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Obras Completas de Buronson e Ikegami no Japão

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Lancaster | PERMALINK | 10

Categorias: gekiga

Sanctuary

Às vezes dá vontade de pegar um tacape e quebrar alguma coisa. Embora todos chorem pela interrupção do fabuloso Sanctuary, de Buronson (mais famoso como o criador de Hokuto no Ken; aqui, assinando como Sho Fumimura) e Ryoichi Ikegami (mais conhecido do Brasileiro como autor de Crying Freeman e Mai, a Garota Sensitiva, publicados por aqui no final dos anos 80/início dos 90), o fato é que ele não teria quebrado a cara se boa parte dos que se juntam à cobrança da editora Conrad pela interrupção tivessem, de fato, se interessado em comprar e ler o material enquanto ele estava sendo publicado. O ponto é que com isso, outras obras agendadas da parceria, como Strain, deixaram de ser lançadas por aqui. E não custa lembrar que Buronson e Ikegami têm uma longa obra em conjunto – inclusive faturaram o prestigiado prêmio Shogakukan de quadrinhos em 2002 e continuam produzindo em dupla (atualmente estão com a série Lord para a revista Big Comic Superior da Shogakukan, adaptando para os quadrinhos o clássico chinês Romance dos Três Reinos). Agora, está sendo lançada uma coleção invejável para o fã do trabalho que ambos desenvolveram conjuntamente: Está sendo lançada a coleção Works, que terá 22 volumes (sendo lançados 2 por mês), em formato Bunko (leia-se, beeeeem grosso, reunindo vários volumes originais). Os dois primeiros serão os volumes iniciais de duas séries clásicas do time: Odyssey e... Sanctuary! Tudo bem caprichado – a única crítica que tenho a fazer é justamente o padrão de capas: todasSanctuary elas serão iguais a esta capa azul ao lado, com um dragão e um tigre; só mudará a cor da capa em si. Mas por outro lado, ninguém disposto a comprar os 22 volumes da coleção está disposto a encarar isso por conta das capas, cá entre nós. Enquanto isso, a série continua parada no Brasil – e provavelmente mesmo que lancem tudo de uma vez (por causa dos leitores que ficam resmungando e dizendo "ah, mas eu só compro quando tudo estiver completo", mas até aí a editora já teve prejuízo e tem que se livrar do encalhe em promoções), ela deve continuar sendo esnobada apesar de ser, talvez, um dos cinco ou seis melhores mangás lançados aqui no Brasil. Então fica o apelo para as editoras: parem de lançar pacotes dos encalhes de banca e fazer promoções em eventos a menos que seja a última queima de estoque. Porque os leitores, muito "espertos", deixam de comprar o material para ver se o pegam mais barato. A editora então não vende, o encalhe aumenta, existe prejuízo e no final coleções que poderiam ter vendido melhor acabam sendo postas em hiato ou tendo um cancelamento não-assumido. O barato acaba saindo muito caro: são séries com público não tão astronômico quanto um Dragon Ball Z quem mais sofrem com isso. E como eu disse lá em cima, nessas horas dá vontade de pegar um tacape e quebrar alguma coisa. De preferência algumas cabeças.


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Comentários:

Nome: Pato_Supersonico 23/10/09 07:46
Realmente, é uma situação revoltante o caso Sanctuary.

Mas é bom lembrar nessas horas que qualquer burquês que se preze deve estar consciente que consumidores são afrescalhados por natureza e que o bom comerciante deve levar sempre isso em conta.

Digo isso porque sei por experiência própria que todo público tem aqueles compradores egoístas que só querem levar vantagem e irão se aproveitar de quaisquer vacilos.

E por mais injusto ou revoltante que o que eu vou dizer agora pode parecer, não podemos nem devemos culpá-los por eventuais prejuízos. Puxar a sardinha para o próprio lado faz parte do processo de negociação e vender mangá é, afinal de contas, um negócio.

Se os fãs perceberam que os mangás que eles compram saem mais baratos depois de algum tempo, é obvio que eles irão esperar, não sei porque alguém pode acreditar que seria diferente.

O bom capitalista que sai em desvantagem em uma transação deve estar consciente que é assim que o mundo funciona e que, se ele se deu mal, é porque lhes faltou competência e que a única coisa que pode fazer nessas horas é pensar no que pode fazer para não passar pela mesma situação, de preferência logo de cara. Culpar o cliente é uma besteira pelo simples fato de que isso não ajuda em nada.

Saber administrar estas contradições mercadológicas (inclusive o pede-e-não-compra) é dever profissional de qualquer pessoa ligada a atividade comercial, inclusive editorial.

