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Jan 15

Omoide Emanon, de Kenji Tsuruta

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Lancaster | PERMALINK | 11

Categorias: Artigos e Reviews

Emanon

Kenji Tsuruta é um dos meus autores favoritos de mangá. Ele também é meio que pouco conhecido fora do Japão, então não pensem que ao falar dele, vão encontrar alguém que marcou a história dos quadrinhos japoneses ou coisa parecida. Quando falamos de nossos autores favoritos, entramos em um terreno para lá de pessoal. O trabalho de Tsuruta entra nesse espaço pessoal que reservo a esses criadores que não menciono para mostrar sua relevância; menciono pelo mero fato de gostar muito deles.
Pensando bem, eu falo muito pouco das coisas que realmente gosto, para falar a verdade.

Spirit of WonderUm Pouco sobre o Autor

Conheci o trabalho de Tsuruta através de sua obra mais famosa: Spirit of Wonder, serializada originalmente no almanaque para adultos Afternoon da Kodansha. Spirit foi publicada de forma incompleta no ocidente, é verdade, mas ela tinha uma estrutura que permitia isso: era uma coletânea com três histórias. A mais conhecida delas, que envolvia um jovem inventor apaixonado por sua senhoria – e que lhe dá a lua de presente, literalmente – ganhou uma edição fechada pela Dark Horse nos Estados Unidos e é essa a edição que tenho aqui em casa. Sua arte é clássica e requintada, mas com o tempo ganhou um aspecto que aparentemente a olhos desavisados pode parecer um pouco mais largado em relação ao seu estilo em Spirit, só que na verdade se tornou apenas mais espontâneo e adicionou até um charme mais natural ao seu trabalho.
Só que a obra de Tsuruta não se limita apenas a isso. Ele tem uma presença constante como ilustrador de ficção científica (e fantasia, mas é pela fc que seu trabalho se tornou mais conhecido), pelo qual faturou prêmios especializados como o Seiun – uma espécie de equivalente nipônico ao Nebula americano – e o prêmio Hayakawa, que leva o nome da editora que publica a principal revista Kenji Tsurutado gênero japonesa, a SF Magazine, responsável por publicar no Japão autores importantes do meio como Samuel R. Delany, Kurt Vonnegut, J. G. Ballard e Bruce Sterling (cujo Difference Engine será lançado no Brasil em 2010 e faço questão de comprar o meu). Para mim não precisava de mais nada, mas para quem precisar de uma referência mais clara em termos de anime e mangá, ele foi o character designer da série Magical Shopping Arcade Abenobashi (Abenobashi Mahou Shoutengai) – e embora os traços da animação não façam juz nem de longe a seu trabalho (e o mangá escrito por Satoru Akahori e desenhado por Ryuusei Deguchi menos ainda), existe uma edição especial do material serializado na Afternoon que é assinada por Tsuruta. Não é um de seus melhores trabalhos e seu traço aparece mais simplificado, mas vale – um Tsuruta menor ainda é melhor do que a média.
Mas como eu disse lá em cima, é na ficção científica que o autor se destaca com mais força – e não por acaso, ele declara como uma de suas principais influências o trabalho do papa do gênero nos mangás, Yukinobu Hoshino (de quem já falei AQUI) – particularmente a série "O Tigre de Dentes de Sabre". E é neste ponto que chegamos a Omoide Emanon.

EmanonFicção Científica

Eu lembro particularmente desse material porque foi com certeza um dos primeiros posts que eu coloquei em meu blog. A história estava iniciando sua serialização na Comic Ryu, e quanto mais eu conheço material vindo dela, mais tenho a impressão de que é uma revista legal.
Emanon na verdade não é criação de Tsuruta. A personagem surgiu como um conto do autor de ficção científica Shinj Kajio, intitulado Memórias de Emanon (Omoide Emanon), lançado originalmente na revista SF Japan durante os anos oitenta. A intenção era parar por ali, mas o sucesso da personagem foi tão grande que os editores praticamente exigiram novas histórias com a moça sem nome que guarda a memória de toda a vida desde seu surgimento na face da terra – e isso não chega a ser um spoiler, primeiro porque aparece em todos os releases do material, e segundo porque o que conta aqui é a menos a história do que a forma que ela é contada; não há grande mistério aqui. De forma resumida: no final dos anos sessenta, em uma viagem de barco, um jovem – leitor contumaz de ficção científica (ele está lendo inclusive um romance de Curt Siodmak quando a encontra) – conhece uma moça, os dois se entendem, conversam longamente, ela some, ele segue sua vida sem jamais esquecê-la...

