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Nov 06
Embalming – The Another Tale of Frankenstein, de Nobuhiro Watsuki
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Lancaster |
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4
Categorias: Jump Square

O que é um MacGuffin? Esse termo, criado por Alfred Hitchcock, se refere simplesmente a alguma coisa de menor importância criada para distrair o espectador – mas a história em si não é sobre essa alguma coisa, mesmo que pensemos que seja. É uma descrição vaga que pode dar margem a muitos tipos de interpretação. Por exemplo: Em Ronin, de John Frankenheimer
e com Robert de Niro, o MacGuffin é óbvio e ululante: a maleta, que move a história e faz os personagens todos se matarem uns aos outros. O que tem a maleta para causar isso tudo? Ora, quem liga?
Em outros casos o MacGuffin é menos óbvio, e funciona em um grau ainda mais estrutural (e arriscado) do roteiro. Em Um Drink no Inferno, de Robert Rodriguez e Quentin Tarantino, somos levados pelo roteiro a pensar que se trata de um drama criminal. Tudo corre de forma normal no primeiro ato do filme: Bandidos assaltam um banco, fazem uma família WASP/Politicamente Correta americana de refém, levam-na para o México, param em um bar entupido de prostitutas... e de repente, isso tudo não passou de um MacGuffin, pegamos você, espectador! O bar é um antro de vampiros, e o filme na verdade é sobre isso!
MacGuffins são manobras arriscadas, e o autor de Samurai X, Nobuhiro Watsuki, decidiu correr esse risco com o primeiro volume de Embalming – a série que provavelmente seria o carro-chefe da Jump Square na cabeça dos editores (ela ganhou a primeira capa, inclusive), mas esse papel acabou sendo conquistado por Letter Bee (Tegami Bachi). Mas antes, vamos fazer uma pequena recapitulação dos rumos da carreira do autor antes dessa série.
Logo após o final de Samurai X...
Todo mundo que acompanha o trabalho de Nobuhiro Watsuki sabe que Gun Blaze West, a série de faroeste que sucedeu Samurai X, foi o maior fracasso de sua carreira. Mas o verdadeiro motivo disso foi a interferência editorial da Jump. Após o final de Dragon Ball Z de Akira Toriyama, a Jump amargou uma queda nas vendagens que a fez perder terreno para sua maior rival, a Shonen Magazine – por um período relativamente curto, esta se tornou a número um do Japão. Quem ajudou a Jump a se levantar foi a trinca combinada de One Piece, Naruto (ainda na sua fase áurea) e Hunter X Hunter. Não custa lembrar que Eichiro Oda, autor de One Piece, foi assistente do próprio Watsuki em Samurai X, assim como Hiroyuki Takei, de Shaman King.
As pistas estavam nos rumos pretendidos por Watsuki para um novo arco jamais feito de Kenshin, Sanosuke, Yahiko e Kaoru – a "Saga de Hokkaido". Como se fosse uma prévia do tom a ser adotado, Sanosuke – ainda na reta final da história – viveu uma aventura solo aonde ele volta para sua cidade natal para enxotar um bando de exploradores do
lugar. Aquilo é indubitavelmente um faroeste, sem armas de fogo.
Watsuki tomou gosto pela coisa e falou aos quatro ventos dos rumos "faroeste" para a saga seguinte – só que chegou a conclusão que era melhor encerrar Samurai X e substituir por algo novo. E viajou por meses para os Estados Unidos, para fazer sua pesquisa – não deixando de antes jogar um verde: um breve piloto para uma possível série derivada, protagonizada por Yahiko, o moleque que orbita em torno de Kenshin, agora adolescente e devidamente gabaritado ao posto de protagonista. Não deu em nada.
Abertamente, até onde eu saiba, não foram confirmadas nem desconfirmadas as lendas sobre o fato do autor encontrar, após seu retorno, uma orientação toda nova da editoria: investir no que deu certo em séries como One Piece – personagem moleque (convenhamos, alguém acredita que o Luffy tenha dezoito anos?), aventura frenética e um tom mais equilibrado com entre o adolescente e o infantil. Em One Piece, funciona espetacularmente bem. Em Gun Blaze West, foi um desastre – aparentemente Watsuki teve que enterrar todo seu trabalho na gaveta e criar do zero um One Piece no meio do deserto, com pistoleiros no lugar de piratas.
Não passou do terceiro volume.
Ironicamente, um dos primeiros grandes sucessos da história da Shonen Jump,
ainda no começo dos anos setenta, foi uma série de premissa similar: o western "Koya no Shonen Isamu", de Souji Yamakawa e Noboru Kawasaki (o mesmo que se celebrizaria sob o roteiro de Ikki Kajiwara com aquele que talvez tenha sido o primeiro grande clássico dos mangás de beisebol, Star of the Giants. Desculpem usar a abertura italiana – estou cansado de colocar a abertura original, que é bem melhor, só para os japoneses ordenarem sua remoção do You Tube. A versão italiana é brega, mas ninguém a tira de lá).
