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Devilman de Go Nagai

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Lancaster | PERMALINK | 4

Categorias: clássico

A primeira vez que tomei contato com o Devilman de Go Nagai foi há muitos anos atrás, quando tive oportunidade de ler o Manga Manga!, de Frederick Schodt. Se bem me lembro, havia uma legenda sob a imagem com um comentário de Frank Miller sobre a violência nos quadrinhos japoneses – para ele, era uma violência "honesta", e nisso ela encontrava seu direito e razão de existir. Mas eu não tive a oportunidade verdadeira de ler esse material até agora. Bom, finalmente eu estou com a série completa em mãos e, ao seu término, pude deparar com uma história artisticamente crua, com um traço rude mesmo para os padrões de seu tempo (a um ponto que posso dizer que isso jamais será publicado no Brasil), mas com um background construído com muito cuidado adicionado a uma trama falsamente simples, porém com múltiplas camadas de leitura – mais do que se poderia esperar de seu autor, naquele momento.
Essa última frase ganha corpo por um motivo simples: Nagai sempre teve um pendor para o sensacionalismo. Violence Jack, que é uma espécie de continuação alternativa de Devilman (suponho que se passe dentro dos vinte anos de intervalo entre a invasão dos demônios e... bem, quem ler vai saber o que acontece durante esses vinte anos que são apenas rapidamente mencionados no último volume), é uma espécie de similar em quadrinhos aos filmes exploitation italianos dos anos setenta, que hoje fazem a alegria dos fãs do assim chamado "cinema extremo". Harenchi Gakuen, que começou como uma comédia fuleiramente anárquica, terminou como um ancestral direto de Battle Royale. Kekko Kamen, protagonizado por uma combatente do crime que anda literalmente nua, é um deboche assumidamente tosco aos clichês do tokusatsu cuja demolição começa a partir do nome, que remete ao primeiro herói do gênero, o seminal Gekko Kamen.
Mas Nagai sempre teve uma percepção muito clara do momento em que vivia. Foi ele quem definiu a segunda fase do gênero super robot, com séries como Mazinger Z e Getter Robo. No citado Harenchi Gakuen, ele aproveitou um momento claro de questionamento de autoridades (a virada dos anos sessenta para os setenta) para criar uma história que desmonta por completo a escola como instituição.
Devilman, por outro lado, tem um roteiro melhor balanceado – e contam para isso as circunstâncias: a série nasceu de um projeto anterior, Demon Lord Dante (cuja versão animada mais recente foi exibida até há pouco tempo pelo canal Animax – se continua sendo exibido, por favor me confirmem). Como Demon Lord Dante teria que ser brutalmente descaracterizado para a sua versão animada, optou-se por criar uma nova série, que seria trabalhada igualmente nos quadrinhos e em animação, e que teoricamente seria mais "amigável" para o público mais jovem do que a série que o precedeu, com um super-herói como protagonista.
Bem, isso é o que deveria ser na teoria (na prática, apenas a animação permaneceu "mais amigável" e menos trágica – o mangá manteve características mais sombrias). Devilman é uma série extremamente violenta (embora perto de Violence Jack essa violência pareça até branda nos primeiros volumes) e com seus momentos de toscaria e fanservice devidamente esperados – Nagai era um quadrinhista de massa e isso faz parte do jogo – mas apesar de tudo, em seu início, ela era apresentada com mais foco na dinâmica da ação do que na exploração da brutalidade em si.
Só que há mais estofo na série do que se imagina, e na exata metade da série, marcada por uma inesperada quebra do "quarto muro" – termo usado quando o personagem passa a literalmente dialogar com o leitor – o personagem nos revela que o que estamos lendo não é realmente uma história de super-herói sobrenatural à la Motoqueiro Fantasma, por exemplo...

