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Dez 02

Mangá sobre bluesman Robert Johnson ganha prêmio nos Estados Unidos

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Lancaster | PERMALINK | 0

Categorias: biografia

Pequena confissão pessoal: Eu sempre fui ligado de formas diferentes ao Jazz e ao Rock. Um é parte da minha infância, de quem arranhou os discos do pai com a agulha do velho toca discos – um velho Telefunken que era um verdadeiro caixote de madeira, praticamente um outro móvel da sala que meus pais tinham desde antes que eu nascesse. A adolescência trouxe para mim o rock, que irritava meu pai – mas meu gosto por coisas novas acabou por me levar por outros rumos e nesse processo, pintou o Blues. Primeiro por Brasileiros: discos como Marginal, de Celso Blues Boy, e Mandinga, de André Christovam, acabaram por fazer minha cabeça – ao lado de bandas como Blues Etílicos, Ali na Esquina (fale isso em voz alta e quem gosta de Southern Rock dos anos setenta vai entender a homenagem) e outros que tinham alta rotatividade durante os bons tempos da saudosa Rádio Fluminense FM do Rio de Janeiro, quando ela adotava a pecha de "Maldita". E isso me levou à fonte, cedo ou tarde, embora nunca tenha deixado de ouvir o bom blues feito por aqui. A boa música, assim como o bom quadrinho, não tem nacionalidade.
Mas por que estou falando isso? Bom, não pude evitar. Este ano, nos Estados Unidos, o vencedor do School Library Journal Awards – um prêmio dedicado aos materiais adultos recomendados à estudantes de segundo grau, escolhidos por um comitê de pessoas ligadas à bibliotecas públicas e escolares que trabalhem diretamente com jovens em meios urbanos, suburbanos ou rurais – foi, entre trinta candidatos, nada mais nada menos do que o primeiro volume do mangá Me and the Devil Blues (Ore to Akuma no Blues), de Akira Hiramoto, originalmente publicado pela Kodansha e lançado nos Estados Unidos pela toda-poderosa Del Rey, que pode n ão ter o mesmo peso da Tokyopop ou da Viz à primeira vista no mercado de mangás nos Estados Unidos, mas independente disso já era uma das maiores editoras americanas antes de haver mangá no país.
Me and The Devil Blues tem esse nome baseado em uma das clássicas músicas do maior nome da história do Blues, Robert Johnson. Seu nome não é diretamente mencionado, mas sabemos que é ele; a história é uma biografia do mito que se criou a respeito do sujeito, com tudo de sobrenatural que envolve seu nome: Johnson supostamente teria vendido a alma ao demônio para se tornar o maior bluesman de todos os tempos. A letra da canção que batiza o mangá é esta:

Early this mornin'
when you knocked upon my door

Early this mornin', ooh
when you knocked upon my door

And I said, "Hello, Satan,"
I believe it's time to go."

Me and the Devil
was walkin' side by side

Me and the Devil, ooh
was walkin' side by side

And I'm goin' to beat my woman
until I get satisfied

She say you don't see why
that you will dog me 'round
spoken: Now, babe, you know you ain't doin' me
right, don'cha

She say you don't see why, ooh
that you will dog me 'round

It must-a be that old evil spirit
so deep down in the ground

You may bury my body
down by the highway side
spoken: Baby, I don't care where you bury my
body when I'm dead and gone

You may bury my body, ooh
down by the highway side

So my old evil spirit
can catch a Greyhound bus and ride

Johnson (1911-1938) sem dúvida era uma personalidade autodestrutiva. Tocava em prostíbulos e bares da pior categoria. Bebia e se metia em encrencas de uma forma que faria Amy Winehouse parecer a Hannah Montana. Dizem as lendas que morreu envenenado por um marido chifrado, mas diferentes versões de sua morte incluem espancamento, esfaqueamento, tiroteio... enfim, ele não era santo mas mesmo em vida ele era reconhecido por outros músicos como The King of the Delta Blues Singers.
O mito do pacto com o diabo surgiu em vida e o próprio Johnson o estimulava através de músicas como a citada – como se a boataria gerada sobre o que ele fazia ou deixava de fazer não estimulasse isso o suficiente. Só que é importante lembrar que, como muita gente do cenário blues de seu tempo, ele jamais viveu realmente sucesso comercial; gravou apenas quarenta músicas em duas sessões de estúdio e uma música para uma apresentação de rádio. Seu nome foi resgatado pela posteridade graças aos artistas de rock – notadamente os britânicos: enquanto os americanos descobriam o psicodelismo, a Inglaterra vivia uma fase particularmente "negra", movida ao soul dos selos Motown e Stax que embalavam o movimento Mod... e do Blues, que seria resgatado por bandas como Yardbirds, Pink Floyd (que antes de se converterem ao psicodelismo, eram uma banda de blues; o próprio nome da banda é a junção do nome de dois Bluesmen americanos) e o Cream de onde saiu Eric Clapton. Aliás, Clapton trouxe uma enorme luz à figura de Johnson, ao gravar Crossroads – e há poucos anos, ele gravou um disco-tributo à sua figura, Me and Mr. Johnson, que estou ouvindo nesse exato momento em que digito este post. Clapton não foi o único, aliás.
Quanto ao mangá em si – ele tem recebido grandes elogios da crítica especializada nos Estados Unidos, mas é até surpreendente que ele ganhe esse título. É um mangá seinen (para adultos) que não poupa nenhum retoque a respeito do mundo em que vivia Johnson. Mas para os fãs de mangás que também são fãs de blues, é um artigo obrigatório.
Ah, sim: o vídeo que postei logo no começo do post é uma música feita em homenagem a Johnson pelo brasileiro Celso Blues Boy com participação do legendário B. B. King, "Mississipi". Não é minha favorita do bom e velho mago da guitarra, mas vale o registro.
P.S.: Não, não vou falar daquele filmezinho açucarado e ordinário com o Ralph Macchio.


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