Feito isso, a carreira do autor se tornou um misto de tentativa e erro. Busou Renkin (uma tentativa de pegar carona no tema "alquimista" e fazer um material mais visivelmente pensado para gerar brinquedos) foi uma série que levou tempo para emplacar – e quando emplacou, já era tarde
demais, o plugue da editora já havia sido puxado. Entretanto, o bom resultado comercial dos últimos volumes deve ter despertado boa vontade dos cabeças da Jump: ele teve a oportunidade de testar o seu novo conceito em dois one-shots, publicados nos anos de 2005 e 2006 na revista Jump Revolution.
Era Embalming.
Período de Testes
Embalming toma como premissa o conceito de que o processo criado por Victor von Frankenstein foi bem-sucedido (tema que inspirou o clássico conto brasileiro de ficção científica "Para Nunca Mais Ter Medo", de Fábio Fernandes) – e que, imortalizado por Mary Shelley naquele livro que conhecemos muito bem, acabou por se tornar um ícone de ficção na cabeça das pessoas, que pensam ser apenas uma história. Mas os frankensteins – como são conhecidas as pessoas que passam pelo processo – existem e vivem à sombra da humanidade; o livro de Shelley é lembrado por eles como "a história do primeiro". Entretanto, o processo tem um efeito colateral: ele acaba levando à insanidade ou à perversidade ao longo do tempo. Além do mais, os corpos precisam de manutenção constante. É muito comum que
bandos de frankensteins assassinos cometam verdadeiras chacinas para obter novos órgãos para que possam permanecer vivos. Para piorar, é possível "turbinar" os corpos, usando partes não-humanas – e eis o elemento mais over do cenário: a partir desse aspecto, é possível que eles tenham capacidades muito além dos seres humanos normais, se tornando verdadeiros monstros...
... ou mutantes, na acepção quadrinhística da coisa?
A primeira história, Dead Body and Bride, apresenta o personagem John Doe – e marca uma virada na carreira de Watsuki: o personagem é ambíguo, de caráter duvidoso e impiedoso. A segunda história, Dead Body and Lover, protagonizada por um jovem cientista alemão e uma menina frankenstein tresloucada, tem personagens mais simpáticos, mas observando bem, a abordagem ainda é exagerada, em um tom mais próximo ao de Busou Renkin.
Em todo caso, o conceito passou pelo teste do público – e seu próximo passo foi entrar no line-up do bem-sucedido projeto da Jump Square, como título de estréia da publicação.
MacGuffin!
Na série regular – que aparentemente inclui esses dois one-shots como parte da cronologia – a coisa muda. A nova história, muito mais dramática e intensa, gira em torno de três personagens: Fury Flatliner, Raise Allen e Edel Wise. Os três são os únicos sobreviventes de um ataque de frankensteins, e acabam pedindo abrigo, após à tragédia, na mansão do Lorde inglês Robert Wise (homônimo do famoso diretor de cinema). Edel, desmemoriada, acaba sendo adotada e rebatizada pelo Lorde Wise, enquanto Fury e Raise crescem como parte da criadagem. No entanto, após um ataque, Raise
reaparece como um frankenstein. A impressão que teremos é que a série funcionaria no ritmo de uma bomba-relógio: Fury buscaria a vingança pelo próprio amigo a seu lado, que enlouqueceria aos poucos – e será que a consequência lógica do processo seria matar o homem que transformou Raise em um Frankenstein, e por fim sacrificar o próprio Raise antes que a perversidade o consumisse? Essa dualidade tornou o primeiro volume da série regular, Dead Body and Revenger, simplesmente o melhor trabalho isolado de Watsuki na minha opinião.
Só que descobrimos que tudo isso não passou de um MacGuffin. Pensávamos que era um shonen de ação muito no tom da versão animada de Full Metal Alchemist, com personagens dualistas e dramas crescentes – e de repente percebemos que Embalming nada mais é do que...
... Uma história de Super-Heróis!
E o primeiro volume é simplesmente uma trama de origem! Não vamos spoilerizar mais nada – basta dizer que o destino de Fury é se tornar ele mesmo um frankenstein, construído com uma única missão: acabar com os demais frankensteins. E que ainda resta uma última grande tragédia na sua vida (ou melhor, no seu
pós-vida) para arremessá-lo de vez a sua única missão. O plot que achávamos que seria tomado acaba por não acontecer – na verdade Fury e Raise tem papéis bem diferentes daqui em diante. Claro que há um gancho muito sutil para a inclusão de um novo personagem cujo papel é óbvio, quando aprendemos mais sobre o passado de Lorde Wise – e quando testemunhamos o rumo tomado com a personagem Edel.
