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Categorias: cancelamentos

Shogaku Gonensei

Vocês podem não acreditar, mas as duas imagens acima são de histórias publicadas na mesma revista. A Shôgaku Rokunensei (Sexto Anista) e a Shôgaku Gonensei (Quinto Anista; foi de onde vieram as imagens acima) se confundem com a própria história da editora Shogakukan: esses almanaques foram criados em 1922, no próprio ano de fundação da companhia. Eram revistas infantis, voltadas a um público correspondente, em termos brasileiros, ao nosso curso primário, e como tal passaram por todas as transformações que as revistas japonesas voltadas a um público mais jovem acabaram passando: de uma revista infantil com alguns quadrinhos, para uma revista infantil com muitos quadrinhos e no fim das contas, uma revista em quadrinhos com muitos artigos e itens de interesse para as crianças. Como ela está hoje, não faço idéia.

Shogaku Gonensei

Eu tive a oportunidade de conseguir pôr as mãos em uma edição de 1969 da Shôgaku Gonensei, em péssimo estado, sem nem ter sua capa preservada – só deu para identificar o almanaque por causa da lombada – mas enfim, era uma revista de 1969 e eu não resistiria em trazer esse material para casa. São as imagens dessa revista que estão ilustrando este post, e é interessante ver que ela mostra justamente o caráter difuso desse tipo de publicação. Shoujo e Shonen Shogaku Gonensei(respectivamente, para meninas e para meninos) é um conceito que até parece existir antes de certa idade, mas esses materiais eram reunidos no mesmo espaço – e chegamos ao extremo de termos uma série (Hello, Emily), onde os rapazes são desenhados no traço de quadrinhos para garotos tradicional da época, as meninas no traço dos quadrinhos para meninas (igualmente nos termos da época), e os dois personagens protagonizam equalitariamente a história. É uma experiência que só não chega a ser tão esquisita porque naquela época quadrinhos para meninos e meninas já eram diferentes entre si, mas não tanto quanto viriam a ser a partir dos anos setenta.
Em todo caso essas revistas serviram de veículo para títulos como Super Dínamo (que inclusive está na edição que eu tenho em mãos), de Fujiko Fujio; Doraemon; o mangá de educação sexual para meninas Naisho no Tsubomi, obras de Shigeru Mizuki e tantos outros. Em seu auge (1973), a Gonensei chegou a ter uma circulação de 635.000 cópias (assombroso se lembrarmos que naquela época o fato da Shonen Magazine da Kodansha ter ultrapassado o patamar de um milhão de cópias semanais foi uma porrada que deixou todo mundo atordoado) e a Rokunensei chegou a 460.000 cópias. Hoje, ambas patinam na faixa das 50.000 cópias vendidas – números típicos para nosso mercado, mas que no Japão são garantia de cadafalso para uma publicação de massa. Não duvidaria se essa revista só tivesse sobrevivido por tanto tempo por conta de uma tradição que a partir de certo ponto, não tinha mais como ser sustentada.

Shogaku Gonensei

Essas duas publicações são duas das mais dramáticas baixas do encolhimento do mangá infantil que vem se agravando nas últimas décadas, diminuindo não apenas por conta da concorrência com os videogames (que revistas como a Corocoro e a V-Jump souberam habilmente contornar ao passar a andar de braços dados com essa mídia), Super Dínamocomo também por uma cumulativa crise de baixa natalidade no Japão. Vai chegar a hora em que os japoneses terão que abrir totalmente as portas do país para a imigração caso queiram que ainda haja mão-de-obra no país, pelo visto.
Em todo caso ainda não é o fim para a linha Shôgaku: as quatro revistas voltadas para os leitores mais jovens nessa cadeia – a Shôgaku Ichinensei, Shôgaku Ninensei, Shôgaku Sannensei e Shôgaku Yonnensei (respectivamente Primeiro, Segundo, Terceiro e Quarto Anistas), continuarão sendo publicadas e as duas revistas a ser canceladas na virada do ano letivo (com a qual elas são sincronizadas) darão lugar a uma nova revista voltada aos leitores dessa idade, provisoriamente chamada de Gakuman Plus.
Não é a única revista para leitores mais jovens a ser cancelada: a revista Shoujo Chu-Chu (que surgiu como derivada da Ciao e faz a ponte entre elas e as leitoras da Sho-Comi), criada em meados desta década e voltada ao público-base das revistas para meninas quando estão largando as revistas infantis, também está dando adeus. A profecia macabra do protagonista Mashiro no quadrinho Bakuman, publicado na Shonen Jump, vem se concretizado: quanto menos gente nasce, menos leitores se têm – e por isso mesmo menores e menores as chances do surgimento de um novo Dragon Ball ou um One Piece no futuro; mesmo que algo tão poderoso quanto estes possa surgir, não haverá gente para torná-lo aquilo que seus predecessores um dia foram.

