Busca
Set 28
Da Série "Perguntando aos Leitores": O Brasil Está Preparado Para a Era da Sincronicidade?
Compartilhe:
Lancaster |
PERMALINK |
16
Categorias: Perguntando aos Leitores

De um tempo para cá, parece que vem crescendo – com percalços, é verdade, uma tendência para coibir a pirataria: a sincronicidade, mesmo que a níveis relativos. Digo isso ao receber a notícia, através da ANN, de que a Viz Media confirmou no Anime Festival de Nova Iorque, neste domingo, que a partir de 3 de Outubro, a nova série televisiva de Inu-Yasha será exibida de forma simultânea com o Japão. Não é o único caso. O grupo Animax da Ásia, que nem de longe é essa coisa vergonhosa e ridícula perpetrada pela Animax bolivariana da Venezuela que nos é imposta goela abaixo por uma Sony que nivela todos os países da América Latina sem se preocupar com particularidades de mercado e públicos-alvos locais (o que em uma administração decente custaria cabeças), irá adotar essa sincronia em vários países asiáticos a partir de 10 de Outubro, uma semana após a estréia no Japão – e nos Estados Unidos, via internet. Foi tentado fazer o mesmo com One Piece, mas o bafafá por conta de um arquivo vazado por um invasor que se beneficiou de uma falha estúpida de
segurança acabou prejudicando tudo. Ironicamente pode ser a chance da Shogakukan, que está se esforçando para fortalecer a marca Shonen Sunday nos Estados Unidos, tomar a dianteira – a Viz é uma joint venture que representa ambas as editoras, mas olhando bem, até agora só a Shueisha pareceu se valer de forma efetiva da porta que foi aberta no ocidente, com o lançamento da revista Shonen Jump nos Estados Unidos, e a sua onipresença na televisão local com séries como Naruto e Bleach. O seu esforço em fortalecer a marca One Piece tem tanto a ver com o fato de que ela é uma marca vencedora no Japão como também o fato de ser o desenho animado mais pirateado no mundo – sinal que há público para esse material. E foi ele o maior beneficiário, quando a revista passou a se sincronizar com a publicação japonesa e dar um salto cronológico para emparelhar com a atual fase da série; o lapso de edições está sendo coberto de forma similar ao praticado com Naruto, com vários volumes sendo lançados simultaneamente. O percalço de One Piece não vai acabar com o processo; na verdade ele parece ser inevitável.
Por que isso? Porque se pensarmos bem, já vivemos a sincronicidade através de traduções amadoras feitas na internet. Um mangá como Bakuman pode ser lido praticamente de forma imediata no ocidente, com poucos dias de diferença
em relação ao seu lançamento nas páginas do almanaque para garotos Shonen Jump, através do trabalho de fãs. O mesmo pode ser dito de séries animadas, gravadas na calada da noite da tv japonesa, com o numerozinho do horário em que ele foi gravado, estampado em um canto. Qualidade acaba passando ao largo: o objetivo acaba sendo mitigar a sede de ver esse material o mais imediatamente possível. Então até demorou para cair essa ficha: as grandes empresas só precisam colocar o material a disposição antes que os piratas o façam. Eles o farão de qualquer jeito, então é melhor que isso seja feito de forma profissional, e que se construa um modelo de negócio que torne isso financeiramente rentável. Não é um pensamento pouco razoável.