Emanon

...e treze anos depois, ambos se reencontram por um mero acaso em uma estação de trem.
Eu sei que essa descrição vai trazer à memória de muita gente aqueles filmes chatinhos do Richard Linklater (Antes do Amanhecer e Antes do pôr do Sol), mas uma olhada mais criteriosa revela que sua influência é outra. Emanon é praticamente um filme da nouvelle vague em forma de quadrinhos.
O que faz diferença é o que eles conversam.

Vivre Sa Vie

Para situar o leitor, não vou dar palavras. Não vou dar mais detalhes, mas temos uma pequena apresentação virtual que é bem esclarecedora...

… okay. não é tão esclarecedora assim, apesar de ser visualmente bem sacada. Então vamos traduzir isso em termos de sessão da tarde: Nouvelle Vague é cinema chato sobre pessoinhas chatas conversando – como eu defini em um post bem mais antigo, são filmes aonde cada minuto parecia uma eternidade, em que os personagens transavam por cinco minutos e discutiam a relação nos 115Emanon minutos restantes da película. Foram esses trabalhos que criaram um estigma de cinema-sonífero para o cinema francês (mesmo quando o cinema pop francês produzia materiais legais como os filmes com Louis de Funès ou pérolas como Le Viager – que teve roteiro do genial Goscinny, o cara errado a morrer da dupla criadora de Asterix) do qual foram salvos por um sujeito chamado Luc Besson, que lançou nos idos dos anos oitenta o clássico Nikita – salvando os gauleses da tirania do cinema de "autorrrrr". Se hoje a França faz filmes bacanas como Tudo Pela Honra, Rios Vermelhos e Wasabi, é porque alguém nos anos oitenta chutou o balde e mandou tudo para o inferno. Obrigado, Besson!
Só que eles também foram muito influentes. E por mais que "O Espinafre de Yukiko" de Frédéric Boilet e sua Nouvelle Mangá tenham sido vendidos como uma grande sacada, o fato é que as desconstruções visuais da estética (porque eles gostavam de mandar as regras estabelecidas de montagem, planos e decupagem às favas) acabaram sendo bem absorvidas pelos autores japoneses de quadrinhos da época – ou seja, a proposta de Boilet não apresentava realmente novidade. Mangás como Red Colored Elegy, de Seiichi Hayashi, e Lorsque nous Vivions Ensemble, de Kazuo Kamimura (não conheço o nome original desses materiais, então fiquemos com os nomes com os quais eles foram publicados nos Estados Unidos e na França), ambos do começo dos anos 70, absorveram muito desse espírito e não foram os únicos.
Agora, porque será que eu, que gosto de ver as coisas acontecendo, gostei de uma história sobre duas pessoas conversando e só conversando? Por que era um autor que eu já tinha predisposição a gostar? Não – eu adoro Slam Dunk de Takehiko Inoue e quem lê esse blog já deve ter reparado que eu não tenho a menor simpatia por Vagabond, por mais que eu seja fã da arte e da narrativa de Inoue. É porque definitivamente, Emanon (acrônimo de "No Name" – ou melhor, "Sem Nome"), quando abre a boca, não está falando sobre a vida e a morte da bezerra. Ela não é uma pessoa banal falando de coisas absolutamente banais, apesar da atitude completamente casual dela em relação ao mundo, e isso conta muito para que prestemos atenção em cada palavra que ela diz, como se fôssemos o jovem protagonista – cuja condição de fã de ficção científica lhe dá flexibilidade mental o suficiente para poder encarar a estranheza da história que ela conta.

