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Dez 03

O Crescimento das Revistas Mensais

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Lancaster | PERMALINK | 7

Categorias: mangá

Daigaku Manga

Um dos elementos curiosos nesse momento de transformação do mercado é o declínio de publicações semanais... e o surgimento bem-sucedido de novas publicações mensais. Jump Square, Shonen Sunday Mensal, Bessatsu Shonen Sunday, Big Comic Spirits Mensal... essa movimentação não passou desapercebida pelos estudiosos japoneses de mídia e a revista acadêmica Daigaku Manga, publicada pela Koike Shoin (editora de Kazuo Koike, criador de Lobo Solitário) e pela Universidade de Artes de Osaka, está dedicando sua edição de nº14 a atual leva de publicações mensais. E fica a pergunta: a crise econômica conta ou a preferência por uma história melhor contada acabou começando a pesar? É uma discussão importante para a melhor compreensão dos futuros rumos do mercado japonês de quadrinhos.


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Comentários:

Nome: Pato_Supersonico 03/12/09 07:16
É o fator econômico, sem sombra de dúvida.

Historicamente, o fator econômico é o maior determinante para os hábitos de consumo de qualquer público, inclusive de quadrinhos, já que existe uma relação direta entre a saúde da economia e o poder de compra da população.

Podemos citar o próprio Brasil, cujo povo passou a ler mais depois do lançamento do Plano Real. A reforma neoliberal, aliás, foi fundamental para o surgimento do mercado de mangás do Brasil, pois o público de faixa etária mais baixa foi o mais beneficiado em seu poder de compra com a estabilidade cambial, e foi o aumento da demanda por produtos voltados para este público (inclusive quadrinhos) que abriu oportunidade para a "invasão" dos mangás. Sei que é duro para alguns aqui admitirem isso, mas o maior promotor dos mangás aqui no Brasil foi o FHC. :lol:

É o mesmo motivo pelo qual alguns leitores brasileiros mais fominhas defendem espaçamento maior (bimestral ou trimestral) nos mangás publicados aqui. Como o povo daqui, apesas das melhoras no poder de compra, a verdade é que a maioria dos fãs J-Pop brasileiros não conseguem comprar tantos títulos quanto gostariam, então desejam um maior espaçamento porque isso permitiria aos apreciadores de variedade colecionarem um leque maior de títulos simultâneamente. No caso do Japão, o consumidor com seu poder de compra prejudicado pela crise vai achar mais cômodo comprar uma antologia por mês do que uma antologia por semana, pelo fato óbvio de que comprar uma antologia por mês sai mais barato que comprar quatro no mesmo período.

E eu acho esse papo de que o leitor japonês está preferindo histórias de melhor qualidade carece de evidências. Não sei quanto a vocês, mas eu não vi nos recentes lançamentos nada que indique que as editoras estejam se preocupando mais com a qualidade artística das histórias. Muito pelo contrário.

A recente notícia postada neste blog da infiltração de material que "fede a otaku" nas publicações voltadas ao grande público, o aumento da influência de títulos como K-ON! no mercado de animes e o aparecimento cada vez mais frequente de títulos de ninho nos rankings de vendas só nos permite duas alternativas de interpretaçãos destes fatos:

- Ou teremos que admitir que não houve expansão da qualidade artística no atual contexto do mercado japonês de quadrinhos;

- Ou teremos que assumir a hipótese de que material otaku é artisticamente superior. E que otakus são gênios incompreendidos. 8-)

*risada maligna*

Alexandre: Gênio não, Deus me livre.

O ponto de uma história bem cuidada pode estar sendo levada em conta. Compare a Shonen Magazine Mensal com a Shonen Magazine Semanal. Tudo bem, a Magazine semanal tem hits como Negima, como Air Gear etc., mas reparem que a mensal cresceu de importância a um ponto de superar a Shonen Sunday em vendagens. E comparem o material que sai de lá em termos de solidez. Do ponto de vista dos fãs ocidentais, um Kaiouki nunca vai ser mais atraente do que um Air Gear, e um Tekken Chinmi Legends pode não vender mais do que um Negima. Mas do ponto de vista de quem
compra uma revista, cada capítulo isolado tem mais densidade narrativa – acontece bem mais em um capítulo de Chinmi do que em um capítulo de Negima.

