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Dez 19
Superflat: A Reação do Pós-Modernismo Japonês ao "Boom" Otaku
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Categorias: Artigos e Reviews
Aviso agora antes que vocês liguem o vídeo: a cena acima é de uma vulgaridade imensa e definitivamente não é recomendável para menores de idade. Mas é necessária para introduzir o ponto da matéria – originalmente publicada na revista Neo Tokyo, mas que eu achei que valia a pena ser trazida a tona novamente: uma coisa que reparei ao longo de todo esse tempo é que muita gente que leu o artigo não entendeu muito bem o que é o superflat. Acredito que tenha contado pontos para isso um ranço acadêmico que eu não deveria ter deixado escapar – provavelmente eu estava já naquela época trabalhando no pré-projeto da monografia ou algo assim. Mas não acho que eu deva reescrever tudo: a idéia é trazer de volta o que já foi escrito.
Então, que seja. Eis a tradução para aqueles que ficam com dor de cabeça ao ler as legendas em espanhol:
Cena simples: a menina Poemi (Kobayashi) descobre que o vilão da história, finalmente revelado e sentado na cadeira, na verdade é seu objeto de afeição na escola, o garoto K-kun, e ela não entende, burra como é, o que ele está fazendo ali.
K-KUN: "Eu vim para invadir. Ou, mais especificamente, para abusar."
POEMI: "Pode falar de forma mais simples? Ou anotar a informação no meu pager..."
K-KUN: "Olhe para a informação que o time de reconhecimento reuniu sobre este planeta."
(aparece uma tela onde uma mulher seminua é mostrada)
K-KUN: "As mulheres da Terra, especialmente as japonesas, são muito boas."
(na tela, uma chupa um picolé de forma erótica)
K-KUN: "Como você pode ver nesta imagem, elas tem um ótimo gosto."
(aparece uma imagem de uma mulher gemendo, como as imagens em jogos pornográficos)
K-KUN: "Você pode fazer algo assim – e com facilidade."
(surge uma imagem de uma mulher nua, deitada de bruços no chão, sendo pisada)
K-KUN: "É digno de se invadir. É digno de se abusar."
(outra imagem de mulher em pose erótica. Kobayashi, claro, está confusa.)
POEMI: "Kobayashi não entende muito bem – eu não tenho um PC."
K-KUN: "Eu não posso aceitar você como seiyuu (N. do T: atriz de voz)."
(um monte de faixas imobilizam os braços e pernas de Poemi)
POEMI: "Então você estaria atrás do corpo virgem de Kobayashi?"
K-KUN: "Olhe, idiota: Eu não tenho interesse num corpo barato como o seu!"
POEMI: "O que você está dizendo? Se Kobayashi pôr implantes, o tamanho do meus seios vai aumentar para 80 cm, droga!"
(K-kun, em sua cadeira de vilão, levanta o dedo para apontar algo)
K-KUN: "O que eu busco é aquilo:"
(de repente, todo o resto do elenco feminino da série está presente na cena, amarrado nas poses mais humilhantes)
POEMI: "Ohh!? Esta é uma cena de Fan-Service? (...)"
K-KUN: "O que acha? O conteúdo é divertido para um vídeo, não?(...) Abuso, abuso, nada pode superar isso, a cultura japonesa é maravilhosa! Vamos atingir as estrelas, japanimation! TENTÁCULOS! MAIDS! MULHERES DE ÓCULOS! MENINAS DO JARDIM DA INFÂNCIA! CONSOLOS ASSUSTADORES! SEIOS GIGANTESCOS!"
(ao dizer cada uma dessas frases, aparece uma imagem correspondente de uma delas trajada de forma relativa ao fetiche apontado em cada palavra. K-kun, como um mestre de cerimônias ensandecido, corre em frente a elas e abre os braços – para de repente se dirigir AO PRÓPRIO ESPECTADOR NA TELEVISÃO)
K-KUN: "Como ficou? Como elas estão? ISTO é o que vocês rapazes querem, certo?"
(K-Kun faz uma pose ridícula de efeito ao dizer isso e surgem muitas mãos vindas de fora da televisão, como se pertencessem aos próprios espectadores, que batem palmas em aprovação, do tipo "Muito bem", "É isso aí". Em seguida, como um vilão de anime, ele grita ensandecidamente:)K-KUN: "Agora, vamos em frente! Apertem, amarrem, machuquem e gemam! Sofram, arrepiem-se em êxtase, enfiem alguma coisa! ISSO É CULTURA!"
A cena que vocês viram logo acima não foi extraída de um hentai (anime/quadrinho pornô). Sua origem é a série em OAVs Puni Puni Poemi, de Shinichiro Watanabe – talvez a mais devastadora paulada que a cultura otaku já recebeu em forma de animação. Puni Puni Poemi na verdade é uma brincadeira metalinguística onde a protagonista pede para ser chamada pelo nome de sua dubladora (Kobayashi), e os personagens são todos derivativos – o melhor exemplo é a relação entre Poemi e sua melhor amiga, a menina Futaba, que ecoa a amizade suspeitíssima de Tomoyo por Sakura em Sakura Card Captors (se olharmos, perceberemos imediatamente que Futaba é a Tomoyo com um sinalzinho no rosto e enfeites de cabelo estrategicamente inseridos para não haver processo por plágio). Só que Futaba é mais do que escancaradamente lésbica e sua atitude é, digamos, bem mais perigosa do que a, hm, "adoração" em níveis respeitosos (eu disse RESPEITOSOS, não inocentes; Sakura Card Captors está longe de ser um produto inocente) que sua personagem inspiradora nutre pelo seu respectivo alvo.
Aqui, não tem erro: toda a iconografia da cultura do otaku é usada para encher uma luva de boxe e mirar justamente em seus aspectos mais negativos, os
fetiches e distorções que alimentam toda uma série de reflexos na indústria de anime e mangá que afetam consideravelmente a percepção que temos da mesma. E ao distorcer, via caricatura, esses elementos, eles são usados como elemento de choque (e, no caso, de riso), expondo justamente a natureza sexual que é muito escamoteada pelos fãs deste ou daquele produto em defesa da "inocência" do mesmo – mas que indubitavelmente existe (sem falar de quando o fã reconhece esse elemento, mas usa essa "inocência" para justificá-lo). Aquele que nunca encontrou um fanart lésbico de Tomoyo e Sakura na Internet que atire a primeira pedra (e isso vale para outros elementos, como a relação perigosíssima entre a pequena Rika e o professor Terada, que não encontra correspondente em Puni Puni Poemi, mas é o mesmo tipo de "elemento perigoso"). A série da Clamp cuida de estimular esse tipo de reação dos fãs, embora não abertamente. E Poemi escancara isso com uma pedrada ao retratar a fixação de Futaba por sua amiga – sem falar do verdadeiro tapa que a cena acima desfere no fã típico que consome o material derivado dessas fixações estéticas.
Poucas coisas são mais Superflat do que isso.
O que é Superflat?
De uma forma simples: O Superflat é um movimento estético pós-moderno que surgiu dentro das artes plásticas e que encontrou eco nos mangás e nas animações – até porque seu pressuposto é de que a cultura dos animes e mangás é a cultura japonesa de nosso tempo. Ele se vale dos elementos de fetiche que caracterizam os animes e mangás dentro da cultura otaku para questionar o contexto social que deu origem aos mesmos fetiches. Ou melhor dizendo, ele reprocessa esses elementos para devolvê-los desconstruídos para aqueles que os consomem originalmente (simplificando: ele usa a caricatura dos clichês para desmontá-los, questioná-los e mostrar o que se esconde por trás deles. Na época em que escrevi essa matéria, eu não conhecia Sayonara Zetsubou Sensei, de Koji Kumeta, mas ele é um bom exemplo desse processo de desmonte).