Se teve algo que me deixou tão puto quanto os manés que pedem o que não compram, foi a lerdeza dos que vendem repetindo o mesmo erro sucessivas vezes. Por exemplo, não pude deixar de ficar com a pulga atrás da orelha sobre o porquê da Conrad insistir tanto em fazer tiragens exageradas mesmo quando já estava óbvio que fazer isso era pedir para encalhar.

Demorar a remediar uma situação problemática é um sinal claro de incompetência, e isso por sí só já explica o destino da Conrad. Para mim, nessas horas não são só os fãs que merecem levar uma no pé do ouvido.

Os japoneses, aliás, chegaram aonde chegaram porque possuem a atitude dos vencedores. Procurar soluções, não culpados.

Alexandre: "Soluções, não culpados." É uma postura coerente – e você está certo, tenho que admitir.

Mas também temos que levar em conta que o pé no ouvido da Conrad é a quase falência que eles tiveram. Para o fã ainda é pior: cada vez que o leitor deixa de comprar algo porque é mais jogo fazer com que o título tenha prejuízo para que eles queiram se livrar de seu encalhe por qualquer preço para amortizar os danos (na verdade eles enxergam apenas o começo e o fim do processo, mas na prática é isso que acontece) é como um assassinato premeditado. E quem leva a facada justamente é esse título. Logo, a atitude do fã é um problema – e problemas existem para ser resolvidos. Eles matam o título que dizem gostar.

O primeiro ato é como fechar a porta e como eu disse, não fazer promoções e anunciar isso de antemão é uma boa pedida. Conheço pessoas que até hoje estão arrependidas por decidirem esperar um título ser completo e hoje não conseguem achar as primeiras edições de títulos como Slam Dunk. Para alguém que realmente curte um título, ter uma série incompleta é uma martelada nos artelhos no pé que deve fazer com que ele fique esperto e selecione aquilo que queira ler – e colecione o que gosta desde o começo.

O grande problema é o sistema de banca. Porque ele é tanto uma bênção quanto uma maldição: sua própria natureza exige grandes vendagens dos títulos que se valem delas para tornar os mesmos viáveis. Ou então temos o subaproveitamento de sua estrutura, como mostram as revistas que não conseguem chegar a lugares mais afastados – e que acabam com preços muito altos para serem competitivos – porque não há como ter tiragens que cubram todo o escopo que elas oferecem.

Como estamos carecas de saber, os japoneses serializam seus títulos em antologias descartáveis e deixam os capítulos compilados para as livrarias. Obviamente estes tem melhor acabamento, melhor qualidade e são produtos de longa duração, feitos para ser colecionados. Não há como negar que os japoneses anteviram o conceito da
teoria da cauda longa. Vender menos, mas ganhar em termos de tempo de exposição e vender continuamente a longo prazo. Nas bancas, você precisa diminuir a frequência para estimular o leitor a correr contra o tempo. Se você perdeu uma edição, tem que correr atrás do encalhe através de um departamento de números atrasados, dentro de um prazo. Depois desse prazo, só rezando para encontrar em sebos e bancas de usados (e por causa disso algumas séries ficam estupidamente caras a medida em que o tempo passa – e lembre que há séries que os fãs raramente se desfazem nos sebos. Tente encontrar edições de Ken Parker da Vecchi, por exemplo).

Por outro lado, o sistema de banca tem vantagens imensas. Ele traz comodidade. Você não precisa se despencar para uma livraria dentro de um shopping center, tendo que talvez pegar ônibus ou ir de carro, quando a banca está na esquina. Eu já percebi que isso varia de cidade em cidade, mesmo nas grandes metrópoles, mas só na minha rua, andando em linha reta por ela do começo até o fim (e ela é grande, mas não tanto a ponto de que eu não faça isso todo dia, já que moro perto do fim dela e desço do ônibus no seu começo), temos acesso a quatro bancas ao longo de sua rota (contando as que ficam em ruas que a cruzam, nas bocas da esquina). É loucura negar o potencial que existe aqui no sentido de vendas e a presença em livrarias não exclui as bancas, até porque temos um bom mercado de livros de bolso que tem tiragens contínuas, de editoras como a Martin Claret e a L&PM. Mangás poderiam ter tiragens menores em renovação constante. E uma vez tendo seu ciclo imediato fechado em bancas, serem deixadas nas livrarias, seguindo seu caminho de reimpressões contínuas e tiragens pensadas de acordo com a demanda existente. Isso já acontece, mas o padrão gráfico é pensado para o consumo imediato em banca (qual o sentido de deixar tempo de exposição longo em livraria para um mangá de capa em papel couchê 90 e papel pisa brite?). E acredito que seja a hora de repensar isso. Eu ainda preciso colocar as mãos nos mangás da Savana, mas minha impressão superficial pelo que se fala sobre a qualidade gráfica do material é que eles estão seguindo esse caminho.

