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Jun 09
Space Runaway Ideon, de Yoshiyuki Tomino
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Categorias: clássico
A história do cinema, da música, da literatura... enfim, de todas as artes está cheia de materiais que não são exatamente de domínio público, mas que todo mundo do meio criativo viu – e por isso mesmo, fizeram história e são pedras fundamentais para alguma vertente ou gênero, mesmo sendo desconhecidos do "povão". Causaram impacto profundo mas na verdade, são pouco vistos, ouvidos ou lidos, e quanto
mais o tempo passa, menor a possibilidade de que o material seja realmente apreciado por espectadores comuns. Eventualmente por suas próprias falhas: nem sempre esses materiais são perfeitos, mas a semente de inovação trazida por eles faz todo o resto do trabalho.
Densetsu Kyojin Ideon, ou melhor, Space Runaway Ideon (se eles usavam o nome em inglês no Catch-Eye dos comerciais, porque não?), de Yoshiyuki Tomino, cai por completo nessa categoria.
O que torna esse material tão especial? Para começar, ele simplesmente ditou a tonalidade de uma ficção científica sombria que dominaria os anos oitenta por completo: Talvez não houvessem os Votoms, Genocybers e até Akiras dos anos oitenta sem que ele tivesse aberto essa porta; mesmo os rumos tomados pelo próprio Tomino na franquia Gundam em Zeta Gundam não seriam possíveis sem esse precedente. Não deixa de ser curioso que Evangelion de certa forma tenha fechado essa era: Ao observar todo o histórico das duas séries e principalmente
comparar os longas finais de ambas, se torna óbvio e ululante que Hideaki Anno simplesmente tentou fazer o seu próprio Ideon. Mas disso falaremos mais adiante. ![]()
O fato é que após assistir os trinta e nove episódios e dois longas que compõem a obra, a mente formiga em um mar de contradições. Ideon começa como um anime comum e até banal – mas muito interessante – feito pra vender brinquedinhos e termina como uma obra-prima; o meio é que são elas, e é difícil resgatar o que de bom e de ruim aconteceu à luz do choque que o final reserva ao espectador. Ele lava muita coisa em nossa mente.
Porque contradições? Porque a série balança em extremos, inclusive qualitativos. Há personagens e eventos que durante a série toda parecem inconsistentes mas vistas à luz de fatos e ações posteriores, são coerentes. O final é o mais trágico já escrito por Tomino – mas também é o mais feliz. A série impacta, mas é desequilibrada no seu arranjo entre a natureza comercial e a natureza autoral (diacho, o robô Ideon e as partes que o compõem são tão setentistamente pouco "alienígenas" que se poderia colocar o logo da velha Telefunken em um canto do maquinário e ninguém ligaria). E no entanto, todas essas impressões incongruentes fazem sentido em relação ao material e são parte do que fizeram este um dos animes mais influentes de todos os tempos. Provavelmente são parte do que o tornaram um dos menos vistos, também. Contradições, contradições. É complicado.
Digamos que as maiores pistas para o final estavam escancaradamente na letra da abertura da série (que não custa dizer, foram escritas por ele mesmo, sob o pseudônimo de Rin Logi)...
Você pode ouvir? Estou certo de que você pode ouvir
o rugido à distância
Em meio à escuridão, aquilo que começa a despertar
faz sua alma tremer
Ele se ergue em frente à uma parte da Terra
É esta a prova maior da justiça?
O poder lendário do gigante
Irá rasgar a galáxia em dois
Nosso grito de guerra irá convocar
uma rajada ofuscante de luz
Não trema de medo, foque seus olhos
no momento da sua ressurreição
As pessoas e a própria vida
verão o reinício de tudo
Fugitivo Espacial Ideon.
E nas pessoas flutuantes do encerramento, com os feixes de luz partindo da galáxia ao fundo.
Talvez por isso definir Ideon seja algo tão complicado. Em todo caso, não há como negar: é o trabalho mais ambicioso da carreira de Yoshiyuki Tomino e é muito difícil imaginar o que seria da animação japonesa se essa série tivesse feito a revolução que o trabalho anterior do autor –
o próprio Mobile Suit Gundam de 1979 – fez naquele que foi o seu momento.
