excelente performance da dubladora brazuca, Flavia Fontenelle).

Alexandre: a nível de marmanjo não reclamo da Roberta Pardo. ^ _ _ _ _ _ ^

Abraços e desculpe ficar mandando comentários para postagens antigas, mas achei pertinente expor meu parecer.

Tudo de bom ^^

Alexandre: ao contrário do que possa parecer, não tenho problema nenhum com postagens antigas. Quem escreve quer mais é ser lido.
Nome: Erico Galindo 22/06/11 04:18
Realmente muito bom o texto, acho que pegou quase que impecavelmente a essencia da mensagem de Eva.

Faltou apenas citar dentro do texto que Hideaki Anno se afastou do mundo otaku justamente no final da produção de Nadia em 1990~1991. Nessa epoca ele embarcou em uma jornada de auto-conhecimento com psicanálise ocidental. Nesse período de elucidação é que ele se afastou do público Otaku finalmente e resolveu fazer Evangelion explorando os aspectos Parasitais, conformistas e autistas desse fenômeno que é a depressão do século XX gerado pelo liberalismo econômico, ainda mais acentuado no japão.

Alexandre: o fato dele ter feito terapia é novidade para mim. Ainda mais levando em conta que o final de Nadia, se analisarmos friamente, tem um tom de despedida da infância e fim de um tempo.

Todos os elementos de teoria de conspiração, Anjos, Kabala, Robos gigantes orgânicos e uma Grande mãe ao qual o protagonista edipicamente se une e quase fica lá para sempre (tanto a Rei gigante como a Unidade 01 no episódio 20), representam essa fuga adolescente (imatura) da realidade. Várias vezes no EoE e no final da série o termo FALSA REALIDADE, (uma realidade mais fácil, escapista) é usada. Sempre vi os simbolismos como dicas Psicanalíticas dos processos de evolução do personagem, como Kaworu que representa o amor destrutivo pelo próprio pai, mas achei interessante por exemplo a suas comparações de nível econômico/social, como o primeiro impacto sendo a bomba atômica, e o segundo impacto a crise econômica japonesa. Sendo uma obra simbolista creio que há espaço sim para esse interpretação e até me pergunto se essa foi a intenção de Anno na criação de seu universo.

Alexandre: uma coisa não impede a outra. Um homem é fruto de seu meio; quando se emerge de um estado de alienação, o seu primeiro passo é olhar para o mundo ao redor e ver o que está acontecendo. É como comparar o Final Cut (que é menos o último disco do Pink Floyd do que o primeiro disco solo do Roger Waters) com o Radio K.A.O.S., o primeiro solo oficial do Waters. Talvez possamos traçar o Radio K.A.O.S. com uma linha direta com The Wall: o que um homem alienado faz quando os muros em que ele sempre se refugiou caem de vez?

Comparativamente podemos ver dessa forma: Anno fez seu The Wall e sempre retorna a ele. Mas falta a ele fazer seu Radio K.A.O.S.


Enfim, muito bom seu artigo.
Ass: Um fã de Evangelion pelo seu lado psicanalítico.

Érico,
Sephirotic.

Alexandre: obrigado. :)
Nome: Romulo 18/08/11 05:40
Cara, por incrível que pareça só assisti os episódios originais de NGE só agora (faz 2 semanas) e confesso, fiquei babando no final, foi show de bola (top do paraná, como se diz aqui)! Caraca velho! Como alguém teve coragem de fazer um final daqueles!
Nunca li nenhum mangá nem fui muito fã de anime. Até então tinha lido muito Superman, Novos Titãs, Watchmen (o melhor!) etc. mas perto de NGE, DC Comics é estorinha de criança! NGE me despertou (mais uma vez) a vontade de ler hq (mangá;) e olhar por uma outra ótica as estórias. De uma vez por todas, comprei finalmente o BD do Akira e do Rebuild Eva 1.11 e 2.22. Tenho 28 anos e não sendo mais criancinha consegui entender muita coisa da série original, desde o começo sabia que não tinha nada a ver com religião, como muitos ainda insistem. Mas confesso que não fui tão fundo quanto vc. Mas de certa forma, conhecendo um pouco dessa cultura dos anos 90, Anno tem toda a razão de dizer "Levantem da cadeira, seus idiotas" (Lembro-me de Asuka dizendo repetidas vezes "Baka Shinji"!!!)

