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Ago 26

Entrevista com Hideki Egami (Criador da Revista Ikki, da Shogakukan)

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Lancaster | PERMALINK | 11

Categorias: entrevista

Ikki

A Ikki é por excelência a revista "de autor" da Shogakukan. De modo geral, ela não vende muito – convenhamos, ano passado ela vendeu apenas 14.917 exemplares; qualquer mangá aqui vende bem mais do que isso – e nem seus editores esperam um desempenho maior dela; se fôssemos nos guiar por suas vendagens, ela já teria sido defenestrada da editora há muito tempo. Mas a bem da verdade, as antologias não devem dar prejuízo, mas o lucro delas não chega a ser decisivo (embora seja obviamente desejável); o que importa é a vendagem das séries que elas veiculam, como se as antologias na verdade fossem parte do custo de divulgação destas. É nos materiais compilados que o material deve se pagar. Em todo caso, mangás como os publicados pela Ikki têm uma certa respeitabilidade crítica ao chegar a outros países, enquanto os materiais adultos mais mainstream ainda não tem uma grande penetração – basta lembrar do desempenho de um mangá adulto de gênero como "Monster" em nossas bancas. Por que será? Minha teoria básica é que simplesmente o mercado de quadrinhos na maior parte do ocidente ainda não amadureceu o suficiente – embora o rumo para que isso aconteça esteja sendo pavimentado. O surgimento de um quadrinho de massa para adultos levou tempo para acontecer no Japão – na verdade foi acontecendo em saltos generacionais, década a década; primeiro ganhou as crianças, para dez anos depois ganhar os adolescentes e só mais dez anos atingir os adultos, para levarIkki mais dez anos expandindo e solidificando esse público maduro. O mangá só estourou como produto popular no final dos anos sessenta, justamente por conta de toda uma geração que começou a ler mangás ainda na infância, e na virada da infância para a adolescência, se deparou com a revolução feita por Osamu Tezuka nos quadrinhos japoneses. Se olharmos bem, a primeira leva do Gekiga – o quadrinho adulto japonês – antes da explosão no final daquela década, foi profundamente autoral. E quadrinho autoral sempre é, via de regra, minoritário. Mas eles marcaram terreno. Não custa dizer que a pedra fundamental do quadrinho adulto comercial, Golgo 13, foi criada e produzida pelo patriarca do movimento pelos quadrinhos adultos, Takao Saito, um mestre visto como referência ideológica por criadores autoralíssimos como Yoshihiro Tatsumi e Yoshiharu Tsuge. É como se o Laerte parasse com sua atual fase de viagens na maionese (okay, Saito nunca foi tão viajado que eu saiba, mas falei em termos de respeitabilidade), criasse um personagem para o público de Tex e se tornasse o Maurício de Sousa dos quadrinhos adultos aqui no Brasil. Na verdade eu até daria graças a Deus se ele fizesse isso, mas sinceramente, não tenho a menor esperança de que isso venha a acontecer da parte de qualquer autor de sua geração.

