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Asklepios, de Tooru Uchimizu

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Lancaster | PERMALINK | 0

Categorias: Asklepios

Um dos mantras preferidos por muitos dos detratores do shonen – o quadrinho japonês para garotos – é dizer que o gênero em si seria burro. De modo geral, os gêneros adultos (josei e seinen, respectivamente para mulheres e homens mais velhos) são poupados de pedradas. Mas já vi demonstrações de estupidez gratuita de fãs de ambos os lados quanto aos gêneros voltados a leitores mais jovens, o shoujo e o shonen, ao longo dos anos.
Claro, rapazes e garotas tem gostos diferentes e isso é absolutamente normal – se me derem Fruits Basket para ler, prefiro nem perder tempo: é melhor passar logo para uma menina de dez anos que vá aproveitar melhor essa leitura do que eu. Eu também não daria o fabuloso (e indecentemente esnobado pelos leitores daqui) Sanctuary para essa mesma menina. Mangá é pluralidade, já deveríamos ter aceito isso há muito. Sabemos que ninguém é obrigado a gostar de nada. Sabemos, também, que há limites para o quanto de pluralidade pode ser aceito dependendo do lugar e do seu perfil de leitores, mas isso não está em questão aqui. Nana tem muitos leitores homens e Naruto tem muitas leitoras, e isso não depõe contra eles e elas, respectivamente.
O ponto é que da mesma forma que as agressões dos fãs de shonen contra as fãs de shoujo podem ser um tanto descabidas, também é descabimento dizer – e é esse meu ponto aqui – que o shonen é um gênero raso e/ou burro por natureza bla bla bla. Claro, eu poderia jogar como exemplo do contrário um clássico como Ashita no Joe, mas aí é a mesma coisa que usar o Rosa de Versalhes como defesa do shoujo para seus detratores: São materiais antigos, pontos altos de seus respectivos gêneros, feitos por autores com uma base de vivência e/ou cultura que hoje não parece ser mais tão fácil de se encontrar, nem no Japão.
Por outro lado, temos que definir shoujo, shonen, seinen e josei pelo que são: indicadores demográficos. Temos que entender que o perfil do público define a abordagem em todos esses casos. Por isso mesmo, temos que levar em conta que o shonen de hoje em dia não vai abordar temas sérios com a profundidade dos anos setenta, onde se permitia que os autores arriscassem e sentissem até onde pudessem ir. Talvez isso possa voltar a acontecer um dia, mas o que conta no momento é o hoje – e hoje, os garotos passam mais tempo jogando videogame do que lendo livros (salvo eventuais hits como Harry Potter). Como você pode tocar em temas importantes para esse público, ou inovar de alguma forma e dialogar nos termos que ele parece preferir dialogar?
Bom, a atual Shonen Jump tem seus materiais interessantes nesse quesito. Não vamos falar de Death Note – que já terminou e durante seu andamento ofereceu uma das histórias mais irretocavelmente montadas da história dos mangás – e que mostrou que é possível se ser cerebral e ser alto entretenimento mesmo assim, algo particularmente difícil de se fazer. No momento, a mesma dupla dessa história est á publicando a fabulosa série Bakuman, da qual já falamos neste blog – e também o título que me motivou a abrir esse post: Asklepios, de Tooru Uchimizu.
Asklepios vem sendo publicada regularmente na Jump e ainda não fechou o primeiro volume. Houve um episódio piloto publicado em 2007, com algumas diferenças importantes em relação ao original. Sendo aprovado pelo público e polindo os focos problemáticos, a série recomeçaria do zero na edição de 22 de Setembro. De lá para cá, tem sido publicada semanalmente.
E a série não é uma obra-prima, sejamos honestos – mas é exemplar ao se mostrar como é importante se sintonizar com o mundo para adicionar relevância a um conceito de série.
Asklepios poderia ser definida como uma espécie de cruzamento entre Rurouni Kenshin (em termos de tom, especialmente se pegarmos os primeiros volumes) e Black Jack (de Osamu Tezuka), ambientada numa Europa na transição da medievalidade para a renascença. Seu protagonista, inusitadamente, é um cirurgião – aparentemente o último herdeiro de uma família que desde os tempos da Grécia antiga, preservou uma série de conhecimentos médicos da destruição cultural. Ao cabeça da família, é reservado o prenome de Asklepios – uma referência ao deus grego da medicina. Entretanto, os conhecimentos de Asklepios vão contra a norma imposta pela Igreja Católica, e por isso ele está no topo da lista dos heréticos mais perigosos, pelo fato dele "cortar" suas vítimas. Mas o objeto de interesse da Igreja está longe de ser a preocupação com suas ovelhas, como é de se esperar.
Buzz Medill aparentemente é o único que pode preservar o manto familiar, ao lado da jovem Rosalee Telésphoros (foi a melhor forma que eu pude traduzir esse nome. As traduções internáuticas tendem a ser um tanto estranhas e influenciadas demais pelo fator Romanji, mas a partir do background dos personagens, dá para se aproximar do que seria o nome real transcrito pelo autor). Ela é mais do que uma garota de personalidade forte com o penteado de um periquito: Rosalee também carrega o peso de uma linhagem, e sua família também está sob o efeito da perseguição – resta a ela empunhar uma espada para proteger o Asclepius e guardar tanto sua vida quanto os livros que carregam os conhecimentos secretos de sua medicina (que na verdade é uma medicina bem moderna se observarmos bem...).