Por tudo isso, é até uma surpresa perceber que essa tendência já se desenhava aos poucos, passou por baixo do nariz da maioria das pessoas, e está na raiz tanto de um desempenho decente como o da série para mulheres Nodame Cantabile, quanto para a catástrofe de Kodomo no Jikan, que representou um desgaste de imagem imenso para a editora Seven Seas. O que essas duas séries têm em comum? Ambas foram licenciadas ainda durante sua veiculação inicial em seus respectivos almanaques
de mangá, antes mesmo que houvesse um primeiro volume compilado nas livrarias japonesas. A Del Rey se deu bem: quando a série estourou no Japão e caiu no radar dos fãs, ela já estava sendo publicada e com volumes em estoque nas distribuidoras e livrarias americanas, prontas para a chegada de seu público. Embora ela não tenha chegado aos 20 mais vendidos, ela se mantém sendo publicada continuamente sem percalços, e tem um ativo de crítica especializada muito grande – não é uma série campeã, mas tem seu eleitorado fiel. Já no caso da Seven Seas, eles se apressaram e não imaginaram o verdadeiro cavalo de tróia que estavam trazendo pra casa: uma obra sensacionalista e repleta de sugestões de pedofilia, que quase arranhou a editora justamente quando seu Hollow Fields (excelente mangá produzido pela própria empresa, que ganhou o Prêmio Internacional de Mangá do Ministério do Exterior Japonês – na verdade, apesar de um ovo podre ou outro, os mangás "da casa" como Arkham Woods, Blade for Barter e o citado Hollow Fields tendem a ser beeem superiores aos materiais japoneses que a editora publica, como os dispensáveis Venus Versus Virus e Strawberry Panic) estava ganhando destaque positivo na mídia. Isso aponta para novas faces do novo cenário, evidenciadas por esses dois eventos precursores:
– O material emplaca no Japão e no país aonde ele é lançado. Esse é o ideal e é o caso de Nodame.
– O material emplaca no Japão mas não emplaca (ou nem tem como emplacar, o que na prática dá no mesmo) no país aonde ele está sendo lançado. É o caso de Kodomo no Jikan.
– O material não emplaca no Japão, mas acaba dando certo no país aonde ele for lançado. Tem suas vantagens por permitir que um material que não deu resultados no país de origem consiga trazer dividendos e recuperar investimentos. É o caso de obras como Mai, a Garota Sensitiva, um dos primeiros mangás a fazer sucesso no ocidente dentro de um público limitado, no mercado direto americano. Nos Estados Unidos, chamou a atenção em sua época e chegou a ganhar uma proposta cinematográfica local, com uma Mai nipo-americana, que acabou não indo para a frente. No Japão, não passou dos três volumes em uma revista semanal (por mais que eu goste dessa história, há nela contradições que são do tamanho de um bonde; foi a necessidade de encerrá-la de forma coerente que acabou gerando uma série de pontas soltas e incoerências no material).
– O material não emplaca em nenhum dos lados. Aí, a perda foi de todos, mas ao menos foi breve e não deve causar grandes danos.
– O material não emplaca de início no Japão, mas emplaca no país aonde foi lançado – só que o material original acaba dando uma virada de gênero que o salva comercialmente no país de origem, mas aliena o público já conquistado no outro local.
Esse último caso tem seu paradigma no caso de Narutaru (Shadow Star, de Mohiro Kitoh) – outro evento que antecipou essa era de sincronicidade: começando como uma história tranquila e simpática com um elemento fantástico, Shadow Star não teve grandes resultados comerciais iniciais durante sua publicação, mesmo ganhando um anime para a Kids Station japonesa. No entanto, conseguiu crédito e respeitabilidade como material juvenil para todas as idades nos Estados Unidos, chegando a entrar em bibliotecas e ser bem-recebido em grandes cadeias de livrarias – bom lembrar que parte fundamental do crescimento do mangá nos Estados Unidos se deve a um sistema de classificação etária bem claro; os livreiros sabem muito bem o que trazem para suas lojas por lá, e foi entre o público mais jovem que a série se criou. Só que essa também foi uma bomba que caiu no colo da Dark Horse (editora da versão americana do mangá): de uma obra tranquila sobre amizade e amadurecimento de uma menina, o material se tornou uma obra ultraviolenta, com direito a tortura psicológica, desmembramentos e estupros,
tudo bem gráfico (e lembrem, com um elenco de personagens na faixa dos doze, treze anos). O que aconteceu foi simplesmente o que vemos todo dia em revistas para garotos: um título que não emplaca em um gênero sendo reformulado em seu andamento e salvando sua pele do cancelamento. Assim, da mesma forma que Yu Yu Hakusho começou como uma comédia leve sobre um fantasma que ajuda pessoas com problemas (algo me diz que o lugar de uma série como essa seria na Shonen Sunday, não na Jump), e acabou se tornando uma série de porrada; assim como Yu-Gi-Oh começou como um material de terror juvenil, com contos de corrupção e punição a cada capítulo, e se tornou um cardgame em forma de quadrinhos; assim como Ginga Nagareboshi Gin era um material sobre a amizade de um menino e seu cãozinho e se tornou... bem, se tornou uma inacreditável série de luta entre cães sanguinolentos; Narutaru acabou virando um material extremamente sombrio e pouco recomendável para almas sensíveis. A Dark Horse tentou ainda salvar o material pedindo para que certos quadros viessem redesenhados, mas a medida em que o material avançou, só lhe restou cancelar o material: a série vendia relativamente bem, mas a alteração de classificações etárias de capa acabou chamando atenção dos lojistas, e diminuindo o numero de pedidos do material. Deu no que deu, e não resta a menor dúvida de que isso pode acontecer de novo no novo cenário que se desenha. Que cedo ou tarde vai acabar chegando ao Brasil. Somos um mercado potencialmente grande demais para ser ignorado.
