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Fev 22

Qual Será o Futuro dos Mangás no Mercado Americano?

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Lancaster | PERMALINK | 0

Categorias: business

De acordo com a ANN, a distribuidora especializada no mercado direto Diamond está cancelando as solicitações para gibiterias de alguns produtos relacionados ao universo de animes e mangás: DVDs de filmes como One Missed Call, animes como Moribito e seriados como Lobo Solitário; artigos importados como fanbooks de Gurren Lagan e Soul Eater; Revistas como a Protoculture Addicts (que dependem em particular desses pontos de venda) e alguns mangás de editoras menores. Esse na verdade é mais um desdobramento dos atuais rumos da distribuidora Diamond, que impera no mercado direto americano. Mesmo a toda-poderosa Viz foi afetada: A Diamond removeu de suas listas títulos de mangás menos vendidos nas gibiterias, como os shoujos Hana Yori Dango (Boys over Flowers) Crimson Hero e Anatolia Story (Red River), os shonens Detective Conan (Case Closed), Kekkaishi e Whistle, e os seinens Golgo 13, Vagabond e Tough (a lista completa pode ser vista aqui). Isso tudo porque a partir de Janeiro, ela subiu seu mínimo de publicação de US$1500 para US$2500 (multiplicando o número de cópias encomendadas com o preço de capa das publicações), o que prejudicou muitas editoras pequenas.
Ao contrário do que possa parecer, isso causa mais danos ao próprio mercado direto em si do que à indústria de mangás a longo prazo (embora não dê para negar que ela tenha sentido o golpe). Parte do que o ajuda a funcionar repousa nas re-solicitações, especialmente dos encadernados (Trade Paperbacks, melhor conhecidos como TPBs). Explicando: Imagine que uma série de oito volumes já tenha sido concluida e passado do pico de vendas. No entanto, ele continua em catálogo, em tiragens bem menores (porque o grosso de seu público já tem o material). Vamos supor que bem periodicamente seja oferecida para re-solicitação uma tiragem pequena de uma série com poucos leitores – vamos supôr, por exemplo, o Terra E da Keiko Takemiya – um mangá clássico que sai pela editora americana Vertical Inc., numa edição de três volumes. Obviamente não é um best-seller: é um mangá dos anos setenta, com uma qualidade imensa, mas pouco interessante aos meninos que compram Naruto ou as meninas que não perdem um Vampire Knight (o que não deixa de ser irônico, porque ao ler Terra E eu percebo claramente de onde as meninas da Clamp tiraram todos os recursos visuais usados no seu X – e Terra E é MUITO superior a X).
Imaginemos que a Vertical Inc., que já concluiu a série, disponibilize de quatro em quatro meses uma tiragem minúscula de Terra E. É uma série que já tem pouca procura, mas com tiragens minusculas regulares, ela atinge seu publico e pode continuar existindo, vendendo bem (de acordo com sua tiragem) e de forma constante. É esse inclusive o segredo da longa vida de muitos mangás no Japão após sua conclusão: eles podem ter sido encerrados nos anos setenta, mas como ainda há interesse, é possível encontrá-los nas livrarias – sempre em tiragens menores, mas constantes, garantindo que seu público a encontre mesmo hoje em dia. Muitos títulos, inclusive em curso, alcançam vendagens astronômicas porque de pouco em pouco, ao longo dos anos, eles continuaram à disposição e vendendo de pouquinho em pouquinho. Imaginem o quanto Golgo 13 não vendeu em quatro décadas de atividade!
Agora vamos ao mercado americano: não é difícil encontrar um volume encadernado, digamos, de uma minissérie recente como Guerra Civil; mas pedir os encadernados dos X-Men desenhados por Neal Adams nos anos sessenta? Isso já não é material de grande tiragem pela própria natureza. Os lojistas podem pedir material antigo, mas os consumidores precisam saber que a edição existe e está em catálogo. Quanto a mangás... bom, as recentes atitudes da distribuidora Diamond meio que estão enterrando o papel do mercado direto na distribuição desse tipo de publicação.
Só que o grande público dos mangás está nas grandes livrarias, não nas gibiterias.
Na verdade, a grande importância do mangá na dinâmica dos quadrinhos nos Estados Unidos foi ter aberto a porteira das grandes cadeias de livrarias no país, e atingir o grande público, longe das limitações impostas por grupos restritos de leitores (leia-se: os nerds americanos, que tornaram o mercado direto um gueto de fanáticos por cronologias herméticas de super-heróis). É verdade que as vendas de mangá caíram de U$210 milhões em 2007 para U$175 milhões, algo próximo do volume de vendas em 2005, de acordo com matéria no ICV2 mas a própria matéria aponta que houve contração do mercado na segunda metade de 2008, graças à crise. Mas o mercado de graphic novels cresceu mesmo assim, e as quedas foram compensadas. Por outro lado, um artigo na Comic Book Resources aponta para uma lenta queda dos mangás. Sinceramente, não é assim que interpreto – é a falta de uma campanha de marketing que dirija os leitores que abandonam as faixas de idade de uma jump para faixas de leitores mais velhos, coisa que os americanos já estão carecas de reclamar (por outro lado, iniciativas como a da Udon Entertainment, com sua linha de quadrinhos infantis, garantem a introdução de futuros leitores de mangás no mercado. Com certeza serão eles os próximos leitores da Shonen Jump americana. Mas é preciso direcionar os leitores que abandonam as Jumps para os próximos passos de sua vida como consumidores. E isso não está sendo feito).
O mercado direto tem uma estrutura resistente, mas está gradualmente morrendo. Como um amigo inteligentemente comparou, os inúmeros crossovers das grandes editoras de supers equivalem a um remédio que aparentemente melhora a condição de vida do paciente, fazendo-o se levantar e andar, mas destrói os órgãos vitais de quem o usa a longo prazo. Quando vier o ataque final, a dor será muito maior – e não haverá como recuperar o corpo em pedaços. Nesse sentido, quadrinhos americanos lançados diretamente em livrarias podem se tornar realmente ameaças concretas aos mangás. E também há um fator importante: material nacional sempre traz uma dose concreta de identificação para o leitor.
Nesse contexto, faz sentido o súbito interesse da Viz em produzir mangás americanos, mas diferentemente da concorrência, que não tem tido um sucesso particularmente estrondoso, fazê-lo aplicando a metodologia editorial japonesa, com editores lidando diretamente com autores durante a produção. Se isso acontecer e for feito de forma bem-sucedida, pelo visto, 2010 será um ano muito interessante de se acompanhar no mercado.


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