Parabéns pelo texto! Excelente!

PS: O que saiu de NGE oficialmente em português? Somente o Rebuild? Vou ter que assistir o resto em Inglês mesmo?
O mangá já está em mãos XD!

Abraços!

Alexandre: só o rebuild – o primeiro em blu-ray e dvd, o segundo apenas em dvd (sim, eu comprei o primeiro blu-ray e me sinto lesado pela Paris Filmes).
Nome: Night 18/09/11 06:44
http://f.route01.net/topic/14494-neon-genesis-evangelion-o-terceiro-impacto-no-mundo-real/

postei também no fórum da subete, veja ai e me diga o que acha.
ps: excelente review, mas acho que pra deixar mais claro o sentido tem que fazer a menção de que o fim do anime de Evangelion na verdade se passa durante o filme The End Of Evangelion, coisa que pouquíssima gente percebeu (como por exemplo já ter o Gendo sem braço, a Misato e a Ritsuko já mortas e depois a mudança de atitude do Shinji quando ele sai do olho do Adam "Rei-mode" com o EVA 01)

Alexandre: É uma observação válida, mas vamos ser sinceros: o artigo já estava grande demais e eu estava abusando dos spoilers – procurei me limitar aos spoilers fundamentais para meu ponto.

E a propósito, com você, acabamos de chegar nos 75 comentários desse post. Incrível como ele ainda mostra vida e continua, paulatinamente, a ser lido e comentado.
:)
Nome: Night 19/09/11 02:17
Concordo, mas é ai que a maioria deixa de entender Evangelion, por ficar perdido e simplesmente falar "não entendi, não gostei, é lixo mimimi". Nem sequer tentar tirar alguma mensagem, nem que seja sem saber o contexto externo e as intenções do autor na qual a obra foi criada, nessa perspectiva Evangelion vira só um anime diferente com um final estranho e falho (como a maioria acha).
E sim, esse post foi foda, Eva é foda.
Nome: VIncent Law 20/09/11 01:03
Lembrando que certos autores não conseguem entender as vezes o seu próprio trabalho, como também, cria ligações sem ao menos dar-se conta disso.

Como um criador que quando termina um primoroso trabalho vem pessoas que apontam certos detalhes, que por sua vez, o público enxerga com certa facilidade enquanto o autor não tinha notado aquela visão das demais pessoas.

O que eu quero dizer, é que, a visão do criador fora guiado pelos seus sentimentos quando chegou naquele ato. É quando nos obtemos um desgaste quando vemos algo "diferente" de muitas obras criadas por aí, então é de espera o "alívio" do criador.

Se achamos aquela criação tão bela, acho que se eu der um tempo a ela, e voltar novamente para este trabalho, creio, que daremos e melhoraremos o aspecto de tal coisa.

A nossa visão sempre muda. O nosso conceito é as vezes mundanos, mas quando estamos em risco (criando algo para uma empresa, devemos ser rápido no trabalho) numa criação, não podemos nos dar o luxo de analisar certos aspectos, nem mesmo o que o público poderá vir a achar daquela visão do autor.

Embora quando eu digo que o risco de trabalho é a maior "agulha" de um criador, devo dizer que isto depende de cada autor, já que o anime Evangelion venho de um mangá, no entanto esta é de outro autor.

O final do anime, poderia ser dito, da mesma complexidade que a série Lost. Filosofia, mesmo para os mais experientes poderão se confundirem com as enxurradas de conjecturas que há muito por aí.

Talvez, uma visão minha, o final deste anime seja por mostrar que os anjos e humanos, ou melhor, toda estrutura do universo, seja a natureza primordial da criação. Anjos, seria o salvador da humanidade, mas não foi bem isso, todavia os humanos quiseram destruir a maior arma da humanidade, já que esta confrontava os ditos anjos.

Quer dizer: Lúcifer (anjo) era bom, mas começou a ter ganância pela lógica de Deus (dizendo que humanos são superiores), então o tal anjo confrontou as regras do ser "maior".

Claro que há toneladas de conjecturas, e menos fatos.

Excelente matéria, ou melhor, divina.
Abraços.
Nome: Daniel 12/11/11 02:24
Perfeito! Finalmente encontrei alguém
que pensa ígual a mim!
Parabéns pelo texto, muito bom, era disso que eu precisava ler pra ter certeza que eu não estava enlouquecendo.
Arrebentou Nota 10!!!
Tem muita gente que não entende o final normal, e fica falando que Evangelion é ruim e tal'z, taí,o cara que mostrou porquê Esse animê É o Melhor de Todos os Tempos!