Devilman

...e sim um terror que nos remete aos filmes de George Romero, onde muitas vezes o verdadeiro horror é extraído da reação do humano comum, em sua mediocridade e maldade, à uma situação extrema – com direito a uma salvação que escapa dos dedos justamente por conta da arrogância das próprias vítimas. Nos filmes de Romero, é um planeta tomado por zumbis. Aqui, é algo que consegue ser muito, mas muito pior.
Aqui, ele trabalhou na elaboração do universo dos personagens com o romancista Masaki Tsuji, também roteirista profissional de televisão e membro do staff de séries famosas como os animes originais de Astro Boy, Kimba o Leão Branco e, posteriormente, Honey Honey e Urusei Yatsura. Provavelmente sem a participação dele, Devilman não teria um background tão meticuloso e bem-amarrado – o impacto emocional é bem coisa de Nagai, mas construção de cenários não é bem um elemento que eu reparei nos outros trabalhos do autor que pude ler.
Ah, quanto à série: No passado, o mundo era governado pelos demônios, que não são a princípio apresentados como seres exatamente sobrenaturais, apesar de terem poderes acima da compreensão humana (essa percepção Lovecraftiana meio que muda ao decorrer da série). Essencialmente eles eram como uma raça de predadores que voltavam-se uns contra os outros – um tanto como o comportamento dos tigres na natureza: territoriais, combativos e que se voltam uns contra os outros com violência. Infere-se que eles eram humanóides básicos, mas tinham o poder de "fusão" com qualquer outra coisa – com ênfase em animais ou plantas e reter suas caracteristicas principais. O detalhe é que eles podem acumular essas fusões e por isso tendiam a ficar mais e mais visualmente grotescos – mas com muito mais capacidades. Senhores absolutos do planeta durante a pré-história, acabaram por desaparecer durante a Era do Gelo.
Foi o tempo necessário para o surgimento da humanidade. Só que obviamente eles despertaram... e há mais tempo do que imaginamos. Há registros da presença deles em toda nossa cultura e isso reflete a postura discreta da espécie. Um demônio que se funde a um lobo acaba se tornando, no imaginario popular, um lobisomem. Um demônio que se funde a um morcego acaba dando origem a lendas sobre vampiros. E por aí vai. Naturalmente, eles nos odeiam e estão esperando um momento para voltarem e tomarem o mundo de volta.
Só existe um porém: eles raramente se fundem aos humanos comuns, porque temos uma mente consciente – o que complica tudo; tanto demônios quanto humanos podem morrer no processo. Eles só conseguem se fundir aos humanos quando os humanos se abandonam ao instinto, sem deixar a mente racional interferir. É aí é que está a grande sacada da história, reacionária, mas proposta de forma brilhante: A história acontece no início dos anos setenta, ainda na rebarba tardia dos excessos dos anos sessenta...

Devilman

...ou seja, uma época onde nunca até então se fumou, cheirou e transou tanto na história da humanidade – e portanto, totalmente propícia para uma invasão de demônios em massa.
Sentiram a mensagem embutida?
A história que serve como espinha dorsal para a trama (o protagonista é um jovem banana que acaba sofrendo uma fusão com um demônio – mas por ser puro de coração etcetera, conseguiu que sua mente sobrepusesse-se à dele, gradualmente se vendo corrompido pela presença da criatura em sua alma; e que com os poderes adquiridos pela fusão, se torna Devilman, a única frente de defesa da humanidade contra os demônios) é o que menos importa. O andamento dela é convencional, mas o que faz a diferença nesse caso é justamente uma série de considerações sobre a natureza humana que pontuam regularmente o andamento do texto e criam mentalmente um arcabouço moral para o desfecho trágico, apocalíptico e pessimista muito em voga naquela década que se iniciava – poucos finais na história dos mangás foram tão sombrios e sem esperança quanto este. Vamos dizer que o que aconteceu à humanidade no final foi culpa essencialmente dela mesma – os demônios só deram a corda.
Não por acaso, Go Nagai costumava dizer que escrevia histórias cruéis para preparar psicologicamente seus leitores jovens, tornando-os fortes para encarar o mundo real. Isso deu muita margem ao choque pelo choque em seu trabalho, mas nesta obra em especial, essa declaração faz um sentido imenso.

Devilman

Devilman ganha, e muito, com uma leitura mais atenta e com uma visão que contextualize texto e até arte no seu devido tempo. Ganha tons de metáfora e esfrega seu ponto na cara do leitor com uma virulência ímpar. Mas é em definitivo um material calculadamente grotesco e não vai deixar ninguém feliz da vida ao seu término, bom dizer. Não é mais um mangá para qualquer um. Talvez só o tenha sido em sua fase inicial.
Por outro lado, isso é muito típico do seu tempo. Os anos setenta foram uma época particularmente pessimista na história da cultura de massa. Do outro lado do mundo, a série de ficção científica mais importante da mesma época era Planeta dos Macacos. E o grau de impiedade da saga dos símios que dominam uma humanidade animalizada, naqueles anos setenta – notadamente nos três primeiros filmes – não era muito diferente do que era apresentado em Devilman, embora não tivesse a mesma violência gráfica.
E pensar que isso saiu na Shonen Magazine da Kodansha, que naqueles idos de 1972-1973, era a antologia número um japonesa antes da ascensão da Shonen Jump (que chegou ao primeiro lugar em 1975 e só saiu de lá durante alguns meses após o final de Dragonball Z, para depois se restabelecer no topo). Mas essa foi uma época de limites sendo testados. Hoje, esse material jamais apareceria numa revista "para garotos". Na época, foi uma traulitada no crânio. Não foi a toa que de todas as obras de Go Nagai, foi esta a mais duradoura e que melhor sobrevive com status de clássico. Duvido que quem tenha lido possa ter esquecido o que leu tão facilmente.
Talvez se fosse uma obra 'bonitinha', jamais tivesse passado pelo teste do tempo.