Resta saber como isso pode se dar. Os japoneses em geral serializam seus mangás em revistas de diferentes periodicidades, sendo as mais populares de modo geral semanais (apesar do crescimento dos mangás mensais nos últimos anos), e aparentemente os americanos apostaram na serialização online para dar conta do recado. É uma postura prática e tem um bocado de lógica por trás dela: evitam-se gastos de impressão e distribuição, e o grande foco de pirataria é a internet de qualquer forma. Embora a Shonen Jump saia em pontos de venda americanos na forma
impressa, é possível ler seus capitulos no website da edição local da revista, além da Shonen Sunday e da Viz Signature Ikki (baseada na revista Ikki da Shogakukan, adicionando a ela o principal selo autoral da Viz) – e no caso da Ikki, só os materiais que forem mais votados e tiverem melhor desempenho ganharão versões para livraria, garantindo assim que apenas títulos com potencial de venda sejam publicados. É uma solução inteligente, especialmente porque nos Estados Unidos os leitores tendem realmente a comprar. Outros titulos de maior sucesso, como Kyokai no Rinne (que vem com a assinatura de Rumiko Takahashi e isso nos Estados Unidos é sinônimo de venda) também estão se beneficiando desse tipo de abordagem mercadológica, sendo publicados pela Viz horas depois de seu lançamento no Japão, nas páginas da revista Shonen Sunday. Quando ele tiver seu primeiro volume compilado em terras nipônicas,
acontecerá o mesmo nos Estados Unidos. Isso não impediu que os capítulos de Rinne aparecessem em sites de scans em massa como o One Manga, mas com certeza o alvo prioritário dos leitores é a página oficial da Sunday americana.
Isso funcionaria aqui? Não sei. Para começo de conversa, os materiais para livraria americana tendem a ser menos perecíveis do que a forma que se convencionou a publicar mangá por aqui, com papel pisa brite em volumes para banca. Refletem um formato já estabelecido por lá, similar aos pocket books que infestam qualquer livraria que lide com material importado em nossos grandes centros – mas com gramatura mais espessa e qualidade de impressão bem melhor. São colecionáveis, no melhor sentido da palavra.
Outra opção seriam as antologias de banca, mas sendo para fins de sincronicidade, isso funcionaria melhor com publicações que fossem mensais. Não é complicado pensar nisso com títulos de uma Jump Square, ou de uma Sunday mensal, mas pense no pesadelo editorial de ocupar pelo menos oitenta páginas de uma revista com todos os capítulos que saem em um mês de uma série semanal. Além do mais, com boa parte dos títulos
sendo publicados mensalmente nesse formato tão perecível, o sentido de edições colecionáveis se perde quando comparado a uma antologia. Qual o sentido de acompanhar, digamos, um Rinne em uma eventual Sunday brasileira se quando ele for compilado, ele o for da mesma forma que nossos mangás de banca são publicados? A espera não terá valido a pena, de qualquer forma. É preciso um adicional pra justificar a demora.