Alexandre: eu não diria que é o "melhor de todos os tempos"; diria que já alcançou status de clássico e é o mais importante de seu tempo. O problema é que esse tempo ainda não acabou.
Nome: Carlos 12/11/11 06:58
Parabéns Texto íncrivel!
A propósito, Teria, na sua opinião "o melhor de todos os tempos" Se tem qual seria?

Alexandre: complicado dizer. Isso porque tudo tem questão de contexto: Ashita no Joe foi um desenho extraordinário, mas foi uma animação de 1971 e muita gente a julgaria por parâmetros de hoje. Não dá para julgar dessa forma. Lenda dos Heróis Galácticos é outro grande desenho, mas que poderia ser dispensado por muita gente por seu ritmo lento (eu diria realista, porque na vida real as coisas não se resolvem de uma hora para a outra) e animação igualmente datada. Akira é igualmente reverenciado, e tecnicamente sobrevive, mas... o ponto é que uma coisa é listar os mais importantes (e Evangelion fatalmente estaria lá; ele realmente alterou o que veio depois, é marco); outro, os favoritos; outros, os mais revolucionários etc.... mas "melhores" é um critério muito, muito subjetivo.
Nome: Junior 13/11/11 01:40
Parabéns Mais Uma Vez...
Tudo De Bom Para Você.
Felizmente Temos Um Site Maravilhoso Desse Pra Ver Textos Bem Construídos E Empolgantes.
Nome: Carlos 11/01/12 09:42
Eu queria saber qual é o problema em ser um herbívoro, o que tem demais em querer viver uma vida sossegada? Vivo minha vida tranquilamente, sem preocupações. Namorada só serve para te dar despesa (ir no cinema, comprar presentinho, levar para passear,etc.), é muito mais fácil ir numa balada e ficar com garota numa noite ou ainda se sentir vontade de transar é só pagar cenzinho para uma profissional do ramo do sexo, sai mais em conta do que ficar aturando alguém te enchendo o saco toda hora, apesar disso tudo não sou daqueles que gostam de ser maltratados pelas mulheres, se me agredir de qualquer forma vou retaliar independente do sexo

Esse conformismo nada mais é do que um reflexo do destino da humanidade, é mais do que claro o definhamento do mundo, então para que se esforçar se sabemos que o desfecho é o fim de tudo isso. É muito mais fácil deixarem as coisas seguirem seu curso natural do que se esforçar e quebrar a cara mais para frente. Estou muito satisfeito com o meu modo de vida, ninguém me perturba e eu não perturbo ninguém, se todo mundo cuidasse exclusivamente da sua própria vida o mundo seria um lugar muito melhor, mas como as coisas não são desse jeito a humanidade caminha para o fim, então o melhor a se fazer é deitar na rede, ler um bom livro e deixar que o mundo caminhe para o seu fim.

Sobre Evangelion, para mim é um bom anime nada mais do que isso.
Nome: Victor Diomondes 18/02/12 03:12
Olá. Pesquisando sobre Evangelion acabei chegando a esse artigo... uns dois anos depois de escrito. Fico feliz, pois seu texto abrange dimensões que não são tocadas por muitos fãs, e de uma maneira bem direta e completa.

Antes de serem produtos direcionados ao entretenimento, animes e mangás são produtos culturais conectados a sociedade que os cria. Seu texto deixa mto claro o fã que há em vc, mas tb mostra uma visão lúcida.

Evangelion me estimulou como fã, mas me tocou como produto artístico quando vi End of Evagelion... e isso aconteceu por que não tinha assistido aos episódios finais do anime. Quando os vi, não me irritei. Achei uma alternativa corajosa e criativa para finalizar a história de crescimento de Shinji - o real foco da série.

E seu texto me ajudou a ver que Shinji é uma metáfora para o otaku imaturo e covarde levantar e fazer a própria vida. Chega de esperar garotas caírem no seu colo rapaziada, pois é necessário lutar pelo que se quer!

Niilismo como atitude e comportamento, e apatia como resposta... Alguém que tem que lutar para sobreviver em um acidente se permite chegar a lugar nenhum?

