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Mar 06
Novo Filme de Crows Zero na Capa da Shonen Champion
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Lancaster |
PERMALINK |
3
Categorias: Crows
Pode parecer arrogância ou preconceito, mas não é: americanos não sabem trabalhar direito o conceito de "intercambialidade de mídias". Por mais que hajam diferenças necessárias para que se traga um material de uma mídia para outra, há um consenso de que o filme ou animação baseado em quadrinhos vende os próprios quadrinhos em si. Essa dinâmica é parte do que ajuda a transformar o mercado nipônico na maior força editorial do mundo: um anime é na verdade um grande anúncio dos quadrinhos espalhados em todos os pontos de venda. Logo, é importante que apesar dos ajustes aqui e ali, haja um mínimo de fidelidade. Nos Estados Unidos, entretanto, para que haja um Senhor dos Anéis ou um Watchmen, é preciso uma verdadeira queda-de-braço da parte dos envolvidos na adaptação contra os executivos americanos de cinema, que a bem da verdade, não entendem droga nenhuma sobre adaptações – se pensarmos bem, os Cavaleiro das Trevas e Homem de Ferro ainda são raros. Eu particularmente não entregaria minha franquia, digamos, à Fox, por nenhum dinheiro desse mundo: filmes como Liga Extraordinária, Elektra, Demolidor e o vindouro Dragon Ball apenas mostram que eles podem afundar financeiramente o material de origem a longo prazo caso ele não tenha uma boa base de leitores, de antemão, que saiba como a banda realmente toca e possa ajudar a fazer o controle de danos ao longo do tempo (convenhamos, algum de vocês gastaria seu dinheiro com o volume grosso, em capa dura, da Liga Extraordinária de Moore e O'Neill caso a única referência que tivessem do material fosse aquele filmezinho de enésima oitava categoria?).
Por que estou falando isso? Porque na última edição da antologia semanal para garotos Shonen Champion, da Akita Shoten,
a capa é estampada com o elenco do segundo filme da série Crows Zero, baseada no mangá Crows, de Hiroshi Takahashi. Crows é um mangá sobre gangues de delinquentes em uma escola tremendamente barra-pesada num universo quase que exclusivamente masculino (a continuação, Worst, radicalizaria isso: não há UMA mulher no mangá, e pior, dentro do contexto faz sentido. E não, não é mangá de boiola, nem de longe). Crows Zero e Crows Zero II são prelúdios cinematográficos do quadrinho original, orquestrado pelo diretor Takashi Miike – e quem conhece o nome sabe que ele oferece bizarrice sim, mas bizarrice de alto nível.
E claro, a Shonen Champion se vale disso para vender sua revista. Se você apresentar sua edição até o dia 18 de Março aos devidos locais autorizados, você poderá assistir as estréias em Tokyo, Osaka, Nagoya, Hokkaido e Fukuoka.
O número de ingressos é limitado, então quem estiver no Japão nesse momento e tiver interesse, pegue a sua Champion e se mexa.
O detalhe é que Crows é uma série que já foi concluída, mas permanece nas livrarias japonesas, pronta para ser comprada a longo prazo. É a vantagem de se ter um produto de longa exposição, com tiragens menores após sua época de serialização e lançamento. Não há tanta relação entre Crows Zero e Crows, assim como não há entre Crows e Worst, além do cenário em si e alguns personagens fixos. Mas não há contradição: são produtos diferentes que se complementam, e impulsionam uns aos outros. E há a consciência do quadrinho como produto a ser divulgado, valorizado e vendido – consciência que ajuda a tornar o mercado japonês aquilo que ele é. Nos Estados Unidos, no entanto, não há esse senso de integração – e isso é uma via de mão dupla: quem ficou empolgado com o
Cavaleiro das Trevas no cinema e nunca viu um filme do Batman, e decidiu comprar seu primeiro gibi do personagem na vida, deu de cara com o morcegão vestindo um traje amarelo, roxo e vermelho – em uma história que não faz o mínimo sentido a não ser para teóricos da pós-modernidade. Não há a consciência de integração de produtos: se Watchmen caísse nas mãos de, digamos, Joel Schumacher, a DC não apitaria um dedo. O mérito todo é de Snyder e do roteirista Hayter por brigar pela fidelidade ao material de Moore. Um tipo de briga que não acontece do outro lado do mundo.
Não pensem que eu odeio quadrinhos americanos. Na verdade, por mais que eu goste de mangá, ler só um tipo de quadrinhos limita seu leitor e eu tenho consciência disso. Mas no atual contexto, prefiro a simplicidade dos Worst e Crows do que os exercícios de informação cruzada multi-referencial que se tornaram os quadrinhos mainstream americanos dos dias de hoje. E nesse contexto, dá para entender porque o mangá tomou as livrarias de assalto na terra do Tio Sam.
Bom, a DC ainda publica Jonah Hex – ao menos isso. E ao invés de fazer um filme que reflita os (bons) quadrinhos publicados agora, vão fazer uma maldita versão sobrenatural do personagem no cinema, quando essa idéia imbecil já tinha sido deixada de lado...
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Comentários:
Agora eu imagino o que um material bem trabalhado como esse não poderia fazer no Brasil.
++
Alexandre: não, não são. Há pessoas talentosas e esforçadas por lá – mas os executivos americanos sempre impõem regras estúpidas e geram quedas de braço criativas que acabam por ferrar o trabalho dos sujeitos. E dê uma olhada nesse meu artigo sobre Oban Star-Racers AQUI: você vai descobrir que os executivos japoneses podem ser bem idiotas também...
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