Vamos explicar rapidamente o que é pós-modernismo para podermos prosseguir com a matéria de forma que ela faça sentido: Ele é um movimento com várias correntes e sem uma proposta unificada, salvo na sua crítica ao
modelo tradicional de racionalismo nas artes, na literatura e nas ciências. Para os fins que nos interessam, podemos dizer que o pós-moderno apresenta um cenário onde o método de viabilização de idéias não importa – e isso deu margem aos samplers dos anos oitenta, a fragmentação estética do videoclipe, a multireferencialidade – onde se pressupõe que você saiba do que está se falando ao se povoar uma obra de referências – e, porque não dizer, a própria difusão do mangá como estética fora do Japão, jamais possível em outro contexto. Graças a ela, podemos dizer que a nossa cultura de massa (pós-moderna por excelência) tende a se alimentar do que veio antes como uma cobra que devora o próprio rabo. Em miúdos: vale tudo, nada de novo surgirá, só resta reprocessar tudo o que já foi feito e dane-se quem reclamar (se bem que pessoalmente eu acredito que pós-modernidade é meio que o equivalente cultural ao "a história acabou" do Francis Fukuyama. E o 11 de Setembro jogou na cara do mundo o ridículo dessa afirmação).
O fato é que vivemos, respiramos, praticamente comemos a cultura de massa ao nosso redor. E isso acaba por ter repercussões sociais. A cultura otaku no Japão é um claro exemplo disso, assim como os clichês básicos dos animes e mangás que os alimentam ou não. E dito isso, vamos ao que interessa.
Achatamento Cultural
O movimento Superflat foi lançado pelo artista plástico Takashi Murakami (autor do simpático curta acima, feito para a Louis Vutton. Repararam na ambiguidade cínica do final?), ele próprio uma testemunha e participante do primeiro boom otaku – o gerado por séries como Patrulha Estelar e o primeiro Mobile Suit Gundam. O ponto do manifesto de seu movimento artístico é que, no Japão, a cultura pop de animes e mangás se imiscuiu de tal forma na vida
cotidiana que influenciou as artes plásticas, o design, a cultura pop, as artes decorativas, sendo achatado em um conjunto único ao qual todos pertencem. "A nova geração (de artistas) não pensa sobre o que é arte ou o que é ilustração. Seu trabalho não têm gênero", define Murakami. Entretanto, esse "achatamento" tem um outro lado embutido: a ausência de profundidade, uma vez que quem serviu de liga para todo esse conjunto de manifestações culturais seria antes de mais nada, a cultura de consumo – que é uma cultura da superficialidade por natureza (por isso, embora o melhor termo em português seja "compactação", estamos usando o termo "achatamento", mesmo; sem isso, a ambiguidade de conotações do "flat" se perderia no contexto deste texto). Novamente, passemos a palavra a Murakami:
"O povo japonês é alimentado por televisão e pela mídia em geral 24 horas por dia. Agora, temos uma chance de pensar: 'O que é minha vida?' A cultura de consumo aponta para uma única direção, sem evoluir. Nos anos oitenta, os japoneses não pensavam sobre o significado da vida por conta de sua forte cultura de consumo. Agora, as pessoas estão percebendo que existe um fim. Elas têm que pensar nisso mais do que no passado. Os jovens estão olhando para fora dessa cultura de consumo e perguntando 'O que é a vida?'"
O termo em si seria cunhado pelo próprio Murakami como podemos ver pelo livro Little Boy: The Arts of Japan's Exploding Subculture, que acompanhou a exposição "Superflat", exibida no Museu de Arte Contemporânea da Califórnia em 2001. Mas inicialmente, ele era dirigido à sua própria arte, e depois estendido a vários outros artistas plásticos dentro do cenário artístico japonês... só para o rótulo se tornar maior e passar a abarcar animadores como Koji Morimoto (melhor conhecido por um dos episódios de Animatrix e por seu trabalho em curtas, como Franken's Gears, um dos episódios de Robot Carnival, longa produzido por Katsuhiro Otomo e exibido na Cartoon Network no começo dos anos noventa – além do experimental Noiseman Sound Insect), e quadrinhistas como Hitoshi Tomizawa, autor de Alien 9 e do cruel Milk Closet – há até quem considere superflat artistas musicais como Cornelius (cujos cds foram lançados aqui pela Trama), com seus desconjuntamentos musicais, reconstruções referenciais e letras como "Nova Máquina Musical / Em 2001, a NASA criou a máquina / Em 2010, a máquina está quebrada de todo jeito" (New Music Machine, do disco "Fantasma").
Com o tempo, artistas que se aproximam do não convencional e da crítica direta aos clichês tanto da indústria quanto da cultura otaku em geral passaram a ser arrolados entre as fileiras do Superflat, como Hideaki Anno (em Furi Kuri) e Shinichi Watanabe (do citado Puni Puni Poemi). E aqui nós entramos num ponto necessário.
A Crítica ao Moe
Uma olhada nos trabalhos de boa parte dos artistas superflat mostra uma distorção perversa do que é "bonitinho". Muitas vezes os trabalhos passam a linha do grotesco. O trabalho de Junko Mizuno é um bom exemplo dessa distorção e da apropriação estética de conceitos superflat, mas de modo geral, a raiz desse tipo de atitude em boa parte desses artistas é justamente o reprocessamento crítico do conteúdo visual. A resposta ao Moe é um bom exemplo disso.
O Moe é um termo surgido dentro do meio otaku que é difícil de definir em palavras, mas fácil de reconhecer quando aplicável visualmente. "Engraçadinha" não é o suficiente para definir o conceito. Basicamente ele é aquele misto de vulnerabilidade infantil e fetichização sexual feita para despertar um desejo protetivo em quem o vê. Defeitos pequenos que estimulam essa sensação de que algo "Moe" é feito para ser cuidado, como ser atrapalhada ou distraída, só aumentam essa sensação. Entretanto, boa parte dessas meninas bonitinhas e provavelmente cheia de acessórios como orelhas de bichinhos e roupas cheias de babados também atende a um desejo sexual claro, como mostram os imensos closes em calcinhas e bustos que também são associados a essas meninas bonitinhas, indefesas e imersas em trejeitos infantis.

Nomes como Hayao Miyazaki se insurgiram contra o Moe e suas conotações de infantilização e submissão sexual femininas. Opositor visceral da visão da mulher na cultura otaku, seu comentário a respeito da fetichização da "bonequinha engraçadinha" foi:
"É algo difícil. Elas se tornam imediatamente objetos de fetichismo lolicon (N. do R.: Complexo de Lolita, ou aquela tendência de personagens femininas ao mesmo tempo infantis e sexuais que permeiam o imaginário otaku). De certa forma, se nós queremos retratar alguém que é uma pessoa afirmativa para nós, não temos escolha a não ser fazê-la adorável. Mas agora, temos muitas pessoas que sem o menor pudor as retratam como se eles apenas as quisessem como animaizinhos de estimação e as coisas estão piorando mais e mais."
Talvez por isso mesmo o moe e suas meninas indefesas sejam um alvo de pedradas tão óbvio para os artistas superflat. A violência e distorção com que essas figuras são retratadas parecem menos alvejar de modo sadomasoquista as meninas em si do que a sua fetichização. Em Milk Closet, de Hitoshi Tomizawa, meninas bonitinhas na mesma faixa etária das crianças de Digimon e congêneres são mergulhadas, de forma dura, em uma trama de ficção científica sobre dimensões alternativas violentas e grotescas, mas paradoxalmente até realistas se pensarmos no lado desagradável e mais bizarro que encontramos na vida animal. Mesmo o molde das meninas afáveis mas valentes cunhado por um Hayao Miyazaki (visto de forma um tanto distorcida na sua apropriação por certas alas da cultura otaku) está sujeito à desconstrução: No jogo Linda³ para PC Engine, Saturn e Playstation, somos apresentados pelo artista Tatsuuya Tanaka a uma personagem-título que se apropriou muito da iconografia miyazakiana para suas heroínas. Entretanto, o universo ao redor dela mais e mais se torna sombrio, e ao longo do andamento do jogo, ela está sujeita à situações que quebram justamente a aura de inocência
e afabilidade do universo cunhado pelas obras da Ghibli, como se partisse dos conceitos prévios do jogador para demoli-los um a um, em ambientes que mais e mais se tornam infectos, corrompendo a inocência via fanservice e se valendo de uma carga de violência e crueldade planejada para desestablizar expectativas.
