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Out 07
Da série "Crescimento do Mangá Global": Espanha [1]
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Lancaster |
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Categorias: Do Crescimento do Mangá Global
Nos anos oitenta, lemos muito quadrinho espanhol. Revistas como a Animal e a Circo nos apresentaram a títulos sombrios, canalhas, subversivos e eventualmente até pornográficos – e isso tinha uma razão muito simples de ser: Ressaca do franquismo. Quando se abrem as porteiras após uma ditadura, a tendência é o excesso – e conhecemos isso muito bem. Quando veio a "Nova República" pelos idos de 1985, veio a geração Angeli/Laerte/Glauco, só por exemplo. O problema no caso da Espanha é que a tendência foi explorada à saturação. Sem desmerecer o trabalho de ninguém, o fato é que chegou uma hora que ninguém aguentava mais ler esse tipo de material.
O que acontece quando um cenário é dominado por um único gênero? Qualquer mudança de onda derruba tudo como um castelo de cartas – basta lembrar da agonia dos quadrinhos de super-heróis nos Estados Unidos, mais e mais dependentes do cinema para sobreviver (Sem brincadeira, é só comparar os números de Jumps e Beats fora do mercado direto que Marvel e DC empalidecem). Quando um desenho bem conhecido por nós, chamado Dragon Ball, lá pelos idos da segunda metade dos anos noventa, se tornou um furacão em território espanhol que só tem paralelo à
primeira exibição de Cavaleiros do Zodíaco no Brasil, a mudança chegou – e veio para derrubar tudo.
Qualquer semelhança, aliás, com o que aconteceu nos anos que se seguiram a explosão de Seiya e companhia por aqui, tem que ser mera coincidência, porque chega a ser assustadora. Assim como tivemos a Herói, os espanhóis tiveram a Minami – que funcionou da mesma forma, de forma explosiva, e tem uma importância grande para o surgimento do mangá espanhol. Nela, o Estúdio Kosen, formado pelas artistas Aurora García Tejado e Diana Fernández Dévora, começou sua trajetória com matérias do tipo "como desenhar mangá" – e histórias curtas. A colaboração das duas prosseguiria em revistas como as menos populares Dokan e Shirase.
Mas foi pela editora Animaniaco que elas publicariam sua primeira série, Garou-Chan – um shoujo (quadrinho para meninas) sobre uma menina que se apaixona por um rapaz que na verdade é um lobisomem. A série foi publicada de 1999 a 2001 – e falando assim parece que ela foi enorme, mas na verdade era uma minissérie de quatro edições de 32 páginas,
publicada com uma periodicidade extremamente errática. Mesmo assim, a série rendeu bons dividendos para as autoras e foi licenciada, em edição única, para a Polônia em 2003. O trabalho seguinte, Lêttera, era uma comédia de fantasia que teve menos problemas de periodicidade, sendo publicada em capítulos regulares na revista Shirase da editora Ares Informatica, de 2002 a 2004. A partir daí, elas se enfronharam no gênero yaoi – pornografia, light ou não, com homossexuais masculinos – e passariam a trabalhar para o mercado externo. O papel delas no mercado local termina aí, embora esses materiais fossem publicados também no próprio país. Mas aí não é muito diferente de se ler o Deodato desenhando o Homem-Aranha...
Contava para isso também um novo fator: na Espanha, a reação das editoras quanto ao material japonês foi imediata – diferente do Brasil nesse ponto, já que Cavaleiros levou anos para ser publicado em relação ao seu estouro na televisão brasileira. Títulos como City Hunter, Ranma, Sailor Moon e outros invadiram o mercado. Muita gente foi influenciada por esse material.
Mas aquele era um momento de crescimento e houve um erro tático – sobrecarregamento de material em um momento que o mercado ainda não estava maduro, ou seja, mais mangás do
que seu público poderia consumir. Isso provocou uma imensa retração – e por um bom tempo, o mangá pareceu não passar de uma moda editorial que veio e passou, mas varreu o caminho enquanto esteve viva. Isso atrasou e muito o desenvolvimento dos mangás locais no país por um motivo simples: parecia não haver espaço para publicação. E sem espaço, tudo definha.
O que virou a maré – ou melhor, começou a virar a maré, foi a dinâmica dos eventos, como o Salão de Mangá de Barcelona, que este ano se encontra na sua 14ª edição e promove concursos e premiações (que incluem o melhor mangá espanhol). Mangá ainda não é um fenômeno na Espanha nos moldes do que acontece na França e Alemanha, apesar de hoje um bom catálogo ter se formado nas editoras que o publicam; nesse momento o que se tem é um panorama de contínua reconstrução e crescimento. Mas há bons indicativos. A Norma Editorial promove concursos anuais em que o vencedor publica um mangá de 160 páginas – e dessa saíram materiais premiados como o muito bem-feito Obsessión, de María José González e María Victoria Rivero; e editoras como a Medea seguem o mesmo caminho, lançando concursos e a partir deles, publicando séries já diretamente em formato livro, como 3X1, Hunter of Tales, Yaruki, Rosacruz e outros. Algumas dessas séries criaram um
público razoável – Yaruki e 3X1, respectivamente das autoras que assinam sob os pseudônimos Akane e Inma, já chegaram ao quinto volume.
Mas uma olhada mais crítica nesses materiais mostra que embora eles estejam alcançando um bom nível técnico, falta identidade ainda. A julgar pelo teor do que está sendo publicado pelas editoras espanholas, existe por lá um ranço de mentalidade fanzineira em boa parte dos trabalhos, e faz parte disso a pouca variedade temática (shonens são meio que filhos únicos nesse cenário) e a síndrome do "eu quero ser japonês" – ou seja, ser mais um fã repetindo o que ele gosta de ler do que um autor procurando soluções criativas (é até bom reparar que boa parte dos autores parecem usar pseudônimos japoneses) – e isso o coloca aquém de países como França, que parecem já ter praticamente superado de modo geral essa fase (mesmo quando a série envolve o Japão de alguma forma, séries francesas como B.B.Project – que concorreu ao International Manga Award – mostram uma ótica própria), ou mesmo da Alemanha, que amadureceu tecnicamente e já parecem estar olhando para dentro (como evidencia o hit local Gothic Sports).
O mangá espanhol ainda é um produto em construção, mas de modo geral, todos os países que vem trabalhando no crescimento da estética passaram por essa fase. Resta a eles crescer e se deslocar da órbita do fandom aos poucos.
Boa sorte.
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