Ikki

O mercado americano, assim como o brasileiro, é estreito – embora a sua própria forma. Aqui, as viúvas da Vertigo – um material superestimado que nunca vendeu decentemente (Sandman não conta porque o leitor de Sandman não é leitor da Vertigo; é leitor de SANDMAN E ACABOU) e que estão fazendo oba-oba com o seu retorno, ancorados por um discurso de respeitabilidade de quadrinhos adultos, não percebem que todo mês sai aqui no Brasil o gibi italiano Aventuras de UmaIkki Criminóloga, com roteiro de Giancarlo Berardi e arte rotativa de artistas bem mais competentes do que a média rabisqueira do selo "adurrrrto" da DC. Isso, eles não lêem – e eu acho que dez páginas do "Aventuras" de Berardi são mais adultas do que toda a série completa de Preacher de Garth Ennis – como se sangue, tripas e uma falsa profundidade tornassem um material mais adulto. Preacher é hype fanboy – como 90% da Vertigo, aliás. É o material do fã das cronologias de super-herói que quer respeitabilidade para o tipo de quadrinho que lia e a busca nesses produtos supostamente adultos. "Aventuras de Uma Criminóloga" acena para um quadrinho adulto de massa, que poderia render seriados e atingir um público maior. Alguém lê? Eu recomendo. É episódico, com uma história por volume, como é tradicional nos quadrinhos italianos; mas é mais próximo do mangá mainstream adulto do que muita coisa em nossas bancas, inclusive em termos de mangás. Gantz, em muitos aspectos, está mais próximo da Vertigo do que de um Sanctuary: é material adolescente para leitores que entraram na maioridade e querem ver mais do que podiam ver meia década atrás em sua vida, e que usam isso para considerar a si mesmo adultos. Mas não é muito diferente do que liam antes. IkkiOu eles crescem e vão para leituras mais adultas de verdade, ou então nunca crescem – e fanboy, assim como o otaku, é especialista useiro e vezeiro em jamais crescer e dizer que cresceu mesmo assim. Nesse sentido, o "Aventuras" se aproxima mais das séries de gênero publicadas em antologias como a Morning ou a Evening da Kodansha do que qualquer outra coisa em nosso mercado.
Por ora, até que de alguma forma ou de outra se faça a revolução, o perfil do quadrinho adulto voltado a leitores que envelheceram e que cansaram do mesmo ainda é o autoral. Por isso um material como os publicados pela Ikki sempre pode pintar por aqui em livrarias – haverá um público seleto que não corresponde ao leitor usual, e que vai ser atingido por artigos em locais voltados a leitores especializados. Mas ser adulto não significa necessariamente um material autoral, por isso vai surgir de alguma forma um quadrinho adulto mainstream de massa por aqui, caso o mercado cresça. E acredito que isso vá acontecer nos Estados Unidos antes de acontecer conosco.

Ikki

Mal ou bem eles já estão seguindo o caminho certo, quando se desvencilharam do mercado direto e começaram a colocar materiais em livrarias. Agora, a idéia é a respeitabilidade crítica, que vai ajudar a derrubar a idéia de que quadrinho é coisa de criança por um bom tempo até haver um número suficiente de leitores mais velhos que cresceram com essa nova noção. Logo, no que diz respeito aos mangás, a bola da vez nos Estados Unidos ainda é da Ikki: É quadrinho para um público reduzido de leitores, mas é o único quadrinho adulto que tem algum contingente fixo enquanto não há um quadrinho adulto de massa realmente estabelecido.
IkkiNão foi a toa que ela foi escolhida pela Viz Americana como fonte preferencial de material adulto em seu país. Um material como Solanin, de Inio Asano, tem maior trânsito crítico do que outro seu colega de selo, o Golgo 13 do citado Saito. Até porque Golgo não foi feito para ter trânsito crítico com ninguém – ele é diversão de primeira e vejo nele méritos similares ao bom e velho cowboy Tex dos gibis italianos que em nossos dias consegue vender mais do que qualquer título de super-heróis Marvel/DC e de quebra vende mais do que vários mangás em nosso mercado. Porque um Solanin conseguiu destaque e um Golgo simplesmente não emplacou em território americano? Porque o público de Solanin lê quadrinhos. O público de Golgo ainda precisa descobri-los e isso explica porque trazer uma Ikki para a gringolândia ao invés de criar um braço americano da Big Comic Spirits, por exemplo. Até o dia em que haja espaço para ela, fiquemos com a Ikki – que nem tem uma cara tão under quanto uma Comic Beam, graças a Deus – e eu estou traduzindo aqui uma entrevista com o editor-chefe da revista original japonesa, publicada pelo website IcV2 no último dia 24. Divirtam-se.

*************
Ikki

Hideki Egami é o editor-chefe da revista Ikki, da Shogakukan, um almanaque de mangá que serve de fonte para a nova antologia da Viz, a SigIkki.com e boa parte das coleções da linha Signature da Viz. O website serializa as séries da Ikki um capítulo de cada vez, com dez séries atualmente em andamento. Conversamos com Egami sobre o que diferencia a Ikki, o impacto dos animes baseado em propriedades da marca, e comparações com o quadrinho americano.

