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Set 26
Yasujiro Ozu em mangá
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Categorias: mangá
Quais são os dois cineastas japoneses mais importantes da história? De um ponto de vista completamente ocidental, a escolha é óbvia: De um lado, temos Akira Kurosawa, um cineasta que já despontou para o mundo como além de seu próprio tempo, vigoroso e dinâmico. Sua linguagem nos filmes de samurais se assemelhava aos westerns e futuros filmes de ação que viriam a dominar o mundo décadas depois. Yojimbo seria refilmado como o seminal western italiano Por um Punhado de Dólares, de Sérgio Leone – mas é bem mais provável que quem esteja me lendo esteja mais familiarizado com a versão filme de gângster da mesma história, O Último Matador. Da mesma forma, Os Sete Samurais deu muitas voltas e ganhou inúmeras versões, do western Sete Homens e um Destino, que é um excelente e influente western, mas está longe da altura tanto do filme que o inspirou quanto dos maiores clássicos do gênero, passando pela ficção científica Mercenários das Galáxias, chegando a sua esticadíssima versão em anime, Samurai 7.
Já Yasujiro Ozu é o seu completo oposto. O que um tinha de exuberante, o outro tinha de intimista. O que um tinha de cosmopolita, o outro tinha de local – algo que prejudicou a divulgação de sua carreira mundo afora: ele só viria a ser melhor conhecido no ocidente após os anos sessenta, em uma época de busca de novas linguagens. Sua
mais conhecida obra fora do Japão, Tokyo Monogatari, só foi exibida nos Estados Unidos em 1972. E notem que estamos falando de um filme de 1953.
Seu cinema não é o que poderia ser chamado de popular. Se Kurosawa era a nitroglicerina, Ozu era o gelo – e mesmo os dois puderam ser combinados em sua linguagem por nomes como o mesmo Leone de Por um punhado de dólares – em Era uma Vez no Oeste (que por acaso é meu filme favorito), o autor italiano se inspirou em ambos para tecer uma nova e ritualizada visão do velho oeste, que traçou de vez o paralelo entre a figura do caubói e do samurai, como é bem possível ver na cena do duelo final do mesmo filme. Um filme para se entender com os olhos.
A obra de Ozu não foge muito a esse princípio. Ozu relutou muito a aceitar o cinema falado – começou sua carreira em 1927 com o filme Zange no yaiba (A Espada da penitência), e até fazer um filme falado (Hitori musuko – no Brasil, "O Filho único") em 1936, chegou à marca dos 34 filmes. Mas mesmo na sua fase sonora, sua linguagem visual é mais importante do que suas palavras – seus filmes são considerados muito parados pela maior parte dos seres humanos. Os planos são estáticos, sem movimento da câmera (ele deixava cenas mais ágeis para tomadas externas usadas como um refresco entre as cenas de diálogo); suas
composições são rígidas e os atores meio que se tornam um objeto a mais de cena. Quando eles falam entre si, são enfocados separadamente e com câmera frontal, como se dirigissem ao espectador.
Mas por que estou falando de Ozu? Simples. No blog do pesquisador Marc Bernabé, o mesmo autor do Grande Livro dos Mangás, ele lançou um post sobre uma biografia de Ozu feita na Big Comic Spirits da Shogakukan em 1999. A Big Comics é uma das mais tradicionais e importantes antologias para adultos japonesas, e suas páginas já nos trouxeram quadrinhos importantes como o 20th Century Boys de Naoki Urasawa, o Area 88 de Kaoru Shintani, o Crying Freeman da dupla Koike e Ikegami e o Uzumaki de Junji Ito – estes dois últimos publicados no Brasil. A revista também abarcou alguns trabalhos históricos como o História da Guerra Russo-Japonesa por Tatsuya Egawa (autor inexplicavelmente inédito no país). E de quebra publicou uma biografia de Ozu em um volume.
Esse material pertence a uma linha de quadrinhos biográficos voltada a diretores de cinema e que incluiria também um volume dedicado ao citado Kurosawa. É o tipo de coisa que aqui, só uma Conrad lançaria – e ninguém leria, desgraçadamente. Uma pena. E seria um grande material para derrubar preconceitos dentro da grande mídia cultural aqui no Brasil, diga-se de passagem.
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