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Fev 08
Scott Pilgrim, de Brian Lee O'Malley
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Lancaster |
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10
Categorias: Scott Pilgrim
Jim Capaldi, que ao lado de Steve Winwood nos anos sessenta foi um dos fundadores da clássica banda de rock Traffic, aportou em nosso país em meados da década seguinte com sua banda da ocasião, o Space Cadets. Nossa imprensa perguntou em massa o que ele curtia em termos de rock no Brasil. E ele falou: "Milton Nascimento."
Todos riram.
Logo alguém quis desfazer a suposta gafe e se dirigiu a Capaldi: "olha, mas Milton Nascimento não é rock." Sua resposta: "Pois então vocês não entendem nada de rock."
A declaração parecia absurda, mas uma olhada mais atenta no trabalho de Milton Nascimento à época mostra que as palavras de Capaldi faziam sentido. Em 1974, ele havia lançado o álbum Milagre dos Peixes, sendo acompanhado pela banda de rock progressivo Som Imaginário. O progressivo era a vanguarda roqueira da época, antes de ter sido dinamitado pelo movimento punk, e é dentro desse contexto que suas palavras devem ser entendidas.
Naquele momento, Milton Nascimento flertava, à sua própria maneira, com o rock. E claro, os defensores do purismo na MPB iriam rosnar, gritar, e urrar de pés juntos. Para manter sua identidade em segurança, mandariam a realidade às favas.
Mas o que isso tudo tem a ver com Jim Capaldi e Milton Nascimento? Simples: Scott Pilgrim, de Bryan Lee O' Malley, é a primeira grande obra pop do mangá canadense/americano. Aí alguém vai me dizer: "Mas isso não é mangá". Pois então vocês... ah, deixa pra lá. É melhor explicar isso com calma.
O Começo
Para ser honesto, o primeiro volume realmente não chega a ser tão mangá assim. O próprio autor nem vende seu peixe dessa forma – mas, claro, não dá para ignorar o componente da estética em seu trabalho: ele chegou a produzir uma capa para a antologia americana para meninas Shojo Beat, da editora Viz, e ninguém reclamou. Há correlação.
O fato é que há uma transição natural do quadrinho indie americano típico que sua série era no começo para um combo de narrativa cinematográfica, iconicidade de personagens e todos os elementos que caracterizam o mangá mais do que os olhos grandes em si. Sim, o traço inicial dele era rude e com um pé no underground, mas isso não está em julgamento aqui – até porque existem mangás que são rudes e com um pé no underground.
Mesmo assim, os sinais de que isso iria acontecer já estão presentes no primeiro volume.
A historinha é simples: Scott Pilgrim, aos 23 anos, é um rapaz canadense comum, que vive em Toronto e toca em uma banda de rock. Ele divide um buraco com um amigo gay (com quem racha um colchão, mas acreditem, o personagem está limpo e o roteiro reitera isso), e começa a namorar uma simpática colegial descendente de chineses, Knives Chau. Tudo vai muito tranquilamente, até que ele encontra uma moça americana chamada Ramona Flowers pela qual se apaixona.
Até aí, tudo bem. A história segue o ritmo de seu tradicional quadrinho indie, com cenas de cotidiano, diálogos, e parece que acompanharemos um típico quadrinho de romance moderno, ditado pelo que promete ser um triângulo meio complicado. O ponto é bem esclarecido até pelos releases: Com Knives, ele sente que pode apagar sua caótica vida pregressa e começar uma nova vida do zero. Com Ramona, ele está pronto para aceitar o que foi um dia, crescer e mudar para algo novo. Não é algo tão fácil à primeira vista.
Aí, mais ou menos pela página 126, o poder do McGuffin entra em ação.
Os Sete Ex-Namorados do Mal
Scott Pilgrim na verdade é um shonen na linha "comédia maluca de porrada". Sério.
Até o modo do autor escrever muda para uma narrativa mais enxuta e diálogos menos carregados por quadro. Ramona, durante sua vida, deixou um rastro de sete "ex-namorados malignos" – e cabe a Pilgrim derrotar um a um para poder sair com Ramona em paz. Um por volume, e não custa dizer, a série está planejada obviamente para acabar no sétimo livro.