As Raízes de Ideon
O nome Ideon é tirado da Mitologia Grega. De acordo com os mitos, antes de tudo havia o deus Cronos, que ao saber que seria destronado por um de seus filhos, os devorou um a um. Réia, esposa de Crono e mãe de Zeus, teria levado-o ao nascer para a caverna de Ideon, aonde seria criado pela ninfa-bode Amáltia, e cresceria para matar Crono, varrer os titãs do mapa e povoar o universo com o seu próprio panteão de deuses. Assim como alguns políticos que deixam as obras dos antecessores aos pedaços, Zeus não olhava com simpatia a humanidade, criada pelo Titã Epimeteu; assim, ele devastou a civilização e reduziu os seres humanos à um estágio primitivo. Outro Titã, Prometeu, traria o fogo aos humanos, permitindo que eles se reconstruíssem. Na versão cretense do mito, Zeus não seria imortal; sua divindade estaria em morrer e renascer todo ano dentro das paredes da caverna de Ideon, de acordo com uma tradição religiosa da época minóica. Em todo caso, ambas as versões tocam em um tema central de Space Runaway Ideon: os mitos de destruição e reconstrução da humanidade, presentes em diversas mitologias (como a asteca,
por exemplo), e não foi a primeira vez que isso acabou sendo explorado em quadrinhos ou animação: basta lembrar das duas páginas de abertura do Ciclo dos Novos Deuses de Jack Kirby, de 1971, que narram a queda dos antigos deuses, sua destruição e como isso gerou dois novos mundos, aonde a chama de vida e divindade se reiniciaria, bebem dessa influência – muito em voga nos anos setenta, diga-se de passagem.
Mas Ideon não bebe apenas de fontes míticas para construir sua saga. Yoshiyuki Tomino sempre foi um ávido consumidor de Ficção Científica, e em Ideon ele tenta fazer uma coda da FC como gênero, prestando tributos à suas diversas fases: Acena-se ao Pulp e a "fantasia planetária" dos anos 20 e 30, a Golden Age dos anos 40 e 50 e a uma certa postura desconstrutiva herdada da New Age of FC dos anos 60, ainda frescos na memória de todos (e ainda muito recentes como publicação no Japão, à época). É Doc Smith, Arthur Clarke e Michael Moorcock (o de livros como City of the Beast e Lord of the Spiders) ao mesmo tempo – e, por que não, George Lucas, Stanley Kubrick e até a série Planeta dos Macacos, a principal série cinematográfica de ficção científica dos anos setenta.
Os humanos primitivos de 2001 podem ser achados em planetas habitados por dinossauros de filme B. Povos alienígenas, sociologicamente sofisticados em construção como pede a ala mais séria que vê ficção científica soft como "explanação de ciências humanas", tem como mitos sagas de guerreiros bárbaros destruidores de monstros. Mundos com pássaros devoradores de metal e outras coisas que deixariam o mais anal-retentivo fã de ficção científica hard de cabelo em pé estão ao lado de temas maduros sem dó nem piedade. Há um pouco de cada vertente, mesmo que sejam contraditórias entre si, e esse elemento aparentemente é intencional. E tudo isso, tendo como costura um gênero que imperou na animação japonesa dos anos setenta, que viria a ser conhecido como Super Robot.
As Necessidades do Mercado
Quem teve a sorte de prestar atenção nas palestras que o criador Yoshiyuki Tomino fez no Rio e em São Paulo há alguns anos, e não ficou de
palhaçada como algumas criaturas que fizeram grupinho e começaram a ficar de papo-furado nas primeiras filas – e, acreditem, aquele espetáculo me deu uma vergonha imensa – percebeu uma coisa importante: robôs se tornaram uma preferência no Japão por causa da indústria de brinquedos, mas estavam longe de ser uma imposição vinda de cima. Eles já faziam parte do imaginário muito antes da revolução meiji impôr um salto tecnológico ao país, como atesta a figura dos autômatos conhecidos como ningyo karakuri – robôs de madeira especializados na repetição de atos específicos. Alguns desses ningyo karakuri eram notáveis, sendo construídos em tamanho natural e sendo capazes de,
entre outras coisas, tocar música e disparar flechas com um arco de tamanho natural.
Os robôs gigantes acabaram se tornando um ícone pop tão emblemático no inconsciente coletivo japonês quanto o super-herói de malha colante para o americano, mas foram produzidos em massa por uma necessidade prática: na época em que eram produzidos, era difícil fazer bonecos de qualidade – mas robôs são geométricos por natureza, o que permitia aos japoneses fazer brinquedos melhor acabados. Então os desenhos animados tendiam a trazer conceitos que pudessem gerar robôs e naves de brinquedo. Até os padrões de cores, em sua maioria primárias, refletem essa necessidade. Azul, vermelho, amarelo e branco são cores muito fáceis de se confeccionar industrialmente.
Mas o ser humano não é um animal tão manipulável assim: se o povo japonês não tivesse correspondência cultural com o conceito, este não teria sido recebido de braços tão abertos quanto foi – até hoje. Então o fato é: Ideon fez parte de uma máquina de gerar e vender brinquedos. Que estava se exaurindo.
A Era dos Super Robots
De modo geral, os anos setenta foram dominados pela versão do Super Robot estabelecida pelas obras de Go Nagai, em especial pelo seminal Mazinger Z. Antes de Nagai, os robôs gigantes eram em geral comandados por garotos com controles remotos, à distância. Não é preciso dizer qual era o produto a ser vendido com essa abordagem.
