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Mar 02

Ranking da Taiyosha (JP) – 01/03/2009

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Lancaster | PERMALINK | 2

Categorias: rankings

Quadrinhos para garotos à parte, não há como negar: quem apita esta semana são os seinens – os quadrinhos para jovens adultos, em faixa universitária – basta lembrar que de modo geral os principais hits da lista geral esta semana vem da lista seinen, não da shonen. O destaque indubitável é o mais recente volume de Pluto, de Naoki Urasawa – que provavelmente é o maior quadrinhista vivo em atividade no Japão neste momento. Os quadrinhos shonen estão em meio a uma semana fraquinha como há muito não acontecia – a quantidade de produtos otakus aqui é anormal para essa categoria. Mas podia ser pior, muito pior – afinal de contas o campeão da categoria é Keroro Gunso, de Mine Yoshizaki. Mas Keroro Gunso seria de fato um shonen?

Shonen/Para garotos

01. Keroro Gunso 18 (Kadokawa)
02. Nusunde Lilith 3 (Square Enix)
03. Negima 25 (Kodansha)
04. Pani Poni 11 (Square Enix)
05. Guyver 26 (Kadokawa)
06. Teruteru Tenjin Toori 3 (Kadokawa)
07. Major 71 (Shogakukan)
08. Sakura Taisen 9 (Kodansha)
09. Ratman 4 (Kadokawa)
10. Tsukiyo no Fromage 1 (Kadokawa)

Seinen/Para Jovens Adultos

01. Pluto 7 (Shogakukan)
02. Sekirei 8 (Square Enix)
03. To Aru Kagaku no Choudenjibou 3 (Kadokawa)
04. Vinland Saga (Kodansha)
05. Historie 5 (Kodansha)
06. Sumomomo Momomo 12 (Square Enix)
07. K-On! 2 (Hounbunsha)
08. Ichigo Mashimaro 2 (Kadokawa)
09. XXXHolic 14 (Kodansha)
10. Team Medical Dragon (Shogakukan)

