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Da série "Crescimento do Mangá Global": França [2]

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Lancaster | PERMALINK | 0

Categorias: Do Crescimento do Mangá Global

Na última lista de mais vendidos quadrinhos franceses de 8/9/2008 a 14/9/2008 mês de acordo com a lista da Electre apareceu um material curioso: Les Légendaires, de Patrick Sobral. É infanto-juvenil, voltado para leitores bem mais jovens (a partir de seis anos) e com um traço claramente inspirado em mangá (na verdade o traço dele me parece absurdamente datado – pessoalmente, admito, achei o traço feio, mas é competente – ele me lembra fanzines brasileiros que eu vi nos anos noventa, mas não custa lembrar que a série já tem nove álbuns nas costas) – e no pujante mercado francês, estar no nono lugar do top de vendas, e praticamente sem promoção da editora (ele fica escondidinho no site da Delcourt) simplesmente não é pouca coisa.
A linha Shogun francesa investe numa metodologia similar aos próprios quadrinhos japoneses em termos de produção e formato, mas vários artistas de mangá na França preferiram seguir caminhos mais tradicionais, adaptando seu estilo e narrativa às dimensões dos álbuns europeus. Já mencionamos Réalites do japonês radicado na França Kara em um post anterior, mas ele não é o único caso. Isso traz resultados curiosos, porque temos o resultado de uma força irresistível contra um objeto irremovível – e de alguma forma ambos acabaram sendo levados para algum lugar.
Eu explico. Para mim, o que define uma escola de quadrinhos não é seu traço, porque todas as escolas tem miríades de estilos diferentes debaixo de seu guarda-chuva (o que John Byrne e Bill Sienkiewicz, nos quadrinhos americanos, tem em comum?) e sim sua narrativa. A linguagem de cortes e a densidade narrativa empregada nas suas páginas é o que faz do mangá o que é. Isso vale para qualquer estética nessa mídia.
Ora, nada é mais antagônico aos mangás do que os moldes narrativos da BD tradicional. Mangás são cinematográficos, quase que puramente visuais, investem em um aspecto de valorização de elementos sensoriais. Mostrar, não contar. Eles tem milhares de páginas para isso. Muito pouco pode acontecer em um capítulo isolado de uma série da Shonen Jump ou da Betsufure. Reparem que periodicidades diferentes afetam a maneira com que percebemos uma história. Não faz mal que num mangá de uma revista semanal só se mostre um trechinho de luta em 19 páginas – semana que vem tem mais, a urgência é muito grande. Por outro lado, em revistas mensais, os autores tem 31 páginas e precisam mostrar mais carne ao redor dos ossos de sua trama, porque o espaço de tempo entre o lançamento de um capítulo e o do seguinte é comparativamente muito maior. Não que isso interfira necessariamente no nível de uma história. É só pegar um capítulo isolado de Bleach e outro de Full Metal Alchemist, ambos materiais que tem mais ou menos o mesmo nível de qualidade, e fazer a comparação.
Já os álbuns franco-belgas investem no oposto: compressão de informação. O tamanho desses álbuns não é a toa: precisam dessas dimensões para poder comprimir longas tramas em míseras 48 páginas. Dá para se levar um dia inteiro lendo apenas uma única história, porque muito mais coisa acontece em uma página do que em qualquer mangá. Nausicäa, de Miyazaki, é mais uma série européia do que um mangá de verdade, para fazermos um comparativo que mostre o outro lado da moeda. E novamente isso não prejudica a qualidade da história, nunca prejudicou e jamais vai prejudicar. Obras-primas como A Casta dos Meta-Barões, que está sendo lançada no Brasil, foram publicadas dessa forma.
Combinar isso parece complicado a primeira vista, mas não é tanto assim em termos práticos. Escolas estéticas não são forças nem tão irresistíveis nem objetos tão irremovíveis assim. O que muitos artistas fazem é simplesmente manter a narrativa de mangá, mas concentrada em muitos mais quadros por página. Talvez o mais bem sucedido hit dessa hibridização que é menos de traço do que de narrativa seja a série de ficção científica Sillage (Senda, em Portugal). Sillage não é exatamente um mangá em traço – encontramos um eco aqui e ali, principalmente em ilustrações, mas apenas isso – só que é na narrativa que a hibridização faz a diferença. Temos longas sequências de ação, mas elas ocupam relativamente poucas páginas – porque o que num mangá poderia ocupar metade de um capítulo acaba sendo dividido em mais de doze ou quatorze quadros dentro de uma página de 24 x 32 cm. Ou então, simplesmente eles seguem a maré e apostam numa narrativa mais digestiva – mas nesse caso a leitura de um álbum acaba muito rápido (Meka, do mesmo Morvan que assina o roteiro de Sillage, é um exemplo bem claro disso).
Em todo caso tudo isso aponta para uma expansão da estética. Claro, nem todos engolem isso muito bem. Basta lembrar de Uderzo, co-criador (desenhista e, após a morte do criador Goscinny, mau dublê de roteirista) de Asterix – que se revelou uma espécie de Le Pen dos quadrinhos. O "autor" praticamente fabricou um panfleto sensacionalista contra o "perigo amarelo" usando o nome do personagem que Goscinny criou e, por tabela, o colocou no mapa. Declarações dele que deixam claro que em sua opinião, o mangá bagunçou a respeitabilidade que os quadrinhos teriam conseguido com Tintim e é claro, com a obra dele (sic), me fazem pensar que aquele ataque cardíaco que matou o genial Goscinny simplesmente pegou o cara errado da dupla. Mas nem todos os autores europeus tradicionais reagiram dessa forma – basta lembrar de Milo Manara, para quem os mangás devolveram o quadrinho ao grande público.
Em todo caso, o intercâmbio entre mangás e a BD tradicional tem dado resultados muito interessantes. Quando veremos esse material por aqui?


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