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Samurai, de Júlio Shimamoto

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Lancaster | PERMALINK | 5

Categorias: mangá global

Quando Yoshihiro Tatsumi cunhou o termo Gekiga (desenhos dramáticos) para se contrapôr ao que o mangá era no agora distante ano de 1957, e poucos anos mais tarde fundaria, ao lado de Tadao Tsuge, Yoshiharu Tsuge, Shiji Takahashi, Iwai Shige e Susumu Yamamori, o grupo de artistas conhecido como Gekiga Kojo, o que se viu foi uma proposta de revolução. Os anos sessenta estavam batendo à porta, e havia uma insatisfação generalizada por uma geração de artistas formados pelo trabalho nos antigos mangás de aluguel, em relação ao cenário mangá de seu tempo, dominado pela padronização da influência de Osamu Tezuka.
O discurso de ruptura desses autores, explosivo e renovador, atraiu muita gente que viria a fazer história, o que tornaria o final dos anos sessenta no Japão um cenário interessantíssimo, de limites a ser testados, de estéticas que entram em conflito – para no final se fundir em algo novo.
No ocidente, ninguém sabia o que estava acontecendo no Japão. Mas nas colônias de descendentes de japoneses ao redor do mundo, havia um esforço de, ao invés de se integrar à cultura do novo país, se manter sintonizado ao que acontecia na terra de origem. Com isso, o impacto do gekiga acabou atingindo justamente os descendentes de japoneses no Brasil, trazendo ao nosso cenário quadrinístico pioneiros como Cláudio Seto, Minami Keizi e – no caso que nos interessa aqui, Júlio Shimamoto.
Agora a EM Editora nos traz uma edição histórica, reunindo boa parte do material feito por Shimamoto em cima do tema samurai – embora o material não seja limitado a eles. E a edição é ilustrativa não apenas das primeiras tentativas de se desenhar segundo a estética japonesa, como também dos rumos tomados por essa geração ao esbarrar com a incompreensão editorial, fazendo com que esse preâmbulo do que seria o mangá global acabasse não dando em nada.
Antes de falar do material em si, é importante falar do maior defeito da edição. Ela é graficamente correta, de acordo com os padrões atuais de nosso mercado: o mesmo formato de fumettis (quadrinhos italianos) como Tex e Zagor – que não é um formato mercadologicamente muito diferente do formato editorial dos mangás no Brasil. 196 páginas, capa cartonada, papel pisa brite, etc.... mas as histórias estão publicadas fora de ordem cronológica, sem nem ao menos datas de publicação original.
Para uma edição cujo maior atrativo é histórico, essa é uma omissão no mínimo criminosa.
As histórias mais antigas são, sem dúvida, as mais interessantes – sendo as melhores, as roteirizadas por Jorge Yoshita (que sempre inclui nos créditos seu Dan no estilo de arte marcial que pratica) e por Hayle Gadelha, que a partir de certo ponto também adiciona sua graduação em judô e aikidô. Aliás, fala-se tanto dos artistas na história dos quadrinhos nacionais que se omite gritantemente a importância de quem roteiriza em muitos casos. E já passou da hora de se resgatar a importância do roteirista nos quadrinhos nacionais.
Mas o que torna esses materiais visivelmente mais antigos interessantes são sua sintonia com o trabalho de pessoas como Sampei Shirato (influência visível no trabalho de Shimamoto), não apenas esteticamente, mas de forma temática.
A história que abre o volume, Tetsu, é um exemplo perfeito: como se refletisse a percepção realista de um país que se levantava a duras penas (algo claramente visível no trabalho de um autor como Yoshihiro Tatsumi, que funciona como um cronista sem retoques ou piedade daquele período), o texto de Yoshita não apenas desmitifica a vida do japonês da época, mostrando uma realidade difícil para aqueles que nela viviam, como também usa esse recurso para traçar um paralelo com a realidade Brasileira do período, abaixo dos radares da ditadura. Bola dentro.
