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Abr 20
Samurai, de Júlio Shimamoto
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Categorias: mangá global
Quando Yoshihiro Tatsumi cunhou o termo Gekiga (desenhos dramáticos) para se contrapôr ao que o mangá era no agora distante ano de 1957, e poucos anos mais tarde fundaria, ao lado de Tadao Tsuge, Yoshiharu Tsuge, Shiji Takahashi, Iwai Shige e Susumu Yamamori, o grupo de artistas conhecido como Gekiga Kojo, o que se viu foi uma proposta de revolução. Os anos sessenta estavam batendo à porta, e havia uma insatisfação generalizada por uma geração de artistas formados pelo trabalho nos antigos mangás de aluguel, em relação ao cenário mangá de seu tempo, dominado pela padronização da influência de Osamu Tezuka.
O discurso de ruptura desses autores, explosivo e renovador, atraiu muita gente que viria a fazer história, o que tornaria o final dos anos sessenta no Japão um cenário interessantíssimo, de limites a ser testados, de estéticas que entram em conflito – para no final se fundir em algo novo.
No ocidente, ninguém sabia o que estava acontecendo no Japão. Mas nas colônias de descendentes de japoneses ao redor do mundo, havia um esforço de, ao invés de se integrar à cultura do novo país, se manter sintonizado ao que acontecia na terra de origem. Com isso, o impacto do gekiga acabou atingindo justamente os descendentes de japoneses no Brasil, trazendo ao nosso cenário quadrinístico pioneiros como Cláudio Seto, Minami Keizi e – no caso que nos interessa aqui,
Júlio Shimamoto.
Agora a EM Editora nos traz uma edição histórica, reunindo boa parte do material feito por Shimamoto em cima do tema samurai – embora o material não seja limitado a eles. E a edição é ilustrativa não apenas das primeiras tentativas de se desenhar segundo a estética japonesa, como também dos rumos tomados por essa geração ao esbarrar com a incompreensão editorial, fazendo com que esse preâmbulo do que seria o mangá global acabasse não dando em nada.
Antes de falar do material em si, é importante falar do maior defeito da edição. Ela é graficamente correta, de acordo com os padrões atuais de nosso mercado: o mesmo formato de fumettis (quadrinhos italianos) como Tex e Zagor – que não é um formato mercadologicamente muito diferente do formato editorial dos mangás no Brasil. 196 páginas, capa cartonada, papel pisa brite,
etc.... mas as histórias estão publicadas fora de ordem cronológica, sem nem ao menos datas de publicação original.
Para uma edição cujo maior atrativo é histórico, essa é uma omissão no mínimo criminosa.
As histórias mais antigas são, sem dúvida, as mais interessantes – sendo as melhores, as roteirizadas por Jorge Yoshita (que sempre inclui nos créditos seu Dan no estilo de arte marcial que pratica) e por Hayle Gadelha, que a partir de certo ponto também adiciona sua graduação em judô e aikidô. Aliás, fala-se tanto dos artistas na história dos quadrinhos nacionais que se omite gritantemente a importância de quem roteiriza em muitos casos. E já passou da hora de se resgatar a importância do roteirista nos quadrinhos nacionais.
Mas o que torna esses materiais visivelmente mais antigos interessantes são sua sintonia com o trabalho de pessoas como Sampei Shirato (influência visível no trabalho de Shimamoto), não apenas esteticamente, mas de forma temática.
A história que abre o volume, Tetsu, é um exemplo perfeito: como se refletisse a percepção realista de um país que se levantava a duras penas (algo claramente visível no trabalho de um autor como Yoshihiro Tatsumi, que funciona como um cronista sem retoques ou piedade daquele período), o texto de Yoshita não apenas desmitifica a vida do japonês da época, mostrando uma realidade difícil para
aqueles que nela viviam, como também usa esse recurso para traçar um paralelo com a realidade Brasileira do período, abaixo dos radares da ditadura. Bola dentro.
