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Jan 28
Mitsuru Adachi Parte II: Cross Game
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Lancaster |
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5
Categorias: Cross Game
Cross Game é o maior sucesso recente de Mitsuru Adachi. Como dissemos no post anterior, tudo o que ele faz, em maior ou menor grau, vende – embora seus seinens (materiais para adultos jovens) tenham infinitamente muito menos prestígio do que seus shonens (materiais para garotos). Em todo caso, sua nova série é praticamente uma volta à velha forma. Na sua obra anterior para a antologia Shonen Sunday, Katsu!, dá para perceber que Adachi tentava, a grosso modo, consertar o que não estava quebrado: Sua diagramação ali tentava soar mais moderna, e sinceramente – ele não precisava. Seu trunfo sempre foi o de não precisar soar mais arrojado do que os demais – e conduzir sua trama com uma narrativa afiada, calculada e precisa.
Nesse contexto, faz sentido que a trama tenha uma cara de
déja-vu e estabeleça um diálogo tácito com o maior sucesso do autor, Touch. Na verdade, chega a ser praticamente um remake disfarçado sob uma visão superficial, mas à medida em que a série se desenrola, mostra que a proposta vai bem mais fundo do que a mera reciclagem de Touch que ele aparenta ser inicialmente.
Novo Estudo de Caso
Como faço questão de repetir, à primeira vista, Cross Game parece um autoplágio de Touch, alterando-se um dos fatores da equação. E se ao invés de Tatsuya ter um irmão perfeito, ele existisse como filho único e Minami tivesse uma irmã "torta", que fosse seu oposto – um similar com defeito de fabricação? E como a fórmula estabelecida por Adachi ordena, o perfeito que tem seu duplo deve morrer.
Só que a alteração do fator faz toda a diferença. Minami era uma encarnação dos preceitos exigidos de feminilidade socialmente sonhados. Logo, seu equivalente em Cross Game, Wakaba Tsukishima, era a mais bonita, a mais gentil, a mais adorada, também mais forte e com iniciativa, bla bla bla... enquanto a irmã Aoba é praticamente um menino de saias.
Pode parecer aquele velho e vagabundo clichê nipônico da tsundere – a menina geniosa mas
que por dentro é um doce de coco, caso você se dê ao trabalho de ir buscar – mas não é por aí, pelo menos não no começo. Aoba é inicialmente seca, impaciente, arisca, desconfiada, competitiva e claramente foi traumatizada pela morte da irmã. Fosse uma tsundere, seria a típica garota que bate no mané à la Love Hina. Algo que convenhamos, voa baixo demais para a capacidade do autor – e para seu gosto por sutilezas. De quebra, Aoba inicialmente parece um menino (com o tempo ele vai vestindo-a melhor e a fazendo mais agradável para o leitor). Com seu modo "joãozinho" de ser e fixação excessiva à figura da adorada irmã morta, chegou a me passar na cabeça em determinado ponto que ela era candidata séria a virar lésbica quando crescesse. Mas Adachi não é um cultivador de fetiches e não faria isso com seus personagens femininos.
Como o outro vértice, Koh Kitamura, é praticamente parte da família (a bem da verdade, vivia grudado com Wakaba de modo análogo à trinca inseparável de Katsuya, Tatsuya e Minami) ela o detesta abertamente por conta de todo o carinho dispensado por suas outras irmãs à ele – como se ele fosse irmão delas também, por tabela. E sobre ele... bom, não há muito o que falar: é um Tatsuya que nunca teve que viver à sombra de ninguém. Se fosse só isso, seria um ato de picaretagem, mas o grande trunfo aqui é
outro: em Cross Game, o mundo não é mais um pequeno paraíso. Muito pelo contrário, aliás.
O Reflexo no Espelho
Que ninguém pense que o que vamos ver aqui é um "Ultimate Adachi", mais sombrio; se ele não fez isso nem em seus trabalhos para adultos (como Jinbe), iria fazer aqui? O que ele estabelece é uma situação de oposição concreta – e o verdadeiro trunfo da história: Se o mundo em Touch era um grande anúncio de margarina, em Cross Game a coisa toca de forma mais realista.
