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Dez 15
Preview do Mangá de Gossip Girl
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Lancaster |
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10
Categorias: Gossip Girl

A editora americana Yen Press (braço gringo da poderosa editora gaulesa Hatchette) não está para brincadeira – e convenhamos, eles tem poder de fogo para isso e só agora começamos a testemunha-lo: eles colocaram nada mais nada menos no website oficial da MTV americana um preview exclusivo do mangá de Gossip Girl, escrito e desenhado pela autora de Sunjyong Manhhwa – leia-se, mangá coreano para meninas – Hye Kyung Baek. São as primeiras páginas coloridas que todo volume de mangá que se preza tem, e convenhamos: elas impressionam: Assim como a capa dava a entender, você vê que é um mangá mesmo em traço e narrativa, mas a técnica de colorização, tradicionalmente usada em produtos voltados a meninas nos Estados Unidos – e como a criadora é coreana, mesmo que esteja se baseando em uma série de livros e de televisão americana, claramente essa foi uma opção artística deliberada. Isso deu personalidade ao trabalho e uma cara própria a ele, em um caso interessantíssimo de mediação cultural. Não sou público alvo de Gossip Girl nem tenho interesse no mundinho desses personagens que eu alegremente enfiaria numa kombi, tocaria fogo e ficaria com uma carabina apontada caso eles pudessem escapar, mas não há como negar que com esse tento a revista Yen Plus mostra a que veio no cenário dos almanaques de mangá americanos, ainda mais em um ano que marcou o cancelamento da Shoujo Beat nos Estados Unidos – e a Viz deve estar batendo muita cabeça na parede nesse momento. Bom, vamos ao preview e divirtam-se.




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Comentários:
E porque será que todo mangá de menina mostra homens parecendo umas bichinhas sem sal? Po... só adolescente que nunca viu homem para se apaixonar por estes caras! Se for para ver bicha, prefiro os mangás Bara do Jiraiya, pelo menos os personagens PARECEM homens!
Alexandre: Minha teoria é que as japonesas tem medo dos homens e preferem sujeitos assim para sonhar porque ao não parecerem homens, não são ameaçadores. Então, japoneses, por favor sejam legais com as garotas. Elas retribuirão.
Esse tema de Gossip Girl e as primeiras páginas me fazem pensar em patricinhas metidas à super-poderosa, celebridades ao estilo Paris Hilton.
Posso estar errado (e é melhor a Yen press torcer que eu esteja), mas imitar Paris Hilton mais queima do que beneficia, como descobriu a DC com Supergirl atual...
Alexandre: Pode ser, mas gossip girl é um sucesso MONSTRO, em livros e série de tv. Por outro lado, qual o perfil das mulheres americanas que ainda se interessam pelo que é publicado no mercado direto, como a Supergirl que você citou? É uma turminha meio indie demais pra representar as leitoras normais, aquelas que ainda se importam com os rumos da Mulher Maravilha e que provavelmente lêem coisas como Estranhos no Paraíso.
Não acho que a Yen Press esteja errada, afinal.
Até mais.
Alexandre: Hoje o servidor esteve uma porcaria e você não foi o único a reclamar, com razão.
Mas realmente temos vários canais de comunicação que deveriam ser melhor utilizados. Ironicamente quem melhor os usa é a Pixel com seu Luluzinha Teen. Ou seja, quando o produto vale, não tem comunicação. Quando tem comunicação, não vale. E isso é chato, muito chato de se dizer.
Não é bem assim. A androginia na verdade é um fenômeno que se manifesta em todas as culturas, e a verdadeira diferença está na aceitação social deste fenômeno:
http://super.abril.com.br/superarquivo/1993/conteudo_113668.shtml
A verdade é que em todo lugar existe quem curta essas coisas. O que acontece é que no Japão esse fenômeno encontrou um terreno fértil para se tornar algo culturalmente aceitável devido a vários fatores, dos quais se destaca o próprio biótipo dos japoneses. Pelo menos é o que afirma a pesquisadora Christiane Akune Sato, autora de "Japão -O Poder da Cultura Pop Japonesa" e com a qual eu concordo.
Na maioria das etnias os homens possuem uma fisionomia diferente da das mulheres, sendo geralmente mais altos, mais robustos e com traços faciais diferentes. Mas na etnia japonesa, por alguma razão difícil de definir (embora o fator genético seja claro), homens e mulheres são muito parecidos na aparência, especialmente quando jovens, o que é um detalhe importante se considerarmos que nas culturas tradicionais (como a japonesa) as pessoas namoram, noivam e casam bem jovens, algo que só recentemente mudou, com a incorporação de hábitos ocidentais.