A série, estranhamente, não surpreende e surpreende ao mesmo tempo. Não surpreende porque ela segue por completo a estrutura e cantilena do shonen mais padrão – de forma bem-feita, mas sem nenhuma originalidade realmente (e isso não é crime). Histórias com cirurgiões que assoviam e chupam cana, e que conseguem ser inseridos em tramas de ação também não são novidade. Basta lembrar do seminal e já citado Black Jack de Osamu Tezuka, que não por acaso era o personagem preferido do autor .
Mas ela surpreende porque debaixo da estrutura formulaica do material, o autor mostra ter uma cabeça sobre os ombros e opiniões fortes, dando valor ao que poderia ser oco. Quando nos damos conta, percebemos que Uchimizu não está fazendo realmente um quadrinho de época: ele fala na verdade sobre a atual onda de neo-obscurantismo que varreu o mundo a partir dos Estados Unidos pós-Bush, sobre crença cega, sobre a relação direta entre a falta de instrução e o poder político dos interesses religiosos, sobre o atraso e a superstição contra o conhecimento – e até arranja espaço para alguns temas off-topic como a relação direta entre vaidade e aceitação social (que aparecem em um capítulo aparentava apelar para o fan-service e baixar muito a série na minha pontuação pessoal, mas de repente dá uma virada de roteiro que recoloca tudo em uma nova perspectiva. Quando a doença que justificava a trama e seus efeitos físicos foram apresentados na história, eu fui pesquisar – e sim, não é invenção).
Houveram algumas diferenças sérias entre o piloto e a série regular. A mais importante delas é a ambientação: O piloto se passava numa medievalidade mais genérica, mais ou menos como o imaginário popular a pinta. Aqui, a série é melhor localizada no tempo e dá a entender que o autor aproveitou o intervalo para fazer o dever de casa: Apesar do texto declarar que a história se passa na Idade Média, tudo indica que se passa em algum ponto muito vago na virada do século 15 para o 16. Outras mudanças acabaram por fazer bem a série: na versão original, Rosalee ainda era samurai demais (e de certa forma, na série regular o autor não conseguiu se livrar de alguns ranços culturais locais na hora de retratar suas atitudes) e funcionava como uma espada de dâmocles: ela apontava a espada para Asklepios durante a cirurgia. Se o paciente morresse, ela o mataria. No entanto, isso não faz sentido – já que a intenção é preservar conhecimentos antigos de medicina que podem ser enterrados em nome dos interesses políticos da Igreja. Assim, na série regular, esse elemento desaparece e Rosalee passa a dividir seu papel de guarda-costas com o de assistente. Outra mudança fundamental é o fato de que o "Olho de Deus" – o mais importante talento do Asklepios – tinha conotações um tanto sobrenaturais na primeira versão. Isso desapareceu por completo – ele ainda está lá, mas virou um procedimento aprendido e mecanizado. Essa foi uma decisão extremamente coerente com a temática – não se poderia falar desse tema com um personagem veladamente sobre-humano se pensarmos bem. Por outro lado, para não dizer que todas as alterações foram para melhor, agora Buzz Medill é um personagem completamente inseguro quando não está com o bisturi na mão, e seu relacionamento com sua guarda-costas lembra muito o casal principal de Rurouni Kenshin dentro de casa – ou seja, na prática quem manda é ela. Com o demérito extra de que na verdade Rosalee é uma fedelha...
Em todo caso, a história é levada à sério também em outro nível – o de que é uma história para garotos MESMO. Isso não pode ser dissociado do material. Gags, distorções calculadas (prestem atenção quando Buzz arregala os olhos quando está enervado), piadas, exageros, está tudo lá. E sinceramente, é parte do preço a se pagar para se levar esses temas ao seu público-alvo. É isso que ele quer ler? Ótimo. Porque escrever comercialmente – e quadrinho é arte comercial – significa abrir uma linha de diálogo, aonde se estabelece o que o autor quer dizer para seu publico e o que o publico quer ler de seu autor.
Asklepios não vai mudar a minha vida como leitor. Mas é extremamente didático em termos de como pode ser um bom quadrinho comercial, feito com competência por alguém que olha para o mundo ao seu redor e sabe como usar isso a seu favor. Serve para mostrar que shonen não é necessariamente "burro". E levando em conta a guerra que se fez no congresso contra a aprovação do uso médico das células-tronco, movida por pressões e interesses de grupos religiosos, como dizer que o conteúdo dessa série – uma série shonen em todos os sentidos da palavra, até nos mais clichês – não é relevante?


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