Shimamoto nunca se furtou a lidar com temas brasileiros – basta se lembrar das tiras de O Gaúcho – mas sempre soube do que falava quando o assunto eram samurais. Isso é parte do seu histórico familiar: ele é descendente da uma família de samurais aristocratas japoneses, que entraram em declínio. Muitas das histórias do gênero narradas em seus quadrinhos lhe foram transmitidas ainda na infância. Mas o fato dele ter sido criado em uma área de conflitos rurais nas proximidades de Mato Grosso, de acordo com o próprio, foi fundamental para seu trabalho: não custa lembrar que Samurais e conflitos de terra são temas que andam juntos. Identificação é tudo.
Dentro da premissa, a história que traz o melhor exemplo narrativo dessa influência visual japonesa, ao lado de "A Volta do Samurai" – é a história "O Ermitão", que na verdade é um conto filosófico sobre vingança e auto-aprendizado. O ponto alto do volume, se valendo bem de texto e narrativa para contar a história de um homem que treina com um mestre de artes marciais para vingar a destruição de sua família – mas seu treinamento acaba levando tempo demais.
No entanto, nem todo o material nessa edição é característico do Gekiga. Muita coisa veio de revistas de terror como a Spektro, e tem a compressão narrativa tradicional das histórias curtas da E. C. Comics dos anos cinquenta. Hoje, me pergunto o quanto esse formato editorial não foi responsável pelo emparedamento criativo de muita gente boa. A E. C. foi importante nos anos cinquenta? Sim, mas seu formato narrativo se tornou ultrapassado. Bola para frente.
O fato é que de acordo com a declaração de autores do período, os editores brasileiros reagiram com estranheza ao traço com influência japonesa, evitando que se pudesse ter uma experiência plena com a estética. Os artistas tiveram que se descaracterizar muitas vezes para que fossem publicados.
Além do mais, mangá é uma estética cuja pedra fundamental está em sua narrativa visual, de baixa densidade e linguagem cinematográfica. Não dá para se fazer mangá de verdade em histórias curtas de onze páginas – leia-se, não havia espaço editorial para que eles desenvolvessem plenamente a influência estética que carregavam, e esse volume acaba mostrando bem esse processo de esvaziamento do mangá: Logo em seguida ao sólido conto de vingança de "Tetsu", somos brindados com "Possessão Diabólica" uma história tradicional de terror como eram publicadas nas Spektro da vida. Ela abre com sequências inteiras no formato básico de seis quadros por página e é essa a sua matriz – apesar de lampejos de brilho narrativo como a sequência de decapitação de um mestre espadachim.
Não é de se admirar que o esforço conjunto de autores como Shimamoto e Keizi tenha acabado por morrer na praia. Eles tinham a visão, mas ela não se concretizou – ou seja, parte do valor histórico desta edição passa tanto pelas raízes da influência gekiga quanto por ilustrar sua diluição e desaparecimento.
Aos que vieram antes, obrigado. Se podemos falar de mangá global nos dias de hoje, eles são um lembrete de que trabalhar na estética fora do Japão não é "moda" ou "imitação de mangá" ou "oportunismo". Falamos aqui de autores que responderam a chamada às armas de um movimento estético, antes mesmo que houvesse janela para ele no ocidente.
Mas temos que lembrar que esse foi um processo que não teve continuidade. Assim como a geração do rock progressivo brasileiro foi um evento isolado que se fechou em si, e o rock brasileiro como conhecemos nasceu da influência direta do pós-punk britânico do final dos anos setenta e começo dos anos oitenta, o mangá brasileiro foi fruto do choque de Cavaleiros do Zodíaco nos anos noventa, e das revistas informativas como a Herói em nosso mercado. O processo foi muito similar, e não há como considerar a ambos como diferentes etapas de um mesmo processo: se tratam de eventos diferentes, nascidos em circunstâncias diferentes.
Talvez seja bom que caiba a nós reinventar a roda, e quando o que esta geração fizer levar a alguma coisa – com todo respeito aos pioneiros – isso será mérito dela e apenas dela. Mas é preciso mais do que fazer clones de Naruto ou de alguma série da Clamp para se chegar aonde os primeiros não alcançaram.
Que fique o registro dos que atenderam ao chamado e tombaram em combate.