Nagai foi mais longe: colocou o humano como piloto na cabine do robô. E produziu uma série atrás da outra, de forma contínua e industrial, com pouca variação na fórmula; um bom exemplo foi Getter Robo, que introduziu o conceito de robôs intercambiáveis. A inovação foi, hm, "tecnológica", por assim dizer, mas embora a história tenha seus próprios méritos, com uma carga imensa de drama, ela não diverge do padrão estabelecido, de ataque de império alienígena contra a Terra e robô com mais de oitenta metros de altura para enfrentar a ameaça da vez. Pirata do Espaço (Groyzer X), o único exemplar da vertente a chegar por aqui, foi um dos últimos trabalhos de Nagai dentro desse esquema industrial – e o atestado de que a fábrica de robôs chegara ao fim da linha.
Mas quando o gênero era sucesso absoluto, os outros estúdios embarcaram
nele com tudo – inclusive a Sunrise, que tinha em suas hostes Yoshiyuki Tomino. A aquela altura de sua carreira, ele já podia ser considerado um veterano: debutou como parte da equipe da série animada original de Astroboy, de Osamu Tezuka. Sua trajetória se confunde com a própria história dos animes, participando de quase todos os seus momentos importantes. Mas em seus trabalhos no gênero durante os anos setenta, já era possível se sentir algo diferente no ar: em Zambot 3 – série onde três crianças pilotam robôs gigantes – o tom infantil que o conceito parece puxar é um tanto desmontado.
Desmontando as Peças
As crianças que protagonizam a série são impiedosamente atacadas pelas pessoas a quem salvam, de um modo que lembra muito a abordagem de Stan Lee para seus super-heróis incompreendidos nos anos sessenta. O fato de que o elenco infantil não sai ileso da série só acentua o fato de que Tomino não estava lá para passar a mão na cabeça dos espectadores.
Foi quando veio o projeto de Gundam. Esse, fez história e dispensa grandes apresentações, então vou ser breve:
Tomino, inspirado pelas teorias de Gerard K. O'Neill e por livros como o Tropas Estelares original de Robert Heinlein, introduziu um conceito novo que não foi muito bem recebido quando de sua criação, aquilo que viria a ser denominado posteriormente como Real Robot: aqui, as máquinas de combate não são mais colossos super-heróicos, mas apenas máquinas de guerra em produção industrial. O protagonista deixa de ser um bravo escolhido e se torna apenas um dos soldados. Mesmo os robôs são muito menores, passando a um tamanho que oscila entre doze e quinze metros (na verdade, a intenção de Tomino é que eles fossem menores ainda, assim como as armaduras auto-propelidas de Heinlein, que foram removidas no longa de Paul Verhoeven. Pena, porque isso faria de "Tropas Estelares" o primeiro grande filme de mechas já feito – e notem, o livro é dos anos sessenta). O fato é que Gundam não teve uma grande recepção na primeira exibição; quem poderia imaginar que o material iria explodir através de reprises tapa-buraco na televis ão japonesa, e seria coroado como um
grande sucesso quando essas reprises o levassem ao cinema?
Mas ninguém sabia disso quando Gundam simplesmente "não aconteceu", e uma vez que o novo conceito enganosamente não tinha dado certo, restou a Tomino voltar aos velhos robôs gigantes de dimensões colossais. Mas ele não estava disposto a continuar fazendo a velha rotina de impérios alienígenas de sempre. Foi quando veio o seu projeto seguinte: Ideon.
E Quanto a História?
Ideon se passa em um futuro distante aonde uma equipe arqueológica Terrestre, em um mundo que está sendo colonizado pela humanidade, investiga os restos de uma civilização antiga que desapareceu por completo – inclusive um maquinário gigantesco em três partes. No entanto, aquele mundo estava sob a área de domínio de uma raça alienígena conhecida como Buff Clan. Primeiro eles observam os humanos e chegam a conclusão de que eles são medievais em comparação a eles – o que por antecedência os leva a posturas
arrogantes e erros de julgamento. "E se eles tiverem inventado algo parecido com o radar?" "Ah, você vai acreditar nisso?"
Esse é o primeiro de uma sequência de equívocos de ambos os lados – na verdade, as circunstâncias que levam os terráqueos e o Buff Clan ao combate poderiam ser definidas menos como a invasão de um povo malvado contra um povo bonzinho do que uma catástrofe de erros: em Ideon temos DOIS lados com armas na mão e causando catástrofe atrás de catástrofe em uma escalada suicida, enquanto as poucas vozes de cada lado – e que percebem a humanidade que existe no outro lado – ficam impotentes, tentando evitar uma tragédia e jamais sendo ouvidos. A situação se torna tão desesperadora que ninguém percebe uma incongruência simples: ambos chamam seus mundos natais de... Terra. Mas isso passa batido – assim como muitos detalhes que são feitos para que o espectador pesque no ar, não os personagens.