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Comentários:

Nome: Math 11/07/09 12:32
Embora Go Nagai não tenha feito esperando um sucesso tao grande quanto o de Devilman (nem era tao bem trabalhado qnto este) acredito Mazinger Z da Shonen Jump é que tem o maior status de ''classico'' entre suas obras.

Nao que suas outras obras fiquem atras claro ^^:

Alexandre: Na verdade Devilman nunca fez o mesmo sucesso de Mazinger Z e mesmo de Harenchi Gakuen, suas duas obras mais populares no Japão. O que não quer dizer que ele não tenha sido importante e marcado época.
Nome: Antonio Pereira 27/01/10 02:23
Terminei de ler ontem. Tive basicamente as mesmas impressões que você: como mangá de "batalha", ele é bem comunzão, até meio chatinho, o que vale ali mesmo são as mensagens. Assustador mesmo, e acho que reflete bem a natureza do ser humano. Incrível isso ter saído na Magazine.
A parte de recomendações é a que mais gosto no Maximum Cosmo.

Alexandre: Valeu. :) Mas não é tão inacreditável isso ter saído lá quando consideramos a época em que isso foi feito. Os títulos para garotos na época publicavam muito material que hoje exigiriam certa dose de suavização para que entrassem nas revistas seinen mais convencionais.
Nome: Fábio Hideki Harano 14/03/10 10:31
Parabéns por mais um belo texto.

Como não conhecia muito sobre Devilman, achava que seu impacto cultural na época se dava pelo fato do herói ter um lado demônio e ainda assim ser o herói. Até hoje isso é bem chocante, principalmente pelo nome sem eufemismos, que me assustou bastante quando o li pela primeira vez.

E, vendo o desenho do personagem, percebe-se que não tem a leveza de obras posteriores como Jigoku Sensei Nûbê ou Ackman (que mostram uma óbvia influência da criação de Nagai sensei).

Depois de ler seu texto, vi que a parada é bem mais tensa. Apesar da premissa ser muito, mas muito reacionária, é mais um exemplo de que 1968 é o ano que não acabou.

E o melhor é que o manga é curtinho e pode ser encontrado para uma cômoda leitura online. Muito obrigado por mais uma indicação.

Tchau.
Nome: Felipe Xavier 11/12/10 03:05
Lancaster, qual a sua opnião sobre Devilman Lady? Obra competente, ou mera sombra de Devilman?

Alexandre: ele funciona até bem como obra em si, já que não tem nada a ver com Devilman – e que sinceramente nem precisava ter nada a ver, poderia ter sido outra coisa. É uma re-imaginação da própria obra, com abordagem trocada (sai o sobrenatural, entra a ficção científica) e um viés até positivo no final. Nesse sentido, é como comparar o "garota de rosa-shocking" do John Hughes e o "alguém muito especial", que Hughes escreveu e produziu, deixando para outra pessoa (de cabeça acho que foi o Howard Deutch, agora não tenho certeza) dirigir. Diz a lenda (que provavelmente é verdade por declarações aqui e ali, mas que nunca foi confirmada cem por cento – e agora que Hughes morreu, não vai ser mais confirmada mesmo), que Hughes escreveu "Alguém muito Especial" porque não o deixaram usar o final que ele queria para o "garota de rosa-shocking".
Não é que alguém tenha imposto o final a Nagai. Ele apenas achou que tinha feito algo pesado demais e quis fazer algo análogo, mas positivo. Daí as mudanças de sexo, a mudança de paradigma
(enquanto os demônios de Devilman eram os representantes do passado, os demônios em Devilman Lady eram o futuro, a evolução). Talvez fosse melhor até não ter usado o nome Devilman. A obra poderia ser vista com outros olhos.

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