Alexandre: olá, Diomondes. O final original foi muito polêmico, e muita gente ficou furiosa. Não é preciso ir muito longe para perceber que a sociedade japonesa está doente, e se permitindo morrer por inação. No fundo o sucesso de um K-On! fala mais sobre esse estado de apatia e desespero do que se pode imaginar – é um cenário de auto-anulação total, e me lembra algumas teorias sobre o fim do Império Romano (guardando-se as devidas proporções, é claro) em que ele teria morrido na verdade por apoptose social: ao contrário do que se possa pensar, os bárbaros não queriam destruir o império romano; se admiravam por seu fausto e queriam ser como eles, fazendo com que eles entrassem no país e tentassem ser romanos a qualquer custo. Ao mesmo tempo, teria começado a haver uma grande queda de natalidade e impulso criativo durante esse período de decadência. Quando os bárbaros tomaram roma, a verdade é que o império estava caindo de podre e a sociedade romana já se encontrava apática. Grosso modo, os japoneses já apresentam muito desse perfil – e sua cultura pop se mostrou reprodutível fora do Japão. O problema é que os japoneses parecem impermeáveis a mensagens que revertam a situação; Gurren Lagann foi o anti-evangelion, feito pela própria gainax, mas no final, mesmo com sua popularidade, os japoneses parecem ter visto mais os decotes da Yoko e suas bonequinhas de pvc do que a mensagem embutida na trama...
Nome: lukinhas.killer 27/02/12 10:33
Parabens cara seu texto está ótimo, eu fiquei boiando um pouco no final da série, apesar de ter me tocado que o shinji finalmente tomou uma "iniciativa" mais nunca refleti muito sobre isso!

só sei da cultura japonesa o que vejo na TV, mais me parece que os jovens de lá criam personagens e vivem nessa fantasia quase que todo o tempo, pra fugir da realidade como você disse!


[]s
Nome: Fernando 02/03/12 12:46
Olha vou te contar ... seu texto ta perfeito!!
Na época que eu vi os últimos episodio de EVA, eu consegui reparar em quase tudo que você falou(menos no caso da Asuka e da Rei pois não sabia muito sobre anime naquela época e a situação do público otaku japonês). Mas, reparei na mensagem do "Acorde!!! O mundo está aí!! Pessoas sofrem, porém continuam suas caminhadas! Faça sua escolha/decisão!!". Isso na série normal não nos filmes.
Na parte que você fala dos animes de 2010 que a gente se pergunta "Será que alguém vê isso?", eu comecei a dar risada. O mais tenso é que isso te faz pensar "Será que as pessoas estão ficando mais burras ou com uma preguiça de pensar tao grande?", o que será que vai ser dar gerações futuras?, vegetais ambulantes que não possuem senso de opinião e que são facilmente controlados, que gostam que o roteiro seja entregue de bandeja e acaba sendo repetitivo ao extremo (Marvel, Dc,animes shonen geral, geração Ben10, etc)? Será que serão uns "Baka Shinji"? (digo isso n só dos otakus japoneses mas para o mundo em geral, principalmente os brasileiros)
PS: Já gostei muito de animes/mangá shonen, mas cansei preferi animes com temas melhores e mais envolventes. Sou um fã da série Fate (/Stay night, zero,etc), por causa do conteúdo histórico do anime que eu gosto muito( gosto de pesquisar sobre os personagens representados no anime XD). Gosto de Kara no Kyoukai também.
O engraçado foi que animes que me surpreenderam foi os que eu julgava serem chatos ex:
Valkyrie chronicles, achei que seria uma m@#da, porém, o fato de ser baseado na II Guerra me fez gostar bastante do anime (das descoberta das valkyrias, bombas atômicas, ao tratamento dos darcsen, acho q escrevi certo) me surpreendeu bastante;
Shiki, pensei que seria mais um anime de vampiros românticos que são sedutores e sugam o sangue(o rly) de menininhas inocentes ... mas o que eu vi gostei muito. Vai um pequeno spoiler agora... O fato do anime mostrar que ambos os lados , humanos e vampiros, tem interesses diferentes, a vontade de viver e a de se alimentar, me agradou e me surpreendeu revelando que não existe o certo ou errado só ideais diferentes que podem ser julgados pela sua maneira de vivência. E o anime te deixa escolher quem seria o certo ou errado. O que na verdade pra mim como já disse foi um roteiro genial. Além do fato de possuir o foco em vários personagens não só em 1 principal e os outros de reserva(gostei muito, a unica coisa que desanima são os cabelos )
Sem falar no Clannad After Story que a história e tão boazinha e tão bem contada que me fez até chorar(olha que eu pensei que seria daqueles animes harém, o que não deixa de ser em grande parte da 1 temporada,mas, porém, contudo, todavia, after story que é a 2 temporada possui muito mais conteúdo).
Roteiros inteligentes como Stein Gates também são muito bem vindos e fazem uma falta.
Enfim meu post ficou muito grande huahuahua