Então de qualquer forma, deixo a palavra com vocês, leitores. Porque cedo ou tarde vai haver interesse por aqui em se sincronizar com a publicação japonesa. Somos um mercado de poder aquisitivo crescente, mas ao mesmo tempo emperrado por anos de práticas viciosas que impedem que os quadrinhos escapem do núcleo dos fãs de sempre. E quando isso acontecer, muitos paradigmas de publicação terão que ser repensados – alguns deles, radicalmente, e será uma transição difícil, que gerará baixas pelo caminho, acreditem. Será que estamos preparados para isso? O leitor esperaria três meses pela compilação de uma série cujos capítulos são veiculados semanalmente?
É com vocês, agora.
Posts similares:
Kyokai no Rinne Simultaneamente no Japão e nos Estados Unidos!
Vem aí... Shonen Sunday Pela Viz.
A Era da Simultaneidade Continua
Post anterior: Ranking da Taiyosha (JP) – 27/09/2009Próximo post: Saiu Teaser Trailer do Anime de Fairy Tail!


Endereço de trackback para este post:
http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/38070Comentários, Trackbacks:
Bem, a meu ver, no Brasil, PODERIA dar certo se a tal edição semanal fosse bem baratona mesmo! Papel jornal e tudo (e sem fãs ensandecidos criticando a "qualidade" das páginas) e depois, posteriormente, sendo publicado um encadernado bonito e com capas coloridas (maldita JBC...) para os fãs de maior poder aquisitivo ou fispostos a pagar.
Digamos, uma Jump brasileira com umas 100 páginas, vai... custando uns 3,50. Tiragem grande, muita divulgação para NÃO-LEITORES de quadrinhos (pelo amor de Deus!), distribuição em escolas de algumas edições... coisa assim.
Poderia rolar, mas a tal editora teria que estar preparada para enfrentar um pouco de prejuízo. E aí que vem o calcanhar de Aquiles de qualquer coisa cultural que se vá fazer no Brasil... TEM que dar lucro imediatamente! Geez...
Alexandre: Bom, sejamos honestos: toda empreitada começa no vermelho. Lucro imediato é falácia – quando acontece, pega de surpresa os que nem esperavam isso. Eu sempre fui um defensor de tudo o que você está falando aqui – material barato para formar leitor, mas tem que haver investimento. Não é possível ganhar dinheiro sem gastar dinheiro.
Já semanal eu acho mais difícil justamente por conta de nossa distribuição que encarece tudo, infelizmente. Mas eu também acho que ela deve ser repensada, e de forma eficiente, com um projeto concreto por trás. Boa parte dos altos custos dos quadrinhos em nossas bancas tem o dedo da parte dos distribuidores por aqui, e tem também o fator das dimensões de nosso país envolvido.
A realidade aqui é o outra. Os leitores são diferentes, as editoras são incompetentes.
Não sei os números de bastidores, então posso estar falando bobagem.
Não sei se publicar o material "quase" simultâneo resultaria em custos maiores. Caso afirmativo, seria absurdo lançar um material assim num mercado centralizado como o Brasil (Rio-SP, e Minas Gerais de fora, aff).
O mercado brasileiro, pelo menos de mangá, parece que não busca mais um crescimento horizontal, o que pode demonstrar satisfação, e acomodação, das editoras com o atual formato.
Um fator negativo é a espera. Desde o início criou-se por aqui uma periodicidade mensal. Ainda hoje vejo muitas pessoas reclamarem de títulos bimestrais e/ou de títulos que encostaram nos volumes japoneses.
Embora não saiba a parcela que esse tipo de leitor representa, posso afirmar que esses são bons e constantes consumidores, diferente do público otaku padrão.
Um antologia acho fora da realidade. Pensamento porco que inunda o Brasil: "Pra que vou comprar uma revista só com 3 séries que eu gosto e um monte enchendo linguiça?". O tipo de consumidor de quadrinhos shonen, que eu conheço, é mais ou menos desse tipo (sem falar na faixa etária mais reduzida), então é de certa forma até previsível que uma antologia seria um fracasso.
