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Jul 13

Uma Introdução a Yukinobu Hoshino

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Lancaster | PERMALINK | 1

Categorias: Yukinobu Hoshino

2001 Nights

Uma das últimas coisas de que participei durante minha presença na editora NewPOP foi justamente da seleção de alguns títulos – e posso dizer que a escolha de El-Alamein, de Yukinobu Hoshino, publicado originalmente pela Gentosha no Japão e anunciado esta semana na mais recente edição do evento Anime Friends, em São Paulo, tem seu dedo de culpa minha (fui eu o chato que insisti nisso. Convenhamos, quantos seres humanos que vocês conhecem o fariam?). KodokuHoshino é um desses autores que já deveriam ter sido publicados no Brasil desde os anos oitenta, sem sombra de dúvida. Na verdade acredito que se ele tivesse sido publicado durante a primeira leva de mangás no Brasil, aquela que foi dinamitada pelo plano Collor, hoje ele seria melhor reconhecido no país. O que não quer dizer muita coisa: Ryoichi Ikegami foi talvez o artista de mangá mais publicado no Brasil perdendo apenas para a Clamp e para Akira Toriyama. Mas isso não fez Sanctuary vender o que merecia, desgraçadamente, e fico me perguntando se Strain, da mesma dupla que produziu essa obra – e que foi prometida pela Conrad – não teria o mesmo destino. Em todo caso, naquela época, os trabalhos de Hoshino estavam ganhando visibilidade em território americano justamente por conta da publicação de sua mais importante obra – a série 2001 Nights, que mesmo sendo curta – apenas três volmes – é lembrada como o ponto alto de sua carreira, ganhando inclusive uma versão animada em OAV, lançada até mesmo no Brasil, nos tempos do VHS. Não custa lembrar que um capítulo a parte da série vai ganhar um longa-metragem em computação gráfica (To). Esse material fez história, em seu tempo. Não é pouca coisa, e levou ao lançamento de outros mangás do autor como Stardust Memories nos Estados Unidos – e muito mais do que isso na Itália, aonde ele tem cadeira cativa entre os leitores. Aqui, traço anatômico em mangá parece uma espécie de crime para várias pessoas. E não é o traço que faz um mangá.
Yukinobu HoshinoMas não é este o diferencial de Hoshino. Autores anatômicos há e muitos, de grande qualidade, dentro do quadrinho japonês, como Masanori Morita, o citado Ikegami e tantos outros. O que diferencia o autor em seu métier é justamente o fato dele ser um dos raríssimos quadrinhistas em qualquer parte do mundo a se especializar em um subgênero especial da ficção científica conhecido como Hard. Não vou deixar ninguém boiando; o universo dos leitores de ficção científica é um mundinho cheio de divisões que geram discussões intermináveis que de modo geral não levam a lugar nenhum, e discussões sobre o que faz parte do gênero e o que não faz acabam entupindo fóruns e listas de discussão; mas para fins práticos, a ficção científica hard tem um pé em dados científicos concretos e a partir dele extrapola suas visões científicas; a ficção científica soft até toma essas visões como base, mas está mais interessada nas consequências dos efeitos na sociedade e nas pessoas; a ficção científica pulp (minha favorita) está mais interessada em ser pop, sem encheção de saco, e por isso algumas figuras anal-retentivas tentam deixá-la fora do escopo do gênero (como pode Guerra nas Estrelas NÃO ser ficção científica?) em nome de uma seriedade fora de propósito. Não é a toa, aliás, que seja a vertente pulp que mais venha a mente das pessoas comuns quando falamos do gênero.

2001+5

Em todo caso, foi o seu trabalho nesse gênero que o tornou um dos autores mais importantes dentro do contexto da história da consolidação do gênero seinen – o dos quadrinhos para adultos – no mercado japonês, no exato momento dos anos oitenta aonde essa faixa demográfica atingiu maturidade e estabilidade comercial. Nascido em em 29 de Janeiro de 1954, ele estreou como artista em 1975 com Kotetsu no Queen e logo em seu trabalho seguinte, Harukanaru Asa, venceu o prêmio Osamu Tezuka de mangás – nada mau para um autor iniciante.
Blue CityIsso o levaria ao almanaque para garotos Shonen Jump, da Shueisha, aonde ele acabou fazendo parte da "geração da virada": antes, a nº1 do mercado japonês era a Shonen Magazine da Kodansha, em eterna disputa com sua então grande rival, a Shonen Sunday da Shogakukan. Ambas viviam momentos muito ricos, com séries que fariam parte da história dos mangás. A Shonen Jump, investindo não em medalhões e artistas famosos, mas em novatos com idéias novas que fariam o seu diferencial, acabou comendo seu terreno pelas beiradas e tomando o topo do mercado – de onde raramente sairia depois disso. Hoshino despontaria entre as apostas dessa nova geração com a série Blue City – aonde mostrava uma grande influência de autores como Mikiya Mochizuki, criador da série Wild 7 (cujo anime mais recente foi exibido no Brasil pelo canal por assinatura Animax). Mas nos anos oitenta, seu traço migraria para um tom mais adulto, estabelecendo sua posição entre os autores de gekiga – o quadrinho maduro japonês, cujo expoente mais conhecido no Brasil é o já citado Ryoichi Ikegami, presente em séries como Crying Freeman; Mai, a Garota Sensitiva – e, é claro, Sanctuary.
Nessa época, em que os quadrinhos adultos alcançaram seu status no mercado e passaram a representar mais da metade dos materiais produzidos no Japão, ele se destacou no gênero que o tornaria mais famoso: a ficção científica – ao criar a obra que lhe daria mais destaque e se tornaria um clássicoYukinobu Hoshino dos anos oitenta: a já citada 2001 Nights, uma obra de ficção hard aonde ele presta reverência às influências dos grandes autores do gênero como Arthur C. Clarke e Ray Bradbury. 2001 Nights se tornou um marco até hoje lembrado, de grande aclamação crítica e que foi publicado nos Estados Unidos e na Europa – locais aonde o autor e seu trabalho são bem conhecidos. O rico cenário criado por Hoshino nessa série teria duas revisitações, 2001+5 e Saber Tiger – além de ganhar uma série de animação produzida diretamente para vídeo (OAV), lançada no Brasil dos anos noventa ainda em VHS sob o nome de Aventureiros do Espaço, através da Europa Home Video. Este me traz uma lembrança pessoal: Chegou a ser exibido através dessa versão na televisão brasileira, dentro dos festejos... do Dia da Criança (foi assim que eu conheci o trabalho do autor, aliás). O que foi super engraçado, porque se trata de uma ficção científica de matriz filosófica, que traçava um paralelo com O Paraíso Perdido, de Milton, e eu fiquei imaginando a cara das criancinhas que estivessem vendo aquilo em meio aos desenhos animados mais infantis que povoaram o resto da programação. Desenho adulto é isso: não havia nada o que cortar ali, mas definitivamente não era material para aquela data nem de longe. ;)

Blue Hole

A paixão pela ficção científica estaria presente em outros trabalhos do autor, como Blue Hole, de 1992, em um hipotético cenário de coexistência entre homens e dinossauros; Kodoku Experiment, uma space opera contando uma guerra entre homens e alienígenas a bordo de uma nave espacial; a coletânea Stardust Memories, também publicada internacionalmente; e o brilhante Two Faces of Tomorrow, adaptando para os quadrinhos o clássico da literatura de ficção científica escrito por James P. Hogan.
Blue HoleForam esses trabalhos o fizeram ser lembrado no Japão como o mestre em seu gênero que ele é, mas faz sentido que o material que traz pela primeira vez o seu nome às livrarias e gibiterias brasileiras (espero que seja em livrarias; esse não é material para banca, definitivamente) seja justamente uma história de guerra como El-Alamein. Não é preciso ir muito longe para perceber que ele está sendo publicado na esteira de 1945, de Keiko Ichiguchi, que teve uma ótima resposta de vendagens pela editora. Além do mais, a tendência é que ficção científica não seja um gênero que enche os olhos do grande público no Brasil; é melhor introduzir primeiro o autor e depois deixar que seu nome puxe o resto de seu trabalho. Então eu não vou negar que quero mais é ver esse material emplacar – e ter esperança de ver 2001 nights e outros por aqui no futuro.
Que este primeiro não seja o último trabalho de Hoshino a ser publicado no Brasil. Ele merece.


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Nome: Pedro Henrique 15/07/09 11:46
Lancaster, você conhece algum manga que tenha Winston Churchill como personagem? Há um volume imenso de estórias sobre Hitler e a guerra sobre o ponto de vista dos soldados americanos, mas não conheço uma que enfoque os aspectos políticos, principalmente aqueles que levaram a ocorrência da 2ª Guerra Mundial, e lendo a biografia do Churchill sobre a guerra, vejo que ele teve um papel de destaque nesse período.

No mais, é interessante notar como os mangás no Japão parecem ser um intermediário (não no sentido qualitativo) entre a literatura e o cinema, já que podem se valer de toda sorte de idéias presentes na literatura, sem necessariamente depender de quantias astrônomicas, necessárias para fazer uma ficção com dinossauros por exemplo, para tornar visível uma estória ao público.

Parabéns pelo texto.

Alexandre: Obrigado, PH. Quanto a Churchill, não conheço nenhum – mas há várias histórias ambientadas na Segunda Guerra dentro do ponto de vista ocidental, como Partisan (Ishi no Hana) de Hisashi Sakaguchi – outra que eu gostaria muito de ver publicada no Brasil. De resto, eu não diria que eles são uma mídia intermediária – eles podem até ter ganhado forma como um "cinema de pobre" em um tempo em que os japoneses não tinham dinheiro para nada, no pós-guerra; mas hoje eles são uma mídia que caminha por suas próprias pernas no Japão. Se bem que realmente é mais barato se desenhar uma página de quadrinhos com um planeta sendo explodido do que explodir a maquete de um planeta dependurada em um cenário e filmar.

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