O que importa é que com essa postura não há sentido em baixar preços. Não quando o tempo de exposição aumenta e sempre podem haver novas reimpressões para livrarias – não vai ser queima de estoque quando a tiragem esgotar, porque vai sempre haver uma nova, por mais pífia que seja. Repensar modelos talvez seja a única forma de resolver o problema sem perder leitores.
Nome: Pato_Supersônico 24/10/09 07:41
Eu já penso um pouco diferente, as editoras devem tomar muito mais cuidado que os fãs na hora de fazer decisões porque o fã que faz besteira não vai passar fome por causa de seu erro, mas o empresário que dirige sua empresa de forma desastrosa corre um sério risco de ir parar na sarjeta.

Você está totalmente certo ao dizer que a atitude do fã é um problema, mas como eu disse, essa postura egoísta não é exclusividade de fã, se você tiver uma conversa sincera com qualquer camelô de esquina ou qualquer dono de loja sobre o quanto eles confiam em seus clientes, vai ver que aqueles ditado "O cliente tem sempre razão" é só conversa pra boi dormir. Nas transações comerciais, ser ingênuo é um crime imperdoável, e a punição é certa e maligna, ainda que demore.

Volto a repetir: É assim que o mundo funciona! Fãs são consumidores e todo comsumidor tem o desejo de pagar mais barato pelo que compra, e se as empresas oferecem essa oportunidade, os compradores irão agarrá-la. Aliás, essa é a logica das promoções, elas funcionam porque se aproveitam dessa tendência humana.

Você também está certo quando aconselha a Conrad a "fechar a porta". Pois eu digo ainda mais: A Conrad não devia tê-la aberta. O sistema de banca é uma instituição consolidada, e a Conrad, ao corromper os princípios desse sistema, confundiu a cabeça de muita gente e isso inevitavelmente gerou uma grande bagunça.

No mundo e na vida nada é perfeito: tudo tem suas vantagens e desvantagens, e uma pessoa (ou, no caso, um empresário) sensata(o) deve saber lidar com isso, saber se aproveitar das vantagens e administrar as devantagens.

A "queima-de-estoque" da Conrad foi um erro gravíssimo justamente porque inverteu essa lógica, comprometeu uma das propriedades mais importantes desse sistema, que é a pressão que ele exerce sobre pos compradores para que estes comprem logo seus títulos. No momento em que a Conrad ofereceu encalhes com descontos, praticamente premiou os compradores espertinhos em detrimento dos direitos, que compravam prontamente no lançamento. Eu mesmo me sentia um otário por tentar ser direito, embora tenha dado graças aos céus depois por não ter perdido nenhum exemplar esperando por relançamentos. Nesse caso eu digo: tanto a Conrad quanto os compradores não prescisavam passar por isso, se a Conrad tivesse simplesmente reajustado suas tiragens tão logo detectou sinais de encalhe.

O que eu vou dizer agora pode ser um pouco polêmico, mas o problema nesse caso não foi a malícia dos fãs, mas a falta de malícia das editoras. Editoras são empresas, e empresas visam lucros, elas devem se guiar não pelo que seus clientes querem, mas pelo que eles compram.

Não devem ter vergonha de colocar a lucratividade em primeiro lugar, pois sem lucros elas não podem existir e se elas não puderem existir o comprador não poderá ser assistido por elas. Pelo bem de todos, elas devem sobreviver e crescer. Esse é o verdadeiro dever moral de uma empresa: Crescer, pois somente crescendo ela poderá permanecer a melhorar seus serviços a a expandí-los para um maior número de pessoas.

Tá, você já deve saber de tudo isso, mas eu tenho a impressão de que as editoras talvez não saibam, porque se soubessem não ficariam fazendo tudo o que seus clientes pedem mesmo quando atender a estes pedidos não traz retorno.

Isso também vale para a questão da distribuição. Se uma empresa só deve se ocupar com o que dá lucro e vender para o país todo não dá lucro, qual a necessidade de querer dar uma abraço mais longo que os braços? Não estou dizendo que as editoras devem mandar o povo da fase dois ir catar coquinho, apenas que deveriam se planejar melhor e ter - como eu vivo defendendo - visão de longo prazo.

As editoras deviam se limitar aos mercados mais lucrativos para potencializar a lucratividade ao máximo, pegar essa renda extra e investir em projetos para expandir o mercado (através de marketing, promoções, licenciamentos, parcerias com outros meios de comunicação, ou o que for) para aumentar a demanda, inclusive da fase 2. Fazendo do jeito certo, a fase dois poderá se tornar lucrativa, ainda que não muito.