Nosso mercado fosse mais aberto à história em quadrinhos de forma geral, uma antologia mais abrangente, nos moldes da Afternoon (no questio títulos, não no quesito lista telfônica), seria uma boa forma de agradar velhos de guerra como trazer novos leitores. Mas acho complicado num país onde quadrinhos são infantis, fãs de mangás odeiam comicas, fãs de comics odeiam mangás, enquanto isso os excelentes italianos e franceses ficam meio esquecidos.
É uma idea legal, mas comercialmente, tanto antologias de mangá como lançamentos quase simultâneos, não dariam certo por aqui, pelo menos não vislumbro isso na próxima década.
Para finalizar, falta um melhor trabalho das editoras para manter o público. Não sei se há outras pessoas na mesma situação, mas não aguento mais o tratamento porco dos quadrinhos brasileiros. E um gasto maior numa antologia ou num esforço maior para o título simultâneo, creio que dificilmente não se refletiria no já lastimável tratamento dos títulos em banca.
Resultado final, pelo menos pra mim: um desastre comercial.
Vide o fato de um dos autores mais estabelecidos do mercado, o Maurício de Souza, estar aí nas bancas com o quadrinho que mais vende no mercado - e por sinal vende algo entre 5-10 vezes mais do que qualquer quadrinho de supers, mangá ou fumetti no momento. A Turma da Mônica jovem vende mais que muita revista para gente grande, diga-se de passagem.
Isso nos mostra que há um público consumidor de quadrinhos bem maior do que se diria UM ANO ATRÁS - e que ser alguém estabelecido é algo BEM diferente de acomodado.
Se há público, alguém percebe e na tentativa e erro vão aparecendo os produtos. Vide a Lulu Teen, que pode ser uma tralha, mas deixa claro que tem gente querendo investir sim.
E se o pessoal que CRIA aqui já está começando a se mover, com certeza os que dependem de material japonês vão correr também, porque é o deles que fica na reta na competição.
A coisa pode se retorcer no meio do caminho ou não, mas com certeza as coisas não vão ficar iguais.
Utopia só a Disneylândia - aqui a gente está falando de negócio e quando o assunto é grana em jogo, sempre tem quem se agite.
Alexandre: Ah, a delicadeza dos fãs, sempre tão frios, embasados e racionais... bem, vamos lá: ele era autor cult sim, e começou sua carreira em meados dos anos oitenta. Mas dê uma olhada na sua obra pregressa (como em Zanshô por exemplo) e você vai ver que ele era um autor de histórias pacatas e cotidianas, de pouca expressão. Ele começou a chamar a atenção com Vandemieru no Tsubasa mas teve toda uma obra antes disso. Com Shadow Star ele até acabou ganhando desenho animado. Sentiu a diferença? Na época em que deu esse rebu com a Dark Horse esses dados vieram a tona, você deve encontrar alguma declaração do Toren Smith e do Studio Proteus a respeito disso lá pelos idos de 2004 (procure mesmo, porque é história antiga e mostrou justamente a dependência do crescimento do mangá nos Estados Unidos ao sistema classificatório nas livrarias). Procure na internet antes de fazer escândalo por "comparar kitoh a yu-gi-oh". A Afternoon é adulta, mas não é uma revista autoral como a Ikki. É assim que funcionam as editoras japonesas.
Moss, depois de importar alguns mangás dos EUA também comecei a achar o material brasileiro bem porco.
Seton e Dama de Pharis tiveram edições excelentes e o preço nem era tão caro (15,90), mas fracassaram miseravelmente.
As editoras não ajudam, os leitores tampouco.
A pergunta é: quem iria abrir mão de comprar uma ou duas séries para investir numa antologia? Poucos fariam isso, até porque comprariam o tanko que desejam sem passar por uma antologia.