IkkiA Ikki é classificada como uma antologia seinen (para leitores maduros). Como isso faz de seu material diferente de outras antologias de mangá que miram para o leitor masculino mais velho e o que você vê como o seu nicho no mercado?
A Ikki originou-se da antologia semanal Big Comic Spirits, aonde eu passei muitos anos, a maior parte da minha carreira. Ela é uma revista seinen esse segmento procura capitalizar em cima das necessidades dos leitores. Se houver leitores o suficiente interessados em algum assunto, eles próprio são demanda para uma história. Por exemplo, o Japão introduziu um sistema de júri e agora há mangás de advocacia para explicar o sistema de júri para o leitor (Nota do Tradutor: isso já vem acontecendo em quadrinhos comerciais e recentemente foi produzido até um anime para explicar para leitores mais jovens o que está realmente acontecendo no mundo jurídico japonês. É parte da função social dos mangás e animes no Japão).
IkkiNa época em que eu fundei a Ikki, meu chefe disse: "Para a Spirits, você tem que ver o oceano para enxergar audiência e leitores, mas para a Ikki você tem que ver a nascente aonde o rio se origina". Isso significa que você tem que olhar para os criadores e capturar suas paixões. Não olhar para os leitores, mas partir dos criadores, Então esse provavelmente foi o ponto-chave, o eixo focal da Ikki que a torna única: focar na paixão dos criadores.
A Ikki tem também uma qualidade atemporal, e pode ir além de regiões geográficas – é por isso que podemos adaptá-la aos Estados Unidos.

A abrangência de assuntos é muito diversa entre si, mas dos poucos exemplos que tivemos podemos ver que há um estilo mais realista de arte ali. É correto ou apenas não vimos o escopo total dos trabalhos da revista ainda?
Muitos dos mangás para adultos são muito realistas, e mesmo os quadrinhos para garotos adotam estilos realistas ou egressos do gekiga, então comparados a estes eu não acho que a Ikki realmente tenha esse estilo.

IkkiBokurano e Rideback foram ambas adaptadas para anime. O quanto é importante para os prestígio e vendas da Ikki ter essas histórias adaptadas em animação, e qual a influência nas vendas da revista e dos volumes compilados após a exibição do anime na televisão?
Definitivamente há uma grande influência. Um exemplo típico é Bokurano. As vendas das edições para livraria foram provavelmente cinco vezes maiores após a adaptação animada. Não afetou tanto as vendas da revista tanto assim, mas para os volumes, multiplicou-se cinco vezes.

Há outros animes baseados que foram baseados em propriedades introduzidas anteriormente na Ikki?
Há um punhado de nossas séries que também foram animadas. Noramimi recentemente foi adaptada em anime. E Tetsuko no Tabi, que é um mangá sobre trens, também foi adaptado para animação.
Não há um anúncio oficial; estamos apenas considerando isso. Posso apenas dar uma palhinha (não podemos anunciar isso ainda), mas uma das séries veiculadas na SigIkki.com, House of Five Leaves, pode ganhar adaptação animada também.

RidebackA Ikki tem afinidade com os quadrinhos alternativos americanos no sentido em que suas histórias frequentemente tem um lado mais sério assim como qualidades literárias e poéticas. Do que você conhece sobre os quadrinhos alternativos americanos, acha esta uma boa comparação, ou acha que há diferenças?
Não estou tão familiarizado com os quadrinhos alternativos de seu país. Que similaridades você vê entre a Ikki e os quadrinhos alternativos americanos?

Quadrinhos alternativos americanos mais populares tendem a ser muito pessoais. Por exemplo, alguns deles contam histórias de adolescentes que se tornam adultos, apenas sobre suas vidas reais e seus relacionamentos.
Isso é realmente muito similar ao que se faz na Ikki; é um dos tópicos em que temos trabalhado. Também gostaria de estudar os quadrinhos alternativos de seu país e eventualmente encontrar algum criador alternativo que poderia trabalhar na Ikki, isso seria excelente.

(Tradução da entrevista por Alexandre Lancaster)

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Comentários:

Nome: Marcelo Santarem 26/08/09 04:02
“Porque um Solanin conseguiu destaque e um Golgo simplesmente não emplacou em território americano? Porque o público de Solanin lê quadrinhos. O público de Golgo ainda precisa descobri-los...”

Pelo que entendi da leitura do artigo, a Ikki é mais autoral que a Big Comic, BC Spirits, Morning e Evening, mais comerciais e mainstreans. Por isso, a Ikki... tem mais potencial de captação de público????? O_o
Mas quem (ainda) lê Golgo já não passou pelos "estágios" do mangá infanto/juvenil pra aí (e noutros títulos) encontrar sua cara? Como vai se identificar com obras que falam mais pros autores que pro público em si (o teimoso abismo vigente nas HQs brazucas)?