Fazer de mercados restritos algo lucrativo é a suprema prova de competência, é o que os japoneses fizeram, é o que tornou o mangá a expressão máxima da cultura pop no Japão e é o único meio para que aconteça o mesmo por aqui.

Lucrar mais para investir mais.
Investir mais para lucrar mais.

Apesar de nossas diferenças sobre a relação fã-editora, concordo com você no que é mais importante: as editoras não devem viver para fazer a vontade do fã.

Só fico com a pulga atrás da orelha em uma questão. Você disse sobre o sistema de banca que "sua própria natureza exige grandes vendagens dos títulos que se valem delas para tornar os mesmos viáveis", mas eu discordo desse ponto de vista, lembrando que há muitas revistas de bancas que trabalham com tiragens pequenas, pelo menos se comparadas com as revistas (não necessariamente mangás) que possuem grande penetração no país inteiro.

Estas revistas mostram que nesse tipo da negócio (ou mesmo nos demais) o que importa no final é a lucratividade.

É o lucro líquido que garante a viabilidade de um empreendimento (e o justifica, diga-se de passagem), e nem sempre é necessário ganho de escala para se ter ganhos líquidos, pois estes ganhos podem ser garantidos por outros meios além de grande saída.

Um exemplo marcante é a JBC. Note que ela cobra por seus mangás preços proporcionais (com relação ao número de páginas) absurdos quando comparados com as rivais (especialmente a Panini), e apesar disso parecer algo ilógico para os sistemas de banca, é notável que ela se mostre a mais desencanada das editoras.

Nunca deu a entender querer ser a maior editora de mangás do Brasil, nem em querer dominar o mercado, nem em revolucionar o mercado editorial quadrinhístico brasileiro (embora o tenha feito, em um certo sentido) nem mesmo em ter mais visibilidade, como a Panini e a Conrad fazem. Resumindo, parece estar plenamente satisfeita com as coisas do jeito que estão agora. Isso pode parecer comodismo, mas também pode indicar uma maneira diferente de visar lucros.

Pode me chamar de doido, mas eu vejo muito sentido nessa política dela, acho até algo muito simples. Ao cobrar um preço alto por um produto de qualidade vagabunda (ou seja, de custo de produção baixo), é de se esperar que a porcentagem de lucro líquido sobre o preço de capa seja algo. Como é a lucratividade que sustenta um empreendimento, essa política permite que a JBC mantenha a viabilidade da publicação de um determinado título mesmo que as vendagens sejam baixas.

É um modelo alternativo, e em certas circunstâncias, mais atraente que ganhar escala mediante preços baixos, por ser mais apropriado para a distribuição desigual da economia e do mercado consumidor brasileiro.

Alexandre: Bom, agora vou ter que falar um pouco de vivência pessoal.

Eu passei a infância viajando. Dos Subúrbios do Rio para Parati(RJ), de Parati para Angra dos Reis(RJ), de Angra dos Reis para Cruzeiro (SP)... fui quase um cigano. :D Cheguei até a morar em Rondônia, para você ter uma idéia. E gostar de quadrinhos foi um inferno. Na verdade, eu experimentei todas as discrepâncias possíveis quando a idéia era tentar manter uma coleção – ou pelo menos o ritmo de compra.

Eu posso dizer por experiência própria que a maneira com que o leitor do interior é tratado beira a sacanagem.

Eu acabei desacelerando as mudanças e voltando ao Sudeste com onze, doze anos mais ou menos. Mas fui morar em Niterói, próximo a fronteira com São Gonçalo. E me dei conta mais ou menos do que estava acontecendo. Eu colecionava muito fascículos semanais, mas se eu perdesse por uma semana... bom, na semana seguinte recolhiam sem deixar um novo. Com isso, uma semana perdida era o fim da coleção. E era mesmo! Quanto mais afastado, pior! E mesmo no centro da cidade, eu não conseguia tudo o que queria. Eu precisava pegar uma carona de barca e ir para o Rio de Janeiro, logo ali, para conseguir tudo o que por algum motivo não chegava. E eventualmente isso mutilava coleções, porque por alguma razão, alguma edição chegava apenas em poucas bancas na cidade – e Niterói não é uma cidadezinha. É uma cidade com porte médio/grande e que já foi a capital do estado do Rio de Janeiro, na época em que ainda existia o Estado da Guanabara.

Recentemente pude dar um pulo a algumas cidades da baixada, a trabalho – e falo de cidades industriais, que não são buracos no meio do mato. Encontrar uma banca sortida é um inferno. A única coisa que tende a chegar é Mônica e Tex (antigamente, não era muito diferente em lugares afastados; apenas você tinha os materiais Disney no bolo, coisa que nem isso mais se encontra com tanta facilidade quanto antes nesses lugares). Soube que Cabo Frio, aonde tem um bom poder aquisitivo, tem quando muito cinco bancas. Se for verdade, tem algo muito errado aqui.