O pior é que acredito que não. É conveniente adotar a idéia de que se sai numa revista shonen é shonen, se sai numa revista shoujo é shoujo, mas isso ignora o fato de que muitas vezes uma revista adota materiais que não caem nesse fator demográfico, para tentar absorver mais leitores. Keroro Gunso é um quadrinho infantil típico e com certeza está na antologia Shonen Ace para tentar atrair leitores mais jovens – e não custa lembrar que as principais premiações que o material conquistou foram justamente como material kodomo (para crianças). Não há muito o que falar sobre a série: sapos alienígenas fazem parte de uma iniciativa de invasão à Terra. Tudo sai errado e agora eles tem que viver na casa de uma menina comum que tem que colocar ordem no caos provocado pela trupe. O motivo pelo qual essa série caiu nas graças de leitores mais velhos é uma só: boa parte das piadas são referenciais e embora elas tendam a funcionar para quem está no escuro, um adulto pode curtir muito bem as citações embutidas no pacote. De quebra, é um material simpático. Os outros dois destaques da lista shonen – levando em conta que os materiais mais de massa já estavam lá de listas anteriores e agora vivem sua fase decrescente – são Sakura Wars (em tom de despedida, com o cancelamento da Magazine Z aonde ela estava sendo publicada), e, no melhor estilo "quem é vivo sempre aparece", ninguém menos do que Guyver.
Confesso que tive uma surpresa ao saber que Guyver ainda está em publicação. Criado por Yoshiki Tayaka em 1985, a série basicamente é o típico plot à la Kamen Rider onde jovem se funde a armadura viva e tem que enfrentar o império do mal da vez (no caso a Corporação Cronos), que manda sempre algum vilão de armadura (no caso os Zoanóides) um a um contra nosso herói, com direito a inimigo que se torna aliado, mocinha eternamente sequestrada... Do jeito que falo parece que eu estou ironizando, mas sinceramente você não pode nem deve encarar esse tipo de material a sério: aceite tudo com o devido senso de proporção e absurdo, e você irá se divertir muito. Quanto a Sakura Wars, o material é baseado em uma série de videogames muito bem sucedida no Japão e embora tenha uma execução meio irregular, tem idéias muito interessantes. A trama geral se passa em um universo aonde a Primeira Grande Guerra não aconteceu – na década de 1910, sofremos uma invasão demoníaca interdimensional, o que mudou radicalmente o rumo dos fatos. Estamos em 1922, mas os "anos loucos" não aconteceram. Pelo contrário, a vitória da humanidade contra os demônios com a tecnologia do vapor reforçou o status quo dessas nações e meio que preservou algo de belle époque no cenário, mas tornou essa tecnologia muito mais onipresente na vida do cidadão comum – sem falar da importância dada ao espiritual daqui para a frente,fundamental para a manipulação daquela que é a linha de frente dos humanos contra os demônios: as armaduras de combate parte movidas a vapor, parte movidas à energia espiritual. No entanto, essa energia espiritual é encontrada em um homem a cada quatro mulheres, e o resultados são batalhões inteiros de moças que pilotam robôs, aqui comandadas por um homem. As inúmeras séries baseadas no conceito tendem a ser um festival de boas idéias mas que nem sempre são bem exploradas. A primeira série de OAV tende a ser particularmente confusa para quem não encarou os jogos de videogame. Mas eu particularmente duvido que não vejamos mais mangás da franquia em breve. Ela é muito popular.
Como de resto a lista shonen está dominada por alguns títulos meio suspeitos, como o abominável Tsukiyo no Fromage (o que dizer sobre um mangá sobre um garoto que viaja para o mundo mágico dos jogos eróticos, tem o sexo trocado e convive com adoráveis garotinhas com tendência ao lesbianismo platônico?), Pani Poni (melhor nem comentar 2, a missão) e Nusunde Lilith (melhor nem comentar MESMO), melhor partir logo para a lista Seinen, que veio com tudo: apesar da cota obrigatória de moezices como o hediondo Ichigo Mashimaro, ela conta com quatro títulos de altíssimo nível: Pluto, Vinland Saga, Historie e Team Medical Dragon. Só eles já valem a semana como um todo.
Pluto é Naoki Urasawa no seu melhor: uma revisitação da clássica série de Osamu Tezuka, Astro Boy, sob a ótica da ficção científica séria e a partir de um dos arcos históricos mais memoráveis da série: "O Maior Robô do Mundo", aonde vários robôs particularmente fortes são assassinados. Aqui, a voz de protagonista é dada a um coadjuvante da história original, o robô-detetive Gesicht. Muito já foi dito sobre esse material, que se encaminha para um final. Team Medical Dragon, por sua vez, vai acabar ganhando um post especial dedicado a ele com certeza – é um material de qualidade e que se presta a mais leituras do que o simples drama hospitalar que parece ser – por ora vou me limitar a falar que mais e mais, ao ler mangás adultos, percebo que muitas vezes a frustração do japonês médio que consome esse tipo de material repousa em uma máquina social gerida por uma gerontocracia; é algo que pode ser visto em títulos tão diferentes quanto Great Teacher Onizuka, Kacho Shima Kosaku, Salaryman Kintaro, Sanctuary e esse Team Medical Dragon – todos eles tem o apelo, cada um à seu próprio modo, de saciar via ficção o anseio por uma nova geração que quebre a espinha de uma sociedade que é apresentada como estagnada e estagnizante, sempre com um personagem que é um corpo estranho e, de alguma forma, fora dessa máquina que tornou gente cheia de potencial nos futuros conservadores dessa estrutura retrógrada por natureza. Team Medical Dragon apresenta esse paradigma dentro do sistema médico. Mas paciência. Esse título merece sua própria quota de atenção com calma.
Vinland Saga, de Makoto Yukimura, e Historie de Hitoshi Iwaaki, são títulos históricos de primeira linha, ambos muito bem cuidados e pesquisados – e mais importante, bem-escritos. Vinland foi publicado inicialmente na antologia para garotos Shonen Magazine da Kodansha, mas rapidamente perceberam que aquele não era o melhor lugar para o material e de lá, a série foi transferida para a antologia para adultos Afternoon, aonde são publicados materiais como Blade – A Lâmina do Imortal, de Hiroaki Samura, e Eden, de Hiroki Endo. A história é ambientada em Danelaw, a parte da Grã-Bretanha dominada pelos descendentes da expansão Viking no século IX, e é conduzida por duas tramas paralelas. A primeira é ficcional: acompanha o protagonista Thorfinn, um jovem nobre do clã Jomsviking, em sua complexa busca por vingança. A outra é histórica e acompanha a ascensão contínua ao poder do príncipe Knut, em disputa com seu irmão Harald pela sucessão ao trono do reino. Há um quê de excessivo nas capacidades de combate dos personagens, mas é preciso lembrar que essa série foi concebida como um material para garotos. E sinceramente, acredito que seja uma ótima leitura para garotos mesmo em uma revista para adultos. Eu pelo menos teria gostado muito na adolescência. :)
Em compensação, talvez esses mesmos garotos não tivessem paciência para Historie, de Hitoshi Iwaki – o mesmo criador de Parasyte. Esse aparentemente é o trabalho dos sonhos do autor: ele vem trabalhado e pesquisado o conceito desde o momento em que se tornou profissional, enquanto produzia outras séries. Esse esforço de anos é visível em cada detalhe. A história é uma biografia de Eumenes de Cárdia, principal secretário e arquivista de Filipe da Macedônia – e de seu sucessor, Alexandre, o Grande. Eumenes se tornaria administrador de territórios do Império Macedônio, e de modo geral ele é mais lembrado pela sua trajetória como líder militar após a morte de Alexandre – mas a história de Iwaki parece querer enfatizar o personagem como a pessoa à frente do seu tempo que ele era, e seu apego ao saber. Ótima leitura, com uma pegada mais intimista, e mesmo o fato de sabermos que tudo isso vai terminar muito mal (Eumenes se revelou um ótimo general, mas nunca foi aceito pelos exércitos macedônios pelo fato de ser de origem grega. Acabou traído, vendido pelos seus próprios homens e morto) não impede que acompanhemos esse material com prazer – ele não mereceu uma indicação ao Ozamu Tezuka Cultural Award à toa. No cômputo dos dados, uma lista seinen que valeu a pena, de verdade, apesar dos Ichigos Mashimaros da vida.