Alexandre: Na verdade a tragédia é outra: Um solanin TEM leitores, mas eles sempre serão poucos porque é o que a meia duzia de gatos pingados leitor do quadrinho autoral são. Um golgo não tem leitores porque eles não foram formados na infância, cultivados na adolescência e conduzidos ao material adulto. Isso se dá com a construção de etapas etárias de publico. E num momento em que falta justamente esse elo na cadeia dos quadrinhos americanos, infelizmente quem tem mais chance de ser lido é um Solanin, não um Golgo. Eles saem em tiragens pequenas para publicos restritos, mas tem leitores mais assegurados.
Esse elo tem que ser forjado pelo tempo. A hora dos golgos vai chegar nos Estados Unidos. Agora, é preciso que eles ESTEJAM lá quando essa hora chegar.
Nome: Warty 26/08/09 04:39
mas bem, entrevista interessantíssima, e seria muito bacana ver esse material por essas bandas (sei que é apenas um sonho...)

mas ache injusto sua compração com a Vertigo. Também não acho que por mostrar sangue, peitos e tripas qualquer material deveria ser taxado como "adulto". Preacher é um bom quadrinho, na minha opinião, sou super fã. Não o acho "adulto". considero-o apenas divertido. e muito divertido, toda a zoação com os dogmas religiosos, e poxa vida, temos um pastor que fala com JOHN WAYNE!

Alexandre: Olha, eu gosto do Ennis quando é despretensioso e divertido. Acho Hitman bem superior a Preacher porque ele não tem papo, esse sim é diversão pura. O Preacher parece ter muito aquele ranço que você via por exemplo em RPG da white wolf, mais um gosto pelo sensacionalismo puro e simples. O Justiceiro da primeira fase dele no título, no Universo Marvel, também era BEM melhor do que o que ele faz em preacher e na linha Max. Acho que em trabalhos como Preacher, o Justiceiro da Marvel Max e principalmente o The Boys, ele tem pretensão de mais e diversão de menos.

Achei mais válida realmente a comparação com os quadrinhos alternativos mesmo. Coisas como Retalho, Local, etc. Aqui temos as históias 'reais' dos gêmeos, que saiam na 10 pãezinhos e tal. Acho essa uma pegada muito interessante, e essa aproximação com o mundo 'sublunar' deixa a HQ (seja ela, mangá, comic, gibi, bandè desené, ou seja lá o quê;) com um gostinho especial.

Acho que é exatamente esse a grande diferença da Vertigo pro quadrinho alternativo americano, a Vertigo flerta com o fantástico. As maiores séries dela são basicamente relacionadas a algo fantasioso: sandman, hellblazer, preacher, invisíveis, até 100 balas... acho que uma das séries que eu peguei mais 'verosemelhante' foi Scalped. Mas bem, acho que vou tentar dar uma importada nesse material da IKKI.

Alexandre: Eu aceitaria melhor a Vertigo se ela fosse realmente um selo de quadrinhos adultos. Mas admito que hoje ela é bem melhor do que na época de que bastava pôr um escritor inglês, um personagem místico e um artista que rabiscasse tudo, isso eu tenho que admitir.
Nome: Warty 26/08/09 04:43
Outra coisa, eu também gostaria muito de ver Golgo 13 aparecendo por aqui. Se essa série visasse o público dos fumettis, seria mais viável, creio. Pois esse público está acostumado a ler aquela edição com uma história fechada sem muita preocupação com o fim, ou uma cronologia.

é o tipo de quadrinho interessante que as editoras não trazem por essa visão de mercado de que mangá é exclusivo pra Otaku, e Otaku não compraria Golgo, acharia 'velho', sem fim, etc etc. Uma pena.

Alexandre: Verdade. Mas o público dos fumettis seria o primeiro a reclamar do sentido oriental de leitura. Isso tem que ser dito.
Nome: Marcelo Santarem 26/08/09 05:35
Sei lá se, aqui, seria o caso de dizer que o público de Tex seria um público em potencial para Golgo 13, como seria para Initial D, por mais diferentes.