Assim, quando homens e mulheres queriam um(a) parceiro(a) bonito(a) e charmoso(a), tinham critérios estéticos bem parecidos. Tanto homens quanto mulheres ostentavam uma aparência delicada para mostrar aos pretendentes o quanto eram saudáveis e bem-cuidados, e procuravam o mesmo nos candidatos a parceiros.
Influía para isso a moda tradicional japonesa da nobreza (ou seja, os chiques que todo mundo quer imitar), de vários tecidos sobrepostos (você já deve ter notado isso nos quimonos) que deixam a pessoa toda empacotada, e consequentemente, esconde seus atributos, que são justamente os únicos elementos que diferenciavam os homens das mulheres. Quando os parceiros se entreolhavam, não se importavam se o homem era marombado ou se a mulher é peituda, pois a roupa impedia qualquer avaliação nesse sentido. O que importava nessa hora eram as únicas partes que ficavam à mostra, isto é, o rosto e os cabelos, onde praticamente inexistia diferença na fisionomia.
É bom lembrar que isso não é exclusividade dos japoneses. O maior rio do mundo, o Rio Amazonas, tem esse nome porque os portugueses achavam que ao longo dele existiam tribos de mulheres guerreiras chamadas de "Amazonas" ("Amazona" é feminino de "Cavaleiro") de modo que esse rio era chamado de "Rio das Amazonas", o que daria origem ao nome "Rio Amazonas". O que acontece é que em muitas etnias indígenas da região, os homens se pareciam muitos com mulheres, com traços corporais e facias delicados e cabelos longos, lisos, brilhantes e sedosos, de fazer inveja para as fãs de chapinha. =P
Devido ao ambiente favorável, a androginia acabou se firmando na cultura tradicional japonesa. Christiane Sato cita como exemplo a história de um imperador que perde uma batalha contra um povo vizinho e pede que o filho caçula se fantasie de dançarina, seduza o rei inimigo e o mate. Nas palavras da própria, "Os japoneses contam, sem o menor problema, a história de um herói travestido, e ele ainda é da família imperial."
Essas tendências culturais acabariam enraizadas na cultura japonesa, e inveitavelemnte deixariam suas marcas na cultura popular, inclusive na dos mangás.
Aqui no ocidente, as mulheres não gostam dese tipo de personagem porque ele encarna aspectos que a cultura ocidental, com sua ascendência judaico-cristã e greco-romana, rejeita.
Na cultura greco-romana há uma forte distinção nos ideias de beleza masculina e feminina - inclusive encarando-os como opostos, de modo que homens que incorporem elementos culturais considerados facultativos das mulheres são muito mal-vistos. Ainda hoje no ocidente persiste a associação entre androginia e homossexualidade.E sobre esta forma de encarar a androginia se manifesta a condenação judaico-cristã de homosexualidade. Dessa soma, o resultado é o estranhamento.
Ou seja, a androginia não é uma invenção da cultura pop japonesa, mas uma das facetas universais da sexualidade humana que a cultura japonesa achou bonito e a cultura ocidental condenou.
Alexandre: Pode ser. Mas eu levo muito a sério – diabos, eu acabei tomando contato com as bases teóricas dele durante esse semestre e fiquei feliz pra burro, porque ele praticamente avalizava coisas que eu sempre concordei – um conceito conhecido como mediação cultural, ou seja, quando há a transposição de um conceito cultural de um lugar para outro, a percepção do receptor é tão fundamental quanto a do emissor. E isso quer dizer que uma mensagem jamais será a mesma dependendo da forma com que ela é recebida.
Ou seja: para que um mangá seja realmente mangá fora do Japão, ele não pode ser exatamente como é no original para causar o mesmo efeito. E pensando não nas meninas que lêem material japonês, mas nas que ainda tem que ser conquistadas para um quadrinho feminino, fica a pergunta: como convencer com um galã que na vida real elas não sentiriam firmeza?
Aqui eu faço um pequeno desafio para as futuras desenhistas de shoujo que estiverem me lendo: conseguem criar um padrão de galã que não seja andrógino, que pareça interessante para uma garota comum, e que ainda assim seja indiscutivelmente... shoujo? Repito: encarem como um desafio. Porque exige tirar muita teia de aranha da cabeça.