O descuido do Buff Clan faz com que, quando eles encontrem os terráqueos com campos de força, se dêem conta de seu erro inicial de julgamento – mas quando os humanos despertam o Ideon na base do susto, sob o ataque, os aliens chegam
a conclusão apressada de que na verdade somos MUITO mais avançados – o que os leva a uma sobre-reação exagerada. Logo no primeiro capitulo o pai do suposto protagonista, Cosmo Yuki, é esmagado em sua frente durante o ataque do Clan, que esteve longe de ser um ataque planejado. O resultado: ele faz a máquina funcionar e sai destruindo todos os inimigos.
Na verdade, como de costume nos animes de Tomino, o despertar é praticamente acidental: Logo no começo, o Ideon – que é uma máquina colossal – parte, junto com a nave gigante de uma civilização desconhecida, junto com os sobreviventes do ataque do buff clan ao mundo que estava sendo colonizado. De repente eles dão um salto e partem para o espaço distante. O pavor do Buff Clan faz com que eles mergulhem em uma caçada atrás do robô gigante e sua nave, que vira abrigo dos colonos do planeta em fuga. E enquanto em um Gundam clássico a história leva uns dois terços da série inteira antes de pegar fogo, em Ideon, bastaram quatro capítulos para que ele colocasse as peças no tabuleiro antes de começar de verdade.
Em muitos aspectos, o início lembra a versão original de Galactica – Astronave de
Combate, só que em versão desconstrutiva (e isso nada tem a ver com a superestimada série Battlestar Galactica exibida nos canais por assinatura: diferente do excelente reboot de J. J. Abrams para a franquia Jornada nas Estrelas, o recente BSG não tem nada a ver com a série original e foi um engodo do produtor para captar dinheiro e visibilidade para seu projeto pessoal – uma série de ficção científica inspirado no 11 de Setembro. Mas estou me desviando do tópico). E não seria de se duvidar de que a influência da série de Glen A. Larson acabasse sendo absorvida durante a produção do anime.
Olhar Desconstrutivo
Mas Tomino foi mais longe, tendo o cuidado de construir uma sociedade alienígena que parece mais uma crítica direta à sociedade japonesa: uma meritocracia radical aonde termos tipicamente nipônicos como samurai são utlizados. O visual asséptico só acentua o fato de que no fundo, no fundo, os guerreiros do Buff Clan agem como se fossem uma versão muito mais radical do universo empresarial – e dentro desse ponto de vista, os trajes brancos do Clã parecem uma brincadeira macabra com o termo americano white-collar worker (trabalhadores de colarinho branco), que batiza justamente a classe executiva melhor conhecida como Salarymen no Japão. Títulos de nobreza são obtidos por promoção, como em qualquer empresa. Logo, os "vilões" procuram destruir ou capturar Ideon com a concreta motivação de mostrar serviço e ascender socialmente. Mesmo uma princesa precisa participar da ação – e isso dá margem tanto que uma delas acabe sendo inicialmente capturada e por fim se torne uma tripulante regular da nave dos "mocinhos", quanto que a outra princesa – uma mulher totalmente fria, cruel e amarga pelos seus anos no ramo – mergulhe de
cabeça na caçada para punir e destruir seus oponentes.
Na verdade, "mocinhos" e "vilões" estão em aspas porque não há mocinhos nem vilões de verdade nessa história – contrariando todas as diretrizes estabelecidas por uma década inteira de robôs gigantes nos moldes estabelecidos por um Go Nagai: os dois lados esperavam encontrar algo como aliens de seis braços, tentáculos e lesmas gigantes; a idéia de que um lado seja tão humano quanto o outro é uma surpresa para os dois lados – e é importante reparar o quanto esse conceito gerou ecos em séries posteriores, incluindo o mega-sucesso Macross. Só que o viés em Ideon é trágico.
Receita para se Fazer um Herói
Outro fator de desmonte, não tão óbvio a princípio mas que se torna claro com o tempo, é o piloto Cosmo Yuki, que deveria ser o personagem principal – mas claramente é colocado de lado em prol dos coadjuvantes, como se o próprio Tomino fizesse um comentário implícito sobre os pilotos de robôs dos animes do gênero. Após o trauma da morte do pai, Cosmo entra no rol do atire primeiro, pergunte depois – mas reparem que o trauma da morte se torna desimportante logo de cara: Cosmo Yuki só é protagonista da boca pra fora. Ele é "o cara que pilota o Ideon", e o espectador começa a se ressentir dele: Os outros personagens se tornam mais presentes na trama, e ele passa a ser o cara eternamente raivoso que combate os aliens da vez. O que não deixa de ser irônico, porque de todos, ele é o que parece ter menos motivos para fazer o que faz – o pai parece não ter passado do estopim para ele dedicar sua vida a estourar os miolos alheios, como se apenas precisasse de uma desculpa. Todos os demais parecem ter motivações mais consistentes para sentirem raiva de tudo e de todos, e gerar seus próprios conflitos.
Mas quando nossos fugitivos baixam em um mundo civil (no capitulo quatorze – o mais fraco da série, mas também um episódio importante em termos de construção de personagem e costura de eventos), ele fica pela primeira vez assustado, tenso, sem saber para onde ir, o que fazer e com vontade de fugir de qualquer forma. E de repente entendemos o personagem – ele não deixa de ser um
imbecil, mas ele é uma vítima do próprio meio que o torna assim: pilotar o Ideon contra inimigos todo santo dia fez dele alguém que só sabe fazer isso. Ele não tem outra função na vida. Não tem realmente nada a perder caso morra – na verdade, é bem provável que ele nem pense nisso até certo ponto da história. E o resto dos personagens ao redor dele não ajuda nem um pouco a sua situação melhorar, porque todos precisam que ele cumpra essa função. Se não for ele, que estava acompanhando de forma prática as escavações que revelaram o monstrengo, quem mais o fará?
Glória Feita de Sangue
A sua colega de cockpit, Kasha, também merece algumas palavras. A primeira vista, ela é a personagem mais insuportável da série (e conta para isso uma dublagem particularmente irritante), mas se olharmos bem, ela é a voz do pragmatismo duro e só. "Porque não seguimos essa gente e os matamos todos de uma vez? Se não fizermos isso, eles irão atrás de nós!" Mal ou bem ela não deixa de estar certa: quando nossos protagonistas caem na bobagem de poupar seus oponentes, podem ter certeza: eles voltarão com tudo. Mas justamente pelo fato dela ser uma figura antipática por definição, com um ranço de menina mimada, Kasha acaba jamais sendo ouvida até pelos próprios companheiros. Isso eclipsa aos olhos deles até suas qualidades (ela é capaz de brecar a porta de uma tripulante para que ela não veja o cadáver em péssimo estado do homem com que ela anda, por exemplo; não é como se ela não fosse
capaz de demonstrar empatia por ninguém); e isso a torna apenas mais irritadiça, sem que ninguém perceba que ela está se tornando a pessoa mais solitária de toda a nave. Se alguém já levantou uma sobrancelha com essa descrição, se prepare: essa sensação de déja-vu vai aparecer novamente e não é a toa.
Gije, o oficial do outro lado que funciona como "antítese" de Cosmo, na verdade não é antítese nenhuma, e sim o outro lado da mesma moeda: ele é o zelo militar acima do bom senso, que acaba levando a movimentos impensados que levam a catástrofe. Nem Gije considera Cosmo digno de tanta atenção assim: para ele, seu oponente é o capitão Bes Jordan, que acaba se tornando o verdadeiro protagonista em termos práticos.
Mas o grande personagem da série, definitivamente, é o próprio Ideon – cuja presença afeta a vida de todas as pessoas que cruzam seu caminho e que na verdade, tem a sua própria agenda. Ideon não é apenas uma máquina de combate, e os tripulantes de sua nave descobrirão isso tarde demais.
A Espada de Dâmocles
De modo geral, apesar dos planetas com dinossauros e citações míticas que visualmente são emprestadas das antigas ficções científicas pulp com guerreiros brandindo espadas em planetas distantes com faunas monstruosas (o mito de Ide do Buff Clan, com o qual a figura do robô Ideon é associada e bate com suas lendas de final dos tempos), eu diria que se os três Mobile Suit Gundam de Tomino fossem o Senhor dos Anéis (de J. R. R. Tolkien), Space Runaway Ideon se torna, a medida em que a série anda, a Saga de Elric de Melniboné (de Michael Moorcock). Ideon na verdade é a chave de julgamento de uma espécie senciente que já passou por essa situação seis vezes – e falhou em todas elas. E como o final da série é famoso e acabou sendo o que tornou a série lembrada, não há sentido em evitar o spoiler – até porque muita gente ouve falar que no final da história, o robô destrói o universo. Não, não destrói.
Aqui teremos que voltar a alguns aspectos de produção para que entendamos o final. A série era programada para ter 43 episódios, mas a verdade é que Tomino,
como dito antes nesta mesma matéria, fracassou com a primeira exibição de Mobile Suit Gundam na televisão japonesa, e em seguida decidiu voltar ao terreno que imperava – os super robots, no sentido tradicional da palavra. Só que depois de ter avançado tanto em sua obra anterior, era impossível para ele fazer uma série convencional do gênero. O problema é que desta vez, a recepção do material foi pior ainda: a série foi se adensando gradualmente e, a partir dos vinte e tantos capítulos, ela começou a mergulhar em algum grau de experimentalismo – na falta de um marco claro, eu estabeleceria o ponto invisível de virada quando a Alien Karala doa sangue a um Cosmo ferido.
O Processo Abortado
Quando começam as visões oníricas, os mitos de Ide se confundem com os fatos e qualquer senso de esperança vai por água abaixo (esperem a chegada dos personagens ao Planeta Terra, onde nossos nômades são tratados como párias e descobrimos que das forças Terrestres, não podemos esperar nada muito diferente dos membros do Buff Clan), a coisa simplesmente pesou a um ponto muito além do aceitável para uma série infantil da virada dos anos setenta para os oitenta, mesmo no Japão. A série recebeu ordem de cancelamento, a meros quatro capítulos do final – que já estavam prontos, aliás.
A solução foi simples: nos cinco últimos minutos do 39º capítulo, ele simplesmente pôs a história em uma
kombi e jogou ribanceira abaixo. Na lata, deixando o espectador atônito. Todo mundo morre do nada, um quadrante inteiro é varrido do universo, a humanidade acabou, tudo acabou, e o narrador explica algo complicado demais para ser explicado em minutos, com a velocidade de um narrador de turfe. Não importa. O espectador ficou com cara de tacho.
Levariam alguns anos para que os espectadores pudessem conhecer o verdadeiro final da história.
Juntando os Pedaços
Anos depois, com o sucesso de Gundam, o trabalho de Tomino começou a receber maior atenção da parte do próprio fandom que estava surgindo – e veio a tona que o fato de que a primeira série do autor após o hit adormecido que explodia naquele momento, havia sido deixado incompleta – mas os episódios que não foram exibidos estavam prontos. Assim que Gundam, mesmo tardiamente, passou a gerar dinheiro, produtos, e fãs apaixonados, não é preciso imaginar que os produtores perceberam em Ideon uma oportunidade de replicar a mágica dos lucros (ô lugarzinho comum!). É aí que entram os dois longas-metragens que foram
exibidos nos cinemas japoneses: Ideon – A Contact e Ideon – Be Invoked.
Ideon – A Contact nada mais é do que uma remontagem do grosso da série exibido antes da interrupção. Ou melhor, da série até o seu penúltimo capítulo – uma vez que o último capítulo na verdade não era para ser o último capítulo; era um capítulo habitual que no fim das contas, encontrou a série sendo destroçada por uma marreta. "Olá, gente, a série acabou!"
Em Gundam, a abordagem funcionou: quem tem seu primeiro contato com a franquia através dos três longas-metragens do autor, tem a impressão de que não poderia ter sido diferente; tudo é bem-amarrado, bem orquestrado, sem falhas. No primeiro filme de Ideon, isso não acontece, e quem começar a assistir ao material por ele, se arrisca a uma enorme decepção: A Contact é corrido, não funciona além do seu papel de um longa de "melhores momentos" e tem mais furos do que um queijo suíço; para piorar, as sequências de animação criadas para tapar buracos entre eventos removidos da cadeia lógica são emendas piores do que o
soneto. Um exemplo simples, devidamente editado para não haver spoilers: Temos dois personagens, A e B, do lado inimigo. Os dois são aprisionados, mas o personagem B tenta fugir e morre por sua própria culpa. O personagem A acaba se juntando a tripulação, mas sofre tentativas de assassinato posteriormente por causa do personagem C, que não suporta a presença do personagem A após o seu povo ter provocado tanta tragédia. Os dois se entendem e acabam até trabalhando juntos lado a lado sem problemas. Agora vamos ao filme: A e B são aprisionados. O personagem C mata o personagem B, indefeso, no cativeiro. Mas o entendimento do personagem A com o personagem C acontece como na série original. Como é possível aceitar os dois trabalhando lado a lado sem problemas quando B foi morta dessa forma?
Esse não é o único furo de construção lógica gerado pela emenda em Ideon – A Contact, mas é um exemplo perfeito do que acontece ao longo do primeiro filme – e realmente a impressão que se tem é que o material não é grande coisa. A melhor coisa a fazer é assistir toda a série de televisão, parar justamente no penúltimo capítulo e ir direto para...
O Fim de Tudo
O segundo longa, Ideon – Be Invoked, entra em alguma contradição com a série, porque apresenta uma segunda versão para um evento removido da edição de A Contact: o encontro entre Cosmo Yuki e Kitty Kitten. O corte da personagem no primeiro filme serviu para fazer evidente o quanto essa sequência foi algo totalmente à parte do plot principal da série e talvez não fosse tão importante assim – nem mesmo como construção de personagem: sua função na verdade era apresentar algum eixo de humanidade ao qual Cosmo pudesse se agarrar, já que havia se passado muito tempo para o espectador antes de seu último gancho de humanização. Sabemos que ele tem justificativa para ser assim, mas isso não o tornava menos irritante. Kitty surgiu para apontar uma possível cura para o personagem. Que não viria, porque sendo uma série de Tomino, havia alguma dúvida de que a moça se tornaria estatística cedo ou tarde? No entanto, em um longa-metragem, se transformou em uma chave de empatização necessária – e o filme é todo calcado justamente no fato de que os personagens, e a própria humanidade, estão caminhando para o fim de sua jornada. Pessoas com tendência
a depressão, mantenham-se longe: Be Invoked é um murro no estômago, que não poupa nem mulheres e crianças de violência gráfica, pontuada por um tom desesperançoso e uma visão extremamente negativa do ser humano – encerrada por meia hora de material extra, criado especialmente para o filme e que se justapôs ao final originalmente planejado.
Só que essa meia hora extra é também um dos espetáculos mais visualmente impressionantes de seu tempo, chegando a destoar do que foi exibido antes. E toda uma geração de animadores não ficou indiferente a esse conjunto. O que começou como uma série de super-robôs se concluía como um material imensamente autoral, que subverteu expectativas e que sacudiria a cabeça de todos os animadores que testemunharam esse trabalho nos cinemas. A década de oitenta, na animação japonesa, começou ali.
Só que a resposta popular não foi a mesma.
Neon Genesis Ideon
O status de Ideon jamais passou de do culto por diretores e pelos interessados na história dos animes – além dos fãs mais intensos de ficção científica. Para que se tenha uma idéia, o barulho criado em cima dessa série fez com que o primeiro box de dvd fosse produzido com uma tiragem alta demais – que não vendeu nada. Assim, as tiragens seguintes foram limitadíssimas, e hoje é possível encontrar os três boxes dessa tiragem reunidos em sites de leilão a um custo que
pode ultrapassar os mil dólares. Em 2006 o material foi relançado mais uma vez em DVD, dessa vez já em tiragens nanicas – e por isso essa nova leva está esgotada. Cautela para os interessados, portanto. O fato é que Ideon se tornou um anime para poucos – e como eu disse lááá no começo da matéria, ele se tornou mais assistido por gente do meio de animação do que pela maior parte dos seres humanos. E aqui chegamos a Hideaki Anno, que ao se ver em situação similar – uma série com ordem de cancelamento antes de chegar ao final – acabou praticamente emulando sem o menor pudor a fórmula estabelecida por Yoshiyuki Tomino em seu trabalho.
Não que Anno negue isso – ele já admitiu a influência do material no seu trabalho, mas há uma diferença gritante nas circunstâncias. Tomino tinha seu Ideon concluído quando do cancelamento, o que permitiu a ele simplesmente resgatá-los no longa final e adicionar uma sequência final extra. Já Anno foi escrevendo sua série a medida em que ela ia sendo produzida, e quando veio lá de cima uma ordem para concluir a série... bem, foi produzido o famoso e polêmico final que pode ser visto tanto como uma grande sacada como um grande exemplo de "que p**** é essa?". Como ainda pretendo escrever algo sobre esse fatídico capítulo 26 de Evangelion,
basta dizer por ora (a respeito do episódio em si) que a sequência final onde Shinji é parabenizado em massa tem sua origem óbvia e ululante em uma sequência do longa, onde os personagens (censurado por política anti-spoiler). Mas se vocês quiserem tirar a prova, apenas reparem que após o 26º episódio, vieram dois longas, End of Evangelion: Death e End of Evangelion: Rebirth, respectivamente um longa reciclando material da série original e um longa inédito, da mesma forma que aconteceu com Ideon. E não fica apenas isso: Comparem as personagens Kasha de Ideon e Asuka de Evangelion, ou a Dra. Sheryl Formosa de Ideon com uma certa Dra. Ritsuko Akagi que as coisas ficam mais claras. E só para fechar o bolo, comparem Rebirth com Be Invoked, especialmente na sequência do ataque final da
Seele contra a Nerv... e até em trechos da trilha sonora.
Não custa dizer que Tomino não gostou nada disso – o que é compreensível, já que Ideon jamais foi de domínio público enquanto Evangelion se tornou um hit monstruoso. Sua reação veio com a série Brain Powerd, que de acordo com as palavras do criador na época do lançamento, estava sendo inspirado justamente em Neon Genesis Evangelion, mas iria ser melhor, no melhor estilo "vou mostrar como se faz". Deveria ter ficado calado: foi um dos seus piores trabalhos. Ele ainda faria muita coisa boa, como Turn A Gundam e Overman King Gainer, mas faltou em Powerd justamente o espírito de inovação que marcou as obras que o celebrizaram. Hoje, ninguém se lembra dela (para o bem da reputação do autor).
Mas tudo bem. Quem tem em seu currículo obras como a trilogia Gundam de longa-metragens, a série Zeta Gundam e, claro, Ideon, não precisa de muito mais coisa do que isso. Ideon pode não ser aquela série que todos sabem do que se trata, nem gerar meninas de pernas de fora nem roupas colantes em eventos, mas fez história. E se alguns animes parecem ter atingidos pontos mais altos, é porque se ergueram sobre os ombros de gigantes. E quem poderia ser maior entre os gigantes do que um robô capaz de varrer sozinho a humanidade da face do universo?
Só não espere ficar alegre, feliz e contente após o final. Impressionado, sim. Batendo palmas, sim. Feliz, nunca.

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Esse é o tipo de matéria que eu estava sentindo falta e que me fez começar a acompanhar esse blog, pra ínicio de conversa.
Aliás, sabe que muitas das "qualidades" do A Contact me fizeram lembrar dessa nova trilogia do Zeta? Sabe, por mais telentoso que Tomino seja, ele também é expert quando se trata de repetir os mesmos erros...
E o exemplo perfeito disso é o Garzey´s Wing, sim, é outro OVA baseado no mesmo universo de Byston Well, e talvez o mais constrangedor evento de toda a carreira do Tomino... Mas o que não o impediu de realizar outra produção duvidosa nos mesmos moldes, o Wings of Rean.
Eu não sabia dessa "inspiração" do Hideaki Anno na finalização de Evangelion. Pensava que ele tinha planejado a história inteira do anime antes do mesmo ser produzido.
E eu me enquadro nas pessoas que preferem o final do anime, sei lá, não me importava muito com as explicações da mitologia da série. Eu reconheço a importância do Shinji como personagem, até considero ele bem elaborado, mas como expectador me enchia a paciência ele ser tão pamonha e menininha.
Abrço, e parabéns pela matéria (já fui atrás dos episódios, vamos ver se é tudo isso..)
Eu estava nessa palestra do Tomino, em 2004, na UERJ. Lembro desse (fantástico) ningyo karakuri do arqueiro sendo exibido na tela. Mas nem o associei a qq “tradição ‘robótica’ nipônica feudal”. Esquecimento (ou desatenção) da minha parte...
Realmente, vc se destaca entre os supostos articulistas de mangá e anime. Não está aí pra falar o óbvio e mesmo mostra o porquê do óbvio. E muito mais.
O PHoda é q, agora, vc despertou minha curiosidade sobre a série, caceta!!!... Achei torrent de “Be Invoked”, mas não tem um “peer” sequer, por mais q algo, milagrosamente, esteja sendo baixado aqui. Qto à série, só a achei legendada em italiano. Onde vc achou a fonte pra fazer a matéria?
Alexandre: Obrigado pelos elogios e pelo toque, está corrigido.
Interessante ver que mesmo nao fazendo um grandioso sucesso na exibição para TV, Ideon ganhou o premio de melhor anime da revista Animage na primeira metade de 1980 (se bem que a Animage naquela época foi criada visando mais o publico fandom que começara a ser criado nos idos de 70 e 80 pelos animes de sci-fi como Harlock, Yamato e de outros generos como Heidi, Urusei Yatsura, Lupin III, Ashita no Joe, o mesmo acho que ocorreu com a Newtype alguns anos depois).
De qualquer forma eu parabenizo demais a forma como Tomino conduziu o filme ''Be Invoked'' a tensão a ceu da boca veio a marcar o seu proximo trabalho ''Zeta Gundam'' (que foi o anime que lançou de vez a serie Gundam ao topo).
Mas acho que as comparaçoes com Evangelion nao foram tao bem fundadas, tah certo que muito de Eva foi copiado na cara dura de Ideon, mas a propria serie de Evangelion deslanchou atravez das suas proprias caracteristicas, nunca personagens haviam sido demonstrados e trabalhados psicologicamente de forma tao detalhada como Evangelion antes.
Ja existiam varios outros animes com um trabalho de personagens muito rico mas foi Evangelion que ''abriu'' os horizontes para algo ainda mais profundo.
O Santarem, eu coloquei o nome da série no google, e entrei na primeira página que apareceu. O link é excelente, cheio de fontes e a qualidade dos episódios é muito boa (é legendado em inglês).
Não coloquei o link porque não parece ser de costume do blog postar esse tipo de informação (nada contra).
Abrços.
Alexandre: E realmente não posto esse tipo de informação. Abro uma exceção ao dizer para baixarem Ideon por aí pelo fato dele estar esgotado mesmo no Japão e não haver material disponível, sem falar que essa série não foi exibida em nenhum outro lugar do mundo – e convenhamos, ele JAMAIS será lançado no Brasil salvo por alguma eventual insanidade de alguma empresa que queira queimar dinheiro.
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