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Comentários:

Nome: Jussara Gonzo 31/01/11 10:30
Fiquei surpresa ao descobrir que você tinha resenhado este "mangá nacional". Eu lembro quando o comprei, mas hoje já dei Samurais embora, por mais cruel que isso soe - principalmente após este seu relato.

Conheci o trabalho do Shimamoto numa edição especial publicada pela falecia Opera Graphica, com quatro histórias curtinhas de terror. Na época seu traço me pareceu fabuloso, mas hoje em dia eu apenas respeito como "um bom traço, competente dentro seu estilo, mas que não mais me apetece".

A minha principal crítica é que, realmente, tudo pareceu demasiadamente retrô neste Samurais. E realmente as informações básicas sobre data de lançamento de cada história e tals fizeram falta. Mas, o pacote em si, realmente era MUITO intragável! Teve apenas umas duas ou três histórias que achei bacanas, e olha que tive que botar um grande filtro de compaixão, entendendo que eu estava lendo material antigo.

Outra coisa que me irritou foi o exagerado purismo em manter os palavrões censurados (não pelo palavrão em si, claro, mas pelo purismo histórico desnecessário). Sim, sei que existem muitas "camadas" a serem estudadas nesta obra... mas, na minha opinião, esta e a grande merda quando se tenta emplacar material nacional: o publico médio NÃO ESTÁ interessado em decifrar estas camadas (pelo menos não num primeiro momento), quer apenas uma leitura agradável que o entretenha.

Claro, imagino que havia um grande senso de identidade em se colocar os dans de cada arte marcial de cada roteirista naquela época (e concordo com você, no Brasil, roteirista é tratado que nem lixo! De um jeito muito pior que os desenhistas!), mas para mim me soou como uma tremenda empáfia.

Infelzimente faltoua este material uma dedicação um pouquinho maior para torná-lo masi tragável aos dias de hoje (alguém pensou em letreiramente digital?), mas que deve ter sido renegado para se conservar a "pureza".

E embora eu respeite muito o senhor Shimamoto (alias, o que ele anda fazendo?), a Lei de Seleção Natural é cruel e verdadeira: não tinha como este "A Cripta do Samurai" vingar mesmo nas nossas terras... nem nos anos 60, nem hoje.
Nome: Jet Fidelis 07/02/11 08:20
Shimamoto com certeza é o expoente máximo quando falamos da velha guarda do mangá (ops, genkiká;). O mestre me influênciou muito mais do que o próprio Maurício de Souza (não taquem pedras, meninos!). E acho que poderia ter maior reconhecimento hoje em dia! Gerações deveriam mais ter sua aspirações nesse icone brasileiro, um verdadeiro precursor da obra brasil-nipônica.

Quem não conhece o trabalho dele e que ser aspirante a quadrinista, deveria parar agora e procurar algo do mestre Shima urgente. Recomendo Musashi 1 e 2.

Tenho orgulho não só ser um fã, mas também um amigo do mestre Shima. O verdadeiro samurai da pena!
Nome: Quiof 10/02/11 09:26
eu comprei em sebo essa edição pela metade do preço, algumas histórias já tinha saído naquelas antologias que o Franco de Rosa fazia na Escala.

só uma informação, o Shimamoto não teve seu primeiro contato com Quadrinhos japoneses, ele cita o Lobo Solitário e termo gekigá em entrevista:
O primeiro contato com quadrinhos foi através da tira Mutt & Jeff, na época, publicada no jornal O Estado de S. Paulo. Certo dia, junto com os jornais que seu pai pegava na comarca mais próxima, todos os fins de semana, vieram três revistas em quadrinhos "com cheirinho agradável de impressão", admite o criador. As três eram da Marvel, uma com o Capitão América e seu parceiro Buck lutando contra soldados nazistas; outra com o Tocha Humana e seu companheiro Centelha jogando bolas de fogo sobre alguns gângsteres; e a última com o Príncipe Namor brigando contra os japoneses. Obviamente, Shimamoto não gostou desta, e resolver criar sua própria revista. Usava papel de embrulho e partes brancas de jornais para criar histórias de soldados japoneses derrubando os americanos. Por três anos, essa foi sua principal forma de diversão. Quando não tinha papel, desenhava em chão de terra, com pedaços de gravetos.


http://www.universohq.com/quadrinhos/shimamoto_bio.cfm
Na infância,quais os personagens de HQ que você mais gostava?Quais os artistas que mais te influênciaram?

