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Set 03

Da série "Crescimento do Mangá Global": França [1]

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Lancaster | PERMALINK | 0

Categorias: Do Crescimento do Mangá Global

Estou aqui abrindo uma série de artigos que vai aparecer sempre que houver material interessante a respeito do "mangá global", essa entidade não muito bem compreendida – e renegada por alguns dos fãs mais radicais da estética mangá, que tendem a querer ver a estética aprisionada à sua origem geográfica (o famoso "se não é japonês, não é mangá" ou "se não falar de outra coisa que não seja japão, não é mangá"). Essa pequena entrevista foi publicada pelo website francês Foolstrip – site sobre quadrinhos em geral. Antes, porém, um pequeno comentário introdutório sobre a linha Shogun: inicialmente, ela consistia em uma antologia chamada Shogun City. Entretanto, como a demanda cresceu mais do que se esperava, a revista acabou sendo dividida entre três publicações: A Shogun Shonen, voltada a mangás franceses para garotos, a Shogun Seinen, voltada a leitores adultos do sexo masculino, e a Shogun Life, que reúne tanto mangás franceses para meninas e para não tão meninas, quanto mangás sobre "vida cotidiana", gênero que os franceses parecem gostar muito (daí o "Life"). Dito isso, vamos ao que interessa. Relevem o fato de que as perguntas parecem muito introdutórias e sigam em frente.

A Humanoïdes Associés persiste como a editora líder no campo do Mangá Global, especialmente graças à sua linha Shogun. O diretor de publicações Guillaume Dorison, aqui, nos ajuda a analisar o mercado em crescimento.

Como você definiria seus leitores?
Temos muitos estilos diferentes de leitores.
Em primeiro lugar, todos os tradicionais leitores de mangá (na faixa entre os doze e os vinte anos de idade), que passam o seu tempo na maior parte das vezes com nossos mangás para garotos como BB project, Holy wars, Pendragon ou mesmo todos eles.
Mas nós também temos muit
os leitores adultos (na faixa entre os dezoito e os trinta e cinco anos de idade) que apreciam muito nossa linha seinen como Sanctuaire Reminded ou Underskin, que se aproximam um pouco mais dos comic books ou dos quadrinhos europeus e que acima de tudo lidam com assuntos mais maduros assim como esses trabalhos citados (nota minha: Realmente os trabalhos mais adultos tendem a seguir caminhos mais híbridos, provavelmente na minha opinião para diluir a resistência que leitores habituados ao material tradicional europeu poderiam ter a mangás, mesmo os mais maduros. É difícil colocar o novo na ordem do dia, principalmente quando se tem mais de meio século sob uma estética tão forte e tradicional em termos locais quanto a franco-belga – que inegavelmente é um produto muito sólido em seu conjunto de países de origem).

O Mangá e o quadrinho Franco-Belga raramente parecem se encaixar, embora muitos trabalhos tenham nascido da união de ambas as estéticas. Você acredita que a mentalidade geral está mudando?
Quaisquer formatos podem se encaixar, e os autores gostam de mudanças... aqueles mais refratários
à mudanças frequentemente são os próprios leitores. (Nota minha: Esse cenário que o editor descreve é MUITO familiar, não?) Muitos autores europeus dos dias de hoje gostam da idéia de trabalhar com volumes em preto e branco que tenham mais páginas para se contar uma história. E eles têm direito de fazê-lo, mesmo que não sejam japoneses.
Entretanto, os leitores franceses tendem a continuar encarando os fatos com um viés maniqueísta
em suas escolhas. Por sorte, a mentalidade está realmente mudando nos últimos anos, em ambos os lados.

E sobre o futuro dessa nova estética? De que forma isso vai apresentar algo realmente novo?
O Mangá Global como está sendo concebido e vendido hoje é algo realmente novo, sem dúvida nenhuma. O seu futuro repousa na amplitud
e de gêneros, em graphic novels que não serão necessariamente mangá ou os quadrinhos (franco-belgas) tradicionais. Então, para ser honesto, o futuro depende dos trabalhos em si. Há muito material de qualidade no mangá global, mas obviamente estamos esperando dele o próximo blockbuster, algo que funcione como Naruto ou Dragon Ball, que poderia impulsionar o interesse público e estabelecer a estética em definitivo.

O Mangá Global se origina da França ou de algum outro lugar?
Editoras Americanas já vem lançando Mangás Glob
ais há um tempo, especialmente a bem-sucedida TokyoPop. No que tange à Europa, há bons materiais na Alemanha e na França, mas a produção principal – assim como a maior parte dos autores potenciais está na França (Nota minha: Na Europa, a antologia Banzai! – que na verdade é a Shonen Jump alemã licenciada com outro nome – lançou a série Haloweens, de Isabel Kreitz, em 2001, e sempre fez questão de colocar alguma série nacional ao lado do material japonês, como as posteriores Crewman 3 [2003] e Hakuchi One [2005]. Não custa lembrar que chegamos na frente da jump alemã com os bons e velhos Holy Avenger [2000] e das séries Oiran e Alesh [2002], criados aqui no Brasil...).
Um novo fôlego para o mercado está por vir?
A melhor maneira de tirar uma opinião disso é tentar por si mesmo, e hoje em dia esse tipo de material vem crescendo na França, em sua maior parte porque os best-sellers japoneses vem se tornando escassos. Em um lapso de poucos anos, as melhores licenças terão sido compradas e traduzidas em francês, então os best-sell
ers do futuro ainda estão para ser descobertos! Logo, o boom do mangá francês ocorre em um momento estratégico, reunindo diferentes estilos.
Ainda existe uma questão da aceitação do mangá global no Japão. "Eu viajei várias vezes para a Ásia e a maior parte das pessoas está realmente entusiasmada com o mangá Francês, o que tem lá sua lógica. Gostamos de mangás que se passam no Japão por conta de um certo exotismo, e ler o mangá global traria um sentimento similar aos leitores Japoneses”, diz Guillaume Dorison (Nota minha: Aqui já entramos no terreno do excesso de confiança. A força do mangá tem muito a ver com a identificação com o cotidiano. O mangá francês pode, sim, um dia, ocupar seu devido espaço no mercado francês. Os japoneses não precisam dele, embora possam gostar do material francófono; já têm o seu próprio mangá, falando diretamente ao seu próprio povo. O mangá francês faz melhor ao se dirigir aos seus).

(entrevista original feita por Simon Brochard)

E só para fechar:

Não, esse não é um dos mangás da Shogun, mas mostra bem a penetração da estética na França. Este é o trailer de lançamento de um material em formato álbum chamado Realités, da editora Soleil, em sua versão anglófona. Divirtam-se.


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