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Out 28
Mangá Francês do ET de Varginha
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Lancaster |
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9
Categorias: mangá global

Caros postulantes brasileiros a criadores de mangá: enquanto a maior parte de vocês ficam fazendo propostas de mangás de fantasia medieval (okay, há um precedente comercial para justificar isso, mas se todo mundo ficar propondo quadrinhos de fantasia rpgística, todos estes vão acabar competindo entre eles mesmos e deixando nichos de mercado desguarnecidos. É ruim para todo mundo), ninjas e samurais, os franceses chegaram a nossa frente e pegaram um dos temas mais ricos de potencial para se fazer material fantástico e ficção científica no Brasil. O autor Phillipe Auger está lançando, pelo selo Ankama (que é a responsável pelo mangá Debaser, de Raf), o mangá O.V.N.I.: L'Affaire Varginha. O estilo remete, e muito aos mangás para adultos com traço mais anatômico que saem em revistas como a Morning e a Business Jump – e nem venham me dizer que isso não parece com um mangá (apesar de, independentemente de polêmicas estéticas ou não, o traço do autor seja irregular mesmo)! Não que brasileiros não tenham feito histórias a partir do caso Varginha por aqui; mas quantas delas teriam potencial comercial no atual cenário? Em todo caso, em parceria com o website francês de notícias sobre mangá e anime Manga-News, a Ankama acabou de disponibilizar as primeiras imagens do material (cujo volume terá 192 páginas ao todo) – e que podem ser vistas AQUI NESTE LINK. Divirtam-se.
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Comentários:
Alexandre: Bom, o ponto é: não sou a favor de nacionalismo burro. Mas também não sou a favor de antinacionalismo burro. Um escritor que fez um livro de fc ambientado nos estados unidos falou que não fazia sentido fazer o mesmo aqui – que se ele fizesse uma história aqui, seria uma história realista, contemporânea e barra-pesada, porque é isso que o Brasil inspira a ele. E sinceramente, isso é uma atitude tão imbecil quanto impôr um discurso dos tempos do integralismo, de que devamos falar do saci-pererê ou coisa parecida.
Então acho que deveríamos pensar em olhar ao que temos ao redor, e acho que certas atitudes impositivas fazem com que tenhamos que escolher entre um nacionalismo de escola primária do tempo da ditadura OU uma negação do potencial que temos em mãos.
E enquanto isso, outros contam as histórias que poderíamos estar contando.
Mas será que aqui, por mais legal que a história fosse, não seria tratado com humor, assim como a notícia sobre o acontecimento em Varginha foi tratado pela maior parte das pessoas?
De qualquer forma, gostaria de ler isso.
Alexandre: Esse é um problema. Deu raiva ver que nós tivemos um Brasileiro (o Marcos Pontes) sendo lançado ao Espaço e ao invés disso inspirar gente a fazer histórias de ficção científica na tv ou nos quadrinhos, com brasileiros decididos a ir para o espaço também, nos deu um quadro esculhambatório no Zorra Total. Mas é mais um motivo para que por aqui nos mexamos em virar o jogo.
E de resto, sempre acho ótimo quando alguém faz isso lá fora, para que alguém entenda o nosso vacilo e se mexa por aqui.
Ainda falta superar o principal obstáculo, que é saber com clareza o que é que um mangá precisa ter para ser vendável por aqui.
E quanto a mangás de ficção-científica há um fato cultural que pesa contra: a cultura fortemente misticista do povo brasileiro. O sociólogo Roberto DaMatta já havias notado esse tendência do brasileiro, provavelmete resultado de nossa herança cultural.
A cultura brasileira nasceu da interação das culturas indígena, africana e portuguesa, que tinham em comum a forte religiosidade e ligação com o sobrenatural. E a nossa educação, que nunca foi boa, falhou em introduzir em nosso cotidiano a prática científica.
Como resultado, o nosso povão tem grande interesse por abordagens místicas e pouco interesse por abordagens científicas.
Isso pode ser observado nas novela globais, cujos autores podem usar de elementos como vampirismo, reencarnação ou anjos em seus roteiros sem pestanejar, mas têm que tomar cuidado com elementos científicos, que são sujeitos à rejeição pelo público.
Alexandre: Você não é o primeiro a dizer isso – e se pensarmos bem, até hoje Patrulha Estelar no Brasil é mais lembrado por sua terceira temporada (a segunda no Brasil, já que a primeira não foi exibida por aqui). Soube de cidades no interior que paravam para assistir o desenho. E no entanto, a terceira temporada tem subtons religiosos tão grandes – a Deusa Shepherd, lembra? – que faz sentido que uma obra de FC tenha parado a todos naquele momento.
Talvez seja por aí.
Quando eu fazia parte de um extinto fórum de Evangelion, houve quem afirmasse que EVA era uma mostra de que mangás de ficção científica poderiam fazer sucesso. Eu contestei dizendo que EVA não conta porque tem um lado misticista bem acentuado.
Se for para uma editora publicar um mangá de ficção científica, tem que levar isso em conta. Para nossa sorte, os japoneses gostam de juntar elementos místicos e científicos e é isso que permite que animes de ficção científica dêem certo por aqui.
Em comparação, os seriados americanos de ficção científica "pura" só costumam sobreviver nas TV's por assinatura, provavelmente porque atendem a um público de maior escolaridade média.
Exemplo disso são os fumettis todos ambientados fora da Italia e sem personagens italianos mas pensados por italianos para italianos.
Alexandre: Sim, mas eu mesmo disse certa vez: Não digo que não se faça materiais com personagens estrangeiros caso haja um bom motivo para isso, mas temos que pensar no publico local – e o que vemos são garotos já fazendo histórias com "nome internacional" porque estão interessados na exportação, não no mercado interno. Rosa de Versalhes era ambientado na França pré-revolução francesa, mas falava profundamente para as mulheres japonesas em um momento em que elas estavam entrando no mercado de trabalho. Os westerns italianos falam mais sobre os próprios italianos do que sobre os Estados Unidos (e surgiram em meio a uma rejeição do nacionalismo de mussolini – bom lembrar que antes deles, veio uma era de filmes de "espada e sandálias", conhecidos como Peplum, que foram estimulados pelo governo fascista para lembrar do poderio do império romano). O que importa é falar para seu próprio leitor. E mal ou bem Maurício fez isso durante anos...
Além do mais minha crítica não é essa: é simplesmente a de não olharmos as boas histórias em potencial que surgem praticamente no nosso colo.
Tenho amigos que fazem fanzines e só pensam em histórias que se passam no Japão. E eu pergunto: por que não pode no Brasil? "Sei lá, não teria tanta graça..."
Essa notícia não significa nada para mim a não ser: Se eles podem, por que não podemos?
O Brasil é uma loja de pérolas... Os compradores, os estrangeiros, os porcos...
A maior parte dos candidatos brasileiros a mangaka acha que fazer uma história é uma simples questão de talento e que basta ficar comungando com o monitor do PC para que a inspiração venha. Não sabem nem fazer uma redação que preste, que dirá construir um roteiro coerente. ¬¬'
Soma-se a isso a falta de hábito de informação, a maioria dos jovens acessa a internet apenas para teclar bobagens com os amigos em redes sociais, chates e fórum, e não aproveitam a chance para se manterem atualizados, nem mesmo fazem questão de dar alguma aplicação prática para o que aprendem na escola.
Como a maioria não faz idéia do quanto a História, a cultura e a geografia brasileira são riquíssimas, e não estão sintonizados com as atualidades, é até natural que ignorem os elementos nacionais na hora de escolher temas e construir roteiros e ambientações.
Fazer arte é um ato de criar. E "criar" é materializar idéias, é transportar para o mundo real o que temos na cabeça. Quem não tem nada na cabeça vai criar o quê?
Prometeram o 2 mas ficou só na promessa.
Sobre esse jogo brasileiro do caso de varginha,nunca joguei, mas eu vi uma entrevista com um dos caras da equipe, no UOL Jogos.
Ele até fez sucesso sim, mas só no exterior. Se não me engano a distribuição avacalhou com o jogo dentro do país. E o pior é que a maior parte do dinheiro ficou fora do país e longe dos criadores =/
Odeio quando isso acontece.
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