Parece compreensível que logo esse tipo de universo se torne igualmente um alvo: uma das teorias não para o surgimento do nome Moe, mas para as raízes do seu surgimento em si, aponta para a personagem Clarisse do longa O Castelo de Cagliostro – a mais notável obra de Miyazaki pré-ghibli. Clarisse foi a primeira personagem feminina a ser parodiada em doujinshis (fanzines), o que se tornou uma prática comum. Tanaka (que assina seu trabalho com o sugestivo pseudônimo de Cannabis e também participou do fundamental Noiseman Sound Insect de Morimoto) sabe do que está falando: ele esteve envolvido na produção, como desenhista de produção, do clássico anime Nadia – the Secret of Blue Water, da Gainax, que em muito soava como uma elegia aos antigos animes da Nihon – e de certa forma, Nadia também representa a apropriação (em tons reverenciais) desse tipo de iconografia clássica por meio da própria cultura otaku que deu origem à Gainax.
De Excessos e de Paradoxos
Isso tudo nos leva a um outro lado do Superflat: o choque pelo choque. Embora nem todos os artistas posteriores arrolados ao movimento se valham dele, os artistas plásticos que iniciaram todo esse processo podem ser marcados, sim, por uma postura visceral demais e um tanto extrema. Na exposição "Superflat" de 2001, se destacava visualmente uma estátua chamada Lonesome Cowboy. Ela não pode ser mostrada aqui sem censura: mostrava um personagem masculino, típico herói de shonen mangá, completamente nu e com o órgão sexual ereto. Ele ejacula em um jato gigantesco, que o circunda como se fosse aquelas demonstrações de poder como a Cólera do Dragão de Shiriyu (ou o Dragão Marinho de Marine em Rayearth, que mesmo em um shoujo não deixa de ser um elemento estético importado do shonen). Não é preciso pensar muito para entender a intenção do autor – explicitar as conotações freudianas e fálicas das convenções do shonen mangá. Mas isso também cria um abismo e um problema – muitas vezes, a crítica feroz se confunde com a própria exploração sensacionalista do tema, e a linha entre
ambos se torna muito tênue. A mensagem pode se perder com muita facilidade. O próprio site de Murakami, aonde ele divide espaço com outros artistas superflat, mostra bem essa coesão entre o bonitinho entre o grotesco, que boa parte das vezes funciona admiravelmente bem – e boa parte das vezes é assustadoramente agressiva.
Contradição parece ser uma palavra chave aqui – até porque ela é a chave da compreensão do movimento. No superflat, o bonitinho é exagerado para agredir o bonitinho, o fan-service é exagerado para agredir o fan-service, e o próprio superflat, ao criticar a cultura otaku, se imerge dela a ponto de fazer parte da mesma (talvez como seu filhote mais rebelde). Os próprios membros do superflat nada mais fazem do que ver a própria cultura pós-guerra como superflat, e em tese nada mais fazem do que examinar, via caricatura, distorção e sátira, essa mesma cultura. Ao definir seu trabalho como superflat, eles se colocam conscientemente dentro do mesmo contexto que criticam.
E isso faz sentido. A própra cultura japonesa pós-guerra, e aí incluímos sim a cultura dos animes e mangás que gerou a subcultura Otaku, nasceu DIRETAMENTE DA CULTURA AMERICANA E SUA INFLUÊNCIA PESADA NO JAPÃO.

Antes que alguém fique revoltado, vamos dar a palavra ao crítico cultural japonês Hiroki Azuma, PhD. na Universidade de Tóquio e professor na Universidade Internacional do Japão. O texto a seguir é parte da transcrição de sua palestra no Museu de Arte Contemporânea da Califórnia, durante a exposição Superflat (o texto na íntegra pode ser encontrado aqui).
"(...) A assim chamada 'Tradição Japonesa', por exemplo a literatura, as artes clássicas e o sistema Monárquico é factualmente uma construção historicamente nova, posterior à Restauração Meiji (N. do R.: de 1868 até 1912), e agora o Japão foi tão profundamente Europeizado/Americanizado que qualquer retorno nostálgico a uma niponicidade tradicional, original ou "pura", soa como uma farsa. Você pode encontrar facilmente nos filmes e quadrinhos como os típicos cenários Japoneses estão hoje em dia, povoados por (lojas como) Seven-Eleven, McDonalds e Denny's, quadrinhos, computadores e celulares... todos de origem (culturalmente) americana. Em adição a tudo isso, meu ponto aqui é que a cultura otaku é a que reflete mais claramente essa condição misturada, híbrida e bastarda; isto é, que o paradoxo de que não podemos encontrar nenhum tipo de niponicidade sem a cultura pop americana do pós-guerra. Eu acho que a maior parte dos intelectuais japoneses sentem uma forte resistência psico-analítica em admitir essa condição.
A cultura otaku em geral é associada a um tipo de sucessão cultural à tradição japonesa pré-moderna, principalmente a tradição (da era) Edo. (...) Entretanto, a realidade é mais complicada. Por mais atrativa ou persuasiva que pareça a similaridade entre a cultura Otaku e a cultura Edo, não deveríamos esquecer o simples fato de que a cultura Otaku não poderia ter existido no final das contas sem a influência das subculturas americanas. Mangá, anime, tokusatsu (filmes com efeitos especiais), romances de Ficção Científica, jogos de computador, todos são de concepção americana e importados dos Estados Unidos com a política de ocupação pós-guerra. A cultura otaku não deveria ser vista como um sucessor direto da pré-modernidade japonesa, mas como um resultado da recente "domesticação" da cultura americana no pós-guerra (japonês), que se desenvolveu simultaneamente ao rápido crescimento econômico e a recuperação da auto-confiança nacional durante os anos 50 e 60. Nesse sentido, a cultura otaku é essencialmente nacionalista embora esta característica e expressão esteja distante do tradicional nacionalismo comum. (...) A cultura otaku é um tipo de expressão do nacionalismo Japonês pós-guerra embora suas bases na verdade estejam invadidas e traumatizadas pela cultura pop americana. Este paradoxo leva obrigatoriamente aos artistas e escritores otakus a serem distorcidos, ambivalentes, complicados e se expressarem através de um certo tipo de expressão auto-caricaturizada de niponicidade."
Sendo assim, o Superflat é reflexo de um incômodo intrínseco e indissociável à própria cultura que lhe deu origem – e, não custa repetir, do qual faz parte. O que explica sua própria reação visceral (e até mesmo excessiva em certos momentos) a essa natureza "caricatural" e infantilizadora presente no meio que os gerou.
A Teia Que Se Auto-Alimenta
Essa "infantilização" tem outras conotações. Há uma diferenciação entre o anime/mangá de otaku e o anime/mangá de grande público, mas à medida em que o próprio fandom gera profissionais na área (anime e mangá), essa linha tende a se diluir. A própria comparação entre Bleach e Shakugan no Shana (admitida pelos
próprios criadores deste último) é um bom exemplo dessa separação: Ambas as histórias partilham conceitos similares, mas Bleach surgiu na Jump, uma revista de massa, que mira em um recorte de público fixado em termos de gênero e idade, não de perfil. Shakugan surgiu como light novel, mais direcionada ao seu público, mas se apropria das mesmas premissas de Bleach e as reconstrói com iconografia otaku.
Por iconografia otaku, entendemos, no caso de Shakugan, as meninas nervosas mas que no fundo são doces – tipo de personalidade chamado pelos otakus de "tsundere", um clichê que pode ser reinterpretado como "elas me tratam mal, mas tenho certeza que gostam de mim" – vide a Naru de Love Hina. Por conta disso mesmo, o Tsundere pode ser considerado uma espécie de compensatório da imaginação por rejeições ostensivas, tanto que há bares "tsundere", onde os clientes – notadamente otakus – são tratados rispidamente por atraentes atendentes, para em seguida receberem uma demonstração que apesar de sua atitude, a presença deles é bem-vinda;
protagonistas masculinos passivos, fetiches visuais de associação iconográfica infantilizadora e simultaneamente sexualizada, embutido em um traço deliberadamente bonitinho sob medida para sua multiplicação em fanzines pornográficos (hentai).