Se você fizer o trajeto do Rio a Arraial do Cabo (Região dos Lagos, RJ), vai passar por lugares onde não chega a ter uma banca. As vezes meus pais vão desintoxicar num lugarzinho chamado Figueiras. O lugar não tem nada. Hiperativo do jeito que eu sou, eu acabo subindo pelas paredes. Mas tente encontrar um mísero jornal, nem que seja um jornal local.

Então quando eu falo que tiragens pequenas acabam subaproveitando o potencial da estrutura de bancas, tem a ver com isso. Quanto mais para dentro do país, pior, e quando isso pode ser dito de lugares muito atrasados e afastados, lamenta-se mas a gente ainda pode justificar. Quando falamos de cidades de porte médio para cima, temos um problema.

Há muitas revistas de banca que trabalham com tiragens pequenas, sim; Algumas tem publicos limitados e isso não se nega. Mas há muitas revistas que poderiam ser populares ao redor de todo o país, mas tem preço de capa proibitivo – e ele poderia ser abaixado com tiragens maiores. É questão de investimento e pesquisa.

Mas eu vejo uma posição comodista dominando o mercado. E precisamos de novas iniciativas.
Nome: Carlos Eduardo 24/10/09 11:08
Pelo pouco que eu sei do caso Sanctuary, mas é um pouco mais do que foi dito aqui, o cancelamento não se deveu a baixas vendagens. Não foi bem isso, as vendagens foram até satisfatórias mas o licenciamento foi feito de modo diferente do usual e a empresa detentora dos direitos da série arrecadava pro exemplar vendido e como a vendagem ficou aquém do esperado inicialmente (eles queriam vender Sanctuary como se fosse Dragon Ball) o mangá foi cancelado. O que se seguiu foi a venda e quase falência da Conrad quando tentaram retomar o título.

Agora o que eu vou escrever é pura especulação. Eu não acredito que a Conrad tenha tomado grandes prejuízos dos mangás, talvez algumas edições de luxo (não todas - corre por aí que Vagabond Deluxe vendia muito mais que sua versão em meio-tankohon em tese pq seu público tem um poder aquisitivo maior) tenham dado prejuízo, mas temos que lembrar também dos livros. A Conrad quando mudou de direção pela primeira vez tentou parar de lançar mangás e queria viver vendendo apenas livros, os poucos mangás que vendia eram mangás autorais e não dá para alguma editora viver sem ter best-sellers (agora estou lembrando daquela editora espanhola que só lança mangás clássicos), diversificar é a solução. É só entrar em uma farmácia que você vai ver biscoitos, refrigerantes, balas etc. A Conrad querendo viver só de títulos autorais e livros esquerdista se ferrou feio. Com uns 20 títulos simultâneamente nas bancas na época o leitor podia escolher o que ia comprar e os mangás da Conrad foram considerados irrelevantes para consumo imediato por todos os motivos que você citou.

Não sou contra a política dos pacotes promocionais desde que a diferença de preço não seja absurda. Vender mangás de 30R$ por 5R$ em grandes eventos sim é um absurdo. Vender pacotes de 3 mangás de 12,90R$ por 25-30R$ um ano depois da circulação nas bancas eu não consigo enxergar como errado ou feio. Promoções para queima de estoque são úteis e saudáveis (quem quer estoques ocupando espaço por anos a fio?) o negócio é saber dosar o quanto você pode abaixar os preços.

[boato] Outro fator determinante para a falência da Conrad foi um determinado distribuidor na área de SP que recebeu alguns estoques gigantescos de mangás da Conrad para revender e fugiu com os produtos sem nunca repassar a parte da Conrad ou devolver os mangás que estavam em consignação.[/boato]

Como quase tudo isso que eu escrevi foi lido em comunidades de orkut (Conrad), chats de IM Groups (msn)e coisas faladas de boca (e umas suposições minhas) eu não posso afirmar a veracidade de nada, não lembro de ter lido alguma dessas coisas nem no blog da editora. Parece que a queda da Conrad e cancelamento de títulos foi mesmo uma soma de MUITOS fatores negativos. O negócio é esperar para ver se a IBEP vai terminar os títulos anteriores à administração dela.

Mas uma coisa é fato, se a Conrad não tivesse deixado passar os blockbusters passarem livres para a JBC e a Panini dando preferência a títulos mais "intelectuais" eu não acredito que ela estaria nessa situação lamurienta, na época dinheiro ela tinha, Dragon Ball e CdZ sustentaram a Conrad por longos anos.