Esse tipo de almanaque, nos mangás, não daria certo no Brasil. Já vi gente pedindo a Jump por aqui sem nem saber como ela é. Essas pessoas devem imaginar que é uma revista mensal com umas 4 séries, e todas de ponta. Já vi gente pedindo a NewType também. -_-
Sobre sincronicidade, tirando fatos isolados de séries populares (Cavaleiros?), as próprias editoras parecem não ligar muito para isso. Imagina aqui no Brasil a Panini tentando alcançar Naruto.
...
Na verdade, não quero nem imaginar.
A sincronização em si é uma ótima idéia. Em um mercado altamente deteriorado pela pirataria, quaisquer sitemas que ajudem a coibi-la são bem vindos. Poderia até mesmo viabilizar o mercado de animes, que atualmente é inviável por conta da concorrência desleal das cópias ilegais. Mas não se deve colocar a carroça na frente dos bois. Antes de se perguntar sobre estas questões, deve-se antes solucionar as questões mais básicas.
Expandir o mercado atual, consolidar o mercado infantil e adulto, aumentar e melhorar o processamento de dados estatísticos, modernizar as práticas mercadológicas, desenvolver uma cultura de sincronicidade com outras mídias e de licenciamentos, dentre outras coisas.
Ainda há muito o que ser feito, e enquanto as editoras atuais não saírem do atual comodismo, a sincronicidade será de pouca valia. Uma indústria é um sistema, o que significa que medidas isoladas, que não sejam praticadas considerando o todo, terão resultados imprevisíveis.
Nem gibis normais são vendidos semanalmente, como eram nos anos 80 os do Zé Carioca e Pato Donald, por exemplo.
Acho difícil uma editora brasileira tomar a iniciativa e propor lançar um título sincronizado com o Japão. É mais fácil a dona dos direitos lá no Japão condicionar a editora brasileira por contrato a lançar ao mesmo tempo, se quiser ter os direitos do título. Nos EUA isso pode ser acordado entre as partes facilmente, porque lá o mercado é bem consolidado. Aqui ainda não é.
O mangá faz sucesso aqui? Faz, claro. Mas ainda é algo muito instável.
Eu acho que muitas opiniões dadas aqui são baseadas em ideologia e pelo lado fã de mangá.
As editoras lançam mangás não por ideologia e sim aproveitar o modismo para lucrar. Os "arrasa quarteirão" sobrevivem bem nas bancas, acompanhados pelo sucesso do Anime respectivo na televisão, mas já aconteceram muitos casos de títulos serem cancelados antes do fim, atrasados e até esquecidos no Brasil.
Sobre as antologias, tenho esperança neste aspecto. Imagino se diversas empresas se unissem, por exemplo, com uma Recreio da vida de quadrinhos. A recreio vende bem no nosso já nanico mercado ( e têm nome, talvez o mais importante) e se divulgassem nessa revista os seus produtos em forma de histórias em quadrinhos ( com uma boa divulgação, diga-se de passagem) poderia ser bem sucedida. Digo isso porque se fomos apostar em uma antologia, temos que começar por um terreno mais sólido ( quadrinhos pras crianças vendem muito bem) e temos que criar uma cultura quadrinistica no país não existente ainda.
Mas lançamentos simultaneos com o Japão, será o futuro. Mesmo que demore. Os fansubers já são prova disso. Muitas abandonarão o mercado, isso é fato ( só pensar no aspecto atual de mercado, até do Japão, animê e mangá não vende tanto quanto antes. A audiencia está cada vez mais pacata, as antologias vendem cada vez menos, etc. Mesmo que em alguns mercados já estejam estabilizados, com a Internet é bem difícil de alcançar todo o potêncial que uma série pode ter). E, sinceramente, lançamentos com o Japão será a unica solução para quem conseguir se manter no mercado, pode demorar, mas que vai acontecr, pode acreditar.
Muito pelo contrário, os mangás só emplacaram no Brasil por conta da "pirataria". Se Naruto não tivesse sido "pirateado" o mercado brasileiro de mangás jamais teria crescido do modo que cresceu e se tornado o que é hoje, um mercado com mais de 30 títulos sendo publicados nas bancas. Engraçado que isso não teria ocorrido com o público americano também (mas no caso deles é talvez mais de uma centena de títulos).