O primeiro sinal da transição foi discreto: No segundo volume, as calhas horizontais entre os quadros se tornam mais espessas do que as verticais – uma característica tradicional do mangá. Mas as semelhanças crescem. No terceiro volume, o traço se torna mais limpo, a qualidade dos cenários em especial melhora absurdamente e chega ao atual ponto de Malley: Icônico, objetivo e veloz, usando bem os recursos narrativos e até elementos tipicamente japoneses como as linhas de movimento – até usadas no primeiro volume da série, mas aqui, dominadas com
precisão. A partir do terceiro volume, o fator narrativo que o mangá representa para a série se torna gritante. No quarto, aquilo é mangá, sem tirar nem pôr – e de quebra a partir desse mesmo quarto volume, temos páginas coloridas de abertura também (e olha que isso não caracteriza um mangá, mas é muito associado à imagem deles)! Lembrem-se, mangás não são necessariamente olhos grandes. E olha que eles estão lá.
Mas ele vai mais longe.
Inovações Visuais
Muitos fãs, ao se meterem a desenhar, tendem a tentar emular o mangá através da absorção de recursos visuais tradicionalmente japoneses – as gotas gigantes, as orelhas de bichinho na hora de constrangimento (algo totalmente sem sentido para muito ser humano comum desse lado do hemisfério) e outros. O'Malley não se pretende ser realista e utiliza recursos visuais para enfatizar sentimentos e situações, mas ele cria os seus próprios recursos e gags visuais
inspirados em uma linguagem internacional bem conhecida dos leitores adolescentes comuns: os videogames.
O nosso protagonista a partir do terceiro volume mais ou menos passa a apresentar "barras de energia". Quando está cansado, sua barra de energia baixa. Se vai urinar, há uma barra de energia de... hm, água no joelho, rapidamente esvaziando. De quebra ele pode se beneficiar de vidas extras após o combate, marcada por pequenas caras flutuantes do próprio personagem.
O mangá apresenta muito espaço para inovação em qualquer parte do mundo e essa é a maior contribuição que se pode dar à estética: apresentar idéias novas, seja de forma, seja de conteúdo, e apresentar novos caminhos que possam acrescentar novas possibilidades ao meio. Fazer o mesmo de sempre? Não interessa, exceto talvez para leitores e autores que gostem de fingir que estão no Japão – se é para isso, por que fazer mangá? Mangá
não é quadrinho japonês; é uma linguagem quadrinhística que nasceu no Japão. E língua, não importa aonde nasceu; sempre pode ser aprendida e falada por qualquer um ao redor do mundo.
Esse é um fator que conta e muito para o destaque que Scott Pilgrim vem conseguido. É um mangá que corajosamente joga pelas próprias regras. E a cada volume fica melhor.
Apesar de tudo, essa ainda é uma comédia de ação, e principalmente no terceiro e quarto volume, a série tem grandes cenas nesse sentido. Mas Scott Pilgrim não é só isso. Até porque paradoxalmente, quanto mais a trama se torna focada na entrada contínua de oponentes, mais mergulhamos no universo pessoal aonde os personagens vivem.
Olhando o Mundo ao Redor
Podemos dizer que aqui o fator "shonen de porrada" não se torna razão de ser. O que ele oferece é uma direção para que possamos entrar na vida dos personagens: eles ganham enormemente em profundidade ao decorrer da série. Acompanhamos flashbacks de juventude, começamos a entender quem é o quê na história – e no final das contas temos um elenco de personagens bem grandinho, circulando no cenário
indie da moderna Toronto. Tudo isso turbinados por ninjas, psiônicos, vegetarianos superpoderosos, e contado com a estrutura de um videogame. Funciona, por isso mesmo: O' Malley não tenta emular nada; usa esses elementos fantásticos para falar do mundo ao seu redor, aquilo que ele conhece e vive diariamente no seu canto no Canadá. E esse é o seu trunfo.
Com tudo isso, eu posso dizer que por trás de sua cara meio Cartoon Network na superfície, é um trabalho muito mais mangá do que a maior parte dos mangás americanos (e brasileiros) que investem no traço em busca de sua fidelidade à fonte nipônica, quando a verdadeira natureza do mangá não está exatamente no traço, exceto pelo fator de iconicidade. E iconicidade, assim como identidade própria, Scott Pilgrim tem de sobra.
Mas a série também aponta para um novo fenômeno: a superfluização do mercado direto e a migração do ativo criativo a longo prazo.
Cenário de Mudança
Convenhamos: nos velhos tempos, uma série como essa venderia nanicamente em algum buraco das comic stores americanas, com pouquíssima repercussão, porque o mercado direto é reduto nerd por excelência – os nerds que a frequentam estão mais interessados em torrar dinheiro no hiper ultra mega crossover sem pé nem cabeça da vez do que ler coisas novas ou
diferentes. Não que não se encontre esse material nas gibiterias, mas com certeza não foi graças a elas que o material se popularizou e chamou atenção o suficiente para ganhar uma adaptação cinematográfica em andamento, com Michael Cera (Superbad – É Hoje!) no papel de Pilgrim e a coisinha linda de doer Mary Elizabeth Winstead (a filha do John McClane em Duro de Matar 4.0) no papel de Ramona. Nas megastores americanas, você vai encontrar algum volume de Scott Pilgrim, provavelmente na seção para adolescentes.
E realmente, não se pode negar que isso é uma consequência da migração dos mangás para as livrarias. Foram eles quem abriram a porteira. Foram eles quem saíram do mercado direto. Sim, eles encolheram de vendagem esse ano nos Estados Unidos, mas não vou dar tantos detalhes (a Valéria da Shoujo Café passou à minha frente e fez um comentário lúcido sobre
essa queda, que na prática é efeito da crise que assola os Estados Unidos, nada mais. Dêem uma lida).
O fato é que a tendência é essa: as mentes criativas dos quadrinhos americanos antes ficavam batalhando em títulos pouco lidos e só se tornavam alguém quando migravam para uma das duas grandes editoras. Se você não escrevesse o Super-Homem ou o Homem-Aranha, você estava destinado a ser um perdedor, um outsider. Hoje, um autor novo pode mandar Marvel e DC tomarem seus merecidos cilindros na circunferência (nada contra o gênero supers em si – não se cospe no prato onde se come e eu tive muito prazer lendo gibis do gênero um dia, quando eles valiam a pena ser lidos – mas sim contra o sistema doente que essas duas editoras alimentam) e publicar suas próprias criações nas livrarias, aonde está o público de massa americano, longe de nerds.
Não que Pilgrim não tenha lá seu quinhão de apelo nerd. Ele remete um pouco ao cinema de
gente como Judd Apatow (acredito que não tenha sido à toa que tenham pinçado Michael Cera para o papel de Pilgrim no cinema), que pegou os executivos de hollywood de assalto. Trata de um universo que não é um universo "comum", mas que é palpável e existe com mais proximidade do que o universo nerd de um Kevin Smith, por exemplo – embora haja um certo grau de intersecção desses universos, a bem da verdade.
Mas convenhamos que não foi realmente citando gibis a metro quadrado que Apatow conseguiu fazer o estrago que fez. E nem O'Malley.
O Rock do Traço
É até interessante que Scott Pilgrim trate do cenário de bandas independentes de rock na cidade de Toronto. Porque o Rock tem algo em comum com o mangá: suplantaram sua nação de origem (respectivamente, Estados Unidos e Japão) para se tornarem um movimento cultural de amplitude planetária. Ambos carregam pesadamente o legado das nações que as gestaram, mas foram absorvidos como veículos criativos de forma que cada nação o pega e após uma fase de fidelidade bovina, tende a trabalhar sua cara. Pensem em uma banda como Os Raimundos, que nos primeiros discos foi a maior banda brasileira do seu tempo. Se eles fossem apenas um bando de fãs de Ramones repisando os passos de sua banda favorita, eles não seriam ninguém. Mas ouçam músicas como Deixei de Fumar Cana Caiana e Rapante, do primeiro disco da banda. Aquilo é Nordeste até a medula – e é espetacular. Mas se alguém me disser que aquilo não é rock, vai tomar porrada.