Alexandre: Conheço criaturas que já passaram dos vinte e cinco e que ainda não se tocaram disso... XD
E o Rio Amazonas vem de uma carta de um padre que viu Amazonas mesmo. As Gregas, ele descreve elas BRANCAS, de cabelos cacheados, etc. Eu li essa carta, é de um missionário espanhol que fazia viagem com os Conquistadores por aqueles lados. Não lembro o nome dele agora, mas creio que tá presente no livro do Eduardo Galeano, Memória do Fogo: Nascimentos.
E voltando, não vejo em que ponto os japoneses aceitarem um heroi travesti faz com que todas as culturas julguem isso comum, ou aceitável. Como você disse estamos enraizados na cultura greco-romana, onde a figura feminina é tida como inferior, e qualquer coisa ligada a ela tirava a "força" do homem, etc. São lugares onde o homoerotismo era aceito (e até considerado mais digno devido a essa idéia de inferioridade feminina) mas ser afeminado era inviável. Algumas culturas matriarcais também não aceitavam que os homens tivessem trejeitos femininos. E cabelos longos nem sempre são considerados "femininos". Bem, é isso.
http://japanpopcuiaba.wordpress.com/2009/12/11/as-japonesas-preferem-os-chineses/
Obrigado pela errata sobre as origens do nome "Rio Amazonas". Eu estava apenas me lembrando do que aprendi no ensino fundamental (que na minha época ainda era o "1º Grau") e não cheguei a pesquisar produndamente esse tema em específico antes de postá-lo aqui. Para vocês verem como as escolas, que deveriam ser locais de sabedoria, ensinam muita besteria.
¬¬'
Contudo, insisto na tese que apresentei anteriormente e não vi nada em minha argumentação que indique o contrário. Note que eu não disse que a questão da androgenia é ACEITA em todas as sociedades, eu disse que ela EXISTE em todas elas. É bom lembrarmos que a androginia, ao contrário do que muita gente pensa, não é um fenômeno cultural, é biológico mesmo, lembrando que uma pessoa andrógena é uma pessoas que possui traços corporais (ou seja, aparência física) relacionados ao sexo oposto ao que ele pertence no sentido sexual, no feferente ao aparelho reprodutor, ou seja, é um fenômeno com forte influência genética. São as pessoas que possuem aparelho reprodutor masculino mas aparência de mulher, ou aparelho reprodutor feminino mas aparência de homem. É algo que está além pode poder de escolha das pessoas e dos tabus culturais.
É um fenômeno de natureza parecida com a da homossexualidade, e embora diferencie-se da homossexualidade no sentido de ser algo referente a aparência e não a orientação sexual (um homem andrógino, por exemplo, não é necessariamente efeminado, podendo ter comportamento e orientação sexual tipicamente masculino), tem em comum o fato de ter raízes biológica (ainda que parcialmente), também causa implicações sociais profundas. Por ser um assunto relacionado à sexualidade (no sentido amplo, não apenas o sexo propriamente dito), inevitavelmente acaba obrigando as sociedades a desenvolverem algum tipo de postura coletiva com relação à questão. É aí que o bicho pega.
Vamos permanecer nesta analogia com a homossexualidade. Alguém aqui realmente acredita naquele papo do presidente Mahmoud Ahmadinejad de que não existem gays ou lésbicas do Irã? Alguém acredita que exista alguma sociedade em que ninguém "jogue água fora da bacia"? Pelo menos no caso do Irã, tenho certeza que não, já que há evidências fortes de que centenas de pessoas são condenadas a morte lá por serem pegas "jogando no time errado", e isso levanta outra questão: O que pode levar uma pessoa a "escolher" gostar de pessoas do mesmo sexo mesmo sabendo que isso pode lhe custar a vida?
Isso leva muitos pesquisadores a afirmar que a razão dessas pessoas preferirem perder o pescoço a "andar na linha" se deve ao fato de que estas pessoas fizeram sua "escolha" orientadas por algo maior que suas culturas, suas educações e suas racionalidades. Escolheram ser assim porque, acredita-se, é da natureza dessas pessoas serem assim. Não é que essas pessoas quisessem ser assim, elas simplesmente não conseguiram evitar. A androgenia levanta dilemas parecidos. è bom lembrar que a questão da aparência é uma questão sensível em qualquer sociedade tanto quanto a questão da orientação sexual.