Notem que isso não é à toa: o otaku no Japão tem poder aquisitivo e os produtos dirigidos a ele, mesmo sendo exibidos em horários inertes em termos de índices de audiência, renderão imensamente em produtos e vendas de DVD, e alimentarão uma indústria de fanzines que têm um mercado sólido no Japão e que atingirá o mesmo público a quem a série original se destina, ajudando a manter sua popularidade em alta mesmo após o fim da série – e portanto dando margem ao lançamento de novos produtos. É uma cultura de consumo que se norteia em termos de forma por suas necessidades de consumo. E justamente pelo seu fator de inter-relacionamento visível, podemos dizer que se Bleach vem de um cenário onde a criação é submetida ao grande público sob mediação das normas de mercado, Shakugan no Shana vem de um cenário paralelo onde o público específico é submetido à criação sob
essas mesmas normas (ou, para escrever de forma que um ser humano normal possa entender sem achar que eu sou um maldito pedante: como Bleach é produto de massa, se adapta ao perfil do consumidor; como Shana é produto de nicho, o consumidor é que se adapta a uma padronização da qual Shana já nasceu fazendo parte, até para enfatizar sua condição de membro de um nicho. Leia-se, ser parte assumida de um nicho é uma forma de auto-afirmação). Porque o seu público-alvo já construiu seu perfil segundo uma formatação externa, e dentro dela, a iconografia foi entronizada como normatização – e a passividade do protagonista masculino dentro do produto otaku típico (Otaru em Saber Marionette, Keitaro em Love Hina, Sakai em Shakugan no Shana, etc.) é talvez o passo chave para a compreensão dessa iconografia.
Essa compreensão é a força motriz fundamental na crítica Superflat – para o bem ou para o mal.
Pós-Modernismo e Expansão Global
É impossível pensar na expansão da estética do mangá e do anime fora do Japão sem pensar no contexto de pós-modernidade que o tornou possível. Ao levar a exposição Superflat para os Estados Unidos, houve uma intenção declarada do próprio Murakami de devolver à cultura americana aquilo que eles mesmos geraram, devolver a cultura otaku às origens que os japoneses negam. Mas de certa forma, ela já está retornando através de sua expansão através de desenhistas ao redor do mundo. Reprocessada, ela estava preparada para ser devolvida a ele e à cultura ocidental, uma vez que essa cultura tem ressonância com a própria norma nele instalada e que a gerou; mas, como ainda se está num estado de expansão, a crítica embutida no Superflat ainda não encontrou terreno o suficiente para que os criadores em estilo mangá ao redor do mundo se apropriem dele também como uma forma de resposta crítica a cultura de massa ao seu redor – que, ocorrendo em outro país, será uma cultura de massa diferente da cultura de massa dos japoneses.
Curiosamente, um dos primeiros a dar os primeiros sinais de uma apropriação desses princípios para dar uma olhada na sua própria cultura foi o artista alternativo americano Paul Pope, que não define esteticamente o seu trabalho como mangá. Pope foi o primeiro artista estrangeiro a se beneficiar de uma bolsa da editora japonesa Kodansha, e trabalhou para ela por cinco anos, absorvendo a narrativa da estética com precisão.

Nas primeiras páginas de seu Batman – Ano 100, temos a sensação virtual de que estamos lendo realmente um mangá...

... apesar de seu traço não remeter nem de longe ao conceito prévio do que muitas pessoas acreditam ser um mangá.

Isso acontece porque o que define uma estética de quadrinhos não é um estilo de traço, mas uma forma de narrativa visual, de cortes, decupagens, estruturação de quadros e páginas e consequentemente definição do conteúdo final por conta deste. O mangá de Furi Kuri, de Hajime Ueda, foge em muito ao traço que se convencionou atribuir aos mangás, lembrando artistas americanos alternativos como Ted McKeever por exemplo, e mesmo assim ninguém o classifica de outra forma. E é o caso no trabalho de Pope.
Em 100%, publicado no Brasil pela Opera Graphica, temos uma trama de romance moderno ambientado num bizarro cenário de ficção científica, onde monitores gravam e projetam imagens 3-D dos órgãos internos das pessoas que dançam em uma boate para um público pagante. Ao mesmo tempo, existe um esporte chamado Gastro-Luta, onde boxeadores são submetidos e exibidos pelo mesmo processo, onde se pode ver os danos que os golpes causam ao organismo dos lutadores. Levando em conta a cultura de Reality Shows dos Estados Unidos, faz muito sentido essa abordagem – e não à toa, Pope publicou na Afternoon, o mesmo espaço onde Milk Closet foi publicado. Há grande afinidade entre sua obra e o contexto temático do Superflat, e não custa dizer, Pope cita frequentemente esse material em particular como sua tentativa de se fazer um "mangá americano".
Mas é no já veterano Adam Warren que encontramos insuspeitamente um autor de mangás não-japonês que pode ser classificado pelo gênero. Warren não se vale do choque pelo choque, mas não é isso o que define o Superflat: é o uso da iconografia da cultura de massa para a crítica à própria cultura de massa. Ele antes de mais nada é um satirista com um amplo cabedal dessa mesma
cultura, e ele regurgita tudo com um humor cruel, inteligente e multi-referencial a ponto de ser eventualmente impenetrável para quem não está sintonizado em mídia, música, comportamento, sexualidade e até mesmo os avanços da ciência e seus efeitos na sociedade em todas as variantes possíveis. E isso o torna um leitor que, nos Estados Unidos, não é para todos os gostos.
Sátira Social em Mangás Americanos
No seu Gen 13: Grunge, the Movie, ele eleva o Fanservice em patamares tão exagerados que, apesar de realmente desenhar corpos femininos bonitos (e paradoxalmente mais realistas do que o que se faz no supostamente anatômico traço dos quadrinhos de super-heróis), ele o esfrega na lama a um patamar de ridículo. Em Fatal but not Serious, ele devasta a cultura do espetáculo ao apresentar a Dirty Pair em um programa de entrevistas nos moldes de Sylvia Poppovic e similares, modelo inspirado em talk shows americanos como Ophrah e Geraldo, diga-se de passagem – com direito a uma
paródia de Camille Paglia entre os presentes – e sendo alvo de adoração de uma horda de fãs nos moldes dos grandes assassinos seriais americanos que viram objeto de culto – e merecendo uma mega-convenção em nome delas.
Como tudo que envolve a Dirty Pair, nada acaba bem. Mas como o que define o superflat é justamente a reação ao meio social que gerou os clichês de quadrinhos e animação através de um exame desconstrutivo dos mesmos, talvez os mais evidentes exemplos de "superflateness" no trabalho de Warren sejam o seu especial para os Novos Titãs e a paródia Magical Drama Queen Roxy – que satiriza por completo o gênero Magical Girl (em especial Sailor Moon), e de tabela, devasta todo o comportamento da adolescente comum americana, todos os complexos que são enfiados em sua cabeça pela mídia, e tudo isso – tudo a partir dos clichês desse gênero (que explicam até porque um anime originalmente feito para meninas como Sailor Moon acabou por cair nas graças de otakus do sexo masculino ao redor do globo: heroína a um passo do moe, com sua inépcia infantilizadora aliada a atributos físicos bem expostos; e muitas meninas de pernas de fora em poses chamativas). Tudo isso com argúcia e acidez devastadoras.