Me digam se um americano seria capaz de fazer um cd dos Raimundos.
O' Malley assumiu sua mestiçagem com grandes resultados. Usou fantasia, ficção científica, absurdo – a pia da cozinha. E sejamos honestos...
... depois dessa sequência, vão me dizer que isso não é mangá?

Se me perguntarem qual é o melhor mangá nos Estados Unidos (e faz sentido, porque em termos de quadrinhos, o Canadá e suas editoras fazem parte do mercado americano), eu vou dizer, com certeza, e sem piscar: Scott Pilgrim. Que nem americano é realmente, mas tudo bem, os americanos que corram atrás do atraso. E se alguém rir... bem, acho que nem preciso dizer mais a resposta, não?

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Comentários:
"Ele divide um buraco com um amigo gay."
Essa frase pegou mal…
Hunter (Pedro Bouça)
Okay, okay, você entendeu.
e quando esse materia vem pra car,gostei de mais das ideias do autor,e e bom pra gente refletir como fazer uma boa historia ^^
ps:o teclado do meu pc ta com problema nas teclas dos acentos^^
Aparentemente nenhuma editora está se mexendo. Por outro lado, o quinto volume saiu agora nos Estados Unidos e o ritmo de produção é um volume por ano. Logo, acho que antes do sexto volume sair, Scott Pilgrim não sai.
Claro que isso pode ser precipitado pelo desempenho do filme…
Bom, nem li o texto todo, e sei que tem coisas que não concordo (aliás, que já discutimos no fórum do Anime Pró
=P
Pra mim, imitação de traços de mangá não é mangá, mas nem por isso eu deixaria de comprar, mas que é um apelo barato, isso é. (Não comercialmente, claro, e as editoras olham isso).
Então deixa eu pular pra próxima notícia. ^^
O engraçado foi o motivo de ter despertado interesse na série foi a premissa da luta contra os sete ex namorados do mal. achei meio batido o tema mas divertido mesmo assim. Depois de ter lido o primeiro volume, digo que esse é o aspecto menos interessante da estória! A vida amorosa complicada de scott e ainda os ensaios e shows com a banda são detalhes fantásticos. Realmente me animei muito com esse primeiro volume, mas confesso que elendo a resenha estou um pouco recioso de adquirir os outros volumes por que, segundo eu entendi parece que a série ficara mais Shonen (lutas,lutas,lutas...)e as características que me chamaram mais atenção serão deixados de lados. Mas, mesmo que o resto da série não siga o rumo que esperava, ainda recomendo Scott Pilgrim contra o mundo!!! E agradeço a vc por ter me aprsentado esse divertido mangá!!!
Alexandre: Bom, o volume final vai retornar esses aspectos mais indie da história. Na verdade acredito que o filme tenha contado para isso: Ele iria produzir sete volumes ao todo. Acabaram sendo seis, e acredito que O'Malley fez isso para bater tudo com o filme sem problemas. Ou seja, no final esses aspectos que ficaram equilibrados acabaram sendo mais fortalecidos para poder acabar com a trama básica de uma vez. Mas ainda acho que vale a pena.
Scott McCloud toca exatamente neste ponto em seu Desvendando os Quadrinhos.
Quanto ao filme (acabei de assistir), achei ele divertido, mas nem de longe engraçado que nem os dois filmes anteriores do diretor, Todo Mundo Quase Morto e Chumbo Grosso. Enquanto o Scott Pilgrim tem ótimas cenas de ação e uma história morna, os dois citados tem tudo de bom: história, atuação, efeitos, timing...
do seu texto, pensei colocar um link com a sua postagem nela. Obvio que farei isso somente com o seu consentimento, e esse é o principal objetivo desse comentario.caso queira pode entrar em contato atraves do e-mail. obrigado e parabens pelo blog!
Alexandre: se for só um link para a postagem não tem problema.
Alexandre: não tão cedo. Tem outros materiais na fila e estou sobrecarregado.
Como assim o personagem está limpo??? o O
Alexandre: é que não é esse tipo de buraco que você está pensando...
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