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Set 29

Da série "Crescimento do Mangá Global": Alemanha [1]

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Lancaster | PERMALINK | 0

Categorias: Do Crescimento do Mangá Global

Depois que fiz duas matérias (e alguns artigozinhos menores) relativas ao mangá feito por franceses, me senti obrigado a escrever uma matéria dedicada ao material feito por alemães. Porque a Alemanha nunca teve uma grande expressão mundial dentro dos quadrinhos, bom dizer – tentem lembrar de algum material alemão, de cabeça. O grosso do material consumido pelos teutônicos é ou Disney – e a despeito de artistas brilhantes como o Don Rosa brigarem para manter a peteca no ar, cada vez mais o material Disney depende de saudosismo de dias melhores – ou pior, franquias forçadas a partir de coadjuvantes de filmes clássicos – ou material de humor, ou outros materiais importados.
Por esse viés, eles deveriam ter sido destruídos como mercado para os quadrinhos locais, de acordo com a cantilena que os teóricos da conspiração quadrinhística adoram espalhar pelos cantos sobre qualquer material estrangeiro que pise em sua terra. Mas olhem só a lista de materiais ao estilo mangá produzidos por autores alemães, disponíveis no próprio país: Mais de cem volumes diferentes em catálogo nas livrarias, produzidos por onze editoras diferentes, passando das toda-poderosas locais Carlson e Egmont até editoras menores e especializadas como a Manga Spot. A própria Tokyopop tem uma filial alemã. Aliás, na lista oficial de mais vendidos da editora Carlson no ano de 2007, quatro dos materiais locais não faziam feio ao lado de pesos-pesados japoneses (os materiais alemães estão grifados em verde).

01. Naruto
02. One Piece
03. DAISUKI (é antologia, não sei porque foi contabilizada)
04. Luxus
05. Vampire Knight
06. Futari Ecchi
07. Desire
08. Junjo Romantica
09. Fairy Cube
10. Drachenschnee
11. Koi wa Keiyaku no Atode
12. Takumi-kun
13. Wild Fish
14. Crown
15. Cheeky Vampire
16. Raccoon
17. Tenshi no Hitsugi
18. White Pearl
19. Fruits Basket
20. Hanazakari no Kimitachi e

Várias dessas séries foram exportadas para outros países – E não custa dizer, Gothic Sports, In the End, Summer Rain e Yonen Buzz foram licenciados até no Japão. Autores como Robert Labs, Judith Park e Anike Hage enchem filas de autógrafos nas convenções locais de anime e são tratados como astros por seu público. Embora o mercado de quadrinho alemão não tenha a mesma pujança do mercado francês, temos que admitir que eles foram até mais longe do que os gauleses. E mais do que poderíamos imaginar.
Séries como Dystopia e o citado Gothic Sports (um quadrinho de esportes passado na própria Alemanha, mas também um polaróide do crescimento de certos modismos entre as adolescentes locais) não deixam de render em termos de licenciamentos, e as editoras usam as antologias locais – como a Daisuki, uma antologia shojo que mistura autores locais e material nipônico – para promover produtos como bolsas, acessórios para roupas e o diacho a quatro. O sucesso é tanto que as autoras Hage e Marie Sann produziram, em parceria com a Nintendo e o EBay, versões especiais do Nintendo DS inspiradas em seus trabalhos.
Em meio a tudo isso, a Egmont lançou um DVD com um documentário falando sobre os mangás feitos por alemães e uma matéria publicada no jornal Leipziger Volkszeitung deixando claro que "Quase todos os atuais e futuros artistas (de quadrinhos) alemães desenham nesse estilo."
Agora, como tudo isso começou? É complicado dizer, porque o movimento aconteceu de forma muito orgânica, mas sabemos que a antiga antologia Banzai (que era a licenciada local da Shonen Jump e só não teve seus direitos renovados, levando a seu cancelamento e o fato da antologia usar outro nome prejudicava esse esforço, porque era de interesse da Shueisha reforçar a marca da griffe Shonen Jump; de resto ela vendia muito bem, na casa dos 130,000 mensais – números fortes para o mercado alemão) publicou materiais como Halloweens de Isabel Kreitz, Hakuchi One de Michael Rühle e Crewman 3 de Robert Labs. A Daisuki – antologia para meninas da casa – seguiu o mesmo caminho e compareceu com séries como Prussian Blue, de Cristina Plaka – rapidamente rebatizada como Yonen Buzz porque um grupo neonazista usava o mesmo nome. Como ela não tinha ligação com uma editora japonesa específica, reunindo títulos de diferentes editoras, não encarou grandes problemas e continua viva e forte até hoje.
Esses materiais tiveram retorno, tanto que chegavam a merecer capas em meio aos Narutos e Fruits Baskets da vida – não eram tratados como primos pobres dentro da revista – e apesar do fim da antologia Banzai, o nome sobrevive como uma linha de mangás para garotos criados por autores locais, publicados diretamente em formato livro.
O fato é que o cenário do mangá alemão é fervilhante e muito popular, com um cenário intenso e movimentado – e talvez seja uma prova viva de como o mangá revigora e renova os mercados por onde passa, estimulando novos autores a tirar suas canetas da gaveta para produzir e se expressar. Com certeza voltaremos outras vezes ao mangá alemão – porque ele sempre apresenta novidades e é uma das frentes mais sólidas de crescimento na estética nos últimos anos.
E não custa lembrar que eles já acharam o caminho dos licenciamentos e merchandising. E isso é algo a ser levado a sério. Muito a sério.


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