Talvez por isso ele não tenha o destaque que merece em termos de vendagens e o seu período como roteirista na série Gen 13 tenha marcado justamente o cancelamento da revista. De modo geral, o americano tem horror a quaisquer olhares REALMENTE autocríticos e ácidos de sua sociedade. No caso da obra do Warren, além de escrachar com a mesma – mirando não na sua destrutividade, mas em sua obtusidade e culto às aparências – ele desfere um
tratamento irônico quando o tema é "romance", e isso é outra coisa que os fãs de quadrinhos típicos nos Estados Unidos não absorvem bem (Magical Drama Queen Roxy é um exemplo claro dessa impiedade nesse terreno). Podem reparar: o tratamento de sexualidade nos comic books é sempre nos moldes de novelas de televisão (e as novelas americanas conseguem ser apavorantemente piores do que as novelas mexicanas, acreditem) ou romances-rosa, nos moldes dos livrinhos de Barbara Cartland. As séries que chegam mais perto de um tratamento diferente se modelam em séries da Sony ou similares. Nada de galinhagem, piadas maldosas e tirações de onda do nosso dia-a-dia – coisas que acontecem realmente nesse terreno, e que, via sátira social, pipocam loucamente em qualquer trabalho do Warren.
O seu trabalho nos Titãs – talvez sua melhor obra – foi um pouco mais longe e se inseriu criticamente no próprio contexto dos quadrinhos americanos.
Ironicamente, foi o seu trabalho mais mangá em termos narrativos. Em um futuro marcado pelos ditames da ficção científica transhumanista, uma alegre estudante universitária de mitologia comparada decide reconstruir um "meme" (uma unidade de evolução cultural auto-propagadora, que pode ser aplicado a idéias que, ao serem devidamente absorvidas pela sociedade, são entronizadas e reproduzidas a nível comportamental. O amor romântico, por exemplo, é uma construção cultural pós-medieval – o conceito até existia na antiguidade, mas só se memetizou no comportamento humano da Idade Média pra frente. Antes disso, uma pessoa poderia sentir tesão e casar com uma pessoa que lhe desse filhos fortes, passando a vida inteira sem precisar se apaixonar para se sentir completo e sem ninguém pra lhe enfiar essa necessidade na cabeça) – no caso, uma mitologia esquecida de origem comercial do século vinte, voltada para um público juvenil, conhecida como super-heróis, onde personagens exagerados com roupas que desafiam o bom gosto e codinomes ridículos enfrentam ameaças enormes e tudo fica bem. No caso, pessoas que reuniriam capacidades análogas a um grupo conhecido como Novos Titãs. O problema é que quando a ameaça chega, tudo redunda em tragédia – e definitivamente, nada fica bem. No final, cercada de toda a miséria que ela trouxe para si e para as pessoas ao redor, temos a frase final: "Super-heróis são uma babaquice."
Poucas coisas são mais Superflat do que isso, também.
Agente de Paranóia
O fato é que como todo conceito dentro da cultura de massa, o Superflat terá como destino a diluição – e haverá erros de interpretação ao classificar este ou aquele autor como superflat. Mas há casos onde não há duvida, mesmo que não haja alinhamento aberto ao conceito. Furi Kuri como um todo coloca Hideaki Anno na linha de frente do Superflat na grande mídia, por exemplo – mas o
melhor exemplo do Superflat em animação é, definitivamente, Paranoia Agent, de Satoshi Kon, com seu subtexto de comentário social que envolve o abuso da presença de ícones de cultura de massa como o cãozinho Maromi, a condição de vida dos animadores (que podem ganhar muito mal), e uma crítica aberta da subcultura otaku no Japão.
Paranoia Agent vai muito, muito mais longe nesse teor de crítica. As idéias de Kon se alinham ao manifesto superflat de Takashi Murakami ao apontar para a virtualização da vida japonesa sob a sombra da cultura de massa local, que enevoa os conceitos de realidade e fantasia. Tudo é a mesma coisa – tudo foi "super-achatado" em um mundo sem profundidade, e isso é assustador – e essa série encampa essas idéias abertamente.
Em uma matéria para o Nichi Bei Times – jornal dedicado à comunidade nipo-americana nos Estados Unidos – de 10 de Agosto de 2006 (na íntegra aqui) , a série é descrita acertadamente como "uma análise de como a cultura do Kawaii (engraçadinho) foi parida pela bomba atômica e funciona como uma máscara para as atrocidades da Segunda Grande Guerra." Mas há mais:
Como Hello Kitty, Maromi é um animal engraçadinho (um cachorro cor-de-rosa), desenvolvido expressivamente como um ícone de marketing. Maromi se tornou um sucesso e sua criadora Tsukiko está sob imensa pressão para replicar a mágica dos lucros (...). Ela se torna foco de atenção da mídia quando ela anuncia que foi acertada por um bastão de beisebol por um jovem (...). Tanto o rapaz do taco quanto Maromi se tornam um tipo de forca de pacificação para as pessoas perturbadas de Tóquio. Ambos estão muito conectados à bomba atômica(...).
A bomba reduziu o antes agressivo Japão a uma criança indefesa. O Exército dos Estados Unidos se instalou e ocupou o país, estabelecendo um governo fantoche. Desde a bomba, o Japão se tornou completamente dependente dos Estados Unidos, economicamente e militarmente, sem esperança de alcançar qualquer tipo de autonomia. Foi neste ambiente que personagens como Hello Kitty emergiram. (...) Personagens como estes tendem a ser populares tanto com adultos quanto por crianças no Japão. (...) O Maromi de “Paranoia Agent” é um exemplo auto-consciente desse tipo de ícone engraçadinho. Nos últimos capítulos, descobrimos a verdadeira identidade de Maromi. Ela é o animal de estimação de Tsukiko na infância, que correu em direção a um carro quando não estava sendo vigiado. O cadáver do que foi a verdadeira Maromi foi transformado pelos pincéis de Tsukiko em um cãozinho de desenho animado, macio e fofinho, sem sangue, sem órgãos, sem suposição de responsabilidade e sem habilidade de ser responsável pelos outros. Esta pode ser uma metáfora para a auto-percepção Japonesa e a maneira que ela vê o mundo. Isolamento urbano e o avanço rápido da tecnologia ajudaram a erodir a realidade em favor da representação. A conexão com seres humanos verdadeiros se tornou menos desejável; personagens de desenho animado pelos quais você jamais terá responsabilidades se tornam amigos ideais. Alguns temem que eventualmente, os verdadeiros seres humanos já não sejam mais vistos, há muito tempo, como diferentes de suas contrapartes digitais e de pelúcia." (Ben Hamamoto)
É incrível como tudo se relaciona matematicamente. Alguém lembra qual o nome com que foi batizada a primeira bomba atômica, a que devastou Hiroshima? "Little Boy". O mesmo nome do livro que acompanhou a exposição "Superflat" de Takashi Murakami no Museu de Arte Contemporânea na Califórnia.
Como já foi enfatizado acima, neste texto, as idéias de Satoshi Kon estão intimamente ligadas ao discurso de Murakami em seu manifesto: Tudo está achatado.
Não há mais real ou virtual. Não há mais tradicional ou pop. Não há mais adulto ou criança.
Tudo é Superflat. E isso, sim, é assustador.

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Comentários:
Ah, me interessei muito por Paranoid Agent, vou ver se consigo assistir.
E nossa, o estilo do Paul Pope no Batman Ano 100 me lembrou muito o estilo do Rafael Grampá (que também bebe na fonte dos mangás - e pega um pouco de xilogravura japonesa), que eu considero um dos melhores desenhistas nacionais da atualidade.
Abraços.
Alexandre: Obrigado pelos elogios, Warty. Quanto ao Grampá, realmente o trabalho dele impressiona e muito. Tem personalidade e eu o acho extremamente cinemático. O que me chateia é que tenhamos um talento desses em nosso país e ele precise aparecer no exterior para que nós o descubramos.
Alexandre: Bom, imagino que deva ser meio cansativo ler tudo de uma vez na internet. No papel é mais tranquilo.
Não tinha idéia deste termo "superflat" e achei bem interessante! Sobre a "pop art" e os movimentos otakus e nerds, gosto de pensar que na verdade a semente destes movimentos começaram bem antes... quando o rádio começou a ficar popular e a entrar nas casas das pessoas.