Un Homme et Une Femme

Claro que a escolha estética do autor foi deliberada – é fácil imaginar isso como um filme, com as cenas que ambientam o cenário sendo filmadas por uma câmera móvel, em preto e branco (não consigo imaginar essa história sendo filmada a cores), de preferência com sequências meio aleatórias e quase jornalísticas filmadas em Super-8, sendo intercaladas de forma meio esquisita na montagem. Podem perceber que praticamente não há muitos flashbacks durante a longa narração – melhor seria dizer conversa – da Emanonjovem Emanon. As poucas sequências extras a aparecer durante sua narrativa não chegam a ser realmente sequências, mas flashes breves de eventos, sem narrar realmente uma história, como se apenas pontuassem de vez em quanto certos momentos narrados pela moça, e isso remete e muito a narração fragmentada de um filme como Hiroshima Mon Amour de Alain Resnais (que aliás sempre assumiu que as linhas narrativas de sua principal obra, O Ano Passado em Marienbad, foram inspiradas no Dick Tracy de Chester Gould). Isso porque Emanon também não conta uma história ao seu interlocutor: conta o que é e eventualmente fala de uma de suas existências pregressas (que nada tem a ver com reencarnação, mas ISSO seria spoiler; só posso dizer que a história é realmente ficção científica e deveria ser mostrada aos alunos de biologia nos colégios nas aulas sobre evolução).
Essa opção rendeu dividendos porque claramente a história é uninucleada como conto original e Tsuruta a retratou sendo fiel à época em que ela ocorre. Poderia ser um filme dos anos sessenta, mesmo. E é talvez um dos melhores roteiros que ele poderia ter posto em mãos: a personagem acabou se tornando protagonista de vários outros contos, mas a sensação que temos é que a história poderia ter acabado ali sem o menor problema.
EmanonO reencontro é a chave que esclarece tudo e que joga a história sob uma nova perspectiva, mas ele está dentro do espírito da obra em todos os sentidos. Afinal de contas, é apenas a história do encontro de um homem e de uma mulher. Uma mulher que não é normal, mas ainda assim é uma mulher. E um final que estabelece tudo como a história de ficção científica redondinha e irretocavelmente bem-amarrada que ela é.

E só para encerrar...

A história foi concluída e teve um volume só, mas como a personagem gerou outros contos, Tsuruta já pôs a mão na massa e iniciou um novo trabalho: Sasurai Emanon. O bom é que isso não deve ser visto como uma série – cada história é uma história. E sinceramente, lamento nessas horas que a Conrad não esteja mais na ativa como antes. Só ela lançaria esse material no Brasil, para livraria. Ele pede.
E Tsuruta já deveria ter sido lançado no Brasil. Mas infelizmente, como as vendagens de Seton e Sanctuary deixaram claro, ainda há um longo caminho até que o mercado amadureça o suficiente para publicar materiais como esse.
Assim como Tsuruta é um desses autores que merecem ser mais lidos, Emanon é um desses materiais que merecem uma chance do leitor. Mesmo parecendo um filme francês, da época em que filme francês era sinônimo de filme chato.
Talvez até para mostrar que esse tipo de história não precisa ser chato.

Emanon

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Comentários:

Nome: Pato_Supersonico 15/01/10 05:32
Meus sinceros parabéns pela excelente matéria.

Realmente me deu vontade de ler. =)
Nome: Jussara Gonzo 15/01/10 08:37
Não se preocupe, não precisa ficar explicando ou justificado cada vez que for falar de alguma coisa que você goste mais. Apenas fale e pronto - o blog é seu.

Alexandre: É um ponto. Mas eu gosto de pensar que eu tenho algum critério para escolher as pautas aqui que vão além do meu mero gosto. Porque senão eu não publicaria, digamos, notas sobre Negima, entende? Por outro lado, Negima é uma das séries que melhor são trabalhadas em termos de marketing no Japão e eu acabo me sentindo obrigado a postar quando a notícia vem.

Interessante o trabalho deste cara. E acho que não apenas o mercado tem que amadurecer antes de pegar autores como estes como as EDITORAS tambem precisam. Como no caso de Seton...*coff* se é que me entende *coff*!