E eis outro aspecto do fator econômico que você talvez não esteja levando em conta e é o que eu quero dizer com "história melhor cuidada": o quanto de história está sendo oferecido em troca do seu dinheiro. Porque você pega algo com mais páginas por capítulo, aonde acontece bem mais coisa. O capítulo tem que dizer ao que veio. Se Tite Kubo fizesse em um capítulo de 31 páginas, após a espera de quatro semanas, o que ele faz em um capítulo de 19 (que pela própria frequência de publicação acaba sendo mitigada de pouquinho em pouquinho a cada edição da jump, então quando ele pode enrolar, ele aproveita para fazê-lo à vontade), a paciência dos leitores com ele iria para o espaço. Depois de 31 dias, ele TEM que mostrar alguma coisa acontecendo.

Densidade narrativa faz parte do custo-benefício de uma história. E é isto que está pesando, também, tanto quanto o preço de se acompanhar uma história em si.

E sinceramente eu torço pro Japão sair da lama para poder respirar e jogar os K-On! da vida escada abaixo, pelo amor de Deus.
Nome: Pato_Supersonico 03/12/09 08:46
Ah, tá. Entendi.

Mas mesmo considerando que tenha havido uma melhora de fato na qualidade geral dos títulos, isso não abala as considerações que eu expus logo no começo de minha mensagem. Os hábitos de consumo de uma população são guiados pelo dinamismo da economia, indiretamente no seu tipo, e diretamente no seu nível.

São os fatores econômicos, tanto os macro (como o dinamismo da atividade econômica) como micro (o surgimento de novas tecnologias, por exemplo) que guiam a necessidades de consumo de uma população, e consequentemente, as atitudes das empresas, que são meras respostas as novas necessidades que vão surgindo ou desaparecendo.

Reconsiderando minha suposição com base no que você disse, digo que a crise, ao reduzir o poder de compra dos leitores japoneses, obrigou as editoras a buscar meios que permitissem que seus clientes permanecessem a acompanhar seus títulos, do qual o aumento do espaçamento entre as publicações mostrou-se a solução mais viável.

Mas como "O capítulo tem que dizer ao que veio", a adoção um novo padrão resultou em novas práticas. Assim, pode-se dizer que a maior preocupação com uma "história melhor cuidada" nasceu como necessidade de adpatação ao sistema de publicação mensal.

Pelo exposto, digo que, pelos motivos citados, que o maior cuidado com as histórias não foi causado por mudanças nas exigências do leitores, mas como consequência do surgimento do sistema mensal.

Alexandre: Mas as revistas mensais sempre existiram – antes mesmo dos dois primeiros semanários de mangá (a Sunday e a Magazine, que estrearam no mesmo dia por conta de uma corrida mútua de "quem lança primeiro", provavelmente regada a muita espionagem industrial mútua). O Homem Aranha de Ikegami saiu na Shonen Magazine Mensal nos anos setenta, e a Shonen Jump Mensal que não existe mais é de Fevereiro de 1970. O que aconteceu foi que esses títulos ganharam destaque e agora as editoras estão lançando Shonen Sunday mensal, Big Comic Spirit Mensal, a Shonen Rival é mensal e embora o pessoal diga que ela tenha sido criada para competir com a Jump Square, ela me lembra em muitos aspectos a Shonen Jump normal, a semanal; a Shonen Magazine mensal passou a se destacar, e por aí vai.

E os capítulos de uma série mensal sempre ofereceram mais do que os de uma série semanal. É só comparar o que acontece quando um autor trabalha numa série mensal e numa semanal ao mesmo tempo, só comparar – atualmente de cabeça me lembro de Adachi (Cross Game na Sunday Semanal e Q&A na Mensal) e Oh! Great (Air Gear na Magazine Semanal e Tenjho Tenge na Ultra Jump, que é mensal). A gente tem a sensação de ler não um capítulo, mas uma história com unidade, mesmo que ela termine em aberto. Mas o que uma oferece em densidade de conteúdo, a outra oferece em uma frequência quatro vezes maior. Isso pode ter sido melhor percebido por motivos econômicos, mas conta muito. Custo benefício é mais valorizado do que o preço em si quando se faz um gasto regular.


Também insisto na tese de que otakus são gênios incompreendidos, e que os infiéis devem se converter enquanto ainda há tempo. B)

Alexandre: O doutor mandou não te contrariar, sabe como é... XD
Nome: F/X 03/12/09 11:12
Dois dedinhos...

A revista fala exatamente da abordagem narrativa das revistas mensais. Titulos que saem em revistas mensais tem outro tipo de leitor.

E, a Jump e a Magazine jah foram mensais, semanais, mensais de novo e depois dividiram em dois, uma mensal e outra semanal.

O que acontece eh que revistas mensais sofrem menos com os males de enquetes e tem roteiros mais solidos. Soh acho que a SQ, que ainda segue o modelo da Jump Semanal, venceu com outra formula, que eh sempre ter algum material chamativo.
Nome: Carlos Eduardo 04/12/09 08:44
É tudo uma conjunção de fatores, uma qualidade maior de material (tanto em termos de arte quanto de roteiro),a satisfação depois de ler um capítulo que é (quase) sempre bem mais pesado e dinâmico que em uma revista semanal e ao mesmo tempo o fator econômico. Se a gente for parar para ver não há mais revistas shoujo semanais ou quinzenais, são todas mensais e provavelmente os shonens estão tomando o mesmo caminho.
Também tem que se lembrar que a vida está cada vez mais corrida e uma revista mensal consome 1/4 do tempo que uma revista semanal, tempo é dinheiro.
Aliás, sobre Bleach, ele não era assim no começo, alguém tem dúvidas de que isso é pressão editorial? Porque na mini-saga flashback do "Turn back the pendulum" as coisas andaram em um ritmo muito bom e sem enrolação, esticar uma história é um recurso editorial antes de tudo, vendas = lucro = emprego = economia saudável.
Nome: Pato_Supersonico 04/12/09 04:42
Sim, caro Lancaster, eu sei que antologia mensal sempre existiu.

Eu só estou respondendo a pergunta "...) a crise econômica conta ou a preferência por uma história melhor contada acabou começando a pesar?" Eu só estou partindo da premissa de que não é coincidência o fato dessa mudança de atitude dos leitores ocorrer em meio a esta crise economica.

Mundanças econômicas resultam em mudanças na mentalidade das pessoas, o que por sua vez muda suas maneiras de encarar o mundo, e consequentemente, suas preferências. Mudanças nas preferências dos consumidores ocasionam mudanças nos hábitos de consumo, o que por sua vez, implica em uma reação por parte das indústrias para se adequarem diante na nova realidade mercadológica.

Resumindo, realmente houve uma mudança nas preferências dos leitores, mas essa mudança foi produto da crise.
Nome: Warty 07/12/09 11:30
só uma coisa, Pato Supersonico:

Podemos citar o próprio Brasil, cujo povo passou a ler mais depois do lançamento do Plano Real. A reforma neoliberal, aliás, foi fundamental para o surgimento do mercado de mangás do Brasil, pois o público de faixa etária mais baixa foi o mais beneficiado em seu poder de compra com a estabilidade cambial, e foi o aumento da demanda por produtos voltados para este público (inclusive quadrinhos) que abriu oportunidade para a "invasão" dos mangás. Sei que é duro para alguns aqui admitirem isso, mas o maior promotor dos mangás aqui no Brasil foi o FHC. :lol:

Engraçado, antigamente revistas em quadrinhos vendiam na casa de milhões. Hoje em dia, Tuma da Mônica Jovem é superhipermegaduper vendida porque atingiu meio milhão. Eu acho que sua idéia é um pouco torta. Os mangás chegaram com força no Brasil, creio eu, devido ao cultural: a invasão da cultura pop japonesa proporcionada por Cavaleiros do Zodíaco facilitou e MUITO essa entrada dos mangás, animês e afins aqui no BR.

E com tanta coisa desviando a atenção da criançada, acho que os hábitos de leitura hoje em dia são menores. Quem vai preferir ler um livro ou gibi quando pode ficar no orkut/MSN ou jogando Call of Duty?

Enfim, creio que o neoliberalismo imposto por FHC não teve muito a ver com essa progressão de leitura, que no fim das contas eu nem vejo. Temos mais pessoas que sabem ler no país (em tese, porque o que há de analfabetismo funcional aqui no Braisl não é brincadeira), mas não vejo tanta isso de ler mais. Acho que o contrário...

talvez com a implantação do vale-cultura isso mude. Ou não, deve ter muito nego que vai vender isso tentando comprar comida ou qualquer besteira. Ou vai usar pra comprar revista pornô, sei lá.
Nome: Warty 07/12/09 11:32
Ah, e sobre mudanças economicas mudarem a mentalidade das pessoas não é tão certo. Podemos entrar num debate historiográfico-sociológico muito grande aqui.

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