Reclamar dos scanlators depois que a febre começou é muito fácil, você já viciou aquele público e já tem o seu mercado fiel, já pode se livrar da propaganda que é uma faca de dois gumes epartir para métodos mais agressivos de arrancar dinheiro de seus consumidores.
Mas agora a minha opinião, é possível a publicação de uma antologia em Terras Brasilis?
NÃO! Simplesmente é tiro no pé. As pessoas aqui "colecionam" seus mangás, elas não desperdiçariam seu dinheiro em um produto de qualidade inferior que teriam que comprar novamente depois. Temos que lembrar que o salário mínimo brasileiro é de +/- 450 reais. Grande parte das pessoas que compram mangás não ganham muito mais que isso e ainda vivem com os pais e ajudam no orçamento doméstico, a outra grande parte do público depende de dinheiro de mesada e merenda para comprar mangás só uma fatia mínima é adulta e independente e pode gastar seu dinheiro em que bem quiser.
Uma antologia poderia funcionar com séries mensais estilo Fullmetal, Claymore etc. desde que elas sejam ponta de linha e atraiam o público e o preço final não seja muito alto, mas não existem séries o suficiente de uma editora o suficiente para conseguir isso.
Para mim a grande solução para o "problema" dos scanlators é as próprias editoras passarem a publicar os capítulos online e cobrar uma pequena tarifa. Exemplo:
As editoras publicarem seus mangás online como a Viz tem feito com a Shonen Jump cobrando uns 10 reais no máximo, isso em sincronia com o Japão.
Enfim, um Onemanga próprio, mas os custos seriam altos para manter esse tipo de site contando com editores de mangás, tradutores, hospedagem. Sai mais barato para a Shueisha manter o onemanga no ar pq ele é a maior propaganda que ela tem atualmente. Quem vailá ler o Naruto da semana vê os outros títulos da Jump (Bleach e One Piece) próximos fica curioso e lê online, eventualmente compra o mangá e todos saem felizes, os leitores por poderem acompanhar em real-time e a editora por vender muito bem, o onemanga nada mais é que uma gigantesca vitrine.
Basta lembrar do caso Panini, é só entrar no "Chrno Scanlator" e ver que os projetos deles mais bem sucedidos acabam sendo trazidos pela editora. Aishiteruze Baby, Homunculus, MPD Psycho, Chrno Crusade, Gantz, Abara etc. Grande parte deles lançado no Chrno muito antes de nós sonharmos em ve-los nas bancas daqui.
Disseram:
"Em um mercado altamente deteriorado pela pirataria, quaisquer sitemas que ajudem a coibi-la são bem vindos. Poderia até mesmo viabilizar o mercado de animes, que atualmente é inviável por conta da concorrência desleal das cópias ilegais."
Novamente eu digo, o problema é a GANÂNCIA. Ninguém vai comprar um dvd original custando 40 reais e que contém 4 episódios (custando 10 reais por episódio) quando pode comprar um dvd pirata por 10 reais que vem com 13 episódios (menos de um real por episódio). Lembrando que a VARIEDADE dos títulos pirateados é dezenas ou centenas de vezes maior que os licenciados.
Cobrar 150R$ em um box com 23/26 episódios em um país que o salário mínimo é de 450R$, ou seja 1/3 do salário que serve para comprar comida, roupa, remédio e pagar as contas é não só irreal e ridículo, é cruel, é totalmente fora de realidade.
Vou dar um exemplo, os dvds de HunterxHunter custavam caro, mas entraram em promoção na Casa & Video e no submarino baixando o preço para 10R$ por dvd (2,50R$ por episódio, produto original, um preço justo), eu comprei os disponíveis. E posso dizer mais, os piratas compensam porque apesar da capa ser feia os dvds piratas têm a abertura original e o encerramento coisa que foi limada do produto oficial. Eu não quero aqueles postais que vem como brinde (ou chaveiros idiotas como os que vieram com Akira), eu quero um produto de qualidade legal que eu possa assistir em casa. De preferência o mais fiel possível ao original.
