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Bakuman, de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata (com spoilers, então estejam de sobreaviso).

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Lancaster | PERMALINK | 4

Categorias: Bakuman

Bakuman

A série não tem ainda um volume completo. Só li sete capítulos agora, originalmente publicados na antologia para garotos Shonen Jump. Mas Bakuman me acertou com a força de um chute nos bagos. Poucas coisas são mais eficientes na hora de fazer você sentir que está lendo um material de primeira do que isso.
Tsugumi Ohba e Takeshi Obata. Não, os nomes não são estranhos a vocês. É a mesma dupla que pôs no mundo o mega-hit Death Note atualmente publicado pela JBC, que virou peça de teatro em São Paulo e tudo mais. Engana-se quem esperar o mesmo tipo de material – na verdade ele é o extremo oposto. É emocional, enquanto Death Note é cerebral. Os personagens são apaixonados, voltados aos próprios sonhos, jovens e com aquela certeza de que podem conquistar o mundo. As referências são concretas e é impossível não se reconhecer no que está sendo mostrado ali. O tom é muito mais limpo e luminoso, diferente das massas de preto da obra que celebrizou a dupla. Mesmo o traço de Obata se reinventou mais uma vez – da mesma forma que ele fez de Hikaru no Go para Death Note: aqui, ele aparece em um meio termo entre o traço mais caricato da primeira obra para o traço mais realista da segunda, temperada por uma arte-final mais solta e um pouco mais quebradiça.
Bakuman é a história de dois garotos que querem desenhar quadrinhos.
Só isso.
E tudo isso, também.
Quando a história começa, somos apresentados à Mashiro Moritaka. Ele não sabe o que fazer da vida e espera trabalhar em uma empresa qualquer assim que se formar no colégio. É apaixonado pela moça mais bonita da sala, Azuki Miho, mas claro, esse sentimento só lhe trouxe tristeza na vida – afinal todo mundo que foi adolescente algum dia sabe que se apaixonar nessa idade é uma m(*) de dar gosto. Mas tudo muda quando o melhor aluno da escola, Takagi Akito, praticamente o arrasta para a vida de quadrinhista.
A relutância inicial de Mashiro tem motivos concretos: Seu tio foi um quadrinhista também – e se ferrou na vida por causa disso. Perdeu a mulher que queria: enquanto ele ainda não havia emplacado, ela havia chegado mais longe em seus sonhos, e por isso ele não tomou a iniciativa – e sofreu uma maldição muito comum no competitivo mercado japonês: só emplacou um único sucesso e acabou passando anos sem trabalho estável. Mashiro pensa que ele chegou a se suicidar – e isso não é tão irreal assim: Akio Chiba, o clássico autor dos quadrinhos de beisebol Playball e Capitain, não emplacou novas séries após o sucesso destas e sua carreira entrou em declínio. Não aguentando a pressão, Chiba acabou por se matar.
Mas quando nosso protagonista sem rumo passa a saber que a graciosa Azuki sonha em ser dubladora – ou seja, ela está correndo atrás de seus objetivos concretos de vida, não se importando mais com obstáculos...

Bakuman

... Ele, finalmente, se dá conta de que não pode mais fugir daquilo que realmente quer. E decide correr atrás dos seus objetivos de vida – tanto profissional quanto afetiva – doa a quem doer. Ele e Azuki acabam fazendo um pacto: ambos devem se tornar bem sucedidos, e quando isso acontecer, eles se casarão. A partir daí – e após uma pequena oposição dentro de casa – vemos a construção das habilidades e dos esforços da dupla Mashiro e Takashi em se tornarem os grandes quadrinhistas que desejam ser.
Herdando o estúdio de seu tio, Mashiro começa a afiar as suas habilidades – e aí entra uma das grandes forças da história: No Japão, esses materiais tem um enorme peso na memória afetiva do seu povo. Citam-se coisas no ar esperando que o leitor saiba do que se está falando – e acredite, ele sabe. Autores e obras são mencionados e viram referência o tempo todo. Influências clássicas do shonen como Ikki Kajiwara são sempre levantadas – porque o objetivo do protagonista é fazer algo masculino, que não seja otaku (e nisso é fácil de entender aonde ele quer chegar – não é seu objetivo se limitar fazer "meninas bonitinhas" feitas para que moezeiros e militantes menos exigentes do "lobby do fofinho" achem... hm, "fofo". Há um personagem criado para ironizar isso, inclusive). Com o tempo, e a entrada de outros aspirantes a quadrinhistas na história, um dado novo é apresentado: a competitividade inerente ao meio. A história ganha ares de reality show sobre a vida de quadrinhista, e passa a mostrar de forma quase documental a verdadeira briga de foice que é publicar numa grande antologia – no caso a própria Shonen Jump.