Alexandre: te garanto uma coisa: os animes que você disse que você gosta, na sua maioria, são reflexo justamente da postura daqueles que o anno criticou abertamente, dirigidos para estes. São parte do mar de papinha. ;)
Nome: Eduardo Dupim 23/04/12 05:19
Acabei de ler este artigo, descoberto através do link no artigo de despedida de Bakuman. Só uma coisa a dizer:

Assustador.

Alexandre: e na verdade, é mesmo.

O trecho em que você sintetiza sua interpretação através da "mensagem de Anno" é muito pertubador. Parabéns pelo texto e pela análise.

Agora, não seria o sucesso de "One Piece" uma reação, ou ao menos, um desejo de reação por parte da sociedade japonesa?

Alexandre: é uma boa pergunta. Talvez seja, sim; o cenário de One Piece, olhando friamente, é um dos ambientes ficcionais mais opressores dos quadrinhos, um "se correr o bicho pega e se ficar o bicho come" sem solução aparente – é estar à mercê de piratas assassinos ou de um governo mundial opressor e corrupto. O que mascara essa percepção é a atitude "para cima" dos personagens, que cava esperança nas piores situações possíveis. Mas se for – veja bem, se for – seria também um sinal de que os japoneses não tem ideia de como fazer essa reação em si. One Piece viraria, assim, um beliscão provisório de que alguém pode vir a socorro e mudar pelo menos as partes, o que é melhor do que nada caso o todo permaneça o mesmo.

A menos, é claro, que Oda esteja reservando uma surpresa MUITO grande para os leitores. E isso seria também o fim da era dos Piratas.
Nome: Eduardo Dupim 23/04/12 05:32
Correção do meu comentário: não foi no artigo de Bakuman, achei este artigo através do link do artigo de Gundan AGE.

Abraço

Alexandre: Okay, confirmado. :)
Nome: Tarcísio Meneghetti 28/04/12 07:47
Antes de mais nada parabéns pelos excelentes texto e blog! Gostei muito da profundidade com a qual você aborda os temas, contextualizando-os socialmente e culturalmente.

Alexandre: obrigado, Tarcísio. Sinta-se à vontade. :)

Bom, o que escrevo são mais reflexões e considerações a partir do que você disse.
Primeiramente penso que não precisamos restringir Evangelion à cultura otaku, porque mais do que isso ele é um zeitgeist de grande parcela da sociedade, e não apenas do Japão. A obra praticamente antecipa o cenário dos anos 00. Os personagens são bananas e fracos, sendo Rei não apenas uma boneca, mas a expressão de quantos corpos sem almas caminhando por aí. Shinji é um anti-herói que jamais decide completamente enfrentar a própria vida, acabando sendo sempre forçado, guiado, estimulado por outros, e sempre em busca de retribuição afetiva, nunca de modo sério. Além disso há a instabilidade emocional sempre vinculada a questões sexuais e/ou familiares.

Alexandre: é uma forma de ver, mas temos que levar em conta também o contexto de onde veio Evangelion e sua origem. Mas isso que você falou também é possível, e não me espantaria se o fenômeno otaku japonês tivesse funcionado como uma espécie de test-drive reacional de problemas que se refletiriam posteriormente na sociedade.

Os episódios finais podem ser meio trapaceados, mas também ilustram muitos aspectos essenciais. O discurso final do Shinji sobre a existência de tantos Shinjis (Shinji na visão da Rei, Shinji na visão da Asuka, etc) é outra realidade evidente: nossa preocupação é maior com o que pensamos de nós do que nós mesmos. Para Shinji o Shinji que existem só nas cabeças dos outros vale mais que ele mesmo, o único Shinji verdadeiramente existente.
Mas para mim esse é um mérito grandioso da obra. Evangelion é o zeitgeist e pode ser o cavaleiro do apocalipse sim, mas se não fosse ele, chegaria outro cavaleiro da mesma forma e o resultado seria o mesmo. Evangelion ao menos externalizou isso. Tsunderes existem aos montes por aí, os novos animes apenas ajudam a visualizá-las.