Alexandre: Bom, vou ser sincero: sabe o que Golgo 13 mais me lembra, em se tratando de outros fumettis? Diabolik. Tem o mesmo perfil amoral, à seu próprio modo, e Diabolik nunca vendeu muito bem no Brasil. Nesse sentido até entendo porque gekiga de samurai teve melhor saída por aqui: ele compartilha com os heróis do faroeste um certo de justiça rude e sem retoques de correção política. É um pouco do perfil do herói dos wuxia chineses, que parecem operar em um terreno aonde o estado não entra – isso quando o estado mesmo não é o problema, ou então o obstáculo para o problema ser resolvido. Talvez esse seja o perfil de herói que o brasileiro queira: O Capitão Nascimento não queria saber – passava por cima. Não tem como saber disso sem experimentar.
Nome: Leandro 26/08/09 09:07
Li a entrevista toda, mas só uma coisa ficou na minha cabeça: como DIABOS o anime de Bokurano ajudou tanto a melhorar as vendas do mangá? Como algo tão diferente da obra original - e tão podre, diga-se de passagem, pode surtir um efeito desse? Se tivesse um emoticon batendo a cabeça no poste nesse blog, eu usaria uns dez deles agora.

Alexandre: Sinceramente, a polêmica deve ter ajudado a despertar atenção. Mas o fato é que muita gente ao ver um anime, diferente ou não, quer ver outros produtos com sua imagem.
Nome: Pedro Henrique 26/08/09 11:33
Esses rabiscos da Vertigo que você falou eu vi principalmente lá nas primeiras edições do Hellblazer, umas coisas horríveis desenhadas. Mas as últimas que eu li na Pixel Magazine eram muito boas (no desenho também).

Alexandre: Sim, o nível dos desenhos e a variedade dos temas subiu de uns anos pra cá na Vertigo. Mas ainda há esse ranço do tempo que o material era na verdade um selo de fantasia sombria/sobrenatural. Eu ainda estou pra ver tudo isso em Fábulas, por exemplo. Mas 100 balas funciona, American Century (que não saiu no Brasil) era melhor do que a crítica gostava de falar.

O gibi da Julia realmente é sensacional, é uma das minhas leituras favoritas atualmente, junto com as edições que não tenho do Slam Dunk (disparado o manga mais divertido já lançado no Brasil, o Sakuragi é muito engraçado) e Homunculus (um manga bem ousado nos temas).

Alexandre: Pois é. E aquilo vende para continuar sendo publicado. Se pensarmos bem aquilo poderia muito bem ser um material publicado pela Morning se fosse um mangá – então há espaço para esse tipo de material. O grande problema é que o leitor tradicional de mangá aqui no Brasil não quer saber desses mangás mais adultos e com potencial mais popular e o leitor que poderia consumir parece ter um pé atrás com o rótulo mangá. Por isso esse público vai ter que ser construído.

Apesar de gostar muito de quadrinhos em si, atualmente acho que me encaixo muito mais nos quadrinhos adultos pra leitores normais, mas infelizmente a escazzes de títulos é braba. Monster eu estou acompanhando o anime pois cansei de esperar, e Sanctuary já li tudo em inglês (e relutei bastante em fazer isso, pois eram um dos pouquíssimos títulos em banca que me faziam comprar no ato em que saia na banca, e que não procurava absolutamente nada a respeito na internet justamente pra não estragar a surpresa da edição seguinte).

Alexandre: Sim, e eu lamento profundamente, acredite.
Nome: Gustavo 27/08/09 09:40
No caso do mercado brasileiro, não temos muitos títulos adultos porque ainda não somos maduros. (piada infame)

Eu por exemplo, só comecei a ler mangás aos 18 anos, com o lançamento de Dragon Ball pela Conrad. Ou seja, não tem nem 10 anos que começou o mercado pra valer no nosso país.
As editoras ainda estão investindo principalmente nos shonens mais populares, apesar de que aumentou o número de shoujos. Conforme as bases vão sendo firmadas poderemos sonhar com a evolução do gosto dos leitores.

P.S: Também comprava Monster. :(
Nome: andcobra 28/08/09 06:23
tenho que dizer que o manga adulto na verddade nao e tao adulto assim .voce diz que as series americanas colocam peitos ,bundas ,sexo e palavroes para parecer adultos mas os mangas fazem a mesma coisa com um agravante que e a utilizaçao de persongens crianças o que so incentiva a pedofilia.ao ver neste proprio blog os lançamentos de mangas adultos no japao so se ve series com crianças ou adolescentes em situaçoes de carater sexual pelo menos na maioria.outra coisa e a tao falada identificaçao com o leitor dos mangas neste sentido titulos shonens e shoujo sao mais identificados do que estes titulos ditos adultos onde as historias os protagonista raramente tem mais de quinze anos.o que em series como tex e julia os persongens sao adultos e mais identificados com o leitor do que os mangas .nao quero dizer que a qualidade das historias sejam ruins apenas que nao sao assim tao mais adultas como os fans dizem com relaçao as series ocidentais.

