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Dez 26
1520, de Kai
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Lancaster |
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2
Categorias: mangá global

A Speed Up Comics Magazine, da editora chinesa Firedog Computer Entertainment, é uma antologia mensal especializada em títulos de fantasia (não necessariamente medieval: títulos como
Koon e Seismofoe são urbanos e contemporâneos, com uma cara mais adolescente, mas há material pseudo-medieval e também um ou outro produto com uma cara mais voltada ao fã hardcore – há variedade aqui), em sua maioria com uma cara muito pop. São títulos tão bem-desenhados quanto qualquer bom mangá japonês, mas a especificação em cima de tema, e não em cima de faixa, permite uma boa abertura de público e ao mesmo tempo um direcionamento eficiente – De modo geral, é aquilo que em termos de marketing se chama faixa psicográfica: elege-se um público por perfil de consumo e não por faixa etária ou gênero.
Em todo caso, foi dela que veio um dos vencedores do 2º prêmio Shorei para os melhores mangás produzidos fora do Japão: 1520, de Kai, publicado nos Estados Unidos pela Udon Entertainment e contando no momento com 3 volumes. 1520 é um produto surpreendentemente interessante: Menos que uma aventura de fantasia na acepção RPGística que parecemos associar ao termo, ele pode ser melhor descrito como um conto de fadas, para todas as idades, repleto de ação, aventura, humor e até romance, mas que a partir de certo momento remete, em algum nível, à crueldade encontrada nos antigos animes infantis da Nihon Masterpiece Theatre – que na verdade era a crueldade da vida, exposta não de forma brutal, mas deixando
bem claro que o mundo lá fora não é um mar de rosas e que muito sofrimento pode esperar por você se não tomar cuidado.
Mas vamos à história, cujo cenário inicial são os dois países que repousam na base de uma Montanha Sagrada. Orioc, ao Norte, é uma nação rica – enquanto ao sul, há Lumbli, uma nação empobrecida e com dificuldades constantes. Ironicamente, as duas situações modelaram bem o caráter dos seus herdeiros: a princesa Luluronika Floco-de-Neve (Lulu, para encurtar), de Orioc – que ao contrário do que possa parecer, não é uma má pessoa; é gentil, doce e agradável, mas também é dependente, fútil e mimada – e sendo a herdeira do trono, não tem a menor capacidade de governar um país. Já Zelos Baart, o caçula real de Lumbli, é sério, compenetrado, e se preocupa sinceramente com seu povo. Mas o fato de se compadecer das dificuldades alheias, ao ponto de ajudar pessoas em seus trabalhos braçais caso preciso, o tornou paranóico com desperdícios – em miúdos, um mão-de-vaca que regula tudo para que não haja perdas, fazendo dele simplesmente um chato de galochas. No meio disso tudo há um terceiro personagem fundamental: Ana Basil, criada da Princesa Lulu e em grande parte a maior responsável pela personalidade dependente da moça: Seu excesso de zelo, que pode ser definido como "ser durona com um sorriso no rosto e voz
suave", garante que a princesa não precise mover um músculo. Politicamente, o casamento é uma idéia perfeita: Zelos não é o herdeiro do trono e seu irmão mais velho é igualmente capacitado a governar. Lumbli é uma nação pobre que pode se beneficiar do apoio de uma nação rica – e de quebra, Orioc terá um regente que não permitirá que um eventual reinado de Lulu dilapide as finanças do reino.
Claro que as coisas não vão correr de forma tão simples e que há interesses contra o arranjo. O primeiro-ministro Gabriel, aparentemente aliado à uma perversa bruxa – possivelmente em
nome dos interesses de um terceiro reino interessado no trono de Orioc, o reino de Ula – oferece um prato enfeitiçado que seria consumido tanto pela princesa quanto pelo seu futuro marido, mas que acaba sendo experimentado pela criada. O resultado é que agora Ana e Zelos (ambos com quinze anos de idade) têm um laço forçado: Os dois passam a partilhar vinte anos de vida e só. Quando ela, em sua idade corrente, ri, ele reverte aos cinco anos de idade; quando ele chora, ele volta ao normal e ela volta a ter cinco anos. Agora a princesa, que sempre viveu em uma redoma, está vulnerável – e os dois são forçados a fugir, um alternadamente protegendo ao outro.
Ana Basil é uma personagem de matriz Miyazakiana e 1520 tem, nesse sentido, muitos aspectos em comum com a típica produção Ghibli: heroína firme, sim, mas de firmeza assertiva, não agressiva; além disso, o co-herói (porque a situação os torna tanto protetores quanto protegidos) é irritante mas em essência não está errado – apenas tem que aprender que tudo tem hora e lugar, e acredite, ele vai passar por poucas e boas: Eles não apenas têm que encontrar uma cura para sua condição, como tem que fazê-lo rápido: Eles só partilham vinte anos e a medida em que envelhecerem, a sua contraparte ficará mais e mais jovem – nem é preciso dizer que no
processo um deles poderá desaparecer. Pior, uma eventual separação durante a sua jornada pode colocar o pescoço de ambos em risco.
Conta pontos para esse tom de ameaça – e esse é um dos maiores trunfos da série – o fato de que o mundo lá fora não é um conto de fadas. Uma criança está sujeita a muita coisa ruim em potencial quando põe o pé na estrada, e se um leitor mais jovem e inocente enxerga a ameaça de forma concreta mas vaga – não tem idéia do que um sujeito de maus bofes pode fazer, mas tem certeza de que é algo assustadoramente ruim o que lhe espera nas mãos dele – um leitor adulto enxerga claramente tudo o que houver de pior em potencial. É essa dupla leitura o que credencia o material à todas as idades.
Não foi à toa que esse mangá foi para as finais do International Manga Awards do ministério do exterior japonês – e também é um ótimo exemplo de como o mangá não tem mais nacionalidade, além de mostrar como a metodologia de publicação japonesa funciona, mesmo transplantada para outros países. A Speed Up representou o meu primeiro contato com o universo das antologias de mangá chinesas. Mas definitivamente não vai ser o último: podem ter certeza de que à medida em que eu tiver mais informação em mãos, teremos um artigo dedicado à China na minha série dedicada ao crescimento do mangá global. E 1520 se mostrou uma bela introdução a esse mundo novo.

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