Alexandre: bom, podemos considerar que os sintomas já existiam ou viriam a existir no período. Basta pensar em Love Hina, que eu citei.

Comparando com heróis antigos a diferença é realmente abissal. Enquanto antes cultuava-se o corajoso, o decidido, agora temos o fracote do Shinji. No entanto, se pegarmos obras posteriores a coisa fica ainda pior. Por que antes um Shinji que é fracote e tenta mostrar nossa fraqueza que Luffys ou Narutos, figuras vazias que transmitem pseudos-mensagens de valor mas que no fim não passam de meras criações que visam estritamente o consumo. “Busque seus sonhos”, “prove aos outros o seu valor”, isso aí é sair do -2 pro -1, é abaixo do zero, são mensagens óbvias que além de não ajudarem nada ainda alienam, encobertam, porque não mostram ao leitor o seu lado Shinji.

Alexandre: mas o Shinji foi criado para provar um ponto. Podemos dizer o mesmo de seus sucessores? Não. Muitos deles encamparam o personagem como mais um arquétipo de identificação – e isso é apavorante. Quando você cria algo com função desconstrutiva, ele não é exatamente um arquétipo no sentido normal da coisa. Um Comediante em Watchmen é algo genial porque expõe justamente um discurso político embutido em muitos personagens dos quadrinhos americanos e mostra o que esse discurso alimenta não é nada bonito. Um Chapel de Youngblood – horrível como quadrinhos, mas elucidativo quando se pensa em seu público – se torna assustador porque mostra que ninguém entendeu a desconstrução e um personagem assim pode ser... "maneiro". Putz.

Respeito muito Evangelion por isso. É uma obra que transcende sim o comum, porque consegue captar o espírito de uma época e transmiti-la, da mesma forma que faziam antigos tragediógrafos gregos, Shakespeare, Dostoievski e outros. Não estou comparando Anno a esses autores não, longe disso, apenas utilizando-os pra mostrar que Evangelion supera e muito o mangá tradicional, porque torna-se porta-voz de uma verdade atual. O problema é que nós vemos, gostamos, e em vez de mudarmos e não sermos Shinji, viramos Shinjis, Reis, Asukas, etc.

Não é só o Japão. A alienação, a instabilidade emocional, a falta de certeza, a falta de sentido, a falta de decisão e autonomia, tudo isso são características globais hoje, sobretudo de nós, jovens.

Aliás, não tenho saco mais pra plágios da Rei em tantos animes. Uma personagem sem alma e caricata sendo copiada infinitamente é apenas doentio, porque fala mais do público que a consome do que dela mesma.

Alexandre: então você pegou o ponto. Mas não desvalorize o mangá/anime tradicional; há MUITA coisa boa nele, embora os animes em especial não vivam um bom momento. Nem um décimo dos materiais realmente relevantes chegou ao Brasil.

Só uma coisa. Você diz que é furada observar referências religiosas e similares, e a única coisa que importa é a metalinguagem referente à cultura otaku. Ok, mas acho que se formos interpretar a obra em si mesma não há como ignorar que há múltiplas influências, sobretudo existencialistas. Não lembro de tudo agora, até porque faz tempo que vi/li, mas recordo de várias referências a Kierkegaard. Certamente são mais referências do que a essência da obra, mas também ajudam a entender o universo simbólico da mesma. Acho que tanto exagerá-las como ignorá-las são atitudes equivocadas.

Alexandre: eu não nego que elas existem, mas acredito que em muitos aspectos aquilo se tornou cortina de fumaça. O próprio Anno fez parte da primeira geração otaku (aquela alimentada por Gundam e Patrulha Estelar) como fã, e se desencantou com ela. Acredito inclusive que o Rebuild, que é interessante, é um reflexo do fato de que Anno hoje se encontra mais maduro, fez terapia, está casado e tudo o mais.

Enfim, acho que fui meio sério demais, mas seu excelente texto deu liberdade a isso hehe

Abraços e continue escrevendo vários desses ótimos e inteligentes textos!

Alexandre: obrigado de novo e volte sempre. :)

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