Super-heróis e cowboys(este último, por eu ser caipira do interiorzão de São Paulo, próximo ao Mato Grosso.E eu adorava cavalgar.Eu era fissurado nos dinâmicos traços de Sid Shores (que influênciou Jack Kirby e John Buscema).Ele desenhou Capitão América nos anos 40 e os cowboys Bill Dinamite e Cavaleiro Negro,nos anos 50.A dinâmica dos meus traços têm DNA do estilo de Sid.

http://br.oocities.com/ademirdepaula/shimamoto.html

http://br.oocities.com/ademirdepaula/shimamoto.html
é um autor que deveria ser mais falado, ele já fez de tudo um pouco (menos quadrinhos infantil).

taí uma pergunta que nunca vi fazerem a ele quando ele teve contato com os quadrinhos do Japão.

segundo o site da Abrademi, ele esteve presente na exposição sobre o Tezuka no MASP:
A Fundação Japão levou-o ao hotel e depois para as visitas programadas. A exposição de Osamu Tezuka fora aberta na noite do dia 27 de setembro de 1984, no Masp, com grande sucesso. Pela primeira vez estavam reunidos os trabalhos dos desenhistas brasileiros de HQ, como Maurício de Sousa, Eugênio Colonnese, Jayme Cortez, Cláudio Seto, Edmundo Rodrigues, Paulo Fukue, Watson Portela, Roberto Kussumoto, Seabra, Shimamoto, Vilachã, Rodval Matias, Michio Yamashita, Jorge Kato, Ofeliano de Almeida, Gedeone Malagola, Mozart Couto, Rodolfo Zalla, Rubens Cordeiro, Roberto Fukue, Flávio Colin, Franco de Rosa, Drago, Kimil Shimizu, Paulo Paiva, Gustavo Machado, Novaes, Ely Barbosa, Bilau, Drago, Jonas Schiafino, Toni Fernandes, e Eduardo Vetillo. Wilson Iguti participou com sua exposição de esculturas e modelos utilizados para fabricação de brinquedos licenciados de personagens de HQ.

outra pergunta pertinente é se realmente o Sampei Shirato conhecia os quadrinistas nipo-brasileiros como dizia o Claudio Seto:
O mestre Sanpei era muito atencioso, me deu vários livros de manga, inclusive quando eu tinha voltado ao Brasil ele -me enviou os novos mangas que estava publicando. Em retribuição enviei a ele várias revistas de quadrinhos que foram publicados no Brasil, principalmente da Editora Outubro e La Selva. Como eu tinha enviado uma carta dizendo do pacote que eu estava enviando, inclusive que tinha trabalhos de nipo-brasileiros como Julio Shjimamoto, Shiozo Tokutake, criou certa expectativa, e quando o mestre recebeu ficou muito decepcionado. Depois ele me escreveu dizendo que “esperava ver desenhos diferentes, próprios de brasileiros, mas é igualzinho dos americanos”.

http://grafipar.blogspot.com/2006/12/entrevista-com-cludio-seto.html
Nome: Quiof 12/02/11 12:08
esqueci de postar esse trecho da entrevista do Geocities.
Você sempre foi um artista de vanguarda, buscando novos caminhos tanto na narrativa como nos desenhos, por isso eu acho que seu trabalho têm paralelo com o de Frank Miller. O que acha do trabalho dele, principalmente em "Ronin"?

Vou confessar que não gosto de Frank Miller, a não ser no início de seu trabalho com o Demolidor, que deu uma oxigenada na maneira de narrativa gráfica e de texto no universo de super-heróis Detestei "Ronin", mas aplaudo seu grande mérito em ter descoberto"Lobo Solitário", um gekigá(não mangá;)japonês,uma obra-prima inconteste.

Qual sua opinião sobre o trabalho "O Lobo Solitário"?

Verdadeira obra-prima.Inimitável, quanto ao desenho e ao roteiro. Sem dúvida, o personagem é inspirado no Miyamoto Musashi, com colagens de um ou outro samurai que realmente existiu. O Ito Ogami é um persongem denso, que segue seu destino com seu filho Daigoro, pronto para cruzar a qualquer momento a fronteira do inferno.


essa EM Editora na verdade é um selo da Mythos:

http://universohq.com/quadrinhos/2007/n06092007_09.cfm
Nome: Quiof 21/03/11 10:41
animação do Shimamoto vai virar curta de animação:
http://www.jblog.com.br/quadrinhos.php?itemid=26195

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