Alexandre: Bom, livros tendem a ser lucrativos sim – mas o grande problema deles é que eles vendem mais a longo prazo, de tiragem em tiragem. O retorno não é tão imediato. Quando um O Vampiro que Ri (e olha que se você me perguntar o que eu acho daquilo vai ouvir um palavrão daqueles) teve segunda tiragem, é sinal de que ele vendeu (bom, vampiros vendem e a Conrad entendeu errado; trouxe o igualmente medonho Ero-Guro e ali não tinha desculpa de vampiro nenhum para atrair incautos; tudo o que temos é um açougueiro com uma caneta nanquim na mão). Na NewPOP eu vi 1945 se pagar e render muitíssimo bem – e o primeiro Grimms praticamente se pagar em dois dias em um evento de anime, sem ter chegado as bancas.

O problema é que se você precisa de retorno imediato, os livros não são o suficiente porque vendem lentos. Comparando, nas livrarias você é um pedinte, sentando diariamente na praça para encher o chapéu a cada moeda – mas que pode realmente encher o chapéu e dependendo do tamanho dele, pode fazer uma boa féria. Na banca (sem valor moral aqui, ok?) você é um ladrão leva menos tempo para pegar a mesma quantia, mas não pode ficar ali todo dia – tem que sair correndo na calada da noite com a grana que você conseguiu enfiar dentro do seu chapéu e carregar.

Nesse sentido o pedinte pode ficar o tempo que quiser e reunir em seu colchão (quando ninguém estiver olhando) o dinheiro que o ladrão pegou de uma vez. Mas existem ladrões e ladrões, e você pode ser um grande assaltante de cofres, mas nada adianta se você não puder carregar o dinheiro. Ou então ser um mero punguista, mas que todo dia encontra uma vítima porque é fácil carregar uma carteira. Para você publicar uma Veja precisa ser uma verdadeira família Metralha. ;)

Quanto aos boatos, prefiro não levá-los em conta. Mas acho que o erro dela foi ter colocado o carro na frente dos bois. Sanctuary e Monster tinham que esperar um publico leitor mais maduro. Talvez ainda não fosse a hora deles.

Mas uma vez que foram publicados, quero terminar de lê-los. :)
Nome: Pato_Supersonico 26/10/09 06:03
Sim sim, eu também acho que nossas editoras andam muito comodistas, e que prejudicam a si mesmas ao não tentar explorar o potencial que nosso público oferece. Deixar de oferecer um produto a quem queira comprar é mesmo uma burrice. E sem falar que eu moro na fase 2 e sofro bastante com a distribuição, tendo que peregrinar por várias bancas de minha cidade para não correr o risco de perder o exemplar.

Contudo, é bom lembrar que as editoras de mangá em parte tem motivos (ou desculpas) para agir assim.

As editoras japonesas, comparando, são altamente empreendedoras e fazem de tudo por alguns trocados a mais, mas embora o fator "não-trabalho-para-viver-vivo-para-trabalhar", que é uma característica famosa dos japoneses, seja fundamental, não se deve creditar apenas a isso e a um sistema editorial de experiência mais antiga que o Brasil o fato das editoras japonesas estarem em todo lugar do Japão.

Deve-se considerar também o fato do Japão ser um dos países do mundo com melhor distribuição de renda, melhor infra-estrutura de transporte e, não custa lembrar, uma cultura popular que não só valoriza o ato de ler, como vê algo de divertido nele.

Mas, não custa lembrar, o Japão não é o Brasil. Nosso país despreza a cultura em geral, tem uma das rendas mais mal-distribúídas entre os países industrializados, tem um sistema tributário sufocante, burocracia porca, sem falar da "combinação perfeita": grande extensão territorial, geografia complexa e infra-estrutura de transporte ruim.


Isso acaba gerando uma situação paradoxal.

Para um mangá ser barato em um país de impostos altos como o nosso, é presciso sacrificar a margem de lucro, aceitando receber bem pouco por exemplar vendido. Mas aí a margem de lucro terá dificuldade em cobrir os custo de transporte para lugares remotos. Para que uma publicação assim se viabilize, a escala de consumo teria que ser alta, o que é uma possibilidade prejudicada pelo fato das regiões periféricas do Brasil terem população pequena e muito espalhada.

Em contrapartida, pode-se tentar aumentar a margem de lucro para que esta cubra os custos de distribuiçao. Aí o problema é o fato das regiões periféricas serem também as mais pobres.

Ou seja, as editoras realomente erram em não tentar ganhar escala, mas mesmo que subitamente ocorresse um milagre que as fizessem ficar tão enérgicas quanto as editoras japonesas, isso não é garantia de que lugares como Rondônia, o Alto-Solimões ou o Acre venham a ter bancas tão variadas quanto as do eixo Rio-São Paulo.

