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Aoi House, por Adam Arnold e Shiei

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Categorias: mangá global

Morgan

A Seven Seas é uma editora americana especializada na produção de mangás americanos. Seus mangás, produzidos por autores locais, são o que de melhor se faz de mangá ocidental ao lado da produção francesa. Na verdade, são bem superiores aos próprios mangás originais japoneses que eles ainda publicam (que em geral apelam muito a fetiches de otaku hardcore, como Venus Versus Virus, Strawberry Panic e I, Otaku – e não custa dizer, por pouco não publicaram a apologia pedófila Kodomo no Jikan, rendendo um belo problema de imagem à editora).
A produção da casa tem lá seus mangás ruins, como Capitain Nemo (para quem adora steampunk, dói muito dizer que um título com esse nome é uma bosta – assim como no filme "A Lenda do Zorro", o personagem foi desfigurado como propaganda da administração de George Bush – com direito a substituição do Império Britânico, o inimigo-mor de Nemo, por um Império Napoleônico alternativo, que estendeu seu domínio por todo um século, para garantir vilões franceses), a constrangedora fantasia medieval Ravenskull (que tem uma bela arte, mas não passa de um fanfic mal disfarçado que deveria se chamar "eu odeio Ivanhoé") e o frustrante Free Runners, que novamente tem uma belíssima arte mas é uma espécie de clone sem patins – e sem carisma nem senso de humor – do Air Gear de Oh! Great. Mas títulos como Unearthly (que infelizmente não passou no teste do público e parou no primeiro volume, mas é material de qualidade), o premiado e excelente Hollow Fields (conto de fadas sombrio que até tem ares Potterianos, mas quando nos damos conta, tem mais a ver com Roland Dahl do que com J. K. Rowling) e o meu atual favorito, Ten Beautiful Assassins (que é uma espécie de híbrido entre os velhos filmes sessentistas de assalto em locais luxuosos da Europa com... Kill Bill), mostram bem ao que a editora veio.
Aoi House, o primeiro título importante da editora a ser concluído (e que chegou a ser publicado na extinta Newtype americana), fica no meio do caminho. Essencialmente, a série se propõe a reinventar o gênero do Harém (leia-se, o palerma cercado de belas mulheres que querem tirar uma casquinha dele, ao estilo Love Hina). E pra começo de conversa, começou pelos dois protagonistas. Isso mesmo, dois: Alex, um cara normal, e o gorducho Sandy, seu melhor amigo e otaku babão. Nas palavras do criador Adam Arnold, "Desde o início, eu tinha em mente que eu procurava fazer a versão americana de uma comédia de harém" – e esse foi seu maior trunfo, e o que tornava a leitura da série algo interessante: o que acontece quando personagens com uma carga cultural diferente, com comportamento diferente, se vêem diante das mesmas situações em um cenário diferente?
Os dois primeiros volumes da série acertaram na mosca.
Para começo de conversa, Alex, a figura masculina central do bando, não é um mané e nem seu parceiro Sandy é tão idiota assim. No entanto, eles estão em meio em uma situação à qual não podem controlar. Segundo, a história se passa em uma fraternidade americana – como as que vemos em filmes como "A Vingança dos Nerds" e o genial "Clube dos Cafajestes". As fraternidades podem não ter muito a ver com nossa experiência universitária, mas elas não são simples repúblicas de estudantes. Elas trazem consigo um senso de agremiação e identidade que contam muito em uma sociedade estratificada socialmente como a americana. Lá, você tem regras para ser aceito, regras pra seguir e se pisar na bola, corre o risco de ser expulso de maneira formal. Mas para os outros, ela define quem você é e o que se espera de você – além de poder representar contatos importantes quando se sai da faculdade. "Ah, você foi do Alpha-Beta-Ômega? Eu também fui de lá, da turma de 1992!"
Por isso tudo, faz sentido que se façam comédias sobre fraternidades no cinemão americano. Isso tem tudo a ver com sua visão de mundo – é algo que faz sentido para eles e esse era um dos trunfos de Aoi House na sua primeira fase.
