Artigos

Do Crescimento do Mangá Global


Outros Artigos e Reviews de Interesse



Perguntando aos Leitores


Entrevistas


Comentarios Recentes


Posts Recentes



Busca

Fev 19

Entrevista com Naoki Urasawa

Compartilhe: Delicious Digg technorati Stumble Upon

Lancaster | PERMALINK | 4

Categorias: Billy Bat

Naoki Urasawa é um dos artistas mais importantes da atualidade nos mangás. No entanto, aqui no Brasil parece que os leitores não se dão conta de sua importância – basta lembrar das vendagens pífias de Monster, que o puseram na rota de publicações suspensas da editora Conrad. Agora, ele está trabalhando em uma nova obra no Japão: Billy Bat, uma homenagem do ponto de vista dos mangás aos quadrinhos clássicos americanos, em um trabalho que remete à fase detetivesca do Mickey nas mãos do desenhista Paul Murry, mas que vai mais longe e também presta respeito ao Dick Tracy de Chester Gould – ambos frutos de um tempo em que quadrinhos eram leitura de massa nos Estados Unidos, os criadores de tiras de quadrinhos de sucesso eram grandes estrelas (há uma matéria muito interessante sobre isso aqui, e acredito que ela sirva como ponto de partida para um questionamento importante: a tão afamada "era de prata dos super-heróis" era MESMO algo importante ou essa importância é apenas uma reconstrução marketológica de nossos dias, feita por e para nerds, para dar relevância a aquilo que jamais teve nenhuma fora do âmbito infantil, quando os mais importantes quadrinhos de massa americanos estavam nos jornais, o tempo todo, em histórias de gênero que variavam tanto do policial à soap opera, sendo lidos por todos?). Mas Billy Bat é uma história dentro da história, e o verdadeiro foco da trama é a trajetória de Kevin Yamagata, um quadrinhista nipo-americano cujo apartamento é usado por um agente do governo para vigiar os movimentos de um vizinho que possivelmente é um agente comunista. Em todo caso, o jornal japonês Daily Yomiuri – entrevistou o autor por conta deste trabalho (aproveitando para falar um pouquinho sobre o término de Pluto) e estamos traduzindo sua entrevista a partir da edição online em inglês.


Naoki Urasawa se volta à Ficção de Época em seu Novo Trabalho, 'Billy Bat'