Alexandre: Na verdade não posso discordar. Mas também não posso discordar.

Isso acontece porque o "adulto" aqui é um cabide onde cabem muitas e muitas divisões. Por isso mesmo as duas antologias adultas que mais vendem tem um perfil pós-adolescente – e são consideradas revistas adultas, mas na verdade são materiais para adolescente, só que com sexo e ultraviolência. Eu acho que gantz de adulto, realmente, não tem absolutamente nada. Mas adolescente de dezoito anos adora ler e dizer que é adulto.

Mas há muitos materiais realmente adultos – eu mesmo já cansei de citar monster, sanctuary e mesmo vagabond (é chato, mas é realmente mais maduro em atitude; o problema não é direcionamento, é execução). E estes não chegam por aqui. Não temos o quadrinho corporativo de Kacho Shima Kosaku. Não temos mangás policiais que não devem nada a séries como Nick Raider (na verdade são até melhores; gosto de fumettis, mas nem todo fumetti é bom e nick raider era muito "devagar"); não temos dramas cotidianos protagonizados para adultos, comédias como Boys in the Run, histórias que poderiam ampliar o significado de "quadrinho adulto" por aqui, sem que isso signifique "quadrinho cabeça" – o que é algo bem diferente. E por isso mesmo eu entendo perfeitamente reações como a sua. Elas são compreensíveis. Não é que materiais adultos de massa – e com qualidade – não existam; eles existem aos montes. O problema é que eles não chegam por aqui, e quando chegam, não vendem, porque há um pé atrás causado justamente por essa impressão. Se esses mangás bons chegassem, talvez você nem soubesse de sua existência – e se os visse na banca, os encararia com um pé atrás antes de saber o quanto eles são bons. E eu só lamento por isso. É o fruto de nossa atual conjuntura de mercado.
Nome: Carlos Eduardo 28/08/09 10:44
Vamos por parte:

1º O selo vertigo, discordo do que você disse. Realmente tem muito fanboy babaca que só lê aquilo para se achar adulto, que acha que Gantz é adulto porque tem peitos, sexo, vísceras, armas e algum assunto interessante a cada 5 edições quando acaba uma saga (que é o que acontece, Ganzt é um material com potencial mas que se perdeu no meio do fanservice - não culpo o autor, ele tem que ganhar a vida também). Maaas colocar todo o selo Vertigo nesse balaio é rotular. O selo Vertigo assim como os mangás para adultos levou tempo para criar uma identidade, hoje em dia materiais como Scalped, Fábulas, Invisíveis, The Authority são ótimos frutos da Vertigo e literalmente materiais adultos.

Alexandre: Authority não é vertigo, é wildstorm. Mas pra mim cai nesse valão comum. Quando é escrito pelo Ellis, era meramente uma versão "sou durão e chuto baldes" da liga da justiça. Quando vai para as mãos do ellis, não é diferente dos gantz da vida. De resto, o Invisíveis é uma história que poderia ser legal se o Morrison não deixasse o lsd falr mais alto, e Fábulas eu acho um titulo superestimado, que vive da força do próprio conceito do que como história em si. Mas Scalped eu admito que é um material legal, e admito que 100 balas tem ótimos momentos. Mas eles se destacam pra mim por fugir do lugar comum do próprio selo.

2º Esse tipo de material não pegou aqui e vai levar tempo para pegar, talvez uns 5 ou 10 anos. Porquê? Por que aqui no Brasil o consumidor padrão de quadrinhos é infantil ou os bitolados leitores de supers.

Alexandre: Isso é difícil de negar.

O infantil tem dois caminhos já conhecidos: Abandonar os quadrinhos ou enveredar pelos mangás. Os leitores de mangá por sua vez em sua maioria só lêem mangás(bitolados tbm) e são raros os que dão chances a outros tipos de quadrinhos.

Nao podemos esquecer que no nosso país quadrinhos = produto para criança, o mercado adulto só vai se ampliar com a abertura mental das pessoas que têm preconceito com quadrinhos perceberem que não é vergonhoso ler quadrinhos. E isso é trabalho para a mídia.

Alexandre: Na verdade isso é trabalho de marketing para as próprias editoras, mas o problema é: para se fazer dinheiro, é preciso gastar dinheiro. E as editoras preferem o certo ao arriscado, mesmo sabendo que o certo é miseravelmente pouco.

Enquanto isso o leitor de quadrinhos adultos é: O leitor de mangá a partir de 17/18 anos que resolve dar chance para algo diferente (geralmente influenciado pela sua rodinha pseudo-cult-socialista-rockeira) e o leitor de Supers não bitolado que dá uma chance a materiais diferentes.

Alexandre: O que está longe de ser o cidadão comum.

Para crescer também tem que se levar em conta o poder aquisitivo no País.

Alexandre: Que vem crescendo. Isso também não dá para negar. E o motor desse crescimento tem sido o interior. E assim mesmo, as revistas não chegam direito a esses lugares.

Quadrinhos autorais vão continuar existindo apenas para ganhar prêmios com exceção de um azarão ou outro e inspirar alguém que saberá traduzir aquilo para a linguagem do público mediano.

Alexandre: O desafio é saber algo para o adulto mediano e fazê-lo ler.
Nome: Pedro Henrique 29/08/09 11:58
De fato, tem que se fazer uma diferenciação entre o indivíduo que gosta de ler quadrinhos apenas pelo prazer da leitura (assim como faz em escutar música, ver um filme na tv etc) daquele que gosta de fato da mídia "quadrinhos" em si, que busca mais informações a respeito e tudo mais. Como já foi muito falado aqui no site, Tex é um gibi que alcança ambos os públicos, e alcança muito bem. Ele tem seus fãs de carteirinha, mas todo mundo que vai vez ou outra na banca conhece, mesmo que de relance, que aquilo é "alguma coisa relacionada a faroeste". É mais ou menos a mesma identificação quando vemos uma revista com a turma da mônica na capa. Futari H eu achava que fosse outro manga de putaria "light" a lá Love Junkies e Love Hina, por isso passei longe dele. Sem contar o título. Fui ler na internet com não bem isso que o título é.

Júlia tem todas as condições de alcançar um público MUITO maior que Tex, na minha opinião. Eu, que estou na faculdade de Direito, me interesso muito por todas as explicações e teorias que os personagens empregam pra solucionar os casos. Uma mulher poderia se identificar com a força da personagem principal, e os homens podem gostar do tom mais detetivesco (embora aja uma barreira a muitos homens em gostar de uma série onde o personagem principal é uma mulher, ainda mais uma como Júlia, que não é casada ou vive em prol de um homem ou um possível romance - não estou sendo preconceituoso).

No caso do mercado dos mangas, acho mais interessante mostrar a minha "evolução" como leitor: conheci os mesmos pelos Cavaleiros do Zodíaco, e como quase toda criança naquela época, era bitolado pelo desenho. Depois descobri as revistas Herói e Animax, onde fui conhecendo mais sobre esse universo. Numa edição da Animax, fiquei sabendo da Fonomag (aquela loja de São Paulo que importa mangas), e fiquei louco pra comprar alguma coisa. Juntei minha grana e comprei umas edições dos Cavaleiros. Passados uns bons anos, sairam Dragon Ball e Cavaleiros no Brasil, assim como os títulos da JBC. Pela escassez de títulos, sai comprando a rodo tudo o que eu via. Mas com o tempo, comecei a perceber que muitos títulos eu nem gostava, e estava comprando só por ser manga (vide Rayearth, Video Girl Ai, X, Fushigi Yuugi - que graças a deus, só comprei uma edição - e outros). Eu fui formando aos poucos meu próprio gosto, fui dando chance a outros quadrinhos, fui redescobrindo alguns. Não posso reclamar da variedade de títulos, mesmo porque nunca li só manga. Comprei muito Batman da Abril e Turma da Mônica, assim como outras séries americanas. A Panini hoje em dia tem muitos encardenados com grandes histórias, e é engraçado ver como nosso gosto na infância acaba refletindo nos nossos gostos futuros. Vendo os encadernados que comprei (uns 7 eu acho) quase todos são do Batman... Mas e o leitor comum? Eu conheço desde pequeno os quadrinhos, numa época em que os gibis de superheróis eram direcionados, pelo menos no Brasil, pra um público mais novo. E covenhamos, era barato pra época. Infelizmente, a variedade de títulos não significa que a mentalidade a respeito deles mudou. Quadrinhos ainda são pra crianças, segundo o grande público. Um dia desses estava conversando com um amigo sobre algumas coisas do Japão, e falei algo a respeito do Lobo Solitário. Deu pra perceber que o meu amigo ficou meio desconfiado de uma informação vinda de um gibi. É mais elegante falar que leu num livro, ou assistiu um filme reconhecido pela crítica.

Mas eu acho que, assim como em muitas outras áreas, o Brasil é uma país que vai engatinhando aos poucos. Estamos numa fase em que existe uma base considerável de leitores, mas eles parecem ser a única preocupação das editoras. Vejam que nosso cinema só ganhou visibilidade novamente devido a filmes com grandes bilheterias dentro do Brasil. Por mais que uma boa crítica estrangeira seja de grande valia, se contentar com isso é pensar pequeno. Grandes sucessos de bilheteria, como Cidade de Deus e Tropa de Elite, tiveram seu reconhecimento no exterior, mas não foi só isso. Nossos quadrinhos, infelizmente, seguem o caminho inverso: Temos grandes séries como Lobo Solitário, que independente do sucesso que tenha feito, é apenas conhecido no círculo dos leitores habituais. O já citados e recitados Monster e Sanctuary tiveram pior destino ainda, e eram meus títulos favoritos em banca. E por mais que eu goste de guardar um título com bom acabamento, o importante é ler (voltando aquele assunto debatido sobre os formatos, feito na época do lançamento do Speed Racer, eu acho que acessibilidade, no momento, é tudo, e por mais que o acabamento mais luxuoso seja muito bom a longo prazo no quesito conservação, ele não condiz necessarimente com a grande parcela do população. O brasileiro em geral vai atrás do mais barato. Eu não sou exceção. Por isso eu iria correndo atrás de mangas no formato de uma LPM Pocket, por exemplo. É facil de guardar, a qualidade é boa, tem um bom custo benefício, não ficando com frescura por causa disso em manusear o gibi.)

Valeu, e desculpe pelo texto longo.

Alexandre: Pelo contrário, é um texto bem esclarecedor sobre diversos pontos. O fato é: eu vejo quadrinho de alcance restrito como destinado ao formato de luxo, porque ele vai ter tiragem pequena e vai precisar de uma margem maior de lucro em relação ao custo de produção para poder compensar o investimento e o fato de que pode até vender, mas venderá para poucos. Quadrinhos clássicos caem na mesma categoria; poucos compram. Um amigo meu comentou sobre a reação de desprezo do seu irmão quanto ao Black Jack de Osamu Tezuka que está sendo exibido na Animax. Desgraçadamente, ele tem o perfil da maior parte dos leitores de mangás por aqui. Mas isso não nega a importância do fator acessibilidade para o leitor de massa. E para muita gente, dez paus é dinheiro demais por um gibi. Mesmo os sete paus de um Julia o são.
Nome: Pedro Henrique 29/08/09 02:11
"E para muita gente, dez paus é dinheiro demais por um gibi. Mesmo os sete paus de um Julia o são."

Verdade com toda certeza. E é só ver o que temos com o mesmo preço em outras mídias: DVDs e livros. Os já citados livros da LPM tem em seus cátalogo grandes clássicos da literatura e outras obras reconhecidas pelo grande público a um preço extremamente acessível, e com qualidade nas traduções (algumas editoras, se não me engano, estão lançando versões de bolso de obras já lançadas em um formato mais caro, dando a opção ao consumidor).

Quanto aos DVDs, muitos filmes excelentes são encontrados nesses "piscinões" das Americanas da vida. Muitos filmaços como Era Uma Vez no Oeste, Ran, O Nome da Rosa etc eu descobri nesses lugares. E todos a no máximo R$ 20,00.

O atual formato de R$ 10,00, com papel jornal não tem vez nas livrarias, mesmo porque eles desgastam muito rápido com o tempo. Mas ai entra o papel da tiragem do gibi, que envolve investimento, que envolve dinheiro, e a coisa desanda...

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