Shogaku Gonensei

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Comentários, Trackbacks:

Nome: Jussara Gonzo 26/10/09 04:35
Juro que já li e reli Bakuman e não encontro o capítulo em que o personagem disse isso... seja como for, receio que isso seja dramático demais. É provável que os quadrinhos continuem crescendo em outras midias, como a internet.

Alexandre: Bom, não custa lembrar uma coisa: apesar das antologias infantis estarem minguando, os livros em formato tanko-hon vendem como nunca e batem recordes. Os quadrinhos não estão encolhendo, as antologias sim – e os quadrinhos infantis estão sofrendo em particular por conta justamente da soma desses fatores: o gosto das crianças de hoje por games e internet, e o fato de que existem menos e menos crianças para ler esse material. E menos crianças hoje significam menos adolescentes em dez anos.

Ah, a frase em questão está na página 57 do primeiro capítulo, logo após ele se declarar a Azuki e ela topar. Só para pontuar a grande roubada em que ele se meteu. ;)
Nome: F/X 26/10/09 08:29
E nessa semana ele citou isso tambem, no Bakuman.

Mas a noticia japonesa fala em PAUSA, nao em cancelamento. Pras tres revistas. Acho que revistas tradicionais como as da serie Shogaku da Shogakukan nao podem ser canceladas assim, mesmo quando estao ruins. E revistas voltadas pra um ano de uma crianca eh foda, neh?

Ah, e acho que desde os anos oitenta, eh mais uma revista informativa@e recompilacao de material de sucesso pras criancas, como Dragon Ball e Doraemon. Atualmente, tem Meitantei Conan e Pokemon.

http://www.netkun.com/index.htm

Alexandre: Bom, a ANN falou em cancelamento e substituição. Mas Dragon Ball? Da Sheuisha? |-|
Nome: F.K 26/10/09 08:34
Alexandre, quais são as obras que ilustram o topo da matéria? O garoto em Kamae e a garota com flores?

Alexandre: Respectivamente, Inakappê Taishô e Futari no Erika. Não encontrei mais informações sobre esses materiais.

Alias, é impressão minha ou os mangás da década de 60/70 tendiam a ser mais "realistas" ou seja sem "cosmo", "poder de luta", raios de energia, etc, "realismo" que está voltando recentemente com Garouden, Hajime no Ippo, Karate Shokoushi Kohinata?
Uma matéria sobre a evolução dos mangas de lutas. seria uma boa hein ehehehe

Alexandre: Bom, o final dos anos sessenta e os anos setenta foram uma década mais realista como um todo e essa foi uma tendência mundial. Hoje não se faria um filme como Taxi Driver ou Meu Ódio Será Sua Herança por uma grande produtora, infelizmente. Mas Ippo se pensarmos bem segue (de forma muito bem-feita) a cantilena dos quadrinhos de esportes. O que eu sinto – e que deu o diferencial – é que o autor não estava interessado em falar de adolescentes, e meio que isolou o personagem de ambiente escolar para a escola funcionar. Nem a moça que Ippo se interessa estudava na mesma escola, pode conferir – os dois só começam a se falar quando ela vai trabalhar em uma padaria e se pensarmos bem, se eles não fossem adolescentes, não faria diferença nenhuma.

Mas uma matéria sobre mangás de lutas seria realmente uma boa pedida. Anotado. :)
Nome: Carlos Eduardo 26/10/09 09:51
Pois é, calamitosa a situação.
Pensando bem não é só a internet e os videogames que competem, mas os scans das revistas tbm competem, pra que comprar a antologia se vc pode baixar ela de graça?

Alexandre: Bom, parece que isso não chega a ser dramático no Japão; muita gente tem passado a esperar o material já em compilação pra livraria.

Aqui no ocidente é diferente, não tem como uma antologia emplacar e vender o esperado mas no Japão a sobrevivência das antologias é essencial.

Alexandre: Não custa lembrar que Marvel e DC aqui saem em antologias. E se pensarmos bem o formato gibi tende a compilar várias histórias. Mônica não conta de modo geral uma grande história por edição – isso fica para edições especiais. O ponto é que dentro do sistema de produção, a antologia é necessaria porque viabiliza o trabalho do autor.

Outra coisa, criar antologia para cada ano escolar? Que absurdo! Muito melhor condensar várias em uma só, eu até entenderia fazer uma revista para 1ª e 2ª série e outra para 3ª e 4ª, são linguagens diferentes e tal mas isso que tá aí é um exagero mesmo. Me admira ter durado todo esse tempo.

Alexandre: Acredito que essa sazonalidade tenha funcionado muito bem. Os garotos do primeiro ano lêem a primeiranista, depois vão pra segundanista, etc... só que os tempos mudaram.

Uma boa pedida para fazer uma antologia no Brasil seria uma antologia no formato do Almanacão de Férias da Turma da Mônica mas além de diversas histórias com atividades, matérias e passatempos como a Recreio. Sinceramente, do jeito que o Maurício e Sousa gosta de dinheiro não sei como ele ainda não criou a "Mônica Jump" xD.

Alexandre: Não dá idéia... :p
Nome: Carlos Eduardo 26/10/09 10:23
Claro que dou ideia, imagine só: Uma revista com diversas histórias, suponhamos umas 10 histórias de umas 12-15 páginas, atividades, matérias, curiosidades sobre a natureza e uma história da Mônica para alavancar as vendas. Isso criaria a oportunidade de diversos quadrinistas brasileiros produzirem algum material inovador que futuramente pode ser compilado em tankos. Poderiamos ter gente como o Marcelo Cassaro, Petra Leão, aquela desenhista que trabalhou com o Cassaro em Young Avengers tbm (me falha o nome dela), a Mônica só serviria para alavancar as vendas. Uma revista assim custando uns 10/12 reais com uma tiragem de uns 100.000 exemplares com uma periodicidade mensal/bimestral seria a oportunidade de ouro para o Brasil começar a criar um mercado de quadrinhos de verdade, em um primeiro ponto as crianças, depois que elas crescerem abriria uma revista para adolescentes. E o bom de se ter várias séries é que se poderia tratar desde o material para meninos quanto para meninas ao mesmo tempo, aventuras, ação e humor.

Alexandre: Bom, a idéia é boa, falando sério – mas não vejo o Maurício fazendo isso, sendo sincero. Não com séries dos autores.
Nome: Carlos Eduardo 26/10/09 10:32
É, é uma ideia boa e o Osamu Tezuka fez isso, criou a própria antologia e nós sabemos que o Maurício é fã do Tezuka e diz ter sido amigo dele e é cheio de influências. Talvez com a idade chegando ele poderia criar algo para estimular novos talentos e é claro trazer dinheiro pra ele. Mas vai saber o que se passa na cabeça dos outros... É claro que seria um grande progresso para a produção nacional.

Alexandre: Na verdade o Tezuka criou a COM porque de repente, da noite pro dia, ele passou da posição de ídolo e referência para um papel de representante de um passado que tinha que ser deixado para trás, de acordo com as novas gerações. Na verdade ele nunca se sentiu tão confortável assim com a mudança de perfil de público, pedindo por obras mais intensas e violentas no final dos anos 60 e começo dos 70. A função da COM era mostrar que ele ainda era relevante, mas mesmo ele sendo uma máquina de produzir, não dava para fazer da revista uma antologia só dele (e olha que ela praticamente foi isso no começo).

O Maurício é alguém que respeito MUITO, mas sua linha de raciocínio acima de tudo me parece ser a do homem de negócios. E nesse sentido é mais interessante para ele trabalhar na prata da casa, com os personagens que são de seu próprio copyright. Talvez o MSP 50 inspire ele a fazer algo assim, mas com seus personagens, não os de criação dos autores. E alguns poderiam funcionar se fossem revitalizados por outros criadores, especialmente aqueles que nunca deram certo e que só fazem aparições especiais de vez em quando por motivos de preservação de copyright.
Nome: F.K 26/10/09 11:01
Inakapê Taisho ?! putz! Eu ja vi o anime na net uma vez. O traço na imagem acima é totalmente diferente. O anime é no genero humor, a imagem me lembrou obras do Ikki Kajiwara, como Karate Baka Ichidai, Star of Giants, etc.

E realmente a formula do Ippo é muito boa, e já começou amplamente ser chupinhada. Não sei se você já leu Karate Shokoushi Kohinata, mas quase a mesma coisa só que no lugar do boxe, temos Karate, Kick Boxing e MMA e uma pitada de humor ecchi de leve (eu particularmente gosto bastante).

Alexandre: Pior que realmente o traço da ilustração não bate com o do conteúdo, mas é sem sombra de dúvida o personagem. Não duvidaria que essa imagem tivesse sido feita por outro artista, mas fica na suposição. Quanto a Karate Shoukoushi Kohinata Minoru, acho que o protagonista lembra muito o Ippo, mas fica só nisso. Aquilo me parece na verdade um Tenjho Tenge realista (em termos), com grupos escolares (ok, universitários) arrancando o couro uns dos outros – só que sem poderes sobre-humanos e uma violência mais crua e concreta.
Nome: F.K 26/10/09 11:52
Mas esse lance de combate entre clubes universitários só dura até o volume 5 se não me engano, depois Kohi e sua trupe passam a competir em eventos de Karate, MMA e K-1 com direito a partipação especial de lutadores reais ou quase isso. Alias, no próprio kohinata eles colocam diversos personagens reais, com a a transposição perfeita da aparencia e personalidade alterando apenas o nome, como por exemplo o superstar do K-1 World Max Masato Kobayashi, que no manga é representado por um "Hayato Takahashi" entre outros. Isso não dá nada no quesito de direitos autorais e talz no Japão?

Alexandre: Bom, ainda não cheguei a esse ponto da história, mas eu precisaria saber mais. Não duvidaria que houvesse parceria entre a editora e associações esportivas nesse caso.
Nome: F/X 27/10/09 09:49
Saiu pausa nos jornais japoneses. Kyusai.

Quanto a Dragon Ball, ele nao eh o unico. Dr Slump e outras series da Shueisha jah passaram pela revista, e pelo que eu vi, tem uma serie do Stitch tambem.

Pela pagina da net, dah pra perceber que no geral, eh uma revista de interesses infantil, com muito mais jogos, materias e entrevistas do que mangas. E os publicados lah, sao puxados de outras publicacoes, o que deve baratear o custo. Eh soh um extra.

E interessante ver tambem que ateh o planejamento visual muda de um ano pra outro, sendo que as duas que vao parar se parecem mais com revistas adolescentes, com cantores e gente famosa na capa.

Essas revistas sao mais revistas que os pais compram pras criancas, e eh por isso que serve esse formato de ano escolar. Ainda mais que no Japao, tem certas tradicoes escolares, diferentes em cada ano.
Nome: F/X 27/10/09 10:15
Tava relendo a noticia e atualizaram, parece que a editoria da ChuChu se pronunciou dizendo que "os tempos mudaram, shojo manga no geral nao vende tao bem quanto antes e precisamos repensar a idade alvo das publicacoes."

Algo assim. Parece que o publico feminino subiu de idade e as revistas para meninas pequenas nao vende tao bem quanto a uns dez anos atras.

Mas voce deve estar pouco se lixando! Hehehehehe

Alexandre: Sinceramente? Até as pedras sabem que não sou muito fã do gênero, mas compreendo sua importância para o bem-estar do mercado. Quando uma antologia para meninas mais jovens é cancelada, assim como quando uma antologia para garotos mais novos é encerrada igualmente, é motivo para preocupação sim (só que acabo de saber que a Chu-Chu era para um público intermediário, faz a ponte entre a Ciao – esta sim para leitores mais jovens – e a Sho-Comi. Então é uma baixa normal de mercado. Chato, mas acontece).
Nome: Matheus 02/11/09 05:20
Foi mal perguntar, mas cara, onde você encontra material desse tipo que esta ilustrado na materia?

Acho que nem em sebos japas deve ter.

Alexandre: Encontrei em uma gibiteria aqui no Rio de Janeiro, mas foi total acidente de percurso. Trouxe essa revista e mais duas Shonen Magazine, uma da época áurea com Ashita no Joe, Otoko Oidon e outros, e outra já de 1974, com Tsurikichi Sampei. Se aparecesse mais material desses, provavelmente eu teria atulhado minha casa com essas revistas antigas. ;)

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