Alexandre: Mas quando o rádio entrou na casa das pessoas e se tornou de massa mesmo, ainda não haviam surgido os nichos dentro dos nichos e a necessidade de se afirmar como parte de nicho. O superflat até como parte de um discurso de pós-modernidade não quer fazer exatamente ruptura, e sim apontar as contradições do contexto de que eles fazem parte. O melhor exemplo disso é o fato do Takashi Murakami fazer trabalhos para a Louis Vutton. Eles admitem fazer parte de uma cultura de massa. Trazem um baldinho de lama, mas o levam pra sala e comem na mesma mesa que todo mundo.
Creio que no Brasil está começando a surgir a primeira geração de otakus DE FATO! Que realmente ficam fechados dentro do mundo otaku sem nenhum outro interesse. Gostaria muito de ver uma "pesquisa de opinião" sobre este público para saber sobre seus interesses!
Alexandre: Eu acho isso meio discutível porque lá no Japão o otaku tem uma coisa chamada poder aquisitivo e isso faz diferença. Aqui não há como haver um otaku em moldes japoneses, que pode passar a vida inteira dentro desse mundo sem realmente sair dele ou sentir vontade de sair dele, isolado de um contexto social maior.
Poderia não ser educativo, mas seria interessante!
Alexandre: Ou talvez apavorante.
Eu acho que algumas pessoas não entenderam pq tem MUITA informação no texto. É o melhor texto seu, entre os vários que eu li.
Alexandre: Obrigado. Mas eu acho que deveria ter sido claro algumas vezes. Teve gente na internet que entendeu que Superflat eram justamente os animes e mangás de otaku. Nada disso.
Li uma fic sua sobre Chobits, você conta uma história com persocons mas parece criticar o conceito de persocons e a sociedade no texto, seria uma fic com a mesma intenção do superflat ?
Alexandre: Na verdade a minha intenção foi soltar o estresse. Eu havia feito um artigo criticando Chobits – o ÚNICO quadrinho que eu li na vida que em determinado momento quase me fez RASGAR o material. Sério. Não fiz isso, mas eu só faltei xingar em certo ponto da história. Teria ficado nisso – mas veio uma carga tão grande de ataques contra mim dos fãs da clamp espalhados pela internet que eu acabei me irritando. Então eu comecei a escrever aqueles fanfics desmontando o universo da série.
Mas eu cheguei a conclusão que fanfic, ao menos para mim, é desperdício de uma energia criativa que eu podia estar usando em minhas próprias criações. Então ficou naquilo mesmo.
Até mais, grande matéria.
Alexandre: Novamente obrigado.
Ótimo texto, parabens. Eu tenho e assisti a Poemi e realmente senti o tapa na cara... hehehhe... nessa cena...hehheheh
Muitíssimo parabéns, caro Alexandre, são estas matérias que fazem o blog Maximum Cosmo ser incomparável.
Eu li esta matéria na Neo Tokyo e foi justamente por conta dessas suas matérias que eu passei a colecionar essa revista.
Como sou fã assumido de MOE, gostava dessas matérias justamente porque me faziam refletir sobre mim mesmo. Eram um ótimo exercício de autoconhecimento.
Se bem que eu não tenho remédio. Ao invés de criar vergonha na cara, simplesmente me aceitei como sou. =)
Mas acho que os artistas suplerflat não iriam me censurar por isso, afinal, pelo que pude entender, eles não são necessariamente contra o consumismo, são contra a alienação.
Continuo comprando essas coisas, mas não tenho ilusões sobre o que realmente é aquilo que compro e sobre o porquê de eu comprar aquilo.
"E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará." (João 8:32)
Alexandre: Obrigado pelos elogios, Jânio.
Quanto a posição dos artistas Superflat, eles mesmos admitem que não podem fugir desse contexto. Eles são parte dele. Talvez seja minha única grande crítica a eles: não são um movimento que preconiza ruptura. E as coisas acontecem justamente quando há um grito por mudança. Pense no movimento Gekiga. Sem ele, não haveria o que conhecemos como quadrinho seinen. Talvez os mangás não tivessem evoluído da forma que evoluíram e poderiam jamais ter saído do Japão, até porque foi a absorção de elementos adultos pelo shonen e a absorção de elementos juvenis pelo gekiga (que rapidinho deixou de ser chamado como tal e passou a definir o estilo mais anatômico produzido pelos artistas daquele período) que deu origem ao mangá moderno.
Por outro lado, dentro de um cenário de mercado como aquele que o mangá se tornou, talvez não haja mais espaço para movimentos artísticos que queiram "mudar tudo". As mudanças se tornaram orgânicas, é só comparar os mangás de uma mesma revista em uma mesma semana do mesmo mês em 1979, 1989, 1999 e agora, 2009 (e a próxima década já está chegando).
É justamente o fato de estarem consciente de sua condição de fruto desse cenário de consumo que leva, por exemplo, aos trabalhos de Murakami com a Louis Vutton. Se olharmos bem, ele não opera na base do excesso pelo excesso como outros autores superflat – o olhar dele é o de ironia e certo cinismo. Sutil no primeiro curta, bem mais evidente nesse novo (afinal, a sociedade de consumo é o terreno do descartável, da necessidade imediata, da volubilidade, não?).
O próprio superflat faz parte de um discurso de pós-modernidade. Ou seja, tudo é reciclável, nada de novo surge. Mas eu ainda acho que a modernidade não precisa do inédito – diacho, a renascença foi um discurso de ruptura e resgatou valores da antiguidade em reação à cultura medieval que a antecedeu.
Mas um pequeno aviso: tenho certeza de que quando surgir algum discurso de ruptura, o Moe vai ser o maior telhado de vidro do mundo. Ele mesmo já se coloca nessa posição – eu o vejo não como um problema em si, mas como parte do problema e o alvo mais luminoso para a primeira leva de pedradas. E quem levantou a lebre contra ele foram justamente os artistas superflat.
Que o adotaram até para poder jogar seu baldinho de lama regularmente, se pensarmos bem.
Um exemplo é a relação deles com a igreja. Note que mutos pintores, embora resgatassem o estilo visual clássico, permaneceram pintando temas religiosos. Criticavam o modelo social que a igreja defendia, mas não queriam o fim da igreja como instituição.
Aliás, o fato dos artistas superflat fazerem parte do meio que atacam é algo em comum com os artistas renacentistas. Eles criticavam a igreja, mas a igreja era a maior patrocinadora do movimento renacentista. Em paralelo, o público-alvo dos autores superflat japoneses são os próprios otakus. Ironia das ironias.
Aliás, existe outra relação entre o Renascimento e o Superflat. Uma das ruputras que os renascentistas pregavam era a libertação dos dogmas da igreja. E os renascentistas protestavam contra essa "apologia da miséria" com sua atitude:
Enquanto a igreja pregava o divino, a arte renascentista valorizava o mundano; enquanto a igreja exaltava a pobreza, os artistas sonhava em enriquecer; enquanto a igreja via a arte puramente como forma de expressão cultural, os artistas a viam como ganha-pão. Neste processo, eles acabariam criando as bases da moderna sociedade de consumo que o movimento Superflat ataca.
As pessoas tendem a vanglorizar os revolucionários como promotores de mudanças e desprezar os reformadores como covardes conservadores, e não percebem que os movimentos reformistas podem até ser mais profundos e dramáticos.
Basta se lembrar da "Cauda Longa". Processos gradativos mas persistentes, vão exercendo efeitos cada vez mais fortes na medida em que se prolongam no espaço e no tempo. Oficiais de artilharia militar dão muita atenção ao calibramento de suas armas porque sabem que um desajuste de alguns milímetros no alinhamento das peças podem fazer os projéteis errarem o alvo em várias dezenas de metros ou até vários quilômetros, dependendo do alcançe da arma. Quanto maior o alcance da peça, maior a margem de erro.