Alexandre: Seton virou um espinho na garganta. Mesmo. :-/
Nome: Antonio Pereira 15/01/10 10:00
Parabéns pelo artigo, como sempre dá para aprender bastante com eles.
Nome: Pedro Bouça 15/01/10 11:55
Há duas coisas a dizer.

A primeira é que você continua sendo injusto com a nouvelle vague. OK, muita coisa chata (muita mesmo!) veio nessa onda, mas os expoentes são brilhantes! Alphaville, por exemplo, é até um filme bem movimentado - e totalmente pop, como você gosta.

Não julgue uma arte pelo que ela faz de pior. Gostaria que todos os mangás fossem julgado por Kodomo no Jikan, Hokuto no Ken ou pelo conjunto da obra do Ken Akamatsu?

Alexandre: Olha que de uns anos pra cá tenho reconhecido o grande potencial trash de Hokuto no Ken, com seus socos que abrem buracos redondos no corpo dos oponentes...

Mas sejamos honestos: muitos desses "expoentes brilhantes" são superestimados para cacete. Fala-se muito da montagem poética de Jules e Jim; eu fui ver e ela me pareceu uma montagem canhestra. Sim, a palavra que me veio a mente na ocasião foi justamente essa: canhestro. Quanto a Alphaville, fizeram uma mostra de cinema há uns poucos anos o e professores de alunos de uma faculdade de cinema foram assistir. A imprensa estava la registrando. Os professores falavam que godard era um gênio, era um gênio, era um gênio... mas de repente os alunos começaram a gargalhar. E os professores estavam atônitos. Os alunos riam nos momentos errados e avaliavam Alphaville como um filme trash! Os professores então tentaram vir em defesa do filme em frente a imprensa após a exibição. Mas os repórteres foram falar com os estudantes. Sabe com que a atual geração de estudantes de cinema se identifica? Foram ver e deu... Stanley Kubrick. E eles detonaram a Nouvelle Vague, para choque definitivo dos professores.
Na boa: isso revelou algo que o pessoal dessa geração jamais vai aceitar porque lhes foi mastigado que Godard, Truffaut e Chabrol eram os gênios da raça: esses filmes não dizem mais nada para toda uma geração. Ficaram datados e a única forma de se ver charme neles é encará-los como parte de seu contexto perdido no tempo, que nem aquelas velhas estampas Eucalol perdidas no sótão da vovó.


A segunda é que em quadrinhos esse tipo de material funciona melhor que no cinema, porque é o LEITOR quem regula o tempo da cena!

Eu explico. Em um filme de "arte" a câmera pode ficar um tempão mostrando uma cena estática, certo? Quem decide o tempo é o diretor. Você pode achar muito, pouco ou o suficiente, mas não tem controle sobre quanto tempo passa olhando essa cena.

Nos quadrinhos você tem.

Mesmo em um material contemplativo como "O Homem que Caminha" do mesmo Taniguchi de Seton, você pode passar as páginas a cem por hora e ler tudo em cinco minutos ou levar horas admirando a (belíssima) arte. VOCÊ é quem está no comando! O material é tão rápido ou lento quanto você quer que ele seja, daí sequências contemplativas serem mais suportáveis do que no cinema.

(Isso também se aplica até certo ponto à literatura. Quem é que não pulava as musiquinhas pentelhas d'O Senhor dos Anéis? Bem, fora o mané aqui, claro.)

Por isso que eu sempre digo que, apesar de algumas opiniões equivocadas em contrário, quadrinhos tem pouco a ver com o cinema. E é BEM melhor!

Ao menos é a minha opinião.

Alexandre: Acho que aí chegamos em um ponto bem mais interessante e que merece uma discussão bem extensa...
Nome: Gustavo 16/01/10 10:54
Simplesmente adorei o mangá, Alexandre.
A história tem um ar de nostalgia, contemplação, não sei explicar direito.
Me deixou com um nó no peito no final.
(Sem contar que a Emanon é uma graça. :) )

Alexandre: São as sardas. Elas nunca falham. :D

Muitíssimo obrigado pela matéria e pela indicação.

Alexandre: Disponha! Ainda quero ler a segunda história, mas sinceramente, acho que nem precisava ir além dessa.
Nome: Matheus 17/01/10 05:55
Interessante a materia, ja sabia sobre o Nouvelle Vague mas desconhecia sobre este mangá e este autor, vou até procurar na internet para ver se encontro a primeira história, pois me interessou muito.

E eu estive pensando, Mamoru Oshii com suas adaptações de Urusei Yatsura (mais especificamente no filme "Beautiful Dreamer"), Patlabor e Ghost in the Shell tambem seria outro representante do Nouvelle Vague no mundo dos animes e mangás não acha?

Alexandre: Bom, os mangás de Patlabor e Ghost in the Shell são bem diferentes dos animes que eles inspiraram (e sinceramente o mangá de Patlabor é bem melhor, mesmo fazendo uma opção mais leve e cômica. Era um título da Sunday, afinal).

Mas não teria certeza. Beautiful Dreamer em particular é... lisérgico demais.
Nome: Marcelo Santarem 17/01/10 01:36
Só posso achar "Emanon" na Amazon japa? Os europeus ainda não a descobriram?
A sua história da palestra me lembrou outra citada por você nos idos do Tower of Strenght (ou Território dos Bravos, não lembro em qual), onde um diretor dum filme brasileiro famoso dos anos 70 aí falou como foi o processo de filmagem — sem pré-produção, sem roteiro, sem nada, como aquela Casa do Vinícius de Moraes —, no que um colega seu não aguentou a sandice e gritou, tipo, "quanta besteira!", indo embora fulo com a/da palhaçada.
Sem falar quando a nossa classe artística e intelectual caiu em peso em cima do Marcelo Madureira qdo ele disse sem rodeios que Glauber Rocha era uma merda. Se até um famoso suscita reações, debates e matérias na imprensa — que é A responsável pela quase mi(s)tificação das personalidades da vida nacional — como foi, imagina como seria conosco, pobres seres com algo entre as orelhas, blogs, fóruns, Twitters, mas sem nenhum respaldo, senão dum caráter inconformado meio a tanta unanimidade burra (olha aí outra unanimidade...).

Alexandre: Mas Gláuber Rocha É uma merda. Mais – é uma vigarice. Eu até fiz um conto debochando dele para o projeto Terroristas da Conspiração, mas embora eu não acredite realmente em conspiração, ;) eu acredito que se construiu a imagem dele e um monte de gente que por anos mamou nas tetas da Embrafilme se ancorou nesse discurso vagabundo. Podem falar mal dos filmes do Carlo Mossy, mas ele era honesto, tinha sua empresa a tocar e no meu entender, isso conta pontos comigo. E acho que a melhor coisa a acontecer para que o nosso cinema seja um cinema de verdade é que uma geração inteira cuspa na cara e na obra de Gláuber e toda a sua turma para que possa crescer. Quando o pessoal zoou Godard na frente da imprensa, eu senti que dessa geração deve sair algo.

E aplaudo o Bouça: de fato, nos quadrinhos, NÓS fazemos o tempo (como podemos fazer também nos filmes, com o FW, mas bem mais "palpavelmente"), o que não acontece com, p. ex., o abraço dum casal e o monólogo final em "Kedma", de Amos Gitai. O abraço pode tomar só uma página; já o monólogo, aí sim, mais que aquele e o número de páginas, depende sobremaneira do ator para nos tocar.

Alexandre: É como eu disse – isso toca no assunto da densidade narrativa – e acho que isso vale uma discussão bem mais extensa. Porque leva ao próprio corte-e-costura dos quadrinhos, e isso merece mais do que uma notinha nos comentários de um blog.
Nome: F/X 17/01/10 02:33
Eu curto a arte dele, como quadrinhos, eh meio pesado de ler, e ele tem um ritmo lento, parece que faz tudo sozinho, sem assistentes. Mas cada quadro dele pode ser apreciado.

E eh um pecado voce nao por uma amostra do album que ele fez com imagens de meninas peladas! Um dos motivos dele ficar famoso eh conseguir fazer garotas reais, ateh meio fora de forma, sem posar, sem maquiar, etc. Sem sonho nenhum, mas nao eh por menos que ele tem um album inteiro disso, de meninas bocejando peladas, essas coisas...

Alexandre: A idéia não é ruim, mas o dia em que eu fizer isso, o Google AD Sense me dá um puxão de orelha e alguns anúncios deixam de funcionar. Já quase tiraram meu blog do ar quando eu ainda estava no blogger, por causa da matéria sobre Erocom, lembra?
Nome: Pedro Bouça 17/01/10 04:36
Mas Alexandre, aí foram os professores que não entenderam o filme mesmo. Alphaville É uma paródia também.

O personagem (e ator) principal do filme é reciclado de uma série de filmes de agente secreto dos anos 50 e a ambientação é uma falsa ambientação de ficção científica em que os atores entram em um carro e dizem que estão em um "foguete espacial".

É ÓBVIO que é uma paródia, pô! Não é nem sequer uma paródia sutil! E os professores ririam também se não tivessem uma ideia errada do que é o filme. O problema está neles, não na obra!

(E, incidentalmente, Stanley Kubrick É o maior cineasta de todos os tempos. Mas até aí ninguém pensa que Dr. Fantástico é um filme sério sobre a ameaça nuclear na Guerra Fria - que, ironicamente, ele é!)

Alexandre: Mas o que torna Dr. Fantástico um filme brilhante é justamente isso: é uma comédia que pode te causar um legítimo medo. ;)
Nome: Antonio Pereira 18/01/10 06:50
Terminei de ler o mangá. Realmente, legal demais. E impressionante, alguns momentos me deixaram de boca aberta.

Agradeço mais uma indicação, sempre que possível por favor continue nos indicando essas excelentes estórias de FC. Me pergunto se você tem indicação de algo de mecha que seja tão impressionante quanto Ideon e Gundam. Abraços.

Alexandre: Olha, o grande problema em mechas é que eles tendem a funcionar melhor em animação do que em quadrinhos. Existem alguns muito bons nos mangás como o Venus Wars (que é um dos meus favoritos pessoais), mas em termos de mechas eu não diria que ele é muito óbvio...
Nome: Helllgirl 10/11/10 01:47
Pra mim sempre houve uma dicotomia entre o Cinema novo e a NV francesa, há uma diferença entre executar a pelicula a seu bel-prazer valendo-se de sua propria linguagem, se cagando para que tipo de receptividade o filmes acarretara. Ao que o Glauber fazia, que este sim, é o cinema empolado confesso pronto para cativar os exegetas da epoca... e o juri do Cannes. Acho que receptividade é uma boa palavra para o que tento expressar, sempre estive temerosa a assistir a um filme do Godard, francamente peguei no sono com o 'debut' Acossado, mas acabei por (pasme) virar entusiasta dele com Pierrot Le Fou, Vivre Sa vie, Week End etc... Acredito que este seja o essencial (de)merito do cinema autoral, ele não focaliza seu publico, claro que se tratando da nv, depende um pouco de inteligibilidade, mas não com o cinema de De Sica e Pasolini que também é autoral. O Godard tem uma estranha força, na propria figura dele. Ele é uma especie de personificação do cinema tedioso e prepotente, em verdade não conheço absolutamente ninguém que conheça e admire o cinema americano em toda sua extensão como Godard. Ele era amigo até de Sam Fuller (grande realizador do cinema de genero, quase relegado ao esquecimento aqui nessa Terra), sem falar da ressonancia de seu trabalho em cineastas contemporaneos mais pop, como o Tarantino que praticamente chupinhou todos os seus elementos. Acabei me empolgando com o texto que tu redigiu no Terroristas da Conspiração. :D Vou tentar ler esse mangá, parece mesmo interessante.

Alexandre: Valeu, Hellgirl. :) E quanto a Acossado, ele parece menos um filme do que um monte de sacadas bacanas de montagem interrompidas por mais de vinte minutos de verborragia em um quarto lá pelo meio (confesso que chegou uma hora que eu disse em voz alta "vão logo para a cama e parem com esse falatório!"). XD

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