No caso das etnias ocidentais, é até aceitável - ainda que questionável sob o ponto de vista moral atual (que culpa o infeliz tem?) - encarar a androgenia como anomalia, pois, como eu disse no post anterior, nas etnias européias (que originariam os povos ocidentais) o natural é que o homem seja fisicamente bem diferente da mulher, e quando um homem ocidental foge a este perfil, é compreensível que todo mundo estranhe.
Contudo, volto a repetir, essa diferenciação na aparência dos sexos não é universal, pois existem etnias em que homem e mulheres compartilham traços físicos em comum, como é o caso dos japoneses. Se os japoneses condenassem a androgenia, seria como se os brasileiros condenassem a mestiçagem.
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Alexandre;
Oh, sim, eu também já li sobre isso, concordo plenamente, e digo que dentro do contexto do blog Maximum Cosmo, pode ser resumido como "Aqui não é o Japão". Aliás, posso citar um ótimo exemplo que testemunho com meus próprios olhos todo dia, pois sou muito fã de animes como "Kanon 2006", "Clannad", "ef" e similares. Esses animes tem em comum o fato de terem sido feitos para otakus babões adoradores de MOE, e terem emcontrado aqui no ocidente um público totalmente diferente: As mulheres.
Digo isso porque se você entrar nas comunidades do orkut e nos tópicos dos fóruns sobre estes animes (tome um exemplo aqui: http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=24359824), vai ficar surpreso com a quantidade de garotas e mesmo mulheres adultas que gostam destes títulos aqui no Brasil, e provavelmente nos demais núcleos de fãs J-Pop do ocidente.
Acredito que isso se deve ao fato de que este títulos, por acaso, possuem características (visuais, narrativas, de ambientação, de caracterização, temática, etc...) que aqui no ocidente (por conta das diferenças culturais) são comumente usados em obras dirigidas ao público feminino, de modo que as "calcinhas" acabam criando certa familiaridade com estas obras.
Assim, se uma empresa ocidental que vir a adquirir os direitos destes títulos, ao explorá-los deverá levar em conta o apelo que eles potencialmente tem junto as mulheres. Com o devido marketing e planejamento, poderiam até mesmo ser explorados tendo como alvo o público feminino.
Mas embora eu concorde que a maioria dos títulos de mangás dificilmente cause nos ocidentais o mesmo efeito que causam nos japoneses, para mim isso não justifica edições e mudanças descaracterizadoras. Espelhar, mexer no título ou mesmo nos nomes ainda vá lá, o problema é mexer na prórpria história, que é a essência de uma obra. Acho isso uma baita falta de respeito, até meio antiético. Se for para fazer algo visando totalmente a realidade pop daqui, o ideal é produzir mangá localmente, como é o caso de Gossip Girl.
E pessoalmente, acho dispensável a criação de "um padrão de galã que não seja andrógino, que pareça interessante para uma garota comum, e que ainda assim seja indiscutivelmente... shoujo" para a criação de um núcleo de desenhistas de shoujo antenados com a realidade ocidental e brasileira.
Como Warty bem lembrou, mostrar os homens de uma forma idealizada é a norma geral em se tratando de títulos para meninas, e isso é produto do fato de que garotas (até por uma questão de instinto natural - a versão feminina da mania dos homens de levar tudo pro lado da sacanagem) possuem a tendência universal de sonhar com um modelo de homem ideal, a famosa "Síndrome do Príncipe Encantado". Como conquequencia, dentro do fenômeno de "escapismo", quando leem quadrinhos, querem encontrar neles justamente aqueles homens que elas tanto desejam e que não encontram.
E para encarar essa questão, eu pessoalmente (pessoalmente, destaque-se) acredito que devemos lembrar da lição dos japoneses do que é ser mangaka: O mangaká não é artista, é "entertainer". Um mangaká que se considere o tal não se preocupa em passar um ensinamento ou uma visão de mundo para as pessoas, se preocupa em criar algo que seja divertido.
Isso é importante porque, quando falamos de diversão para mulheres, temos que levar em conta que elas são tão (ou até mais) escapistas que os homens. Elas preferem pagar para que um homem as corteje de forma agradável do que dar bola para um homem que lhes solte um cantada tosca mas declamada com toda a sinceridade do fundo do coração.
Não, não quero dizer com isso que as mulheres gostem de falsidade. Significa apenas que elas gostam de idealizar, e se não podem fazer isso no mundo real, fogem para o mundo da fantasia. Nós homens não temos esse problema porque nosso romantismo é de natureza erótica e uma tr***da basta para nos satisfazer.
O Brasil não é o Japão. E mulheres não são homens.
Alexandre: Bom, li tudo. Só vou pedir que da próxima vez que você mande um texto longo desses – e sinceramente acho até melhor assim quando há algo a se dizer – por favor mande o texto corrido, sem quebras de linhas – aquela maldita tag de quebra do html. Tive que editar esse texto, não para cortar nada, mas porque estava tudo em linhas curtas de espaço duplo. E isso bagunça tudo.
Não sou muito a favor de cortes e edições – eu mesmo acho que o espelhamento é uma forma de evitar certo tipo de mutilação na recepção, mas a melhor postura quanto a isso eu ouvi da Elza Keiko da Panini: em espelhar ou não espelhar, sempre haverá alguma perda. É decidir o que se quer perder.
Mas eu falo no que se trata de produzir um mangá em países que não são o Japão. Vamos usar por exemplo o shoujo: o quadrinho para meninas deu certo por lá porque ele fala para o imaginário e cotidiano das meninas locais. Até o anos setenta, ele estava muito focado no imaginário ocidental e naqueles livros que no Brasil saíram pelo que era chamado "biblioteca das moças" (pergunte a sua mãe ou avó, dependendo da idade dela), certo? Acho que por causa disso países como a Itália consumiram tantas animações japonesas para meninas – a penetração desse tipo de material é muito fácil no ocidente se pensarmos bem e é até estranho que apenas Candy Candy e um azarão como Honey Honey tenham sido exibidos por aqui que eu saiba.
Eu acho importante isso: que saibamos quem é nosso público. E isso significa falar para o imaginário e cotidiano de nossos leitores, não importa quais sejam. Então a primeira coisa que temos que pensar é: o que queremos falar? Não falo exatamente dar tudo o que eles querem. Tem uma sequência em Bakuman que eu acho fabulosa: quando eles tentam, em meio a uma crise criativa, escrever baseados nas cartas dos leitores. Então o editor ao ver aquilo, chega e pergunta: o que vocês fizeram? A qualidade do seu roteiro despencou! E eles confessam que fizeram isso baseados nas cartas dos leitores. E ele deixa claro: a história é escrita PARA os leitores, não PELOS leitores.
No entanto, escrever para os leitores significa que eles devem ser ouvidos, mesmo que a responsabilidade criativa seja sua e apenas sua.
E isso significa sua dose de concessões. O Gossip Girl é um produto que reflete um imaginário tipicamente americano. Como ele é consumido goela abaixo do mundo inteiro, okay. Mas não somos o público primário. Eu acho animador que algo assim esteja sendo feito para o público americano porque isso reflete o público americano, o que eles consomem, o que eles vêem.
E acho que mais importante é encarar o espírito que move a confecção de um trabalho para um mercado diferente, e não a execução dela em si.
Sobre a questão da androginia, ela tbm está presente nos shonen mangás. Lembro que quando comecei a ler mangás um dos meus primeiros foi Bleach e eu não sabia diferenciar a Tatsumi do Mizuiro. Em D. Gray Man temos o Kanda que é praticamente um traveco de visual kei e em muitos outros shonen mangá vemos personagens com esses elementos.
Sobre os personagens de Gossip Girl... Bem, eles são feitos para adolescentes e garotas adolescentes via de regra têm pavor a homens adultos e detestam sinais de masculinidade como barba, pelos etc. Um produto voltado para adolescentes mostra garotos adolescentes (garotos estes que não têm nem barba na maioria dos casos até uns 17 anos, só um bigodinho safado e uma penugem no queixo) e o principal, eles são feitos para atingir o idela de beleza dessas garotas, ou seja, traços clássicos, pouca ou nenhuma barba e alguma musculatura. Se for para diferenciar garotos de garotas o ideal é diferenciar pela forma do corpo, afinal 70% dos adolescentes de hj em dia frequenta academia.
Sobre andróginos II - Vc os encontra em qq lugar, sempre tem aquele garoto ou garota que vc não tem muita certeza do gênero, isso é normal na adolescência.
Sobre o Japão, conversei uns tempos atrás com uma amiga minha que fez pós-graduação no Japão e ela me disse que todas as amigas delas gostavam de homens e de homens másculos, e que elas gostam muito da aparência dos ocidentais tbm, a mulher japonesa (segundo ela me contou) quer alguém que possa protegê-la.
Acredito que esses ideais de androginia são um ranço do passado em que ser andrógino era o padrão ideal de beleza (tanto que no Japão só háum padrão de beleza único tanto para homens quanto para mulheres), acredito que isso tenha mais a ver com estética dos shoujos e o seu público-alvo (garotas de 10-15 anos) do que com o gosto das mulheres adultas japonesas.
Acho que isso é o memsmo que tentar esfregar uma MILF na cara de um garoto de 12 anos, ele vai acabar preferindo uma garota de 16 anos que uma mulher de 30-35, mas quando ele se torna adulto os gostos mudam (não tanto já que o Japão é um celeiro de pedófilos xd).
Concordo, caro Alexandre, acho que o problema aqui é que eu não me expressei direito.
Eu disse que achava seu "desafio" desnecessário, não no sentido de que os nossos candidados a desenhistas de shoujo não prescisem criar uma versão local de "bishounen", nesse sentido você está certo. Como as garotas brasileiras idealizam os homens em termos diferentes das japonesas, um "Bishounem brasileiro" também será diferente. Eu apenas discordei de uma das características que você apontou como desejáveis. Que ele (o bishounen) deve ser interessante para garotas é uma verdade indiscutível, o que encanei foi com o "realista".
Se pensarmos bem, mesmo o Bishounen japonês está totalmente deslocado da realidade japonesa. Homens japoneses não se vestem de mulher, não se beijam por qualquer motivo bobo, e quando se parecem naturalmente com uma, fazem o possível para "corrigir" esse problema, já que, como qualquer povo machista(e mesmo os mais "modernos"), são extremamente zelosos de sua masculinidade. Ou seja, ainda que andróginos realmente sejam comuns no Japão, eles não se parecem nem um pouco com os que aparecem nos mangás. Mais uma vez lembremos da palavra chave para entender a cabeça de uma menina:
IDEALIZAÇÃO
Shoujos são feitos para meninas, e ainda que meninas estajem em uma fase de transição (física e mental), a verdade é que elas ainda são, em essência, crianças. E nada dá mais prazer (e portanto, diverte) mais uma criança do que fantasiar.
Pode olhar os programas infantis de todo lugar, não há nada de realista ali, nem mesmo os educativos. Aliás, os educativos são os que mais viajam na maionese, pois retratam as coisas como elas devem ser, e não como são de verdade. São assim basicamente para se ajustar às preferências de seu público alvo. Se tentam ser realistas de fato, ficam chatos, e portanto desprovidos de apelo comercial.
Realidade e diversão raramente combinam. A realidade para a maioria das pessoas é algo feio, chato e mesmo deprimente, de modo que a maioria das formas de diversão que existem (inclusive bebidas e drogas) nos dão prazer porque criam uma experiência agradável. Como coisas agradável são naturalmente interessantes, desviam nossa atenção da realidade, nos fazendo esquecer do que nos faz sofrer e do que nos cansa.
Podemos concluir com isso que o "escapismo" não é um instituto restrito aos mangás, é praticamente um dos princípios universais do entretenimento. Mesmo as obras mais realistas (como documentários) tentam de alguma forma nos fazer esquecer de algo que nos atormenta ou nos fatiga, ao desviar nossa atenção para algo que, ainda que realista, é algo que nos interessa.
*Aliás, me perdoe por estar falando de um monte de coisas que você provavelmente já sabe ( inclusive, aprendi muito do que estou falando neste post aqui no seu blog), estou dando essas explicações mais detalhadas pensando nos outros leitores mais novatos daqui. =) *
Os shoujos e shounens (aliás, a grande maioria dos mangás, talvez com exceção dos mais adultos, e olhe lá
E sinceramente, não acho difícil (pelo menos em teoria) criar padrões de personagens, ambientações e história que sejam essencialmente brasileiros sem que um shoujo deixe de ser shoujo. Basta lembrarmos que um Shoujo é um mangá para garotas, ou seja, é apenas um tipo de mangá. Para saber o que faz um shoujo ser shoujo, basta saber o que faz um mangá ser mangá. Aqui mesmo, no Maxumum Cosmo, você postou sobre os concursos que os japoneses promovem para avaliar mangás estrangeiros. Em uma dessas notícias foi mencionado o critério-chave dos próprios japoneses para definir uma obra como sendo mangá:
NARRATIVA.
Segundo os próprios japoneses, o que importa em um mangá não é ter olhos grandes, nem ter personagens que falem "nyu", nem ser ambientado no Japão, ou ser cheio de fanservice otaku: O que interessa é que tenha uma narrativa cinematográfica, ou seja, que quem o desenho o faça como se estivesse fazendo um storyboard. O que interesse não é o que está sendo contado ou mostrado, mas a forma de como está sendo mostrado ou contado.
Podemos dizer basicamente que a narrativa e o desenvolvimento são os fatores-chaves que devem ser considerados por quem quer ser mangaka de verdade. Claro que a questão é mais complexa do que isso, mas discutir isso aqui não interessa diretamente à questão.
Acho essa um questão importante por conta de um problema que é subestimado nos núcleos culturais J-Pop aqui no brasil, o de que o conceito que temos de mangá é totalmente preconceituoso e estereotipado. Quando um desenhista daqui resolve fazer mangá, o que normalmente sai é um "comic com olhos grandes". O conceito de mangá que temos aqui é baseado no traço e no character design, o que são justamente o que menos interessa, pois como você já deve saber, uma das coisas mais interessantes na cultura visual J-Pop é justamente a variedade inigualável de estilos de traço e formas, inclusive estilos copiados do ocidente.
Assim, bolar roteiros, criar ambientações e imaginar personagens, visando o público feminino brasileiro, é o menor dos problemas, pois a cultura brasileira (especialmente a televisiva) é riquíssima em histórias que podem servir de inspiração ou, pelo menos, nos mostrar do que é que a mulherada gosta. Enfim, acredito que o realmente falta para criarmos uma base conceitual e teórica para dar suporte à criação de uma legítima geração de mangakás capazes de criar mangás genuínos (e acima de tudo, divertidos) é justamente a consciência do que é mangá. Ingredientes (temas e histórias) e cozinheiros (gente interessanda em fazer mangá, inclusive shoujo) temos de sobra. O que falta é aprender a receita.
E talvez, como você sempre gosta de lembrar, aprendermos que nosso país, nossa cultura, nossa história e nosso povo podem ser muito interessantes, e portanto, divertidos.
Para o Carlos Eduardo:
O pior é que eu acompanhei "6/16" por um (curto) tempo. Eu realmente achava a história pavorosa, mas gostava do estilo visual. Seria uma ótima mostra de que uma animação simples e minimalista pode ser e bonita, se aquela historinha tosca não tivesse estragado tudo. =(
A presença de andróginos em shounens é uma mostra de que este tipo de personagem é visto com naturalidade por lá. A macharada pode até não gostar, mas também não se incomoda, então os autores provavelmente os colocam para ampliar o público potencial, já que este tipo de personagem tem apelos junto às garotas. Aliás, alguns shoujos também tem essas manhas. A própria Matsuri Hino (Merupuri; Vampire Knight) de vez em quando deixa escapar que coloca fanservices em suas obras pensando nos cuecas de gostam de shoujo. Naturalmente, ela tenta incluí-los de forma a não ofender a mulherada.
Mas não tenho certeza de que em Gossip Girl os rapazes sejam daquele jeito porque "garotas adolescentes via de regra têm pavor a homens adultos e detestam sinais de masculinidade como barba, pelos etc". É até verdade que as garotas americanas são assim, mas isso em si não explica a androginia dos rapazes em Gossip Girl, pois em outros desenhos (inclusive alguns em estilo anime) como Witch ou Três Espiãs Demais, os rapazes também são apresentados nestes termos e ainda assim não são andróginos.
>>> A propósito, dando continuidade ao que eu estava falando ao Lancaster no meu último post, os rapazes que aparecem nesses desenhos são exatamente o que eu imagino de um "bishounen" ao estilo ocidental. São feitos para agradarem as garotas (bonitos, sensuais, másculos, etc...) mas não são andróginos. Aliás, é interessante notar que, embora estilizados, estes homens são, em um certo sentido, realistas. Suas características físicas e comportamentais, embora idealizadas, não são de todo fantasiosas. Assim, embora desenhos como Witch, Três Espiãs Demais e afins, sejam umas tremendas tosqueiras, também são (para o bem ou para o mal) um ótimo exemplo de adaptação dos princípios dos shoujos - pelo menos a nível de caractere design - para a realidade ocidental.
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