Assim, eu acho que os artistas superflat estão no caminho certo, pois pensam visando o longo prazo. Ao comerem pelas beiradas e firmarem aos poucos o seu papel, podem deixar uma herança muito mais profunda e duradoura sendo reformadores do que revolucionários.
Pense bem. Se eles se recusassem a "fazer parte do jogo", rejeitando a sociedade de consumo e jogando na cara dos otakus em termos claros o quanto são desprezíveis, o mais provável é que fossem ignorados. Mas no momento em que dialogam com os otakus jogando o jogo deles, estabelecem um diálogo.
E qual a melhor maneira de chamar a atenção de alguém, senão mostrando algo que lhes interessa? Pense nisso, caro colega.
Alexandre: Eu não diria que o público-alvo do superflat seja o otaku, apesar do próprio Murakami ter sido otaku em um determinado momento de sua vida. Me parece que eles atraem justamente o pessoal de vanguarda, mas acabam chamando atenção generalizada porque eles apontam para uma otakização da sociedade como um todo.
E não despreze os movimentos de ruptura – porque é justamente quando eles são diluídos e cooptados que acabam por fazer diferença.
Ah, mudando um pouco de assunto. Pode me chamar de burro, mas eu não entendi qual é a "ambiguidade cínica" do final daquela animação feita para a Louis Vutton. Poderia me explicar? o.o'
Alexandre: Bom, temos duas visões. A primeira, mais amigável é que aquele garoto seria uma possível "encarnação" do rapaz francês pelo qual a menina se encantou a julgar pela presença da imagem dele no celular. Há uma linha direta por causa de detalhes como cabelos.
A outra mais simples é que o encantamento passou, foi fugaz e que ela rapidinho arrumou um novo interesse. Sentiu a associação de pensamento a partir daqui?
Fiquei curioso. Qual é o tema da sua monografia?
Alexandre: "O Mangá e o Discurso do Imediato". Mas seria meio extenso explicar aqui.
Alexandre: É essa linguagem "quase acadêmica" que me arrependo – porque eu soltei isso numa revista de anime, ora. Se eu tivesse tempo, realmente reescreveria o material pra ficar mais amigável.
Quanto a cadeira nova, bom, não posso falar nada: arranquei o encosto da minha porque ele mais atrapalhava do que ajudava.
O chamado humor “camp” do Batman de Adam West pode ser considerado um parente distante do Superflat?
Alexandre: Eu duvidaria. O humor ali não chegou a ser incidental mas não é "auto-consciente".
Interessante. Tem como disponibilizar pra gente?
Alexandre: Estou pensando seriamente nisso, mas uma coisa é certa: eu não o transformarei em matéria nos moldes daqui do blog.
Isso realmente não faria o menor sentido. Por mim basta fazer o upload do pdf e passar o link avisando que se trata de um trabalho acadêmico formal.
Ah! Esqueci de perguntar: qual o curso?
Alexandre: Comunicação Social/Jornalismo.
Ahhhh, agora entendi. X)
Acho essa interpretação a mais provável, já que é mais a cara do discurso superflat.
"E não despreze os movimentos de ruptura – porque é justamente quando eles são diluídos e cooptados que acabam por fazer diferença."
Não me entenda mal, caro colega, eu não desprezo os movimentos de ruptura, apenas chamei a atenção para o fato de que os movimentos de ruptura, embora chamem mais a atenção, não são a única maneira de se mudar uma sociedade.
Quando se trata de mudar a cabeça das pessoas, o diálogo pode ser tão eficiente quanto o confronto. É tudo uma questão de se saber qual o melhor caminho, e o movimento superflat escolheu o caminho do diálogo.
Talvez haja outra razão para a postura do movimento superflat de criticar aspectos específicos da sociedade de consumo e não a sociedade de consumo em si: falta de alternativas.
Desde a queda do Muro de Berlim e o colapso do bloco socialista, os movimentos de contestação de todos os tipos (inclusive os movimentos artísticos) ao redor do mundo entraram em um total estado de desorientação.
Sabem que a sociedade de consumo tem problemas sérios, mas não conseguem imaginar um modelo alternativo viável de sociedade que permita um modo de vida mais saudável sem interferir nas liberdades individuais dos cidadãos.
É altamente provável que o movimento suplerflat esteja passando pelo mesmo dilema. Os japoneses sabem se há algo de errado com a atual sociedade consumista, mas não querem abrir mão dela porque não existe nenhum modelo melhor disponível. Correr para onde?
Como ainda não se descobriu uma cura para a doença, tudo o que se pode fazer por hora é tratar os sintomas para aliviar o sofrimento.
Falando sério, sou formado em biologia e quanto mais eu estudo a biologia mais eu enxergo os seres humanos como máquinas orgânicas. Não há muita diferença entre o DNA e uma programação feita por um computador, a sinceramente, um programa é muito menos sujeito a falhas do que nosso velho e corrompido DNA.
As pessoas valorizam demais os sentimentos que não passam de sinais químicos. Há muita falta de conhecimento e achismos de que os sentimentos são coisas puras, intangíveis, sublimes e sagradas quando não passam de combinações de hormônios que foram herdadas de nossos aptos ancestrais.
Alexandre: Eu sei que são apenas combinações de hormônios, mas eu vi de outra forma: uma valorização do discurso isolacionista otaku. Minha impressão é que a Clamp começou pensando nisso como uma crítica a justamente essa mentalidade, mas como deve ter enfrentado rejeição de seu público, inverteu a rota no meio do caminho e passou a encampar essa bandeira.
Para mim foi um trabalho horrorosamente covarde. Quando a baixinha peituda disse que via o protagonista apenas como um irmão mais velho, eu senti vontade de tacar uma pedra nas autoras da clamp. Quatro pedras, aliás.
Elogio é pouco para agradecer pelo que você escreveu.
Eu também achei extremamente falso quando ela disse que o via apenas como irmão, mas mesmo assim, acho que o significado que ficou no fim do mangá foi de que apesar de terem certas escolhas que fazem mal pra gente, nós as tomamos mesmo assim. Como foi dito no próprio mangá, não há nenhum ser humano que possa ser perfeito como uma máquina é, é uma competição desleal. O ponto é que seres humanos são máquinas orgânicas e não admitem isso pelo narcisismo de se achar melhor que qualquer outra criatura no universo pq (??) "pensa" e tem opiniões (??) próprias.
Mas foi covarde mesmo.
Só tenho uma correção a fazer: Hideaki Anno não teve nada a ver com FLCL, que foi criado e dirigido por seu pupilo Kazuya Tsurumaki. Aliás, sempre que Naota fala do seu irmão mais velho que todos idolatram, não consigo deixar de enxergar um paralelo com Tsurumaki e Anno.
Pena que, depois de um trabalho autoral tão marcante, Tsurumaki voltou para a ficar sob a sombra de Anno, dirigindo uma continuação de Gunbuster e remakes cinematográficos de Evangelion sob a supervisão dele.
Alexandre: Bom saber. Como o nome de Anno saltou das fontes que pesquisei na época, vou dar uma confirmada. Se for o caso, corrijo sem falta.
Mas o que você diria de uma série tipo "The Guild"??
http://www.youtube.com/watch?v=urNyg1ftMIU
Confesso que não assisti, apenas li sobre e vi (e gostei) desse Clip!
Mas parece beber de proposta parecida, não? Ou estaria eu ampliando o conceito (o que poderia diluí-lo)?
Alexandre: Bom, todo conceito tende a diluição quando ganha a massa. Acho que nos mangás e animes o melhor caso é o Sayonara Zetsubou Sensei do Koji Kumeta – ele devasta e é cruel, mas está longe de ser extremo ou inacessível ao grande público. Quanto ao Guild, eu o acho mais sinal dos tempos, mas como o próprio pessoal do superflat diz, hoje em dia tudo é superflat porque a cultura pop passou a se alimentar da própria cultura pop, então...
É bastante interessante, também, porque estou fazendo uma mini-pesquisa (não acadêmica, só por diversão) sobre a imagem do feminino e as fantasias sexuais (principalmente de humilhação) inseridas nos shoujos, para uma professora que pesquisa gênero (faço psicologia). - Afinal, considerando que as protagonistas foram construídas para que a leitora se identificasse com elas, é interessante perceber o quanto essas personagens são submissas, domesticadas e fracas. Muitas vezes heroínas quase que abusadas sexualmente se apaixonam pelos abusadores....
Bem, ótimo artigo! Muita coisa nova que eu não conhecia! Obrigada!
Alexandre: Fico feliz em ter sido útil.
Muito bom o seu texto!!!
Sou artista plástico e esse texto fez muito sentido para mim, a ultima parte falando da transformação das pessoas em bichos de pelucia, infantilizadas e sexualizadas é muito boa. Tem muito a ver com o hiper real do Baudrillard onde o simbolo é mais importante que o real, a sociedade se dá pelo espetáculo.
O que Murakami condensou na sua arte ao meu ver foi essa questão do vazio dos dias de hoje (tem coisa mais vazia de alma e melancolica esses mangás?)
A internet também é uma forma de solidão coletiva, enfim...
Deixo um link de um trabalho meu, já que as pessoas que cresceram curtindo todo esse vomito cultural japones se influenciam de uma forma ou outra.
http://4.bp.blogspot.com/_XCgElZaEmns/SvwyUEfRLeI/AAAAAAAAAOY/BLyBa0CT3A8/s1600-h/Dito_motor02.jpg
Alexandre: Seja bem-vindo, Gabriel.
Eu entendo que precisemos de uma visão crítica, mas não considero os mangás vazios de alma – não quando eles nos deram obras como Ashita no Joe e A Lenda de Kamui. O que aconteceu foi que há muito tempo, autores quiseram usar realmente o mangá como uma forma legítima de expressão e criar algo que significasse alguma coisa. O que aconteceu foi uma perda de significado, os autores que vinham e pegavam apenas o visível dessas obras sem parar para interpretar o que estava por trás delas - a xerox da xerox da xerox, por assim dizer. E eles se tornaram, sim, vazios em sua grande maioria.
Eu não queria dizer que mangá e animês são melancolicos, mas que eles transmitem isso com seus personagens.
O proprio Paranoid Agent citado mostra personagens com vazios muito grandes
Abs
Com tanto livro tratando sobre "animes que passaram no Brasil", seria interessante ler algo que realmente tenta explicar o que há por trás dos mesmos. Parabéns.
Ponto de vista muito interesante o seu. ^^'
Gostaria de estabelecer contato com vc, to precisando de umas dicas importantes que especialmente você poderia me fornecer.
Se não for pedir d mais entra em contato comigo ^^
Abraço ^^'
1°: Então o superflat não é um trabalho de crítica ou auto-critica, mas um: "Se é isso que querem então toma", ou algo similar?
2°: Fugindo um pouco dos mangas e indo para os comics. Os trabalhso do Frank Miller: DK2 (Dark Knight Strike again!) e Batman e Robin all star, podem, ou são, trabalhos superflat.
Agradeço.
Alexandre: 1) Sim, o que não deixa de ser uma atitude contestatória. 2) Faz sentido a analogia, embora DK2 tenha sido um tiro no próprio pé.
Alexandre: não deixa de ser adequado. O Superflat é pop até para poder se valer de suas iconografias e desconstruí-las.
só uma coisa: dizer que parte do superflat se dedica ao "choque pelo choque" é no mínimo subestimar o estômago japonês. dentro de um contexto em que o próprio fanservice tão diligentemente entregue pela mídia japonesa (e tão cuidadosmaente analisado pelo superflat) abarca fetiches que fogem do simples moe e se extrapolam do bizarro e grotesco (eroguro, etc.), as obras mais viscerais do movimento não têm mais poder de choque do que qualquer mangá doujinshi "alternativo" que há por aí. dentro das próprias artes plásticas essa barreira foi quebrada há muito. não é necessário exagero caricato por parte dos artistas para chamar à atenção os aspectos curiosos dos objetos de fetiche das subculturas otaku; basta recolocalizá-los (como duchamp) em um novo contexto não fetichizado para que questões sobre sua natureza sejam levantadas. teve uma exposição superflat, não me lembro qual nem onde, no qual uma obra consistia só de páginas aleatórias de hentai coladas em um mural; outro, da reconstrução impecável de um quarto otaku. essa reprodução fria da cultura japonesa é talvez o aspecto mais pós-moderno do movimento.
Alexandre: Esse é um ponto. O fato é que a própria cultura otaku é infantil e autodestrutiva ao mesmo tempo. Sabendo expôr, não há como errar o alvo.
Sou um entusiasta da cultura japonesa e estou recolhendo material para construir um blog que a analisa de maneira crítica. Não vou negar que essa análise de Paranoia Agent enriqueceu ainda mais essa animação que me é cara.
Infelizmente a literatura especializada no assunto é muito pouca, e eu gostaria de saber se você conhece alguma fonte, pode ser em inglês, onde posso ter acesso a textos de sociólogos, psicólogos ou pessoas que tratam do assunto de forma crítica e científica. O máximo que consegui nessa jornada foi Etienne Barral.
Alexandre: a melhor fonte de textos acadêmicos sobre essa cultura que conheço é a revista Mechademia. Dá para comprar os volumes pela amazon.
Outra pergunta: será que você me autorizaria a indicar este artigo para algum editor de cultura ou quadrinhos de um jornal (como a Folha de São Paulo, por exemplo) ou de uma revista (Istoé, Época, etc.)?
Alexandre: fique a vontade.
O artigo é genial. Nos últimos meses, tenho refletido muito sobre o fandom e a verdadeira importância das obras, qual o seu sentido etc.
O artigo me foi tão útil que eu sinto como se a minha toda, como fã claro, eu estivesse dormindo para conceitos-chave.
E aí, vem alguém e me dá um murro que me faz acordar. Lendo o artigo, eu finalmente entendi a razão de tudo: a razão para a ferramenta do fanservice. A razão para os japoneses pegarem coisas banais e transformá-las em um senhor exagero. O constante questionamento a crenças, filosofias, etc. A mania de sempre tentar transparecer o lado "cool e descolado". A dificuldade em alcançar o meio termo, sempre indo a extremos.
E por isso, eu só tenho a agradecer. Valeu!
Bem, não quero rasgar a seda nem bancar o bajulador, mas quero deixar expressa aqui a minha IMENSA satisfação em ler este artigo. Além de ter muito conteúdo é muito explicativo. E eu também definiria como "revelador".
Concluindo o meu post, só posso te dar os parabéns pelo trabalho. Um trabalho realmente interessante e que levanta pontos com argumentos para protegê-los. Não te conheço, mas saiba que ganhou o meu respeito (mesmo isso não sendo de importância nenhuma hehe).
Também conquistei um grande respeito pelo Hayao Miyazaki enquanto lia o artigo. Eu simplesmente não tinha idéia de que ele tinha a mesma filosofia que eu, como aspirante fajuto de roteirista, tenho em relação as personagens femininas: a falta de apreço ao fanservice, retardamento das personagens etc. Agora bateu um arrependimento....
Mais uma vez, parabéns e muito obrigado pelo artigo.
Grande abraço!
Alexandre: obrigado, Spider-Phoenix.
PS: lendo os comentários, fiquei curioso e espero que possa me responder uma dúvida: o que você viu de tão ruim em Chobits? Como nunca li a produção, fiquei curioso para saber o que gerou o seu descontentamento.
Alexandre: essencialmente, Chobits ameaça uma crítica social que acaba não apenas sendo negada; elas passam a validar tudo o que parecia que ia ser condenado, e com desculpas fajutas e melosas. Nesse sentido é quase uma declaração de princípios para aquelas criaturas que não largam do seu joguinho de Love Plus e deixam mulheres de verdade de lado.
Alexandre: formalmente não, mas contextualmente se alinha muito com a visão crítica do superflat.
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