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Dez 19

Cinco Mangás de Autor (como gentil sugestão para uma editora)

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Lancaster | PERMALINK | 1

Categorias: mangá

A Companhia das Letras recentemente fez furor na Internet ao criar um selo dedicado à nona arte – o Quadrinhos na Cia. – com uma proposta bem específica: aquilo que recentemente vem sido chamado de "quadrinhos literários" – geralmente material muito autoral, com aproximação com a literatura séria, etc. ... Sem galho – a editora veio com algo que falta a muita empresa que lida com quadrinhos: proposta definida. Se é esta sua proposta, ótimo. Quem gosta, gosta, quem não gosta parte para outra. Repare que eles não falaram "quadrinho underground". Não a toa, eles prometeram em seu lote uma adaptação de Jubiabá, de Jorge Amado. É material para adultos, com maior poder aquisitivo e o acabamento gráfico desse material fatalmente vai sinalizar isso.
Claro, sempre vai ter quem reclame que "falta um europeu" ou "falta um mangá". E eu estive pensando... que tipo de mangá se enquadraria nisso? Claro que não basta adaptar qualquer livro. Socrates in Love, por exemplo, com seu melodramalhão que mereceu ironização inclusive em um episódio de Sayonara Zetsubou Sensei, é uma ótima amostra de que isso não é o suficiente. De acordo com esse perfil é preciso uma certa dose de autoralidade? Sem problema; eu decidi então – abrindo uma série de matérias de fim de ano que eu vou colocar nesse blog, fazer um top 5 de materiais em mangá que não fariam feio ao lado de um Fun Home da Bedchel ou um Blankets. Evitei deliberadamente materiais com mais de um volume, dando preferência a obras fechadas e não séries.

5) O Homem que Caminha (Jiro Taniguchi) – Boa parte das obras com o nome desse autor no meio merecem sem dúvida entrar nessa listagem. Representando a obra dele como um conjunto, escolhi O Homem que Caminha por sua acessibilidade: Essencialmente não conta uma história, e sim acompanha as descobertas e observações de um assalariado comum que descobre as pequenas coisas em sua cidade. Na mesma linha pé-na-estrada, a Conrad havia prometido lançar Gourmet – sobre um viajante que avalia a comida e os restaurantes dos lugares por onde passa, mas ficou devendo e devido às atuais condições da editora, é duvidoso que isso venha a ser publicado, ao menos por essa editora, um dia. Mas tivemos a oportunidade de ler seus materiais através da Panini por aqui, que lançou o excelente Livro do Vento e o fabuloso Seton (cadê o resto da série, ô Panini?) – trabalhos de primeira, aonde ele conta com outros roteiristas – mas precisamos ler o Jiro Taniguchi roteirista também, embora curiosamente os roteiristas que com ele até agora trabalhou se encaixem no perfil de seu trabalho solo.

4) The Push Man and Other Stories (Yoshihiro Tatsumi) – Usei o nome em inglês porque esse material como edição não existe no Japão: Simplesmente é uma antologia compilada pelo quadrinhista alternativo americano Adrian Tomine, reunindo várias histórias curtas do patriarca do Gekiga (o quadrinho japonês para adultos) Yoshihiro Tatsumi – cujo trabalho já chegou no Brasil graças à editora Zarabatana, através do seu Mulheres. Tatsumi, em miúdos, é um cronista de uma época em particular muito amarga do Japão – o pós-guerra dos anos sessenta, quando eles mal haviam saído do pior, mas nada era realmente estável. É impossível não se lembrar da instabilidade econômica dos anos Sarney no Brasil quando lemos sobre o Japão sessentista de Tatsumi; ele tira polaróides de uma época de ressentimento, pobreza e cinismo extremos, aonde tudo parece em perpétua desolação, aonde a vida é cruel com todos, aonde a impiedade repousa em cada canto e cada um parece querer cuidar do que é seu antes que tudo desmorone – e sinceramente, se a vida e seus problemas eram realmente como são apresentadas nessa história, o termo "milagre japonês" ganha toda uma nova conotação.