A solução para a pirataria dos dvds seria lançar custando 10R$ os dvds em bancas, similar ao que se faz hoje em dia com com os mangás. A realidade financeira dos consumidores tem que ser levada em consideração.
Ainda não fiz, e nem acredito ser o local certo, mas agradeço a presença de todos aqui
No brasil, já não existiram publicações em formato de antologia? se não me engano, uma tal de "Tsunami"... certo? Qual foi o resultado daquilo? vingou? não existiu durante um outro periodo no passado também?
Alexandre: Eu tenho os exemplares da Tsunami e, bem, ela não vingou por muito tempo. Mas e cheguei a conclusão de que é impossível se fazer antologia de mangá com capítulos tão pequenos. Mangá precisa de espaço.
Talvez não funcionaria na forma como os licenciamentos de mangás são feitos (valor? quantidade mínima de capítulos/volumes?), mas acredito que uma antologia seria uma boa forma de testar o mercado de forma similar ao que a Ikki americana faz. Títulos com alta popularidade ganhariam versões definitivas, as medianas lançadas com tiragem menor e as com baixa popularidade poderiam ser continuadas somente na antologia ou seriam canceladas.
O problema seria a editora ficar de olho gordo e tentar manter uma antologia somente de megahits onde todo e qualquer título abaixo do sucesso esperado fosse limado.
Na questão da sincronização com a versão japonesa, eu acredito que somente certos títulos deveriam se dar ao trabalho de acompanhar os japoneses. De preferência, títulos que já tenham adquirido uma visão mais internacional. Acho que isso evitaria surpresas como foi o caso de Narutaru.
Daqui há uns anos, quando se concretizar TOTALMENTE o mercado, quando se criarem novos leitores, e leitores cativos, quando o mercado sair do "eixo-otaku", aí poderá se pensar
J-BOX: O lançamento de mangás em formato de antologia (como a versão americana da Shonen Jump) nunca foi pensado pela JBC? Quais empecilhos ou inviabilizam a ideia?
DEL GRECO: É quase impossível que algo do gênero seja lançado aqui. Quando saiu a Shonen Jump americana nós consultamos a Viz sobre essa possibilidade e nos foi dito que, por envolver muitas obras e diferentes donos de seus direitos, seria inviável licenciar e aprovar todo o material. Mas tudo muda, quem sabe um dia…
Alexandre: Aquilo foi uma vergonha. Três editoras foram levadas no bico nessa história (A Escala, a Ópera Gráfica e a Mythos): Nenhum dos materiais era realmente licenciado e me lembro inclusive, durante o tempo que eu estava na NewPOP, um desses imbecis de internet na comunidade de orkut da editora tentando insinuar que os títulos da NP eram piratas por conta de Alita na Opera Graphica, para ver como esse tipo de coisa fica como mancha. Porque as editoras não processaram o "licenciador alternativo" foi um mistério – eu credito isso justamente à inércia das editoras daqui, que devem ter considerado que não recuperariam o prejuízo, mas acho que deveriam ter feito do sujeito um exemplo para desestimular outros atos do mesmo tipo. Independentemente do fator pirataria, o almanaque foi mal pensado desde o começo; sem formato diferenciado e repleto de títulos de enésima linha, sem falar de uma qualidade gráfica péssima. Dos títulos, o melhorzinho foi Geobreeders e olhe lá – a escolha geral da grade do superalmanaque foi muito, mas muito ruim. A menos que a idéia de "licenciar alternativamente" titulos de segunda categoria (salvo Alita, pela Opera Graphica) fosse uma espécie de cortina de fumaça para evitar que as grandes editoras japonesas percebessem o que estava acontecendo. Se trouxessem, digamos, Naruto, a Shueisha perceberia rapidinho a fumaça e iria desferir o martelo da justiça na cabeça do infeliz que fez tudo.
Deixe seu comentário: