Busca
Ago 31
Um Mundo de Brinquedo
Compartilhe:
Lancaster |
PERMALINK |
8
Categorias: Artigos e Reviews
Aonde quadrinhos são levados a sério, eles são vistos como uma grande fonte criativa impulsionadora de franquias – e portanto para negócios, em diferentes segmentos de produtos. Aqui, pessoas sem nada para fazer e com um discurso paranóico e castrador inventam projetos que só contribuem para destruir o mercado, como o substitutivo do Projeto de Lei nº 5.921/2001 redigido por Maria do Carmo Lara (PT - MG) a partir do Projeto de Lei original do deputado federal Luiz Carlos Hauly (PSDB - PR, o que mostra que o inimigo trafega pelos dois lados do espectro político),
que pretende proibir a publicidade destinada ao público infantil e o uso de personagens do gênero na divulgação de produtos para crianças (ou seja, matando por asfixia a indústria de licenciamentos e uma das mais importantes fontes de rendimento de qualquer franquia baseada em quadrinhos). Em miúdos, viraram suas baterias indiretamente, mas de forma fulminante, contra a indústria do quadrinho infantil ao tentar cercear a indústria de licenciamentos com esse projeto. Vendagens não são tudo o que sustenta uma franquia e isso tem que ser levado em conta. Por outro lado, esses produtos não deixam de ser parte do que levam uma criança ao quadrinho original. Quantas vezes você, quando garoto, não teve em mãos um joguinho ou um brinquedo que lhe deram e, ao saber que isso era baseado em uma história em quadrinhos original, correu atrás para saber quem eram esses personagens?
Não sei a quantas anda o andamento da coisa, mas ele aponta a movimentação de setores que devem, sim, ser contestados e combatidos. Por isso mesmo estou abrindo meu arquivo de
matérias publicada originalmente na revista Neo Tokyo com este artigo em especial. Ele fala justamente da importância desse segmento infantil de quadrinhos no Japão e de sua mecânica de licenciamentos. Está sendo postada em versão editada, mais por questão de concisão de mensagem: haviam tantas referências relativas ao lançamento de Let's & Go – que não deu em nada – que me forçariam a reescrever a matéria praticamente toda para remover essas menções e colocar referências mais atuais do segmento, como Bakugan Battle Brawlers (que até foram mencionadas na nova versão). No entanto, as referências a Let's & Go ajudam a explicar muita coisa da mecânica de licenciamentos – logo, foram removidos apenas os dados relativos ao lançamento do produto na época e que perderam razão de ser; ele continua sendo fio condutor do texto e a edição, aqui, tem como objetivo não sobrecarregar a leitura e dar uma pequena recontextualizada em relação a fatos que eram novidade e hoje estão distantes; o importante é a mensagem e ela permanece intocada, e embora eu fale de material japonês no artigo, ele vale para qualquer iniciativa local de produção de quadrinhos que seja levada a sério.

O fato é: quadrinho tem que gerar dinheiro para justificar que crie empregos. E quem está contra o quadrinho, está contra um setor inteiro e de indústria, que pode reverter em impostos, visibilidade no exterior e até na imagem pública do País. Quando a Turma da Mônica mostra a cara em produtos na China, ele é a imagem do Brasil no exterior. E os brinquedos são parte importante da dinâmica dos quadrinhos como negócio.
E quem é contra a indústria, é contra o Brasil. Sem discussões.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Muita gente, entre os fãs de animação japonesa, coçou a cabeça quando vieram as primeiras notícias sobre a exibição de Let's & Go no Brasil há poucos anos. Os fãs de sempre costumam estar à espera de novas animações e mangás, e em geral, quando aparece algo novo que ninguém contava, a reação geral é "Porque trouxeram isso? Porque não trouxeram ________ (anote na lacuna o nome do seu anime favorito)?
Antes de qualquer coisa, se alguém escreveu, digamos, Gantz ou qualquer outro anime que só poderia ser exibido na televisão brasileira com mais cortes do que uma motosserra, e que no Brasil não teria um décimo da audiência que os fãs acreditam que teria, mesmo que viesse na íntegra, só posso dizer que eles estão se iludindo. Dificilmente o que foi escrito na sua lacuna faria "o maior sucesso" – o gosto de núcleos menores não corresponde necessariamente ao gosto da massa. Em miúdos, Let's & Go não foi pensado para uma minoria de fãs, mas para uma grande massa de consumidores dispostos a
comprar... carrinhos: a série contava a saga de Letsu (Let's) Seiba e Go Seiba, irmãos e pilotos de carros Mini 4WD, usado em competições. Eles não têm destaque entre os 4WD até o dia em que o Dr. Tsuchiya lhes presenteia com carros especiais para competição. O primeiro se chama Sonic Saber e foi projetado para curvas especiais (dado para Letsu). O segundo carro, Magnum Saver, foi desenvolvido para grandes velocidades e é dado para Go Seiba. O resto... bom, o resto é previsível e levando em conta o público-alvo do material, eficaz. Quem viu materiais como, digamos, Beyblade, já conhece a fórmula: eles vão entrar no circuito de competições, fazer muitos amigos, fazer também muitos rivais – enfim, o de praxe. Let's and Go pode não ter emplacado aqui, por conta dos horários inóspitos em que foi colocado no SBT, mas tem um histórico comercial respeitável no Japão. Enquanto a maior parte dos materiais desejados pelo Fandom não costuma passar de uma temporada de 26 episódios (ou melhor, meia temporada – antigamente se esperava que a maior parte dos animes emplacasse por um ano), os carrinhos dos irmãos Seiba geraram TRÊS temporadas produzidas pela Xebec e exibidas pela TV Tokyo, cada uma com 51 episódios,
além de um filme para cinemas; uma série em mangá de vinte volumes publicada pela Shogakukan entre 1994 e 1999; sem falar de sete jogos pulverizados entre Playstation, Super Famicom, Game Boy e outros. No Japão, 25 milhões de carrinhos da franquia foram vendidos durante o ano de 1996, consumindo UM QUINTO das pilhas produzidas no país durante aquele ano. Os números se mostraram igualmente respeitáveis no resto da Ásia: Um milhão e quatrocentos mil carrinhos vendidos em Hong Kong; 2 milhões em Taiwan; 3 milhões nas Filipinas e... mais de 15 milhões de unidades na China. Não é pouca coisa.
Na verdade, podemos repetir um pequeno mantra aqui: Um anime é nada mais nada menos do que um comercial de televisão de 26 minutos (contando aberturas e encerramentos), cercado de outros anúncios por todos os lados – preferencialmente dedicados aos produtos que o próprio anime em si vende. E no caso, a história de Let's and Go começa com a iniciativa comercial de uma grande empresa japonesa – a Corporação Tamiya. E nessa história, se evidencia e muito como funciona a mecânica comercial da criação de mangás e animes de massa, e sua relação com a venda de produtos de consumo.
Me dê um produto e dele eu farei um mangá!
A Corporação Tamiya foi fundada por Shunsaku Tamiya em Shizuoka, no ano de 1958, e é uma fabricante de modelos de plástico, kits de montagem (como os velhos Kits Revell, alguém lembra?), ferramentas para modelagem, modelos movidos a bateria ou energia solar – e para falarmos daquilo que nos interessa, carrinhos.
O que eles produzem tem mais a ver com modelismo do que com brinquedos – e nesse terreno, eles introduziram em 1982, no mercado, um produto chamado Mini 4WD – pequenos carros com motores elétricos, carregados por pilhas ou baterias recarregáveis, e projetados para atingir velocidades muito altas em trilhas especialmente preparadas, analogamente aos nossos velhos autoramas. No Japão, eles se tornaram uma mania – e contou muito para isso a possibilidade de tuná-los, como acontece com os carros de verdade. Os modelos podem ser upgradeados, com novos motores e peças – basta manter a proporção em velocidade e peso. Isso é estimulado pelo fato de que os acessórios à venda em separado tendem a ser superiores em resistência e qualidade ao itens que vem juntos ao modelo de loja.
Um brinquedo e tanto, cá entre nós.
Como costuma acontecer nesses casos, a concorrência se acirrou. Empresas como a Tokyo Marui, Kyosho, Academy, Audley, Okami, Gokey, HJH, Twinkk e a AA entraram no mercado de Mini 4WD – e com isso, a ordem foi investir no marketing pesado para manter a companhia no topo. Assim, a Tamiya procurou a Shogakukan para a produção de uma série de mangá inspirada em seu produto. E assim, na edição de Junho de 1994 da revista Corocoro, foi publicado o primeiro capítulo da série "Bakusou Kyoudai Let's and Go!!", por Tetsuhiro Koshita. Para que se tenha uma idéia do tipo de material que esse mangá é, não dá para evitar explicações sobre a revista aonde ela foi publicada: a Corocoro é um almanaque infantil de quadrinhos, criado em como veículo para a mais popular série infantil japonesa, Doraemon. Como sabemos, no Japão, quadrinhos são dirigidos para todas as faixas etárias e de gênero. Mas a leitura de quadrinhos tem que ser incutida desde a alfabetização, e este é o público da Corocoro – garotos que mal aprenderam a ler. Doraemon já passara por seis revistas antes de se estabelecer na nova casa, e garantiu grande público para a publicação, que tem formato diferenciado (14,8 × 21 cm – menor do que a maioria das antologias,
portanto – com seis centímetros de espessura), mais prático para uma criança de seis, sete anos carregar em mãos.
Mas foi nos anos noventa que seu papel como representante de franquias fez dela o que é hoje dentro do seu segmento. Acordos com a Tamiya (que gerou Let's & Go!!), Nintendo, Takara (Bey Blade) e outras empresas do ramo de brinquedos e games a tornaram uma espécie de porta-voz da indústria para o público infantil. Matérias sobre jogos (ela é praticamente uma das principais fontes de informação sobre os jogos pokemon), lançamentos de brinquedos, muitos anúncios... e claro, mangás baseados em jogos e brinquedos, como Donkey Kong, Duel Masters, Kirby, Super Mario, Tamagotchi, Zoids, Beyblade, Bomberman J, Megaman, Pokemon, e por aí vai; poucas antologias evidenciam tanto a relação entre quadrinho e indústria quanto a Coro-Coro – mais até do que a toda-poderosa Shonen Jump. E por isso faz sentido quando materiais como os que são veiculados nela chegam até nós. Assim como Bey Blade, por exemplo – ou o próprio Let's and Go. São materiais de objetividade comercial comprovada, que pretendem assumidamente vender um produto. É injusto chamar esse tipo de material de picaretagem, porque elas são honestas: assumem não ter compromisso em nada além de entreter e divulgar aquilo que querem vender. Não disfarçam isso nem fingem ser aquilo que não são.
Diferentemente do Japão, o quadrinho não tem a penetração de massa que poderia ter neste país – e a bem da verdade, as experiências de se publicar mangá assumidamente infantil aqui no Brasil nunca se sustentaram como deveria. Porque, mesmo sendo crianças por natureza o que são; mesmo uma revista como a Recreio tendo vendagens semanais expressivas... enfim, com vários sinais de ao menos termos um mercado infantil sólido; nossos mangás infantis não decolam. Megaman acabou sendo suspenso após poucas edições; Crayon Shin-Chan, apesar de ter sido publicado de forma acertada, também não decolou. Dr. Slump, mesmo elogiadíssimo pela crítica, foi talvez o maior fracasso da Conrad na área dos mangás. Ironicamente, o maior sucesso do quadrinho infantil dos últimos anos, Mônica Jovem, foi o caso de tiro em passarinho que acertou mariposa: quiseram fazer um produto para adolescentes, mas o paternalismo que castrou os personagens acabou formatando-os para um público mais jovem – ou seja, os adolescentes de Maurício de Sousa foram tão infantilizados que as crianças compraram a idéia com mais presteza do que os próprios adolescentes que Sousa quis acertar. O que pode estar errado?
Contra os Interesses do Público
Quando um certo apresentador de um programa imbecil – sem meias palavras aqui – rasgou cartas de Yu-Gi-Oh dizendo que elas são coisa do demônio em frente às câmeras, induzindo uma mudança de classificação do desenho em questão no ministério público feita às pressas, a empresa que as produziu teria todo o direito de exigir uma indenização exorbitante por perdas e danos. Entretanto, isso não foi o que aconteceu. Nesse sentido, interesses de grupos menores de pessoas acabam se sobrepondo não só ao interesse da iniciativa privada, como também contra o público consumidor que criou a demanda pelo material prejudicado. Ou seja: o Ministério Público – e o interesse de núcleos que dizem agir "em nome do bem estar comum" – rasga o dinheiro das empresas que querem publicar e lançar seus produtos, gerando empregos nem que seja na área de importação e distribuição.
O maior inimigo do crescimento dos animes no Brasil, até agora, tem sido justamente essa gente, que mais e mais exige versões retalhadas que postergaram o lançamento de séries de sucesso em todos os fronts mercadológicos possíveis. Entretanto, novelas de tv exibidas antes
das oito da noite mostram um comportamento moral aterrorizante e o senso comum impele o espectador a perder tempo em frente à Globo, ao invés de mudar de canal. Convenhamos: Naruto não pode mostrar sangue antes das oito – e a Globo não removeria seu Manoel Carlos, suas novelas sem pé nem cabeça (convenhamos, algum ser humano consegue fazer uma sinopse coerente de "Mulheres Apaixonadas?"), seus personagens que declamam ao invés de falar como seres humanos, para exibir um desenho animado. Seria contra essas novelas que um canal de televisão que ousasse exibir Naruto sem cortes teria que voltar suas baterias, por causa do horário que lhes foi permitido expôr o material. E desgraçadamente, se o fizessem, falhariam miseravelmente – porque as novelas da globo deixaram de ser segmentadas e passaram a se voltar diretamente à mães e vovós que deixam a tv da sala como refém. Mas em tempos de duas televisões na mesma casa e internet em banda larga, essa amostragem não é mais tão significativa assim – falta apenas o empresariado se conscientizar disso.
Sem animação no ar para capitalizar público, o alto investimento exigido para o lançamento do material, que está com o custo dos direitos nas alturas, não valeria a pena. Logo, sem o anime, o mangá é prejudicado. Sem anime e mangá, a miríade de produtos é prejudicada. E pra deixar bem claro o final dessa cadeia, quem sai prejudicado são aqueles que podem fazer dinheiro honestamente neste país – e um público que os receberia de braços abertos.
Notem que a Globo, no primeiro capítulo da decepcionante novela Bang Bang, exibiu uma animação que mostra o massacre de uma família a tiros, mal e porcamente decalcada do clássico western "Era Uma Vez no Oeste". E passou batido. Detalhe: foi alegado que o objetivo de usarem uma animação foi "ludicizar" a violência, analogamente aos desenhos japoneses (embora, sinceramente, me pareça que tudo o que eles queriam era imitar a sequência animada de Kill Bill). Se ela pôde, sem sustos, então o precedente foi aberto. Para todos os efeitos, a violência dos animes é... lúdica e portanto, aceitável. Dois pesos, duas medidas.
Let's and Go não teve esses problemas e de modo geral, um Bakugan Battle Brawlers, para usar um referencial mais atual, não os terá. Mas isso não mudará o fato de que um eventual mangá infantil enfrentaria outros obstáculos em nosso mercado de quadrinhos. Convenhamos, esse material não foi feito para os fãs, vou repetir... e são os fãs que monopolizaram o setor de mangás das bancas.
Mangá de Criança é para Criança
Talvez a melhor forma de entender quais seriam esses obstáculos seja simplesmente dar uma olhadinha no seu ponto de compra usual de revistas e jornais. Sempre que um mangá infantil estrear nas bancas, ele vai ser colocado junto com os outros mangás. Isso quer dizer que, digamos, um eventual mangá de Medabots seria jogado ao lado de materiais adultos como Sanctuary, ou materiais adolescentes como Slam Dunk. Forcem um pouquinho a memória: onde estão os quadrinhos infantis na sua banca favorita, mesmo?
Exatamente. Se olharmos bem, eles são separados pela faixa etária. Mangás como Megaman, Dr. Slump e outros deveriam ter sido colocados ao lado de Disney e Mônica, onde serão encontrados por seu público. Para que não pensemos que esse é um exagero, basta lembrar uma das trajetórias de sucesso mais inesperadas do meio: Love Junkies. Não chega nem a ser realmente um quadrinho pornô de verdade – os erocoms, de modo geral, são no máximo pornochanchadas em quadrinhos, onde há alguns limites quanto ao que de mais explícito pode ser mostrado nas cenas de sexo. Mas se trata de material competente em sua proposta, com boas arte e narrativa visual. Tem um preço mais acessível. Provavelmente teve direitos mais
baratos, uma vez que não se trata de um mega-hit que gera milhões em produtos. Se tivesse ficado ao lado dos demais mangás, provavelmente não teria sido lido. Entretanto, sua própria natureza de material erótico o colocou junto aos materiais do gênero nas bancas.
Foi a sua sorte. Ao lado desse tipo de material, Love Junkies encontrou seu público. Que sabe o que procurar na parte da banca onde lhes interessa. E francamente, essa seria a tábua de salvação para os mangás infantis – garantir que eles fiquem ao lado de Mônica e Donald, não de Tenjho Tenge e similares. O grande problema tem a ver com cultura quadrinhística: os mangás são tratados como uma categoria à parte nas bancas, onde tudo é mangá – e chamando a atenção basicamente dos fãs de mangá, ninguém mais, ninguém menos. Shoujo, shonen e seinen, para o leitor médio, são palavras esquisitas que não querem dizer nada. E não há o investimento de marketing necessário para fazer o público infantil ir direto a essa seção em busca de um material específico. Levamos anos para ver um anúncio de Karekano na televisão. Mas talvez esse esforço fosse melhor aplicado em Bey Blades e similares, ou mesmo num eventual
mangá do produto da vez – pelo menos em um primeiro momento.
Essa percepção de que mangá é mangá, e de que sua procedência definiria sua natureza, anula justamente um dos mais poderosos trunfos dos quadrinhos japoneses – o de que há de tudo para todos os gostos, em todos os gêneros, seja fantasia, seja ficção científica, seja drama, seja comédia, seja romance, seja terror... e seja infantil. Separação que é feita de forma natural em quadrinhos de outras procedências, inclusive a nossa. Mas que por conta da tendência que temos de enxergar o mangá como um todo, com divisões que só fazem sentido para quem estiver dentro do meio...
Dificilmente meus leitores vão gastar, em sua maioria, o seu dinheiro com um mangá do Megaman. Na época em que escrevi essa matéria, eu li, em uma comunidade do Orkut, uma lista dos "piores" animes – e praticamente os alvos eram todos materiais infantis como Megaman NT Warrior e similares. Só que são materiais que não são feitos para fãs de anime, mas para... crianças comuns. quando esses materiais são lançados, acabam não encontrando seu verdadeiro público; a sua única esperança é a exibição de sua versão animada, servindo como chamariz natural para os materiais em bancas. Isolados em seus pontos de venda, as editoras acabam se voltando naturalmente para o núcleo de fãs de sempre.
Quadrinho, animação, franquia
Vontade de investir não falta, pelo visto. Produtos à venda, também não. Quadrinho é essencialmente a mídia de base para uma franquia, pronta para testar mercado para seu conceito. Muitas vezes o fã, apaixonado por um conjunto de séries, se deixa cegar para esse fato. Essencialmente, isso foi o que tornou aos mangás e animes a indústria milionária que são nos dias de hoje: atender à demandas do público e necessidades de mercado. São as Coro-Coros do Japão que criam novos leitores de mangá que também serão novos consumidores de videogames e brinquedos. Convenhamos, Let's and Go e Dinossauro Rei não são animes feitos para o leitor de revistas especializadas. São feitos para um público que lá no Japão mal saiu da alfabetização, que compra brinquedos não por nerdice, mas para brincar de verdade, e que são introduzidos aos mangás justamente por esse tipo de material. Serão estes que irão ler Naruto aos doze, Tenjho Tenge aos dezesseis, Monster aos vinte e poucos – e enfim, continuar lendo mangás pelo resto da vida. Por mais toscos que esses materiais possam parecer a um adolescente ou até mesmo a um adulto, são importantes para a própria oxigenação do meio.
Quando um material desses chega ao Brasil e atinge seu público, e vende seus produtos, é porque fez animes darem dinheiro onde animação e quadrinhos, em geral, não dão dinheiro. E isso, sem brincadeira – é motivo de palmas.

Posts similares:
Licenciar é bom e faz bem para o mercado
Udon Publicará Mangás Infantis nos Estados Unidos
20 Anos de Miracle Adventure Esparks
Post anterior: Eden's Bowy Será ConcluídoPróximo post: A Kodansha Comics se Aproxima – e a Tokyopop Leva a Paulada


Endereço de trackback para este post:
http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/37465Comentários, Trackbacks:
Alexandre: Na verdade eu fico um pouco cético porque as duas televisões já são realidade há muito tempo na vida dos Brasileiros; ou seja, já era para ter acontecido isso.
Alexandre: Na verdade nossa classificação indicativa é irreal. Eu acharia acertado se a "censura 10 anos" fosse baixada para as 14:00, a "censura 12 anos" para as 18:00 e a "censura 14 anos" para as 20:00; isso faria muito mais sentido até para a realidade dos jovens de hoje em dia, que simplesmente não encontram o que querem na tevê e vão buscar tudo o que é supostamente proibido na internet, fazendo com que esses critérios não valham nada. Mas a Globo se beneficia dessa situação – ela é tratada de forma muito mais elástica, basta lembrar da cena de massacre do primeiro capítulo de Bang Bang que escapou por ser "desenho animado", mas um anime não tem esse precedente a seu favor na hora de ser exibido...
Eu pessoalmente não tenho dados suficientes para dar um parecer relevante, apenas que antigamente era mais fácil uma franquia que era sucesso do outro lado do mundo se tornar uma importante fonte de lucros aqui dentro.
Mesmo com o sucesso razoável de Naruto na tv aberta, é simplesmente mais cômodo baixar pela internet do que esperar que novos episódios sejam dublados. Na época de um Dragonball Z já era uma realidade um tanto diferente, o programa conseguia ficar no ar por anos sem perder o fôlego e ainda segurar um público fiel até o seu término.
Já o gênero de "colecionáveis" anda meio saturado por aqui e Let´s And Go ainda contava com uma péssima dublagem e uma campanha de marketing quase nula. Tá certo que encheram as lojas com produtos relacionados, mas muito precipitadamente. Lembro que já chegaram a lançar uma linha de brinquedos baseada em Zoids aqui também, mas o próprio anime em questão nunca chegou nem perto de ser exibido.
Parece que os responsáveis pelo lançamento do produto na televisão nunca estão muito de acordo com os responsáveis por levar a marca às lojas.
Alexandre: Na verdade a espera hoje se tornou sem sentido com a Internet, e tudo indica outro caminho: o da simultaneidade com o Japão. O que é assunto para outro post.
1 Turma da Mônica Jovem - A coisa mais idiota que eu já vi, consegue ser imbecil aponto de ser mais infantil que as histórias da turminha da revistinha. O Maurício de Sousa se tiver alguma coisa na cabeça vai colocar bonecos articulados (para que uma criança se interessaria em Gashapons q não servem para nada além de expor e enfeitar??) nas grandes lojas às vesperas do dia das crianças. Coisa que os licenciantes de Naruto já deveriam ter feito há muito tempo.
Alexandre: Na verdade eu acho que o Maurício queria atingir adolescentes, mas empurrar o discurso paternalista dele para adolescentes – e esse discurso paternalista é infantilizador. No final, desceu ao nível mental das séries live-action da Disney Channel: Mônica Jovem é para a garotada que vê Jonas Brothers e Hanna Montana. Ou para garotos de menos de onze anos. Por mais que se tenha tentado o contrário.
2 Censura - Falando na Globo basta lembrar do Caso "Senhora do Destino", Nazaré exterminava as pessoas às 14:00h. O ministério Público tentou mas não conseguiu nada, não teve poder suficiente pra embarreirar a Globo.
Alexandre: Logo, todos os outros canais deveriam usar isso como precedente e ainda deveriam entrar com processo. Se libera para um, libera para todos.
3 Licenciamentos - Vou dar uma procurada no Jbox e te passo o link, lá tem uma matéria muito interessante, uma entrevista com o bambambam dos licenciamentos de anime no Brasil. O cara foi responsável pela vinda de Digimon, este sim foi muito bem articulado, foi tudo feito do modo certo: Um anime decente, MUITOS produtos licenciados, e uma rede de televisão que cooperou e fez o que estava ao seu alcance para combater pokemon e alavancar as vendas. Eu lembro de comprar aquele Kinderovo genérico que vinha com miniaturas (boas) dos digimons - e não era nenhuma criança na época.
Alexandre: Isso vale a pena.
4 Mangás para crianças - Não acredito que vá pegar, até porque não é didático colocar uma criança em alfabetização para ler no sentido oriental. Mesmo na prateleira correta não deve pegar, revistinhas das Superpoderosas e muitos outros sucessos estavam no lugar certo e não emplacaram. Material nacional tem mais apelo às crianças mesmo, a Disney é um sucesso mas a Disney está arraigada na nossa cultura. Todos crescemos vendo o Mickey e ele continua lá, fica tempos fora do ar mas sempre retorna, os mangás são sazonais.
Alexandre: Olha, o otaku que reclame: para criança, tem que espelhar. Mas tem coisas que poderiam ser trabalhadas: o melhor mangá infantil que eu acho que poderia ser trazido para cá é Daichohen Doraemon, do próprio Fujiko F. Fujio; o diferencial desse material em relação à série normal é que cada volume conta uma história inteira e fechada – e se cancelar, bom, não faz diferença, porque não há continuidade.
Pelo que li na entrevista que comentei acima parece que os materiais a serem trabalhados no futuro próximo são Inazuma Eleven e um retorno de Sailor Moon (que gerou diversos produtos que encalharam por preços exorbitantes na época) e Dragon Ball. Pelo que li parece que há a probabilidade de uma nova tentativa de emplacar One Piece. omara que façam o mesmo que fizeram quando Dragon Ball não emplacou: Pegar a parte casca-grossa e dar um "novo nome". Ninguém quer ver os episódios de "bobeira" de One Piece que lancem um One Piece - Grande Line, ou One Piece - Grande Rota baseado no sucesso Dragon Ball Z. Dragon Ball foi um fracasso e isso é um fato, Dragon Ball Z foi um sucesso porquê? Pela grande quantidade de lutas cheias de fogos de artifício.
Alexandre: Bom, se pensarmos bem as brigas começaram cedo em One Piece...
É isso e desculpe pela "dissertação" xD.
Alexandre: Que nada, participações concretas sempre são bem-vindas.
As editoras brasileiras lançam mangás a esmo?
Elas não fazem uma simples pesquisa de mercado? esta pesquisa não deveria ser obrigatória ?
COMO que a CONRAD, que não é uma editora nova no mercado (por exemplo, ou mesmo todas juntas), não se ligam e percebem esse pequeno problema com a distribuição de seus produtos dentro do sagrado espaço da banca? Uma cartilha explicativa para cada banca que vende mangás não valeria o custo? Organizar a banca é tudo?
Ou o problema maior é o choque de culturas? como você descreveu o comportamento infantil de outros otakus reagindo alergicamente/odiosamente contra essas publicações infantis?
O mercado de licenciamentos é mais uma dentre as tantas vítimas de nosso paternalismo, de nossa cultura onde o povo está acostumado a jogar para o Estado todas as responsabilidades, mesmo as responsabilidades que por sua própria natureza são intransferíveis, como o dever de criar os próprios filhos.
A ironia é que as pessoas que insistem em jogar estas responsabeilidades são as mesmas que vivem reclamando da ineficiência do Poder Público. Confiam tudo (inclusive a prórpia cria) ao governo, mesmo sabendo que este não faz nada direito, não dá para entender. É por isso que diz-se que o brasileiro gosta de ser enganado para poder se fazer de vítima.
Alexandre: Na verdade essa é a raiz do problema – e tem que ser enfrentada para ser mudada. Meu irmão é professor e me contou que um pai furioso reclamou da filha de doze ou treze anos estar namorando um sujeito inútil na escola – um desses repetentes crônicos que ficam de palhaçada em classe. Pergunta: o sujeito só é problema dele quando está de palhaçada na sala de aula. O que ele tem a ver com a aluna fora da classe andar com o cara? Quando o meu irmão disse que ele era o pai e esse era assunto dele, o sujeito respondeu: "mas eu fico trabalhando o dia todo fora de casa!"
Ou seja, os outros querem que o estado seja babá. Uma coisa é zelar por segurança e educação. Outra é querer que sejamos os pais da criança alheia. E sinceramente é isso o que acontece: um pai tem todo direito de escolher o que os filhos vêem ou deixam de ver. Me lembro de que quando passou pela primeira vez "O Último Tango em Paris" na televisão, meu pai me mandou pra cama. Levei anos para assistir o filme e sinceramente não achei grande coisa não. Mas na época em que ele passou na televisão, um juiz ou desembargador proibiu a exibição do material no estado de São Paulo; o filme passou no resto do país. Com isso, o Juiz tirou o direito dos espectadores adultos de dizer não a seus filhos; tirou o direito deles de exercer sua condição de pais, que meu pai exerceu comigo e não pode ser questionado.
Se os filhos te amolam por causa do que vêem na televisão, diga não, pura e simplesmente. Se pensarmos que os filhos são educados à imagem dos pais, e você abdica voluntariamente de seu papel como alguém que cria e educa uma criança, você tem como reclamar caso cresça com o filho dos outros, educado pelos valores dos outros, sob seu teto?
O problema do Maurício de Sousa nem é o discurso, mas pq ele não quis se arriscar a perder as crianças, daí tem que ser algo que os pais possam olhar e que não vai rolar nenhuma reprimenda.
http://www.jbox.com.br/entrevistas/luiz-angelotti/
A entrevista está nesse link. Vale muito a pena ler essa entrevista na integra.
Alexandre: Pior que faz sentido – não dá pra servir a dois senhores.
Deixe seu comentário: