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Mai 30

Mitsuru Adachi Parte III: Q&A, Capítulo 1

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Lancaster | PERMALINK | 4

Categorias: Artigos e Reviews

Q&A

Era uma vez dois jovens irmãos: Tsutomu e Mitsuru. Ambos com um enorme talento para o mangá, era Tsutomu o mais promissor, sendo um dos assistentes de ninguém menos do que Fujio Akatsuka – criador de clássicos do gag mangá como Tensai Bakabon e membro dos legendários habitantes do Tokiwa-So que, ao lado de Osamu Tezuka, difundiriam a estética dos mangás em diversas frentes. Tsutomu estreou durante o seu segundo ano colegial e seria conhecido como um dos "quatro protegidos de Akatsuka", aparentemente estando destinado a fama; ganhou o prêmio de novos talentos do almanaque para garotos Shonen Jump em 1968, inclusive. Mas, uma vez estabelecido no mercado, decidiu trazer seu irmão mais novo, Mitsuru, de sua cidadezinha do interior e apresentá-lo como uma nova estrela do mundo dos gag mangás. Mitsuru já havia estreado em histórias curtas publicadas com o aval de Osamu Tezuka na sua antologia experimental COM, mas só estrearia profissionalmente de verdade com a história Kieta Bakuon, publicado numa das muitas derivadas da principal antologia da Shogakukan, a Shonen Sunday semanal.
Só que o destino de Mitsuru não estava no mundo das gags. Em 1981, sua obra encontraria um divisor de águas graças ao mangá que talvez melhor represente o senso comum do japonês padrão, Touch. Dele, já falei longamente neste blog e não acho que seja preciso me deter nesse material mais uma vez. O fato é que Touch colocou Mitsuru em um panteão dos grandes quadrinhistas japoneses do qual ele jamais sairia, com uma linguagem narrativa simultaneamente tradicional e inovadora. Até hoje, com uma narração visual aparentemente "quadradinha", ele impressiona mais do que muito piloto da narrativa ousada que chuta baldes nas revistas Shonen Jump e Shonen Magazine da vida. Em 2008, a Shonen Sunday – casa editorial dos trabalhos do autor – dedicou a 26ª edição do ano a comemorar os 200 milhões de exemplares vendidos de toda a obra do autor até os dias de hoje. Mesmo hoje ele é sucesso de crítica e público, ganhando prêmios enquanto seus mangás marcam grandes posições nas listas dos mais vendidos.
E Tsutomu? Foi relegado pela história ao papel de irmão de Mitsuru e o sujeito que trouxe o irmão do meio do nada para o estrelato, em um momento que o próprio Mitsuru se sentia frustrado com os mangás. Embora Mitsuru sempre tenha procurado fazer que o trabalho de Tsutomu seja lembrado, o fato é que hoje seu irmão mais velho é uma nota de pé de página na história dessa mídia, tendo morrido em 2004 por conta de um câncer do pâncreas.
Não é a toa que o trabalho de Mitsuru Adachi tenha passado a carregar essa sombra. Se Touch, fruto de uma era em que Adachi tentava se afirmar na profissão, reforça certas posições sobre o papel de uma pessoa na sociedade, Cross Game, sua obra principal no momento, parece questionar essas mesmas posições que Touch estabeleceu, e certas considerações dos personagens parecem farpas dirigidas à própria obra que fez sua fama (há uma sequência em que particularmente adoro, em que a principal personagem feminina de Cross Game, Aoba, deixa bem claro que não dá para levar a sério todas as promessas que uma criança faz – e isso mira na rótula da própria premissa de Touch). Levando em conta o fato de que Tsutomu morreu em 2004, será que suas obras posteriores à data (na época, ele ainda estava produzindo Katsu, que acabaria no ano seguinte) não seriam justamente fruto de um reajuste de idéias e opiniões provocados pela morte do irmão – e por uma possível sensação pessoal de que talvez ele estivesse usurpando o papel do falecido?

Q&A

O primeiro capítulo de Q&A – carro chefe da nova antologia Monthly Shonen Sunday (também conhecida como Gessan) dá a entender que essa é uma possibilidade, e joga novas luzes sobre o trabalho recente do autor. E curiosamente, esse é o trabalho mais voltado à comédia que pude ler de Adachi – como se ele estivesse encarando suas dores com um humor um pouco melhor. Na verdade, de alguma forma ele me remete mais aos trabalhos que me fizeram gostar de Rumiko Takahashi do que a própria produção atual da autora (e olha que já ouvi declarações injustas sobre ele ser meio que um clone do trabalho dela. Nada a ver, mesmo). Q&A em um capítulo se mostrou bem mais enxuto e imediato do que o já inflado Kyokai no Rinne (do qual eu esperava bastante e no final não tinha nada de mais; é o trabalho mais murcho da autora, como se desse continuidade ao nível geral de um Inu-Yasha a partir de seu meio de caminho). Há um motivo simples: Em um movimento atípico de carreira, Adachi mexe com temática sobrenatural. Mas faz sentido: ele já está fazendo um drama de esportes na Shonen Sunday semanal. Não há motivos para ele fazer mais do mesmo, principalmente levando em conta que Cross Game ainda está em produção e não deve acabar tão cedo.
A história é simples e sem complicações: Um garoto, Atsushi Ando, volta a cidadezinha em que morava há seis anos atrás, com sua família, e descobre que as coisas já não são as mesmas – muito por causa da crise econômica atual, que afetou o padrão de vida de todo mundo. O ambiente nostálgico do qual ele se lembrava não está mais lá. Após reencontros acidentais até plausíveis numa cidade que aparenta ser um ovo e onde todo mundo tende a se conhecer, percebemos que parte do que levou a mudança foi justamente a morte do irmão mais velho do protagonista, Hisashi (conhecido por Kyu – a mesma pronúncia da letra Q em inglês). Mas a vida continua e todo mundo parece estar tranquilo.
Menos o próprio Kyu, que permaneceu sozinho em sua casa assombrada por seis longos anos. Agora ele é um fantasma. Literalmente. E para eu não spoilerizar um primeiro capítulo tão bacana, basta dizer que o Kyu desmorto ainda é uma criança e está destinado a criar problemas para a vida do pobre Atsushi – e em suas, hm, "boas" intenções, acabou criando dois desafetos desnecessários para nosso protagonista, inclusive a garota que obviamente vai se tornar interesse amoroso do coitado. Ficou ótimo, e lembra muito o senso de humor do melhor capítulo disparado de Touch, "O Homem com uma Cicatriz sobre o Olho", que funcionou como uma verdadeira declaração de intenções sobre a série. Só que aqui é diferente. Em Touch, o mundo era um lugar a ser mantido puro, precioso e intocado – um celeiro para os bons momentos da juventude. De Cross Game para cá, as imperfeições do mundo parecem ter se tornado uma fonte concreta para dar credibilidade às histórias de Adachi (de uma forma diferente dos seus raros mangás para adultos, como Adventure Boys e Jinbe, que de modo geral lidam com o envelhecimento como fonte de perdas e são muito menos luminosos do que seus materiais juvenis – o que explica porque ele, diferentemente de muitos autores da mesma faixa demográfica, jamais se mudou de mala e cuia para os quadrinhos para leitores maduros).
Q&A está apenas começando, mas sinaliza na atitude moleque de seu protagonista (e não custa dizer, Tsutomu era um autor de gag mangá – talvez a faceta mais anárquica dos quadrinhos japoneses) o que pode estar por vir: um personagem que quer viver a qualquer custo, enquanto Atsushi parece ser apático em comparação, querendo evitar conflitos de toda forma possível – e sem sucesso. Mas a graça do Atsushi é justamente essa, ser o personagem a la Cary Grant em comédias: Ele não é um comediante. Ele é o sujeito comum de quem é extraído humor por ser jogado em péssimos lençóis.
Mas sinceramente esse primeiro capítulo me deu uma impressão positiva, e vou mais longe: se mantiver o tom e o nível, Q&A pode se tornar o melhor introdutório para a obra do autor em um planeta que não orbita em torno de uma bolinha e um taco de beisebol – o maior obstáculo para que seu trabalho seja melhor difundido pelo ocidente. Porque sempre que eu olho um bom mangá de esportes e ele é de beisebol, eu tenho certeza de que ele jamais vai chegar por aqui. E Adachi, justamente pelo seu nível técnico e pelo que ele tem a ensinar em termos de narrativa visual para quem pretende a desenhar mangá um dia, faz falta. E muita.

Q&A


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Comentários, Trackbacks:

Nome: Roberto Faria 31/05/09 09:23
Grande Lancaster, concordo veementemente com seu post. Essa nova obra do velhinho começou muito bem mesmo, e a temática sobrenatural nem é mesmo nova (só precisa-se lembrar de Itsumo Mizora - mas talvez seja melhor não lembrar muito :)), já o humor, por outro lado, está vindo em doses muito bem concentradas.

Agora, quanto a Cross Game... eu acredito que ele esteja bem próximo de acabar. Afinal, os personagens já estão no último ano de escola, no último verão "do Koshien"... não creio que ele vá estender a história além disso. Mas, posso estar errado - e com tantos breaks, quem sabe? :P
Nome: Kaio 31/05/09 09:49
Achei um grande primeiro capítulo, e olha que li antes de dar uma olhada nesse artigo.

Pra quem nunca tinha lido nada do Adachi antes, me surpreendi muito, tanto com a arte quanto com a condução do roteiro.

Funcionou muito bem como capítulo introdutório de tudo que o Adachi já fez, porque depois de Q&A, PRECISO ler as outras obras dele :D
Nome: Valéria Fernandes 31/05/09 01:44
O Shoujo Café recebeu o selo “carmim” e decidi indicar alguns dos melhores blogs que conheço. O seu é um deles. Se quiser saber como funciona, acesse: http://shoujo-cafe.blogspot.com/2009/05/recebemos-o-selo-carmim.html
Nome: Kendier 31/05/09 04:00
O Dotaku recebeu o selo carmim e foi decidido indicar alguns dos melhores blogs que conheço! \o/ O seu é um deles! ;D

Visite o Dotaku para entender como funcionam as regras! ^^

Abração Ninja! o/

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