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Jan 11
Porque a Shonen Jump Americana Fez Diferença?
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Lancaster |
PERMALINK |
11
Categorias: Shonen Jump

O Website americano Comics 212 está fazendo uma série dedicada a dez lançamentos de mangá nos Estados Unidos que acabaram tornando-o um mercado importante e até mais concreto do que o mercado americano de quadrinhos tradicionais emparedado pelas comic stores repleta de nerds. Fala do tombo que foi a Raijin Comics, e esse é um artigo que também vale a pena ser traduzido – muitos dos seus erros servem de ensinamento para quem quiser publicar mangá. No entanto, eu decidi traduzir o artigo (que pode ser lido AQUI) dedicado ao peso e impacto que representou a chegada da Shonen Jump nos Estados Unidos, e porque a DC pode queimar o anel do Lanterna Verde a vontade que não vai renovar sua base de público (na verdade acho que a guinada para a necrofilia que a editora tem tomado nos últimos anos tem a ver com o fato de que eles se deram conta de que tudo o que eles têm são nerds gordos e saudosistas; como diria o Falcão, se não há nada de novo no front, a saída é a retaguarda; então que eles levem baioneta a vontade – parei de ler o que eles fazem, salvo o Jonah Hex – o último material digno que restou à editora, e que por acaso não é nem Super-Heróis, nem Vertigo). O texto, escrito por Cristopher Butcher, não é tão longo assim, mas esclarece vários pontos que vão fazer diferença. E eu achei que valia a pena ser traduzido. Então, com a palavra, o Sr. Butcher.
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Em Novembro de 2002, a indústria (dos quadrinhos americanos) não estava exatamente desesperada por antologias de mangá. No Japão, antologias imperam – é muito raro que um trabalho seja publicado diretamente em formato de livro, sem serialização prévia. De fato, centenas de diferentes séries são serializadas em diferentes almanaques todo ano, e o rei do pedaço com a mais alta circulação é a Shonen Jump Semanal. Enquanto isso, a Tokyopop iniciou suas atividades com as
antologias Mixx, Smile e Tokyopop, e a Viz tinha a Manga Vizion e minha adorada Pulp – mas no final de 2002 todas essas publicações já estavam comendo capim pela raiz. Certo, A Super Manga Blast da Dark Horse continuava na ativa, assim como a Animerica Extra da própria Viz, trazendo mangá em revistas de oito dólares com cem páginas, mas a indústria havia se encaminhado para uma direção diferente. Com a popularidade dos mangás menores e mais baratos que a Tokyopop vinha empurrando (e a Viz acabaria por abraçar…), e a então recente decisão da mesma Tokyopop em finalizar a serialização da maior parte dos quadrinhos publicados de modo tradicional, combinada com o anúncio de que a Dark Horse iria lançar o Astro Boy de Osamu Tezuka diretamente no formato de Graphic Novel ao preço de $9.95, pareciam sinalizar que o sol estava se pondo para os mangás serializados nos Estados Unidos.
Mas, em Junho de 2002, a Viz anunciou que em parceria com a gigante japonesa Shueisha, traria seu principal almanaque de quadrinhos, a Shonen Jump, para os Estados Unidos. Foi um tapa na cara do novo mercado que se construía. Embora a Viz tivesse experiência com antologias naquele momento, isso foi visto como um passo mau dado pela maioria dos observadores.
Particularmente pelo fato de que a versão da Viz para a Shonen Jump seria mensal, enquanto a da Shueisha era semanal. Os fãs reclamaram da velocidade, dizendo que suas séries favoritas como Naruto e One Piece iriam criar lapsos enormes e enormes em relação a sua serialização original nipônica (ah, se eles soubessem…). E quem precisava de almanaques de qualquer forma, porque não ir direto a edição de livraria?
Os motivos eram bem óbvios. A Viz estava disposta a usar as armas mais poderosas de seu arsenal, a mais popular revista japonesa, campeã absoluta de vendas, para fazer uma ofensiva fora do sistema de distribuição dos quadrinhos americanos em… bem, em qualquer momento e lugar. Eles ancoraram a revista no ainda popular Dragonball Z. Eles fizeram parcerias com a Cartoon Network, enchendo seu almanaque com séries que já tinham desenhos animados em exibição (ou que se não tivessem, iriam ter de qualquer jeito). Eles tinham
Yu-Gi-Oh, o mangá que inspirou o cardgame de sucesso, e eles ofereceram de brinde um card raro na primeira edição para impulsionar as vendas. Eles se mataram para ter uma boa distribuição, trabalhando anos-luz à frente das gibiterias atendidas por distribuidoras como a Diamond e a agora falida Suncoast, onde vários mangás ainda estavam sendo vendidos. Eles conseguiram grande presença em bancas de jornais (N. do T.: o mercado direto americano já havia abandonado as bancas há muuuuuuito tempo, se fixando de vez nas gibiterias. O resultado? Deu no que deu)!
Tudo isso adicionado a uma vendagem de mais de 300,000 exemplares da primeira edição, o que efetivamente silenciou todos os críticos que eu mencionei nos dois parágrafos precedentes.
Os primeiros capítulos dos mangás usualmente tem o dobro de volume, 48 páginas ou mais, para dar aos leitores uma introdução
mais profunda à história. Por causa disso, a primeira edição da Shonen Jump somente apresentou cinco de sua grade inicial de sete títulos – Sandland e Dragonball Z de Akira Toriyama, YuYu Hakusho de Yoshihiro Togashi, One Piece de Echiro Oda e Yu-Gi-Oh! de Kazuki Takahashi. A segunda edição introduziu os leitores ao universo de Naruto por Masahi Kishimoto, e a edição seguinte deu ao mundo o Shaman King de Hiroyuki Takei. Em três meses, a grade oficial de lançamento da Shonen Jump estava completa. Se você observar a esses títulos, mais da metade deles estavam entre os mais populares e mais vendidos mangás dos últimos dez anos. Naruto e One Piece ainda continuam marcando presença nas listas de mais vendidos. Todos em uma revista só.
O ovo de colombo? A Shonen Jump estava disponível a cada mês, em cada banca de jornal, com mais de trezentas páginas a um preço de US$4,95. Isso alterou completamente o jogo quando o assunto era o preço dos mangás, mas foi massivamente bem-sucedido ao atrair leitores de super-heróis como John Jakala, que publicou esta infame postagem em seu blog, a qual eu reproduzo na íntegra:
A Baixa Taxa de Conversão Americana
Depois do último par de postagens longas, eu decidi fazer algo leve. Então aqui temos uma comparação do que sessenta dólares darão a você em termos de quadrinhos japoneses contra quadrinhos americanos:
Deus, por que será que os garotos estão migrando para o mangá?(Caso você esteja se perguntando, estas são doze edições do almanaque de mangá Shonen Jump da Viz – com um preço de US$4,95 – e a sua direita, 24 edições de vários quadrinhos americanos a US$2,50)
- John Jakala, 30/10/2003
É ainda pior hoje em dia, quando os quadrinhos americanos estão a US$3.99 por edição. Irônico: a pilha de revistas à direita, hoje, teria metade deste tamanho.
A Viz bateu a Tokyopop em seu próprio jogo, e produziu material muito, muito mais chamativo dentro dele. Isso foi acompanhado de investimento massivo da maior editora do ramo no Japão, investimento que eventualmente levou a Shueisha, em parceria com a editora rival Shogakukan, a adquirir a própria Viz – e quer maior mudança de paradigma do que esta? Isso permitiu reinvestimento em massa em sua própria linha de títulos, enorme expansão e uma radical reestruturação em uma companhia que já tinha ido além de seu tempo na área de publicações. E tudo isso veio da Shonen Jump.
Então vejamos, essa revista abriu centenas de novos espaços para as vendas de mangás, introduziu dezenas de milhares de novos leitores à mídia dos quadrinhos, se tornou a publicação quadrinhísitca mais vendida desde a bolha de especulação dos anos noventa (N. do T.: Quando os X-Men chegaram a vendagem recorde de mais de um milhão de cópias – mas quando se verificou, quem comprou essas revistas não foram leitores, mas especuladores que compraram vários exemplares da mesma edição à espera de valorização; o bolo acabou solando no forno e essas revistas hoje em dia são vendidas de baciada a preços ridículos nos Estados Unidos, para você comparar as vendagens concretas da Jump contra a bolha mencionada), e foi o
primeiro passo para a Viz se tornar o gigante editorial que é hoje. Nada desprezível. Isso também inspirou o lançamento de uma antologia similar para garotas, a Shojo Beat, poucos anos depois, colocando quadrinhos explicitamente para meninas e mulheres jovens nas bancas de jornal, das quais elas estiveram ausentes por anos (salvo por Archie…). Tristemente, a Shojo Beat foi cancelada em 2009, mas a linha de títulos para livraria que carrega seu nome continua firme e forte, com alguns dos títulos mais vendidos da indústria publicados sob seu selo.
* * *
Agora que o texto do Sr. Butcher foi concluído, deixem eu apresentar meus dois dedinhos de prosa. Reparem que mesmo com o cancelamento da Beat, que acredito ter menos a ver com a própria revista do que com a ausência de materiais para meninas com presença midiática nos Estados Unidos – cá entre nós: tem desenho de Nana no Adult Swim? Quantos desenhos animados para meninas tem sido feitos em detrimento das novelas de televisão que dificilmente vão sair do Japão? – a Jump não apenas permanece firme e forte como também tem um concorrente, a Yen Plus da Yen Press, que atira para ambos os lados e sabe suprir essa combinação com franquias populares (como a série Maximum Ride, que veio de uma franquia de livros juvenis, ou Gossip Girl).
Pode-se falar tudo, menos que o formato antologia não tenha força potencial fora do Japão.
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Comentários:
Pode soar como demérito, mas é claro que o preço baixo é um dos fatores mais importantes. A antologia não pode custar mais que um volume separado.
Isso me lembra de conversas no saudoso Fórum Henshin, quando uma turma queria a Shonen Jump no Brasil, isso na época do anúncio da versão americana. Haha, era óbvio que não daria certo aqui, e digo isso unicamente pelo preço.
Eu não compraria uma Shonen Jump porque não curto muito os títulos dela, mas uma Shonen Jump, com algumas matérias, por até R$ 5,90, eu compraria de qualquer jeito. Mas a realidade aqui é outra.
E acho que uma tiragem quinzenal estaria mais de acordo, pois brasileiro não tem o costume de colecionar coisas para ler, e tem memória curta para estas coisas. Ah... se alguém aqui no Brasil tivesse tido esta idéia no hype dos cavaleiros do zodiaco na década de 90...
Alexandre: A Yen Press está se dando razoavelmente bem.
Na minha opinião para uma antologia de quadrinhos dar certo no Brasil teria que ser totalmente inédita.
Alexandre: Isso eu acho razoável.
Já disse o que penso sobre uma "Mônica Jump", com a turminha pra puxar as vendas, mais umas 10~15 histórias variadas, com muitas entrevistas com artistas famosos, matérias para o público juvenil, passatempos, promoções, brindes.
No Brasil não daria certo pq simplesmente ngm pagaria para ler de novo os mangás que já tem em formato tanko. Eu apreciaria se lançassem uma antologia online, com preços módicos (uns 10R$ por mês no máximo) e acesso a todos os títulos atuais da Jump (seria legal se liberassem alguns sucessos antigos)com defasagem de 1 ou 2 dias em relação ao lançamento no Japão. Em papel não daria certo, dinheiro não cresce em árvore, muito menos no Brasil em que 70% da população trabalha para poder comer e comprar uma muda de roupa de vez em quando.
Alexandre: Eu acho que teria que ser menos de dez reais simplesmente porque esse é o padrão das revistas menores. Não dá para uma revista sobreviver sendo mais cara que o volume compilado.
Esse ano vão fazer a mesma coisa com One Piece (inclusive já pedi em pré-venda os volumes que continuam a história de onde a Conrad parou), e a publicação na antologia vai ficar como? A questão da sincronicidade é importante.
Alexandre: Pelo que parece a idéia é dar um salto cronológico assim que o material tiver sido publicado.
Quanto ao Brasil, concordo com o colega acima de que o melhor caminho seria online. Nossos mangás estão caros e com uma edição de qualidade mediana.
Não compraria uma antologia de R$5,00 feita com papel higiênico.
Alexandre: Eu acho fácil dizer isso, mas temos que levar em conta que boa parte do brasileiro não tem acesso doméstico a internet. Quando muito, povoa lan-houses e normalmente a usa pra jogar counter-strike mais do que ler quadrinhos. Não dá para negar o poder das bancas em nosso mercado e acredito até que você possa não comprar, mas muitos os comprariam.
Claro, a versão compilada teria que ser bem melhor graficamente falando.
E embora os otakus brasileiros sejam obviamentes diferentes dos japoneses, ambos tem em comum a característica mais importante, que é serem públicos de nicho. Assim, para vender para o público atual, nossas editoras acabam se vendo forçadas a adotar procedimentos que, embora adequados para lidar com os fãs, não servem para ganhar o coração (e arrancar dinheiro) do povão.
Eu também não estava botando muita fé na viabilidade do sistema de antologias aqui no ocidente. Mas o fato desse sistema ter dado certo nos EUA é um indicador de que esse sistema é capaz de sobreviver fora do Japão.
Também é uma mostra da importância da atitude empreendedora e ousada para o desenvolvimento de um indústria, já que o lançamento de um antologia fora do Japão era uma aposta de alto risco e que certamente enfrentou muita oposição. Eu não condeno nossas aditoras pela postura tradicional cautelosa depois do que aconteceu com a Conrad, mas ficar parado no tempo é uma postura igualmente perigosa.
E concordo com o Lancaster com relação a antologias on-line. Elas podem até servir como uma opção a mais para quem já compra mangá (e consequentemente, como fonte extra de lucros para as editoras), mas não serve para expandir o mercado, pois não alcança os leitores em potencial, a não ser aqueles que já usem a internet para descobrir novas fontes de diversão.
Mas, com ou sem antologia por aqui, ainda sou da tese de que o elemento decisivo para a expansão da cultura J-Pop no Brasil é a divulgação de massa, através da exibição das versões animadas dos mangás das bancas em TV aberta e investimentos em marketing dirigidos ao público geral.
Não sei como é nos EUA, mas como o Lancaster certamente já sabe, no Japão as próprias antologias não são um sistema editorial autônomo, elas existem dentro de uma sistema editorial de grande amplitude baseado na sinergia de diferentes mídias.
Não digo que esse modelo de indústria editorial altamente sistematizada do Japão seja vital para os esforços de expansão da cultura J-Pop no Brasil, mas seria uma mão na roda se todos os envolvidos (editores, emissores e licenciantes), pelo menos trabalhassem de forma mais coordenada por aqui. Seria um avanço dramático sobre o atual sistema cada-um-por-si-e-Deus-por-todos.
Se for pra ter antologia online é claro que é pra ser pra quem já lê mangás. Na verdade eu acredito que quando a pirataria começar a ser combatida de verdade essa será a solução, um site estilo o onemanga só que ao invés de pirata ele seria oficial.
Já preço deveria ser por volta de 9~12 reais, se a quantidade de páginas e materias for grande ainda assim compensaria comprar. Tipo, 400 páginas por 12R$, umas 12 séries, muitas matérias.
Há vários anos que só compro meus mangás pela internet, mas sei que sou exceção. A pessoa comum que não encontra o material na banca da esquina simplesmente pára de comprar.
É aí que está a importância da divulgação para as massas. Para o povo comprar um produto, primeiro prescisa saber que ele existe, e depois achar que é algo bom de se comprar.
Ah eu amo mangá.
Alexandre: mas era tudo pirata, e a bem da verdade, o nível geral do material era péssimo. Mas justiça seja feita, não era culpa da editora – ela e outra, de cabeça não lembro mais qual era, foram engambeladas por um sujeito que se apresentou como "licenciador alternativo".
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