De resto, com a entrada do segundo volume, percebemos que o conceito de "poderes sobre-humanos" dos frankensteins é bem elástico. No fundo, no fundo é a conveniência da mutação para as histórias de super-heróis. Mutação é uma premissa científica, um fato da vida – e foi uma sacada genial de Stan Lee, aproveitada até em outras editoras (como o conceito de "Meta-Gene" da DC). Para que quebrar a cabeça com complicadas histórias de origem para um super-herói quando basta dizer que é algum tipo de mutação, ele nasceu assim e acabou?
Na prática, os Frankensteins aqui são a mesma coisa. Homens gigantes, peles invulneráveis, dedos elásticos e um traço de excentricidade na sua personalidade que a bem da verdade, é um achado: enquanto pessoas comuns são vestidas com
fidelidade de época, os Frankensteins acabam se vestindo como cosplayers ambulantes – e faz sentido aqui, porque eles não pensam nem agem como pessoas comuns, para o bem ou para o mal. Ou seja... supers na era vitoriana. De resto, talvez não tenha sido uma boa idéia Watsuki desviar o foco para os protagonistas do segundo piloto, Dead Body and Lover, em um momento em que ele precisa estabelecer o papel do personagem em seu novo status quo; mas aqui o autor aproveita para esclarecer como funciona o mundo dos personagens – com o auxílio providencial de uma personagem tagarela revelando segredos que não devem ser revelados, mas que são fundamentais para a compreensão do cenário. É funcional, porque evita aquela constrangedora cena aonde os personagens falam o óbvio para personagens que também sabem do que ele está falando (e que muitas vezes um autor não pode evitar, justamente para não manter seu leitor no escuro. Melhor pecar por excesso de zelo do que por omissão).
Em todo caso o seu desempenho ainda é moderado. Enquanto seu colega de revista, Letter Bee, ganhou uma animação curta que estará disponibilizada no site japonês
Jumpland em breve, tudo o que a série ganhou até agora foi um uma radionovela em CD, dublando o primeiro capítulo do mangá – com Ueda Yuji (o Sanosuke de Samurai X) como Fury Flatliner e Mamoru Miyano (o Raito de Death Note) na dublagem. O primeiro volume do mangá entrou no sétimo lugar no ranking da Taiyosha e caiu rapidinho nas semanas seguintes. Ele ainda pode crescer – Inu-Yasha, por exemplo, demorou a decolar – e caso se mantenha estreando no Top 10 e estabilize suas vendas, é bem provável que ele entre para a lista de obras "animáveis".
Mas até prova em contrário – e olha que o primeiro volume é ótimo – seu melhor trabalho como um todo ainda é Samurai X.
Em todo caso, continuarei acompanhando. O autor ainda precisa sair da sombra de seu maior sucesso, e definitivamente Embalming é um material pleno de potencial nesse sentido. A série ainda pode manter o nível apresentado nos primeiros capítulos – diacho, ela mal começou de verdade – e se tornar a melhor obra de Nobuhiro Watsuki.
Eu disse "pode."
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Comentários:
E que a ´´nova fase`` da Maximum Cosmo seja cada vez melhor!!
Alexandre: eu não duvidaria se ele tivesse se inspirado no velho Isamu para os rumos que ele tomou com o material, mas convenhamos – é One Piece no deserto. Seria bom ele fazer um remake para tirar o ranço do "que poderia ter sido feito e não foi".
Busou Renkin é aquela coisa beeeeeem pão-com-ovo, feito para fazer sucesso, e que não tem lá grandes graças.
Pelo que eu já andei lendo de Embalming o projeto é, digamos assim, interessante. Não é algo pelo qual eu viraria fã, mas realmente eu gostaria de ler se aparecesse por aqui. Até porque atualmente estou nesta Vibe vitoriana.
Sem falar que os Freetalks do autor são sempre bem divertidos de se acompanhar!
Alexandre: conheço gente que os odeia... XD
Gostei muito da matéria, excelente texto, muito bom. Informação de qualidade 'Editorial' - desses que você costuma encontrar muito em revistas caras sobre anime - elogio muito o site.
Mas bem, gostaria muito de saber onde posso encontrar conteúdo sobre esse Embalming. Me interessei (pelos desenhos, e agora, pela história).
Onde posso encontrar material sobre o mangá? Algum site onde o mesmo pode ser lido/baixado,qualquer coisa^^.
Agradeço desde já!!!
Obrigado, e parabéns Maximum Cosmo!
Alexandre: sendo direto, é política do website não colocar links para download. Mas a série não é tão extensa e já vai para seu segundo hiato...
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