A viabilidade econômica das exploração comercial destes mercados periféricos não depende apenas de uma esforço mais dedicado das editoras, mas também de melhoras no acesso a estes lugares, na melhoria do poder de compra, e acima de tudo, melhor educação, pois sem amor pela leitura e pela cultura, o mangá não pode prosperar.

Assim, se considerarmos que os fatores mais importantes para tornar os povos periféricos grandes consumidores de mangás estão ligados à melhoria da qualidade de vida e do nível intelectual destes povos, pode-se dizer que sonhar com um Brasil em que os garotos de todos os lugares possam ir para as bancas e encontrar todas as publicações que queiram colecionar sem faltas e atrasos é o mesmo que sonhar com um Brasil em que todas as pessoas - do ribeirinho amazônico ao trabalhador sertanejo - tenham boas escolas, empregos decentes e infra-estrutura eficiente.

Não digo que uma Brasil assim seja impossível, mas tenho dúvidas se estarei vivo para vê-lo.
Nome: Warty 28/10/09 12:18
O problema da Conrad foi ser uma empresa controlada por comunistas. :D

Alexandre: Isso soa Olavo de Carvalho pra caramba (vade retro!), mas no caso da Conrad é verdade. Eu naquela empresa cancelaria coleções como a Baderna e nem lançaria coisas como o Che do Oesterheld (o dos coreanos também não, mas este pelo menos tinha mais chance de vender sob o efeito do "Diários de Motocicleta"). O muro de berlim tem que cair nas cabeças alheias.

Mas enfim, Sanctuary não vendia quase nada. O Linares falou algo a respeito umavez, as vendas co mangá eram muito baixas. E baixar a tiragem das séries eleva o preço. E o pessoal daqui vai olhar (já vai olhar torto pra mangás que não tenham menininhas fofas e apaixonadas ou ninjas/samurais explodindo o mundo) e ver o preço alto e se afastar. é uma situação delicada.

E também a Conrad ter se dividido em duas, depois da saída do Odair e do Forasteri, enfraqueceu demais a empresa, o que levou ela ao estado que estava. Mas ela nunca deixou de publicar coisas boas, por mais que os mangás estejam parados, espero que ela continue lançando o material interessantissimo que sempre lançou.

Alexandre: Bom, no caso de Sanctuary e Monster, não há conversa: no Brasil, eles são materiais de Livraria. E é assim que deveriam ser vendidos.
Nome: Pato_Supersonico 28/10/09 04:51
Sim, caro Warty, o que você falou agora faz todo o sentido. É por aí mesmo.A única chance de Sanctuary voltar é se seu sistema de publicação passar por alguma reformulação.

Boatos à parte, é fato que a Conrad, por azar ou imperícia, cometeu uma sucessão interminável de erros (que provavelmente não envolviam somente o mercado de mangás) que resultaram em dificuldades irremediáveis.

Pessoalmente, acho que o caso de Sanctuary é perdoável, pois na época de seu lançamento não havia experiência prévia respectiva e portanto não havia certeza de como seria seu desempenho. O único indício que justificava esta iniciativa era a excelente crítica a respeito do material e a legião de fãs que o solicitava.

A experiência ainda não havia mostrado que:

- Sucesso de crítica é diferente de sucesso de público;

- Fãs, apesar de palpiteiros, não tem senso de compromisso e pedem as coisas sem pensar se tem condições ou mesmo intenção de comprar;

- Bancas de revistas não são os melhores lugares para oferecer material desse tipo.

Eu também estou torcendo para que a série seja continuada, mas não vou ficar zangado (apenas um pouco frustrado) se ela não o for. É bom lembrar que as editoras japonesas não hesitam em cancelar publicações que não vendem bem, e não tem porque as coisas serem diferentes aqui.

Aliás, é justamente essa política de renovação (cancelamento e substituição) de títulos que justifica o sistema de antologia no Japão. As antologias são um test-drive que permite ao público decidir se vai querer ou não colecionar um título.

Se um título não se sai bem, não tem problema, pois como antologias não são colecionáveis, o leitor não será prejudicado (pelo menos financeiramente) se a série tiver que ser cancelada, pois gastou pouco com o que já havia consumido.

Claro, não estamos no Japão e aqui no Brasil a coisa é mais séria, já que os títulos aqui são lançados diretamente no mercado em formato colecionável e cancelamentos causam prejuísos sérios ao consumidor.

É possível que esse é uma fator importante para explicar porquê nossas editoras são pouco ousadas. Diferente das editoras japonesas, as nossas não tem como averiguar previamente a receptividade de um título, de modo que os lançamentos em geral são uma operação de alto risco.