O clube de beisebol está tomado por arruaceiros que ocupam as dependências para ficar bebendo, jogando baralho e fumando; A manager que no começo parecia (aos olhos do leitor, bem dito) estar interessada no Tatsuya – e que Adachi sempre fez questão de enfatizar que era gente boa apesar do momento "a fila anda" que facilmente poderia fazê-la parecer antipática – tem como equivalente uma figura sem retoques: seu personagem-reflexo é uma filhinha de papai arrogante, filha do diretor – que está longe de ser o diretor laissiz-faire de Touch: É um corrupto que faz desvio de verbas da escola pro próprio bolso. E o novo tecnico, espelho do técnico de Touch que era durão mas apesar de negar de pés juntos, fez
o que foi preciso para levar seus garotos ao koushien, aqui é um crápula que quer usar os garotos do "time padrão" como sparrings, nem que eles se estropiem – enquanto seus garotos de ouro promovem seu nome como técnico e recebem privilégios dos professores. Há até um personagem surpresa: Lembram da gorda que era o símbolo da conformidade em Touch? Aqui, a figura da manager gorda aparece como um símbolo de competência. A filha do diretor corrupto é bonita, por isso foi colocada no cargo de manager do time para servir como uma espécie de garota-propaganda. Já a gorda faz seu trabalho direito, sem piscar.
De quebra, Aoba, a anti-Minami, ganha carisma – leia-se fica mais bonitinha e simpática aos olhos do leitor – e acaba desempenhando um papel crucial no time dos rejeitados, dispostos a tudo para derrubar o novo técnico (que por saber dos podres do diretor, o tem no seu bolso) – e que para isso treinam com toda força, às escondidas, enquanto o time perfeito é formado. Aqui, a voz é de quem ficou de fora do grande estádio da vida – e está disposto a lutar honestamente pelo seu lugar nem que seja a tacape. Sentiram a mudança total de paradigma aqui?
A Família Sunday
Claro, esse ainda é um título do Adachi – e cá entre nós, faz sentido que assim seja. Já foi dito que se observarmos as três grandes antologias shonen do mercado japonês, o que liga todos os títulos da Shonen Jump é o fato deles serem voltados à eletrizar o leitor, deixá-lo virando continuamente as páginas, com o coração na boca; A Shonen Magazine tenta ser cool, de acordo com as luzes de seu tempo – o que explica porque a Magazine de hoje é tão diferente do que ela era nos anos setenta. Sua orientação não mudou; mudaram os tempos.
Por esse viés, a Shonen Sunday tem um posicionamento mais low profile e procura fazer dos personagens uma família do qual os leitores fazem parte, com foco nos pequenos prazeres do cotidiano. Faz sentido e se pensarmos
bem, dificilmente Adachi se criaria em outra publicação que não a Sunday. Se ele trabalhasse por exemplo na Shonen Jump, acredito que jamais tivesse produzido Touch. E Cross Game não é diferente nesse sentido. O perfil da antologia faz muita diferença na abordagem de um autor, e o paradigma pode ser diferente, os personagens mudam, mas a abordagem ainda é a mesma de sempre e a melhor prova disso é aquela que simplesmente é a personagem mais simpática da série, a caçula da família de Aoba e Wakaba, Momiji. Ela não faz parte da trama principal da história – nem teria como – mas tem de longe as melhores gags visuais e rouba todas as cenas em que aparece. A grande trama que eu falei até agora acaba se resolvendo prematuramente.
Jogo Rápido
De certa forma, a premissa (à seu próprio modo) desconstrutiva se resolveu rapidamente e de modo gradual (embora como em toda boa novela, os vilões não vão ficar longe por muito tempo); Adachi voltou a seu modus operandi padrão lá pela altura do sexto para o sétimo volume, apenas com um cast de personagens bem firmado. Uma das características de Touch é que nenhuma nuvem preta no horizonte consegue abalar o pequeno paraíso: Um
candidato concreto a rival de Tatsuya por Minami, por exemplo? Rapidamente ele se dá conta que ela não é para seu bico e que os dois estão destinados a ficar juntos; outros candidatos não podem ser levados a sério de antemão, mas reparem: qualquer coisa que realmente possa dar dor de cabeça é rapidamente dissipada.
Se observarmos bem, mesmo o famoso triângulo de Touch não era tão óbvio no mangá – a impressão é que Minami já tinha feito sua escolha, e não era pelo Sr. Perfeito. As certezas do leitor jamais eram postas em risco – e acredito que esse tenha sido um dos fatores fundamentais para o sucesso duradouro de Touch: uma promessa narrativa implícita de que nada pode alterar o que está escrito – o leitor tem uma sensação de conforto, do começo ao fim. Já até o sexto ou sétimo volume de Cross Game, o interessante era que as coisas não funcionavam assim neste mundo em particular. Há momentos em que você tem certeza de que tudo pode desabar. Me pergunto o porquê da mudança dessa postura – e não acredito que tenha sido simplesmente a presença do leitor, já que Adachi está em um ponto aonde não importa o que ele faça – vai vender bem e ter bom respaldo.