Outra coisa: depois que entraram, a dupla de homens numa fraternidade de mulheres começou a ser vítimas de trotes constantes – e eventualmente dar um troco, mesmo que esse troco usualmente nunca dê certo por muito tempo e acabe se voltando contra nossos, hm, heróis. Isso criou uma dinâmica interessante nos dois primeiros volumes.
O problema foi o ponto de virada da série. Eventualmente, dentro da fase inicial, se criou a perspectiva de um triângulo amoroso entre Alex, a ruivinha porra-louca Morgan e a séria, irritadiça e rabugenta Elle (por motivos diferentes, ambas péssimas escolhas, mas isso não está sob julgamento aqui). O ponto é, diferente dos Keitaros Urashima do mundo, Alex não é um pamonha. Morgan tomou a dianteira – e ele percebeu. O que ele fez ao perceber?
Como bom homem macho heterossexual do sexo masculino que ele é, ele não se fez de rogado e o triângulo amoroso terminou ali. Isso também fazia parte do planejamento de Arnold, como elemento chave de desmanche de clichês: "Mais do que tudo, entretanto, eu não queria um triângulo amoroso de longa duração. Isso foi feito aos montes, mas o que ninguém fez foi mostrar o que acontece à pessoa que sobra quando o triângulo é resolvido. Por isso, terminei Aoi House Vol. 2 com Alex escolhendo Morgan."
O problema é que essa foi uma idéia mais interessante na teoria do que na prática.
O humor universitário que era o charme da série também terminou ali. A série é interrompida e rebatizada com o nome de "Aoi House in Love" (referência explícita a Shakespeare Apaixonado), começando imediatamente do exato ponto onde fomos deixados, mas mudando de tom. Passa a ser a história de Elle, a parte rejeitada do triângulo, e de seu processo de amadurecimento. Só que isso não teve a mesma graça. Alex, Morgan e mesmo Sandy (que também não sai desacompanhado da história), são rebaixados a coadjuvantes, com direito a um epílogo no ano de formatura, mostrando flashes – a partir das memórias de Elle – mostrando várias situações ao longo dos anos. Enxergamos ali todas as histórias cômicas que poderiam ter sido mostradas e que... bom, não o foram. Ficamos com um vislumbre do que poderia ter sido. A comédia universitária com linguagem de comédia absurda importada dos mangás nos abriu uma janela... enquanto fechou as portas.
De repente, a importância de um clichê ou outro se faz visível. Claro que não é preciso se chegar ao extremo da ridícula cena onde um Keitaro deixa de abraçar uma Motoko em Love Hina – se ele o fizesse, a série também acabaria ali. Qual a solução? Que tal não escrever a cena, simplesmente?
Diacho, há mil maneiras de se lidar com esse tipo de situação sem precisar estragar a série. Quando Stan Lee criou o Thor nos anos sessenta, se viu com um belo problema de aceitação nas mãos – naqueles anos pré-hippies, Lee tinha nas mãos um herói de cabelos compridos, fala shakespeareana e que de quebra, era um deus viking. A solução dele foi temperar com o que é familiar: Puxou a solução Clark Kent ("todos o vêem como um jovem médico parcialmente manco, mas na verdade ele é O PODEROSO THOR!") e resolveu o problema. Clichês servem para isso: são soluções simples para problemas narrativos imediatos. Nem sempre puxar o plugue dos clichês o tempo todo é uma boa política – eles devem ser encarados como uma espécie de janela de emergência, enquanto se matura o próximo passo.
Nesse sentido, entre acertos e erros, Aoi House é uma aula do quanto se ganha ousando quebrar as regras – e até que ponto quebrar as regras pode representar um tiro no próprio pé. Não sei quanto a vocês, mas se eu tiver que escrever uma série aonde parte da graça seja segurar a resolução do casal até o último capítulo, sinceramente eu não vou me sentir culpado em segurar a resposta até lá. Adam Arnold e a desenhista Shiei não seguraram, não aproveitaram mais a potencialidade do que tinham em mãos – e definitivamente, essa não foi uma boa idéia. Cortar o fio antes da hora – e até ser lógico fora do momento certo – pode ser algo tão ruim quanto enrolar indefinidamente.

Aoi House Girls

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