Bakuman

Uma das obras mencionadas com força aqui é o "Como ser um homem" (Otoko no Jouken), do mesmo Ikki Kajiwara de Ashita no Joe e Star of the Giants, e que por muito tempo, foi vista como uma espécie de manual para muitos aspirantes a quadrinhista no Japão. A escolha dos instrumentos de trabalho (como penas) e efeito dos editores na carreira é discutido – novatos não podem apitar muito e tem que fazer o que um editor manda. Se um editor for ruim, pode levar a carreira do iniciante junto com a sua – ou até de veteranos: basta lembrar do que aconteceu com Nobuhiro Watsuki e seu Gun Blaze West, completamente descaracterizado pela interferência editorial da Jump – e o maior fracasso de sua carreira.
Eu nunca neguei, e não é agora que eu vou negar, que tenho uma profunda identificação com o shonen – os quadrinhos japoneses para garotos – como suposto gênero (porque na verdade, shoujos, shonens, seinens, joseis, kodomo e o diacho não passam de índices demográficos se analisarmos friamente, mas que acabaram ganhando foro de gênero). Eu não o vejo como o festival de porrada que muita gente vê – e sinceramente, mesmo alguns shonens de lutas intermináveis conseguem ir mais fundo no personagem do que muito material supostamente para adultos que põe uma cena de nudez aqui, uma cena de virar o estômago ali, referencial haute culture para ganhar a crítica intelectualizada e virar o gênio da raça. Um volume bem escolhido de Bleach tem mais substância do que toda a obra completa do Suehiro Maruo (e eu sei quem é Baudrillard, então não venham com o papo de "você não tem base para entender a profundidade dessa obra bla bla bla bla bla").
Eu vejo shonen antes de mais nada como um gênero sobre realização e conquista, que podem ser metaforizadas nos punhos de um personagem da mesma forma que encontrar uma arma mágica pode ser uma metáfora para amadurecimento físico em um conto de fadas. Mas shonen não se limita só a porradaria – e Bakuman é um perfeito exemplo disso. Ele é antes de mais nada sobre metas, objetivos e conquistas. Mas também enfatiza algo que pode ser muito importante – e negligenciado: não adianta você conquistar algo que lhe dará felicidade se o preço também for parte do que o faz feliz. Ou, como diz a música dos finados Titãs, "a gente não quer só dinheiro, a gente quer inteiro e não pela metade". Seja um quadrinhista, ou um atleta, ou o que for – mas tenha uma vida fora dos quadrinhos. Até para ter o que falar além dos próprios. Até porque quadrinhistas sem interesses além dos próprios quadrinhos acabam fazendo quadrinhos sobre o que lêem nos quadrinhos. A xerox da xerox da xerox. Foi justamente porque os japoneses entenderam que quadrinhos tem que ser para todos que os mangás estão dominando o mundo. De quadrinhos para nerds, o mundo está cheio. E definitivamente, Mashiro e Takagi não querem seguir esse caminho.
Boa sorte aos dois.
Eu estarei acompanhando seus passos.

Bakuman

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Tá de bobeira?

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Comentários, Trackbacks:

Nome: pelada 26/05/09 12:42
A melhor coisa que eu li no site, junto com a entrevista do Naoki Urasawa. Parabéns pelo texto.

No mais, espero que também faça uma matéria sobre o Kaiji (estou na metade do anime, e é foda pra caramba).

Até.

Alexandre: Bem, acho duvidoso por um motivo simples: eu escrevi essa matéria de Kaiji para Neo Tokyo – foi um dos últimos materiais que escrevi antes de sair. Nada impede que eu reposte artigos mais antigos que pus na NT, mas os mais recentes devo demorar muito a pensar em colocar aqui, em respeito aos que compraram a revista – salvo se alguma notícia tornar relevante a republicação neste blog.
Nome: pelada 27/05/09 12:13
Não sabia dessa matéria do Kaiji na NT(eu não compro a revista). Pode me dizer em que edição saiu? Sendo assim, vou atrás... valeu.

Alexandre: Edição 33.
Nome: Heil 07/08/09 02:36
Eu realmente gostei do review. Mas bakuman não é tudo isso, atraves doque venho acompanhando. Tem tanta desqualificações como outro shonen meia boca da Jump. Os proprios personagens ecoam os estereotipos intragaveis que o Ohba criou em Death Note.

Alexandre: Olha, é importante lembrar para que faixa etária esse material se destina. A mesma mensagem não poderia ser passada da mesma forma do que uma revista para um leitor de quinze anos como o da Shonen Magazine, ou um de 20 como os leitores das Young Jump por exemplo.

"Um volume bem escolhido de Bleach tem mais substância do que toda a obra completa do Suehiro Maruo"

Você realmente gosta de Bleach?

Alexandre: Ele é mero quadrinho pipoca bem-conduzido na minha opinião. Se a idéia é divertir e distrair, ele promete e cumpre muito bem, com uma arte muito boa. Ele é honesto, o que é mais do que eu posso dizer de qualquer coisa vinda da pena de Suehiro Maruo.
Nome: Rayden 11/10/09 04:53
eu tinha lido na ultima edição da neo tokyo q saiu. to loco pra começar a ler.
me agradou bastante só pelo q li na revista. Não importa o genero, essa dupla de mangakás é boa e ponto. ^^"

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