Uma boa resposta seria que no sexto ou sétimo volume, a história simplesmente termina para
começar de novo – e depois desse término, resta o que estava implícito: Aoba, na infância, não parava de falar mal e mal de Koh. E fica bem claro em retrospecto que isso era uma forma de negação. Ou seja...
De Estudo de Caso a Mais do Mesmo?
Quando nos damos conta, o velho molde já está restabelecido (embora despido dos aspectos mais incômodos da série matriz) – e Cross Game volta à leseira afável de sempre, com um romance entre dois personagens que tem dificuldade de se bicar e aceitar seus próprios sentimentos blá blá blá – e que só não chega a ser tão complicado porque no mundo de Adachi, o sutil sempre é mais presente do que o concreto. Há mais um personagem espelho – o primo de Aoba, apaixonado
por ela, insistente e que funciona como o reflexo masculino de Yuka Nitta, a garota que infernizou a vida de Tatsuya em Touch; e não custa lembrar, ela não se mostra tão avessa a outros garotos assim. Isso, claro, pontuado por beisebol – e fora de seu contexto cultural, o beisebol só se tornou interessante quando dele dependia o futuro e o pescoço do time. Era um meio. Quando ele vira razão de ser, perde muito do seu interesse inicial – pelo menos para mim, a história entrou em ritmo morno. Nisso, Touch se saía melhor, porque esse ritmo já era parte de tudo desde o começo. Por outro lado, o interesse nos personagens já foi estabelecido, então você quer ver aonde tudo aquilo leva.
Mas é difícil parar de ler porque como eu disse lá no começo, a narrativa de Adachi é hipnótica, minimalista, inusitada, e guia seu leitor para onde ele quer antes que ele possa largá-la – mesmo quando chegam as partes desinteressantes que você começa a ler na diagonal. Confesso que ler Adachi me traz impressões contraditórias, como se metade do meu cérebro fosse grudado por sua técnica narrativa e a outra metade do meu cérebro quisesse fugir do seu mundo-travesseiro como a peste.
Por outro lado, não é difícil entender o segredo de seu sucesso – e a chave para ele se encontra
em um casal de personagens que opera sua trama discretamente em Cross Game, fora dos radares. Por estar fora do eixo principal, acaba se tornando uma porta discreta para se penetrar nesse mundo por dentro.
Ichiyô é a mais velha das irmãs Tsukishima. Ela, assim como Aoba, trabalha na pequena cafeteria da família (mais um reflexo de Touch; Minami trabalhava num pequeno restaurante familiar, o Minamikaze). Jumpei é só um entregador de verduras. Enquanto a grande trama de beisebol e disputa acontece, ele discretamente conhece a moça, passa a frequentar o café todo dia, com o tempo os dois começam a sair juntos – tudo muito normal. Reparem: é o namoro da moça do café com o entregador de verduras. Só isso.
Bingo.
Meu Pequeno Mundinho
Quando olhamos o universo dos personagens de Adachi, vemos que não é muito diferente. Koh é filho do dono de uma loja de artigos esportivos. No universo de Touch, os personagens não estão muito distantes. Podem verificar: ninguém fala que todos com um taco de beisebol em Touch ou em Cross Game vão acabar se tornando profissionais do esporte. As cenas finais de Touch são emblemáticas: após vermos
que Tatsuya pretende estudar duro para ir à faculdade ao lado de Minami, aparecem os troféus de ambos, campe ões estudantis, bem colocadinhos entre os móveis da casa, as fotos de família. ESSE é o verdadeiro esteio do sucesso de Adachi: ele se foca em gente simples, com objetivos simples na vida, e em valores pra lá de familiares e tradicionais.
Os pais tem aquelas grandes pequenas alegrias na vida, como ver os filhos formados ou se destacando em alguma atividade, para que possam falar com orgulho deles com os amigos. Gente que tem pequenos negócios, tem um estilo de vida classe média baixa, focados com uma ótica afetuosa pelo autor. Ninguém ali quer ser o maior homem de negócios do mundo, ou deixar uma marca indelével para a humanidade. Quer vencer o campeonato do colégio, depois casar e ter filhos, e ter um trabalho que os permita ter uma vida tranquila ao lado da família. É gente comum, e por isso mesmo, a gente comum do Japão o lê – não o fã hardcore babão que compra mangás com menininhas de corpo infantil mas seios grandes, trajes esquisitos e cabelos cor-de-rosa. E isso é mérito.