3) Elegia em Vermelho (Seiichi Hayashi) – Quadrinho do começo dos anos setenta que reflete a turbulência criativa daquela época em especial no Japão, que acabou marcada pela derrocada do movimento estudantil que estourou no final dos anos sessenta – uma derrocada particularmente traumática para uma geração inteira, que geraria uma onda de desencanto que duraria toda uma década até a chegada do boom econômico. No entanto, os dois personagens são um casal que parece estar bem à parte do que acontece lá fora – e o homem em particular adoraria se alienar, através do próprio trabalho como desenhista, do que acontece quando ambos não estão na cama. É um trabalho muito influenciado pela nouvelle vague francesa, ou seja, aqueles filmes aonde cada minuto parecia uma eternidade, em que os personagens transavam por cinco minutos e discutiam a relação nos 115 minutos restantes da película. Sim, eu sei que a descrição não é muito animadora, mas não dá para negar que é a cara de uma era como um todo. E tem esse perfil do qual estamos falando, admitamos.

2) A Cidade das Tardes Calmas e o País dos Botões de Cerejeira (Fumiyo Kouno) – Uma história sobre diferentes mulheres da mesma família, em diferentes épocas, que nasceram e cresceram em Hiroshima. A história, diferente do Gen, Pés Descalços do Keiji Nakazawa, é focada não nos horrores da guerra ou da bomba atômica, mas em como as marcas de uma tragédia, seja qual for, são indeléveis e passam de geração em geração, mesmo que não a testemunhemos em si. A primeira delas se passa em 1955, quando as marcas da catástrofe estavam bem visíveis; a segunda nos leva ao auge econômico do Japão durante os anos oitenta, mas nem por isso as marcas deixam de ser profundas – porque os traumas de segunda geração surgem do fardo de se suportar os traumas vividos pela geração anterior. É um drama intimista e generacional, muito ancorado em memórias pessoais, que exige alguma atenção do leitor tanto pelos temas quanto pela costura de flashbacks e diferentes linhas temporais, que mereceu, neste ano de 2008, uma indicação ao prêmio Eisner de melhor quadrinho estrangeiro.

1) MW (Osamu Tezuka) – Não vou falar sobre Tezuka e seu peso; prefiro deixar esse trabalho para dois dos autores americanos presentes na lista de títulos a serem lançados pela Companhia das Letras: "Eu tenho sido, e continuo sendo, um ardente admirador de Osamu Tezuka, então eu tenho um prazer especial de ter uma chance de estudar sua brilhante narrativa e arte, que paira sobre o estilo casual dos seus imitadores" (Will Eisner); e "Osamu Tezuka inventou uma nova gramática narrativa para os quadrinhos e seu lugar na história dos quadrinhos japoneses é tão central quanto o lugar de Sidarta na história do budismo" (Art Spiegelman). Dito isso, o que eu poderia escrever aqui que não chafurdaria no óbvio? Melhor falar sobre a obra em questão: MW é um calhamaço de 584 páginas e um estudo sobre a psicopatia (e sobre a homossexualidade e isso tem que ser dito, uma vez que o psicopata em questão é gay – e psicopatia e sexualidade, independentemente de sua orientação, tendem a andar juntos; mas é um trabalho sério que investiga questões sobre culpa, e não um instrumento de fetiche para meninas), feito em uma fase onde o autor, cansado de ser criticado por uma nova geração, decidiu encarar o desafio e mostrar que podia jogar no seu terreno. Vai virar filme e recentemente o trailer do material já foi liberado na internet.
Enfim, escolhas não faltam e esses foram apenas meus dois dedos sobre o assunto. Boa sorte à editora em sua nova empreitada e que ela encontre seu público.


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Comentários:

Nome: murilo 19/05/09 06:10
Você podia criar outras postagens com essa temática. seria interessante.

Ei, você é aquele cara que escrevia na neo tokyo?

Alexandre: Eu mesmo. :)

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