Entrevista por Cristoph Mark
Tradução por Alexandre Lancaster

Naoki Urasawa tem tido um ano agitado. Os mangás de Urasawa ganharam miríades de prêmios e venderam mais do que 100 milhões de cópias – aproximadamente uma para cada pessoa no Japão – desde a estréia do autor no ramo em 1983. Em 2009, seu sucesso de crítica 20th Century Boys ganhou duas continuações de sua versão cinematográfica. Urasawa está no momento lançando seu primeiro álbum de rock, 1/2 Century Man; seu mangá Pluto está entrando na reta final e ele está recentemente imerso em sua nova série Billy Bat, que se passa em um instável Japão pós-guerra, aprisionado entre a ocupação americana e agitadores comunistas.
"Muitos jovens japoneses não sabem contra quem o Japão lutou na Segunda Guerra Mundial", diz Urasawa ao Daily Yomiuri enquanto ele fala sobre Billy Bat, que recentemente teve seu primeiro capítulo publicado na antologia semanal Morning. "É bom que sintamos que viver em paz é o suficiente, mas precisamos estudar o passado para que possamos criar nosso futuro, É algo do tipo 'Vamos, saiba pelo menos um pouco!' Eu não espero que as pessoas usem este mangá para estudar história, mas eu espero trazer alguma atenção a este período. Você sabe… como nossa sociedade se tornou o que ela é?"
Takashi Nagasaki, co-criador de Billy Bat's e parceiro/editor de longa data de Urasawa, explica isso em uma entrevista à parte em seu escritório localizado em outro ponto da cidade: "Uma das razões pelo qual eu queria focar no período pós-guerra é porque a sociedade de hoje se esqueceu por completo dela. Eu acho que já passou da hora de um mangá contar às novas gerações sobre como o Japão ascendeu do país que era (imediatamente) após a guerra até o país que ele é hoje."
"Billy Bat foi inspirado parcialmente em um livro recente chamado Tokyo Ano Zero (de David Peace), contando a história do Japão pós-guerra tão bem… como japoneses, não podemos deixar um britânico contar nossa história de forma melhor do que nós mesmos. Eu me senti perturbado por isso", diz ele com uma risada.
Ainda nos seus estágios iniciais, Billy Bat conta a história de Kevin Yamagata, um quadrinhista nipo-americano que tem tido um sucesso estrondoso com sua série "Billy Bat," sobre um morcego detetive frequentemente contratado para seguir esposas infiéis. Quando agentes do FBI decidem usar o escritório de Yamagata para vigiar um vizinho acusado de simpatizante do comunismo, um dos agentes diz que ele já viu o personagem Billy Bat em algum lugar antes. Esse comentário leva Yamagata à terra de seus ancestrais no Japão, que está sofrendo grandes transformações sob a ocupação americana.
Para acentuar a instabilidade daqueles tempos, Urasawa e Nagasaki se inspiraram no Incidente de Shimoyama em 1949, que custou a vida de Sadanori Shimoyama, o presidente da Ferrovia Nacional Japonesa, que estava preparando-se para demitir 8.000 trabalhadores como parte de sua reestruturação. "Até hoje é um mistério no Japão se esse foi um suicídio ou um assassinato. Houve rumores que tanto os comunistas quanto as forças de ocupação poderiam estar por trás disso. Mas não sabemos. E o Japão ascendeu desse tipo de nebulosidade", Nagasaki diz, explicando as origens do cenário de Billy Bat.
Essa história de grandes proporções levou quatro anos em sua confecção, com ambos os escritores trabalhando as idéias um dos outro para transformá-las em algo melhor. "As pessoas pensam frequentemente que ele é o arremessador e eu o cara que apanha a bola (N. do T.: Isso é terminologia de Beisebol), mas em nossas discussões para essa história, eu era o arremessador e ele o rebatedor", explica Nagasaki.
O mistério de Billy Bat rapidamente se expande para incluir assassinato – aparentemente envolvendo Yamagata – e um misterioso símbolo de morcego que parece ter um culto religioso por trás; nada muito diferente do agora familiar símbolo do olho associado ao sinstro Amigo em 20th Century Boys.
"A história humana é ligada a esse tipo de símbolo e eles sempre tem sido expressão e força de cultura. Eles trazem a luz tanto o bem quanto o mal das pessoas, e as guia em direções que podem ser boas ou más. Acho que é um tema bem consistente", diz Urasawa, relutando em falar mais sobre a direção à qual esse símbolo irá conduzir o leitor. Nagasaki, entretanto, solta algumas pistas possíveis: "Quando começamos a pensar sobre essa série, pensamos sobre, por exemplo, o que aconteceria se Billy Bat fosse como Jesus Cristo, e houvesse algum tipo de antigo mistério sobre isso? Eu também estava interessado na idéia de 'o que aconteceria se que a primeira imagem de Deus que a humanidade tivesse fosse a imagem de um morcego?' "
Há outro ídolo, entretanto, que Nagasaki imagina que Urasawa tenha considerado quando estava desenvolvendo a história. "Eu tinha a impressão de que Urasawa queria contar a história de Walt Disney. Eu, entretanto, não tinha a menor intenção de contar sua história."
Embora este pareça ser um detalhe menor para o leitor casual, a influência pode ser vista nos dois primeiros capítulos, ambos desenhados como um quadrinho de Billy Bat dentro do próprio mangá. O estilo, inspirado em Dick Tracy e outros materiais da época, não é nada parecido com qualquer coisa que exista nos mangás japoneses. Chega ao ponto de ser impresso em cores – algo incomum para as antologias semanais de baixo custo – completamente com o visual de papel envelhecido, para agregar o clamor inicial de ser um genuíno clássico americano sendo descoberto. Para este leitor, é uma agradável mudança ver um artisa estabelecido tentar fazer algo novo e diferente. Em blogs na internet e sites de fãs, entretanto, há uma rejeição contra esse "novo estilo".
"Quando estávamos com a (editora) Shogakukan", diz Nagasaki, "acho que nossos leitores poderiam ter digerido bem o estilo diferente de Urasawa para Billy Bat. Mas desde nossa mudança para a Kodansha, acho que perdemos muitos leitores com o primeiro par de histórias. Há autores de mangá que querem fazer quadrinhos ao estilo americano, mas ninguém teve sucesso até agora com isso."
Urasawa, entretanto, não liga muito para a reação. "Recentemente, há mais leitores que esperam que eu não siga por esse caminho (o primeiro capítulo de Billy Bat), então há um monte de pessoas que consideram isso como um gimmick (N. do T.: gimmick é uma espécie de factóide mercadológico feito para estimular as vendas via fator de choque), uma vez que eu sou o tipo de autor que usa vários gimmicks desse jeito", admite. "Então eles estavam se perguntando quando eu voltaria ao normal, e isso é algo divertido de se brincar."
"Eu quero experimentar a liberdade de trocar e passear entre estilos de arte e roteiro; não quero ir longe demais na história; quero ver até que ponto eu posso manter os leitores me seguindo. Dessa forma, acho que posso ir bem mais longe."