Grosso Modo, Mitsuru Adachi é uma espécie de Ivani Ribeiro dos quadrinhos – e a comparação procede, porque no Japão, o mangá ocupa o espaço social da telenovela. Aliás, ela também escreveu uma história sobre gêmeos – Mulheres de Areia – e embora a sua novela fosse bem diferente daquilo que estamos falando, algumas declarações suas se adequam bem ao trabalho do Adachi.
Repórter: O sucesso não estaria ligado simplesmente ao recurso folhetinesco das gêmeas idênticas?
Ivani: Claro que não. Seria muito fácil criar histórias com outros gêmeos, com sósias, pessoas semelhantes. Antes de mais nada é bom lembrar que o público não acredita mais em qualquer trama. É preciso ter uma excelente espinha dorsal, compor personagens que se identifiquem com o inconsciente coletivo, com as fantasias dos telespectadores(...)...
A propósito, lá pelas tantas Adachi introduz Akane Takigawa, uma sósia de Wakaba para bagunçar a vida de Koh e Aoba em Cross Game – e de quebra a família dela abre um pequeno restaurante ao lado da loja de esportes da família de Koh, completando o cruzamento de informações; antes, o morto desfaz o triângulo. Aqui, a morta é estabelecida brevemente como
tal para que uma "ressurreição" o reconstitua – e a série de coincidências que levaram à sua "restituição" ao cenário levanta a preocupação de que talvez eles estejam vivendo papéis predeterminados. Poucos sinais de que Adachi está na verdade fazendo uma autocrítica poderiam estar sendo mais claros do que este.
E além disso, cá entre nós: depois dessa, vão me dizer que mangá não é novela?
O Verdadeiro Eixo com o Mundo Real
As comparações vão além de um caso isolado: ambos são materiais seriados, publicados em periodicidades muito urgentes (semanais no mangá japonês, diários na novela brasileira), impulsionados pelo gosto popular (as pesquisas do Ibope, os questionários nas antologias de mangá), e acabam se tornando assunto nas rodas de conversa – ninguém deixa de ver ou ler quando são materiais bem-sucedidos. No caso de Ivani, ela também fazia materiais de modo geral leves, com grande ênfase em foco familiar e no modo de vida das pessoas comuns – era a autora de novela das seis por excelência. O universo do luxo fica com o Gilberto Braga; ela transitava em um meio praticamente doméstico de classe baixa, com personagens igualmente simples, com metas simples e – principalmente – sentimentos e modo de pensar simples.
Podemos dizer o mesmo de Adachi.
Não custa repetir que foi com o trabalho dele que eu pela primeira vez deparei nos mangás (em Touch) com um casal casado, de anos, legitimamente feliz, grudento e afetivo. Mesmo nos casais felizes de outros mangás é raro ver algo assim – já que a metodologia social do casamento japonês (aonde a mãe se torna a bolsa da casa, e o pai o provedor), inspira uma divisão de papéis que muitas vezes acaba afastando o casal ao longo da vida, a julgar por muitas declarações dos próprios japoneses.
No final das contas eu tenho muita dúvida se Adachi emplacaria no Brasil por causa justamente do raio do beisebol. Que faz parte da naturalidade do universo do autor: O beisebol é o esporte nacional japonês, da mesma forma que o futebol é o nosso esporte nacional. Sem técnicas especiais, sem nada, sem o ridículo de Super Campeões ou O Príncipe do Tênis.
Por que ele não o usaria quando o esporte do seu povo tem um taco na mão?
Eu já cheguei a ler em um livro japonês sobre como fazer mangás a recomendação de que o protagonista parecesse saído da classe trabalhadora. Adachi vai mais longe e mira nas aspirações dela. E por isso faz o sucesso que faz. Tem comunicação com seu leitor. E, finalmente, sabe até onde deve ir e quais são seus limites.
Ou seja, goste-se ou não goste-se dele, Adachi é um autor obrigatório de novelas – porque como eu disse antes nessa matéria e repito agora, mangá é novela. E esse aspecto em especial dos mangás vai ganhar em breve um post apenas dedicado a ele. E vai ser um post menor – pelo menos eu espero isso. ^^
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Comentários:
Ótimo texto Lancaster, me fez lembrar das suas colunas no site Animepró. Não se importe com o tamanho dos posts e continue assim. Hehe
Quanto à esses mangás, não me deu a mínima vontade de ler. Não faço parte do público das novelas há muitos anos. Mas foi bom como estudo de caso para entender outra parte do mercado japônes de mangás.