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Comentários:

Nome: Pedro Bouça 02/03/09 11:38
Oba, Alexandre!

Não é a primeira vez que o Iwaaki mostra interesse pela antiguidade clássica.

Ele tem um mangá chamado Heureka (one-shot, acho), que fala do cerco de Siracusa pelos romanos. Foi quando o Arquimedes "estreou" suas máquinas de guerra. Sempre achei um momento bem interessante da História, em que a mente de um gênio esmaga (ao menos por um tempo) as forças de uma potência militar.

No livro sobre mangás da Taschen (que eu tenho) há umas páginas de exemplo. Desenho MUITO bom e tecnicamente preciso. Os romanos até usam as armaduras que tinham realmente na época (você sabe, o estilo Hastati/Princeps/Triari), ao invés do visual de legionário default que todo mundo usa (de Asterix à série Roma), mas é mais adequado às legiões de Trajano e Adriano. Até o Jacques Martin (autor de BD histórica francês muito respeitado por seu trabalho de pesquisa rigoroso) levou uns anos pra se tocar disso em Alix...

Vinland Saga e Pluto vão sair logo na França. Vou pegar com certeza!

Maneiro o blog novo!

Um abraço,
Hunter (Pedro Bouça)
Nome: F/X 03/03/09 09:14
Keroro Gunsou eh shonen, mas o foco da Shonen Ace eh um dos ramos que a Jump e outras revistas shonen nao pegam. A Jump tenta pegar o jovem saudavel. Tem esportes, historias onde a aventura e a vitoria sao marcantes... A Magazine tenta pegar leitores mais velhos, passando de shonen para seinen. A Champion pega os jovens malacos, os mangas sao mais voltados pro pessoal que senta no fundo da sala. A Sunday eh a saudosista, faz mangas pra jovens que em geral, nao sao mais jovens.

A Ace, como eh nova, buscou um publico diferente. Gente saindo do material infantil e otakus mais hardcore. Keroro Gunsou eh os dois.

Alias, Keror eh considerado o novo Doraemon. Nao sei se foi brincadeira, mas ouvi em algum lugar que a KoroKoro, ex antologia chefiada pelo Doraemon iria virar KeroKero, com um certo sapo alienigena no comando.

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