Shimamoto nunca se furtou a lidar com temas brasileiros – basta se lembrar das tiras de O Gaúcho – mas sempre soube do que falava quando o assunto eram samurais. Isso é parte do seu histórico familiar: ele é descendente da uma família de samurais aristocratas japoneses, que entraram em declínio. Muitas das histórias do gênero narradas em seus quadrinhos lhe foram transmitidas ainda na infância. Mas o fato dele ter sido criado em uma área de conflitos rurais nas proximidades de Mato Grosso, de acordo com o próprio, foi fundamental para seu trabalho: não custa lembrar que Samurais e conflitos de terra são temas que andam juntos. Identificação é tudo.
Dentro da premissa, a história que traz o melhor exemplo narrativo dessa influência visual japonesa, ao lado de "A Volta do Samurai" – é a história "O Ermitão", que na verdade é um conto filosófico sobre vingança e auto-aprendizado. O ponto alto do volume, se valendo bem de texto e narrativa para contar a história de um homem que treina com um mestre de artes marciais para vingar a destruição de sua família – mas seu treinamento acaba levando tempo demais.
No entanto, nem todo o material nessa edição é característico do Gekiga. Muita coisa veio de revistas de terror como a Spektro, e tem a compressão narrativa tradicional das histórias curtas da E. C. Comics dos anos cinquenta. Hoje, me pergunto o quanto esse formato editorial não foi responsável pelo emparedamento criativo de muita gente boa.
A E. C. foi importante nos anos cinquenta? Sim, mas seu formato narrativo se tornou ultrapassado. Bola para frente.
O fato é que de acordo com a declaração de autores do período, os editores brasileiros reagiram com estranheza ao traço com influência japonesa, evitando que se pudesse ter uma experiência plena com a estética. Os artistas tiveram que se descaracterizar muitas vezes para que fossem publicados.
Além do mais, mangá é uma estética cuja pedra fundamental está em sua narrativa visual, de baixa densidade e linguagem cinematográfica. Não dá para se fazer mangá de verdade em histórias curtas de onze páginas – leia-se, não havia espaço editorial para que eles desenvolvessem plenamente a influência estética que carregavam, e esse volume acaba mostrando bem esse processo de esvaziamento do mangá: Logo
em seguida ao sólido conto de vingança de "Tetsu", somos brindados com "Possessão Diabólica" uma história tradicional de terror como eram publicadas nas Spektro da vida. Ela abre com sequências inteiras no formato básico de seis quadros por página e é essa a sua matriz – apesar de lampejos de brilho narrativo como a sequência de decapitação de um mestre espadachim.
Não é de se admirar que o esforço conjunto de autores como Shimamoto e Keizi tenha acabado por morrer na praia. Eles tinham a visão, mas ela não se concretizou – ou seja, parte do valor histórico desta edição passa tanto pelas raízes da influência
gekiga quanto por ilustrar sua diluição e desaparecimento.
Aos que vieram antes, obrigado. Se podemos falar de mangá global nos dias de hoje, eles são um lembrete de que trabalhar na estética fora do Japão não é "moda" ou "imitação de mangá" ou "oportunismo". Falamos aqui de autores que responderam a chamada às armas de um movimento estético, antes mesmo que houvesse janela para ele no ocidente.
Mas temos que lembrar que esse foi um processo que não teve continuidade. Assim como a geração do rock progressivo brasileiro foi um evento isolado que se fechou em si, e o rock brasileiro como conhecemos nasceu da influência direta do pós-punk britânico do final dos anos setenta e começo dos anos oitenta, o mangá brasileiro foi fruto do choque de Cavaleiros do Zodíaco nos anos noventa, e das revistas informativas como a Herói em nosso mercado. O processo foi muito similar, e não há como considerar a ambos como diferentes etapas de um mesmo processo: se tratam de eventos diferentes, nascidos em circunstâncias diferentes.
Talvez seja bom que caiba a nós reinventar a roda, e quando o que esta geração fizer levar a alguma coisa – com todo respeito aos pioneiros – isso será mérito dela e apenas dela. Mas é preciso mais do que fazer clones de Naruto ou de alguma série da Clamp para se chegar aonde os primeiros não alcançaram.
Que fique o registro dos que atenderam ao chamado e tombaram em combate.
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