Obrigado, Gustavo. Quanto a mim, eu valorizo muito essa busca pelos setores populares – na verdade, muitas vezes são esses mangás que não tem tanta expressão fora do Japão, mas que lá são figuras fáceis na lista dos mais vendidos, quem fazem do mercado nipônico o que ele é, e essa pode ser a melhor expressão do conceito de quadrinhos para todos.
Alexandre: Adachi é um caso especial para mim. Não ligo para tramas românticas e acho beisebol soporífero, mas esse autor é especial – ele para mim é uma das traduções práticas de um conceito de mangá popular, de massas, sintonizado aos gostos e interesses de seu próprio povo. E essa busca é algo que eu prezo profundamente. De resto, ele é um mestre da narrativa em grau único. Na verdade é meio assustador perceber que Adachi é meio "avis rara" dentro do contexto do mangá atual japonês. O que ele faz, só ele faz.
O que eu critico nas novelas brasileiras (e falo de Globo - não conheço das outras pra julgar) é a falta de coragem em tentar fazer uma história família que não seja um emaranhado de lições babacas de moral. Na verdade, acho até que essas lições de moral invariavelmente estão presentes, mas falta habilidade em passá-las. Normalidade, por incrível que pareça, é algo que eu considero difícil de se fazer na ficção. Até hoje, o único seriado que eu assisto e vejo isto de maneira impecável é Família Soprano.
Alexandre: de certa forma vejo essa não-normalidade como algo cultural e eu não critico. As novelas vieram a nós de países latino-americanos que cultuam o melodrama. O Direito de Nascer, por exemplo, é cubano. Uma das primeiras autoras populares de novela no Brasil, a Glória Magadan, era Cubana inclusive (a Glória Pérez é uma das últimas a seguir o estilo Magadan). Turbinamos a fórmula, mas o DNA continua e não vejo isso necessariamente como negativo.
Mas as novelas já foram melhores, mesmo na Globo. Recomendo a todo mundo que assista o Irmãos Coragem (o original em preto e branco) que a Globo recentemente relançou em dvd. Foi um divisor de águas: a primeira novela a tentar atingir um público masculino, e acabou atingindo a todo mundo mesmo. É uma mostra de como os roteiros de novela já foram afiados.
E quanto as suas impressões contraditórias em uma leitura, eu as tenho hoje em dia com Vagabond: adoro a arte do Inoue, adoro como os combates são mostrados de maneira bastante instrospectiva, mas o Inoue exagera. Chegou um ponto onde até mesmo o Joutaro fala coisas filosóficas sobre a vida. E se passa aquela mensagem de que a sabedoria pode ser encontrada em qualquer lugar, e isto justifica qualquer piração ou divagação que o Musashi tenha sobre a vida. Acho que o autor está focando cada vez mais em um samurai ideal demais, quando qualquer um que já tenha lido uma edição de Lobo Solitário sabe que essa suposta sabedoria dos samurais, em muitos casos, não passava de uma máscara que justificava atrocidades das mais cruéis. O próprio Ito Ogami faz uma consideração genial sobre o caminho do samurai como sendo "tolo e incompreendido". Além disto, esta visão que o Inoue acaba passando de que existe "o caminho da espada" me parece um monte de lições budistas rasas pra ocidental ver, com seus gurus que possuem sabedorias e conhecimentos transcendentais, mas que ao mesmo tempo parecem desprezar a principal coisa que faz um indíviduo ser um humano, que são as emoções. Por isso adorei ler recentemente o mangá The Legend of a Strongest Man Kurosawa do Nobuyuki Fukumoto. Apesar de bastante exagerado (a contar pelo traço), ali há um personagem cheio de angústias que ainda assim tenta acertar na vida, tenta ser uma pessoa melhor. E me pareceu muito mais real do os desenrolares recentes de Vagabond. Estou ansioso para que ele acabe a série logo e se foque em Real, e após volte, quem sabe, pra Slam Dunk.
Alexandre: acho que o que me incomoda mais no Adachi acaba sendo justamente o discurso, que é repassado de forma muito bem escrita e atraente. Mas ele ainda é um dos maiores quadrinhistas do japão. De longe. E voltar a velha forma não é pouco no caso dele.
só faltou vocês comentar de um dos personagens mais legais da serie que Azuma, ele começou como uma especie de vilão jogando no outro time e acabou se tornando um cara bem legal.
Alexandre: mas ele é um personagem bem típico de Adachi – que não costuma estabelecer vilões de verdade (Cross Game é um caso raro na obra dele). Ele é o "rival amoroso com dignidade". Já vimos isso em Touch, também.
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