Uma tentativa de reduzir esse risco foi planejar os lançamentos com base nos palpites do público. Mas caso Sanctuary mostrou que a opinião pública não é um fator confiável, de modo que ainda se procura um meio eficiente de medir a vendabilidade de um título por aqui.

Fico triste em ver um título que gosto ser cancelado, mas fico mais triste ainda vendo uma editora falindo.
Nome: Pedro Bouça 29/10/09 07:06
Acho que não foi uma questão de palpite do público. Lobo Solitário vendeu pra caramba e um MONTE de mangás adultos no mesmo estilo (Cying Freeman, Sanctuary) foram lançados para tentar alcançar o mesmo público - e não apenas pela Conrad.

O que o pessoal descobriu tarde demais foi que Lobo Solitário não vendeu por ser adulto ou mesmo por ser de boa qualidade. Vendeu porque o mito em torno da série, tantas vezes publicada e cancelada no Brasil, tinha crescido até o ponto que muita gente que não comprava mangá adulto (ou mesmo que não comprava mangá!) a comprou. O que não se repetiu com outros materiais, inclusive dos mesmos criadores (como o Executor Samurai que veio a seguir).

Se ninguém tivesse lançado nada tentando capitalizar em LS, o pessoal teria reclamado que a série tinha provado que mangá adulto vende mas as editoras não tinham sabido explorar. Bem, dessa vez elas exploraram.

E se deram mal.

Hunter (Pedro Bouça)
Nome: Warty 30/10/09 01:42
Lobo Solitário é um caso totalmente diferente. O público que compra mangá normalmente NÃO comprou Lobo Solitário. Lobo Solitário vendeu, basicamente, pra quem normalmente compra Comics, BD ou Fumetti.

Lobo Solitário é uma lenda. Além de já ter tido sua série exibida aqui, e seus filmes lançados no nosso mercado, se não me engano, o mangá é tido como um marco na produção da arte sequencial. Some isso ao fato de Frank Miller ser um grande fã desse mangá (reflexo disso é 'Ronin', uma obra dele), e o Miller ter um bom nome por auqi (apesar de Cavaleiro das Trevas 2 e agora o filme do Spirit). Lobo Solitário fez sucesso exatamente porque atingiu um público que não atinge os outros mangás, na maioria dos casos. Vejo que Homunculus também está o fazendo, timidamente, mas está fazendo. Mas não por esforços da Panini, e sim, pelo boca-a-boca e pelas boas críticas no UniversoHQ (eu acho, especulação total, que isso influencia nas vendas de alguma coisa, ao menos um pouco). As editoras daqui não sabem vender suas séries, muito triste isso. Lobo Solitário vendeu devido aos fatores em torno da série, porque a Panini não moveu uma palha pra isso ocorrer.

E eu concordo, Sanctuary e Monster deveriam sair aqui com tiragem de livraria. Problema que um possui 12 volumes e o outro 18, e por amis que sejam ótimos, é muito difícil conseguir se publicar isso. Mas torço imensamente para que voltem as séries, pois sou super fã de ambas.
Nome: Pedro Bouça 30/10/09 02:05
Não acho que o UHQ tenha feito grande diferença nas vendas de Lobo, já que muitas das HQs que eles elogiam vendem pouco e muitas que eles espinafram são sucessos de vendas, mas o boca-a-boca em torno da série é fortíssimo há muitos anos. Foi assim que eu a conheci (anos depois da Sampa ter parado de publicar), por exemplo.

Ocasionalmente as editoras de quadrinhos brasileiras até fazem publicidade (eu lembro do mangá de DragonBall sendo anunciado na TV no intervalo do desenho, por exemplo), mas isso é raro.

A questão é que Panini e Conrad publicaram material visando o mesmo nicho de Lobo. Ostensivamente até (vide Executor Samurai, criado pela MESMA dupla e com uma temática muito similar). Mas não tiveram sucesso. O "mito" de Lobo Solitário é poderoso no Brasil, nenhuma publicidade pode igualar isso!

Hunter (Pedro Bouça)
Nome: Warty 31/10/09 09:50
Pedro Bouça 30/10/09 02:05
Não acho que o UHQ tenha feito grande diferença nas vendas de Lobo, já que muitas das HQs que eles elogiam vendem pouco e muitas que eles espinafram são sucessos de vendas, mas o boca-a-boca em torno da série é fortíssimo há muitos anos. Foi assim que eu a conheci (anos depois da Sampa ter parado de publicar), por exemplo.



Olha, eu me referia a Homunculus, não a Lobo Solitário quando falei em relação ao UHQ. E foi mera especulação mesmo. Lobo Solitário, como eu disse, desculpe se não fgui muito claro, vendeu porque é uma LENDA. :)

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