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Nov 03

Jump Square faz primeiro aniversário

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Lancaster | PERMALINK | 0

Categorias: Jump Square

Esta aqui ao lado é a capa da edição que marca o primeiro aniversário da antologia Jump Square, lançada em uma época aonde as antologias tradicionais começaram a definhar em vendas e até medalhões consagrados (como a antologia para meninas Ribon, cujas vendagens despencaram a níveis assustadores, ou uma das três grandes antologias do mercado, a Shonen Sunday, que mais e mais vem dependendo ao longo dos anos do trabalho de veteranos já testados e aprovados, sofrendo com uma crise de renovação) com a cabeça a risco – e que se mostrou um projeto imensamente bem-sucedido, a ponto de ganhar um título-irmão, a Jump Square II. O sucesso desse projeto no mercado foi imensamente importante, porque ele mostrou que o problema das vendas não era causado necessariamente por um suposto esgotamento do formato antologia – a mola propulsora do milionário mercado dos mangás, e sim por uma necessidade de reajuste de seu conteúdo.
Mas para explicarmos isso vamos ao básico: no Japão, o que existe é uma estrutura que poderíamos definir como pré-publicação: em antologias muito baratas, são publicadas capítulo a capítulo várias séries, lado a lado. Enquanto nos Estados Unidos a estrutura de um comic book tradicional não dá margem para falhas (cada personagem tem seu próprio título. Se ele não emplacar, é cancelado. Simples assim), as antologias de mangá – e os questionários que permitem um feedback imediato – servem para medir o grau de popularidade das diferentes séries publicadas na revista. As que fazem sucesso continuam, as que não dão certo são cortadas, e a antologia segue como um imenso rio por onde jamais teremos as mesmas águas circulando, para que as franquias naveguem. É pela medida de popularidade que se escolhe quais dessas séries, devidamente testadas e aprovadas pelo público, merecem ser animadas, e a franquia passa a se desdobrar a partir desse momento, enquanto a compilação dos capítulos nas livrarias em forma de livro acaba gerando imediatos best-sellers – justamente devido à natureza descartável da antologia.
No entanto, isso levou a uma hiper-segmentação que pulverizou o mercado – e que foi confundida com um declínio letal do formato, levando muita gente a se perguntar qual seria o rumo dos mangás sem sua pedra fundamental. Parte do motivo disso aconteceu justamente pelo fato de que, mesmo com as antologias vendendo menos, as versões em livro das séries batiam recordes de vendagem.
Foi quando se percebeu a ascensão gradual de antologias de posicionamento de mercado mais amplo, por editoras menores como a Mag Garden e a Square Enix – sendo esta a que mais cresceu nos últimos anos dentro dessa abordagem; embora seu crescimento tenha sido pelas beiradas, não podemos esquecer que foi esse o processo que levou à antologia Shonen Jump a tomar, o trono de revista nº1 do Japão das mãos da Shonen Magazine em meados dos anos setenta. Basta olhar para as listas dos mais vendidos e constatar que a Square Enix, divisão de quadrinhos da empresa homônima de videogames, é uma força crescente, emplacando títulos e títulos, muitas vezes dominando a lista seinen (para jovens adultos).
Qual o segredo dessas novas antologias? Integração com franquias existentes, conteúdo amplo e direcionado a vários públicos, mesmo partindo de um eixo classificatório comum para evitar que se atire para tudo que é lado. Uma antologia ainda precisa de um perfil claro e foi essa a desgraça da experiência da Coamix/Gutsoon! em sua Raijin Comics, nos Estados Unidos. Não bastava estar publicando uma antologia sem o apoio de desenhos animados ou de jogos, com material em muitos casos de perfil antigo demais; A Raijin misturava em suas páginas títulos brutais para adultos como Souten no Ken, histórias velha-guarda como o (ótimo, mas infelizmente datado para leitores mais jovens) City Hunter, material de apelo infantil como o inteligente e simpático Bow Wow Wata, material sério como O Primeiro Presidente do Japão, quadrinhos otakus como Guardian Angel Getten, material adolescente como Slam Dunk e histórias próximas ao tom de séries como 24 horas como o (espetacular, admitamos) Revenge of Mouflon. Fica a pergunta, para quem diacho essa revista era dirigida? Notem que isso não diminui os méritos individuais da maioria dessas séries – Slam Dunk inclusive está sendo republicado do zero na Shonen Jump americana. O problema é juntar material para públicos tão distintos num lugar só.
A Shonen Gangan da Square Enix é mais inteligente em sua variedade. Tenta-se atingir vários públicos, com elementos dirigidos a outros tipos de leitores, mas o "shonen" está lá até no nome para lembrar quem é seu público-alvo focal. Há quebra de fórmulas e uma busca por novas idéias (basta lembrar de que a Gangan é o lar de Full Metal Alchemist, a série que quebrou vários paradigmas dos shonens e que alcançou sucesso internacional). E provavelmente essa abordagem inspirou profundamente a Shueisha na sua conceituação editorial para a Jump Square (e convenhamos: chamar uma antologia de "jump SQUARE" não denota uma certa cara-de-pau, não?). É um case editorial de benchmarking – ou seja, fazer o que já deu certo com outras empresas – e funcionou imensamente. Mas a Square Enix está longe de ser a potência que é uma Shueisha nesse setor. O merchandising pesado e a máquina publicitária da editora funcionou e deu retorno.
No fundo a Jump Square é um laboratório para novas fórmulas e conceitos, puxados por títulos ligados à animações já em andamento ou em vias de lançamento, ou baseado em videogames de sucesso. Temos muitas histórias fechadas com convidados especiais (como as inusitadas parcerias entre Akira Toriyama e Masakazu Katsura ou a do decano Stan Lee, o pai do universo Marvel, com Hiroyuki Takei de Shaman King). Até a autora do shoujo mais vendido da história dos mangás, Hana Yori Dango, foi trazida para o mix em busca de abordagens diferentes – e de seu grande público leitor, convenhamos.
No final, a Jump Square chega ao seu primeiro aniversário como um produto bem-sucedido – e, não custa lembrar, que forçou a criação de uma nova antologia, a Jump Square II, especializada em one-shots e de periodicidade eventual. Melhor assim. Em outros tempos, a popularidade levaria ao estreitamento da periodicidade, transformando revistas mensais em semanais. Aqui, abre-se um novo front para novos conceitos – e preserva-se a qualidade que caracteriza o conteúdo da Square, agora oferecendo continuações para franquias já concluídas em revistas semanais, como visto com Prince of Tennis. Sem falar de que Tegami Bachi (Letter Bee) está caminhando para se tornar o primeiro material animado baseado em um mangá publicado na linha Square (Kurenai não conta, por já ser baseado em uma light novel).
As antologias não estão morrendo no Japão – estão mudando. No final, as coisas vão mudar para permanecer as mesmas, mas nesse caso em especial, essa não é uma afirmação digna de lamento. Nem de longe.


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