A Vida além de Pluto

Enquanto Urasawa mergulha em sua nova série, ele está preparando seu capítulo final de Pluto para Abril. Esta série, que ganhou vários prêmios inclusive o Prêmio Cultural Osamu Tezuka, é baseado no arco "O Maior Robô da Terra" da série Astro Boy – sobre o assassinato dos robôs mais avançados do mundo. Este projeto foi um sucesso, mas estressante, tanto para Urasawa quanto para Nagasaki.
"Eu finalmente posso relaxar; este peso está fora dos meus ombros," diz Urasawa, cujos outros hits incluem Yawara, Monster e Pineapple Army.
"Eu jamais farei isso de novo," declara Nagasaki.
O problema com Pluto, cujos direitos cinematográficos estão atualmente em negociação com Hollywood, foi justamente a grande expectativa que a própria dupla carregava a respeito do trabalho. "Para os japoneses, Osamu Tezuka é conhecido como o Deus do Mangá. E para mim, eu não estaria fazendo esse trabalho se não fosse por ele. Tomar essa obra de grande porte e levá-la até o fim traz muita pressão", diz Urasawa. "Sempre havia um fã de Tezuka que me dizia o tempo todo que os fãs odiariam o que eu estava fazendo – e só recentemente eu me dei conta de que esse fã de Tezuka na verdade era eu mesmo."
O fim dessa série, iniciada em 2003, coincide com o 80º aniversário de Osamu Tezuka (Astro Boy). Urasawa e Nagasaki negociaram por um ano para conseguir a permissão para fazer essa história, a despeito da relutância de Urasawa, baseada tanto em excesso do trabalho quanto o medo de assumir esse projeto. "eu disse que alguém iria esperar algo no nível de "O Maior Robô da Terra", de outra forma os leitores mais jovens não iriam atrás das realizações de Tezuka. Mas eu não tinha intenção de fazer esse trabalho por mim. Todo mundo dizia para eu fazê-lo, e eu respondia "não, não, não, não, não."
Após protestos de Nagasaki e uma série de brainstorms, a história resultante pareceu boa demais para deixar que outro a fizesse, de acordo com Urasawa, que descreve a história como um mangá que abriu os olhos de sua geração. "Não era sobre um robô digno que venceu robôs malvados, é sobre o vazio da guerra", lembra Urasawa. "Quando eu li (O Maior Robô da Terra) e tinha apenas quatro anos de idade, eu senti que tinha lido uma história muito profunda, algo para adultos. Eu acho que todo mundo deveria se sentir dessa forma ao lê-la. Nunca foi realmente uma história para crianças."
Tanto Urasawa quanto Nagasaki dizem que a história segue o plot original, mas há um par de de revelações para os leitores no capítulo final, uma sobre o protagonista, um robô-detetive chamado Gesicht, e a outra "uma grande surpresa."
Os trabalhos mais recentes de Urasawa tem sido todos sucessos de crítica e de público, cada um deles a caminho do cinema (Monster está em pré-produção no momento). O novato Billy Bat é promissor, mas nada, de acordo com Nagasaki, é garantido. "Não há ninguém que possa permanecer sempre no topo", diz Nagasaki. "Naoki Urasawa sempre esteve no topo. É apenas natural que ele caia de sua posição cedo ou tarde. Para mim, cada projeto é arriscado. Eu posso terminar pensando, 'e se tivéssemos parado no anterior…' Eu gosto dele, é por isso que eu trabalho com ele. Mas a cada momento, eu penso: Pode ser agora."


Posts similares:
Naoki Urasawa e a Era de Ouro dos Comics
Saiu o Billy Bat de Naoki Urasawa…
Solanin irá Ganhar Longa-Metragem

Endereço de trackback para este post:

http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/30581

Comentários, Trackbacks:

Nome: Fernanda 19/02/09 01:00

Conserta essa parte aqui:
"Houveram rumores(…;)"

O verbo haver não é conjugado dessa forma. O correto seria "houve rumores".

Nome: Lancaster 19/02/09 01:07

Falha de revisão. Corrigido e obrigado.

Nome: Leonardo 19/02/09 10:35

Os Japoneses não gostaram do estilo de traço da "historinha" de Billy Bat?



Isso so demonstra que o japonês comum ao seu modo, está mais do que nunca com a mente encalacrada em seus velhos conceitos.


Tenho medo das novas gerações que adviram desse país…

Nome: Lancaster 19/02/09 11:17

Pior que eu achei uma das grandes sacadas. Ninguém falou do Murry, mas até declarações em contrário do autor, tenho certeza de que é referência – foi ele quem colocou o Mickey em histórias de detetive, e foi a maior referência para as histórias do rato durante três décadas. Pensei muito nele ao ler Billy Bat.

Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.

Tags XHTML permitidas: <p, ul, ol, li, dl, dt, dd, address, blockquote, ins, del, span, bdo, br, em, strong, dfn, code, samp, kdb, var, cite, abbr, acronym, q, sub, sup, tt, i, b, big, small>
(Quebras de linha se tornam <br />)
(Set cookies for name, email and url)
(Allow users to contact you through a message form (your email will NOT be displayed.))

Post anterior: GDH absorve de vez Gonzo e Adota seu NomePróximo post: Filme de Doraemon


[ La Brute - Jogo Online em Flash Grátis ]