23.Setembro.09

Heavy metal fish

Apesar do título parecer nome de banda indie e ter a cara de título sugerido pelo Tiagón, este não é um post de bereteios criativos como vocês encontram pelas bandas de lá. É infelizmente bem concreto: o teor de mercúrio, um metal pesado, no peixe nosso de cada dia.

Afinal, saiu esses dias um estudo feito aqui no Hawaii em que os pesquisadores mediram a quantidade de mercúrio em diversos peixes que são vendidos no mercado - e consequentemente consumidos pelas pessoas. O que eles descobriram foi muito interessante.

O mercúrio é um metal pesado que chega ao mar via despejos de poluentes nos rios ou pela atmosfera. O mercúrio da atmosfera vem de basicamente 2 fontes: erupções vulcânicas (portanto fonte natural) e poluição (fonte antropogênica: queima de carvão nas usinas termelétricas ou atividades de mineração, em sua maioria). Uma vez no mar, o mercúrio-metal-pesado é convertido por bactérias e elementos do plâncton a metil-mercúrio, e este sim é o agente causador de todos os problemas neurotóxicos que a gente ouve por aí associados com ingestão de mercúrio há tempos.

O metil-mercúrio é facilmente assimilado pelos seres vivos, incluindo a gente. Uma vez no organismo, ele se acumula e gera stress oxidativo nas células, principalmente no cérebro. O organismo basicamente não dá conta de tão poderoso agente, e à medida que a concentração de mercúrio começa a subir, o organismo começa a não ser capaz mais de se desintoxicar sozinho, porque as enzimas responsáveis pela desintoxicação de metais pesados que a gente tem começam a ser inativadas. Com o tempo, o acúmulo exagerado pode levar a problemas neurológicos graves e de comportamento. (Exemplo clássico aqui.)

Nossa principal "fonte" de mercúrio direta é a dieta, principalmente via peixes. O metil-mercúrio tende a se bioacumular na cadeia alimentar, o que gera elevados índices de tal composto pesado nos animais do topo da cadeia. Por conta dessa bioacumulação, o FDA americano já há algum tempo recomenda que mulheres grávidas e crianças pequenas diminuam a quantidade de peixe ingerida, principalmente das espécies mais pelágicas, para evitar que cérebros ainda em processo de formação já sofram com os danos causados pelo acúmulo de metil-mercúrio. Mas, que peixes podem e não podem ser ingeridos?

Foi em cima dessa pergunta que muitos pesquisadores se debruçaram - e vêm se debruçando em cada vez mais lugares no mundo. Aqui no Havaí, este tópico tem aparecido com cada vez mais frequência nos jornais locais, o que demonstra uma preocupação real em responder a pergunta.

Daí que o estudo publicado no PNAS há algumas semanas traz em si uma revelação interessantíssima para o manejo da pesca - e para o nosso nível de contaminação por mercúrio, diga-se de passagem. Os pesquisadores descobriram que os peixes que se alimentam mais ao fundo acumulam mais mercúrio em sua carne, enquanto os que comem mais no raso acumulam menos. As implicações desse achado são enormes - e a repercussão já começou.

Boa parte da pesca industrial está baseada em peixes pelágicos carnívoros (ou seja, de topo de cadeia alimentar), que se alimentam no fundo: cações/tubarões, atuns, peixes-espada. Estes peixes possuem níveis de mercúrio mais elevados que os demais, como o dourado, que se alimenta mais próximo da superfície. Mas não somente peixes: os pesquisadores também mediram os níveis de mercúrio em crustáceos, lulas e polvos, e constataram que nestes animais o mesmo padrão existe: quanto mais fundo o animal vive, mais mercúrio no seu sistema.

dourado
O dourado acima possui menos mercúrio acumulado em seu organismo que a espécie de atum abaixo. Ambos são consumidos por nós, espécie humana.

atum

E para mim, a frase que o pesquisador-líder do estudo disse no press-release da universidade é a "moral da história":

"O fundo do mar é remoto, difícil de ser estudado e muitas vezes ignorado, mas nossos resultados claramente mostram como a biologia está diretamente conectada aos interesses humanos, tanto de pesca como de saúde. Alguns dos peixes que a gente se delicia na mesa de jantar crescem numa dieta de criaturas estranhas e exóticas a mais de 1,000 pés de profundidade no mar."

Pense nisso na próxima ida à peixaria. ;)

Tudo de informação sempre.

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- Li essa história sobre mercúrio e profundidade primeiro no antenado blog Deep Sea News, antes mesmo de sair o release da Universidade do Havaí. E depois tem quem ainda ache que blogs são "fracos" como fonte de informação em 1a mão... afe.

- Publicado também no Faça a sua parte.

30.Julho.09

Deu no New Tork Times

Ontem o New York Times trouxe dois artigos pequenos que muito me interessaram - de forma mais "próxima", digamos assim. Explico abaixo o por quê. Não sei se ambos são abertos à leitura gratuita. Caso não sejam, avisem-me que faço um adendo com o texto original. O artigo do NYTimes do item 20 está ao fim.

1) Um editorial sobre a dizimação dos tubarões para a famigerada sopa de barbatana. É o artigo mais sucinto, claro e direto ao ponto que já li sobre o assunto. A concisão com que os fatos são expostos, a razão para a matança, as medidas que precisam ser tomadas... está tudo ali, em 5 parágrafos curtos. Não há voltas nem "mallices" exageradas, aquela prolixidade tão comum por essas bandas. Esse é o tipo de artigo que facilita o entendimento do público sobre temas polêmicos, em minha opinião. Muito bom.

2) O segundo artigo merece uma pausa para historinha.

Semana passada, houve a visita do imperador japonês Akihito aqui no Havaí. Em uma das muitas cerimônias que houveram para homenagear a ilustre visita, o imperador encontrou-se com estudantes de um tipo de bolsa financiada pelo governo japonês. Um amigo do André, chamado Shingo, japonês cujos pais emigraram pro Havaí há décadas, foi um dos contemplados, e teve a honra de saudar o imperador pessoalmente.

Shingo mora em Boston e foi colega de laboratório do André aqui em Honolulu. Então, claro, passando por Honolulu, ligou pro André para encontrar com ele e pôr o papo em dia. Eu não o conhecia, fui apresentada a ele aqui em casa, numa pequena petiscada que fizemos para celebrar. Depois dos mini-quitutes, fomos a um restaurante italiano, onde tive o prazer de conversar mais com ele, pessoa super-simpática e desprovido completamente da arrogância comum em muitos cientistas.

Papo vai, papo vem, jantar delicioso, etc. Shingo nos conta que seu artigo havia sido aceito para publicação na Nature desta semana - o que por si só já foi motivo de vários tintins com vinho italiano Chianti. O artigo é realmente um breakthrough: Shingo descobriu que um complexo de proteínas (PRDM16 e C/EBPbeta) estão simplesmente na base para a geração de tecido adiposo marrom (BAT, na sigla em inglês) a partir de qualquer linhagem celular disponível. Shingo mostrou que qualquer célula, seja ela de músculo ou de pele, tratada com as substâncias adequadas incluindo este complexo de proteínas, pode se diferenciar em BAT - e funcionar perfeitamente como tal.

Shingo-BAT-Nature
Na figura, que está no artigo da Nature e foi gentilmente enviada pelo Shingo, podemos ver nos primeiro quadro a foto em microscópio da área transplantada com expressão dos fatores PRDM16 e C/EBP-beta, que se transformou em BAT (controle BAT no último quadro da 1a linha; no meio, o tecido adiposo branco, nossa "gordurinha"). No painel de baixo, a confirmação de que era exatamente BAT: verifica-se a expressão da UCP1, proteína característica somente das células do BAT. Como podemos ver, ela está presente no 1º quadro da linha de baixo (são os pontos mais escuros), um emonstrativo de que as células de tecido branco transplantadas estão virando BAT. Ou seja, bastou estes fatores para o tecido até então branco se transformar em marrom.

Para quem não sabe, o BAT está na linha de frente das pesquisas sobre obesidade, já que, diferente do tecido adiposo branco (a fatídica gordura que acumulamos no corpo), este tecido consome energia, produz calor e pode ser um alvo precioso para futuros medicamentos de emagrecimento eficazes e cientificamente sólidos. Ou seja, esta descoberta abre caminhos inacreditáveis no campo da obesidade - e por consequência indireta, da diabetes.

Aí que ontem eis que André abre o site do New York Times e lá está, na parte de ciência, um artigo sobre o trabalho excelente do Shingo. Ficamos super-empolgados. Porque quando a ciência que você faz aparece (e é elogiada) num artigo geral do New York Times, jornal mais lido do planeta, a conclusão só pode ser uma: é muito provável que você esteja no caminho certo da pesquisa. Ou pelo menos, que está fazendo a sua parte nesse quebra-cabeças chamado mundo. Imediatamente André escreveu pro Shingo parabenizando-o. É uma enorme alegria ver um conhecido (e amigo do André) ter seu trabalho científico de qualidade reconhecido dessa forma.

Parabéns, Shingo! Tudo de bom sempre pra você.

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P.S.: 1) Prometo em breve explicações melhores sobre o BAT. Por hoje, basta a comemoração. :>>

2) Estive numa palestra do Spiegelman, líder do grupo da Harvard em que Shingo está, enquanto morava na Coréia. Que mente brilhante, darwin-do-céu. Impressionante sua competência como cientista.

(Depois da quebra, o artigo do NYTimes sobre o trabalho do Shingo para os que não assinam.)

=> Continua ...

20.Julho.09

O dilema da selenocisteína

Às vezes, eu me empolgo com umas bizarrices.

Semana passada, estava eu almoçando e lendo meus feeds no GReader quando esbarrei num post do blog Massa Crítica, traduzido diretamente do Molecule of the day, sobre selenocisteína. Extremamente surpresa em achar nos feeds algo tão bizarro e tão próximo da minha rotina diária, me empolguei e compartilhei o post com meus poucos amigos de GReader, acrescentando um comentário maionesístico-alucinado:

"Senhoras e senhores, conheçam a molécula com que eu trabalho. Ela é linda, reativa e essencial à vida - de bactéria a nós. Está em 25 proteínas do nosso corpo - que auxiliam a resposta ao stress oxidativo, participam do metabolismo da tiróide, estão envolvidas na prevenção do câncer, Alzheimer, Parkinson e certas distrofias musculares, ajudam a diminuir a ação de tóxicos como o mercúrio, contribuem imensamente para a fertilidade masculina e indiretamente paga as minhas contas. :D

No texto, o moço diz que selênio é raro - não é, pelo menos na quantidade que necessitamos para sobreviver. Encontramos selênio em brócolis, alho, castanha do Pará, carnes, entre outros alimentos e, exceto em uma região da China e no Nebraska, onde os solos são pobres em selênio, o resto do mundo tem em quantidade suficiente na dieta para viver sem precisar se preocupar com isso.

Esta intervenção GReaderística é um oferecimento especial de uma Malla mala sem alça apaixonada por selênio. :)))

[malluca, eu? por quê?]"

É, eu sei, me empolguei - sorry, galera. Mas também, puxa, não é todo dia que minha molécula predileta aparece assim de surpresa num blog. De modo que resolvi expandir um pouco sobre a selenocisteína em si - sim, porque o post supra-citado fala mais de selênio, um átomo da tabela periódica, que da molécula de selenocisteína itself, que é um conjunto de átomos de carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio e um selênio. (Esse foco no selênio é comum. Devo ressaltar, entretanto, que o selênio no organismo é incorporado de diversas maneiras, em inúmeras moléculas, mas apenas na selenocisteína a incorporação é feita por um mecanismo que evoluiu especificamente envolvendo o código genético. Isso faz a diferença.)

Tentarei ser didática daqui pra frente, mas sei que o assunto é árido para a maioria - para mim, inclusive.

selenocisteína

A selenocisteína é um aminoácido (ou seja, uma molécula formadora de proteínas). Como tal, para ser incorporado a uma proteína, precisa ser especificamente codificado pelo DNA. (Lembram do batido "dogma central" DNA -> RNA -> proteína das aulas de 2º grau?) Interessantemente, a selenocisteína é codificada por uma sequência-código (TGA, de timidina, guanidina e adenosina, que compõem o DNA) que também funciona para determinar o fim da produção de uma proteína - uma sequência que nós, na biologia molecular, chamamos de stop codon. De modo que a maquinaria celular poderia ficar confusa quando, ao iniciar-se a síntese de uma proteína, de repente esbarrasse num código de finalização - quando não é pra terminar nada, e sim inserir uma selenocisteína. E agora?

É esse dilema de interpretação do código (stop ou selenocisteína?) que permeia meus estudos. Tentar entender o mecanismo pelo qual a célula "lê" o código TGA como "é hora de colocar uma selenocisteína na proteína" e não um fim do trabalho. Há "pistas": alguns fatores e moléculas que precisam estar presente para facilitar a decisão e resolver o dilema. Mas, mesmo com essas pistas, existe ainda uma série de pontos de interrogação e dúvidas sobre os meandros de como a leitura do código é feita, reconhecida pela máquina celular. Um verdadeiro trabalho de detetive molecular.

E por que é tão importante entender esse dilema? Veja bem, não há muitas selenoproteínas (como são chamadas as proteínas que contém selenocisteína) no universo vivo. Elas estão presentes de bactérias até os mamíferos mais complexos - mas estão completamente ausentes em certos grupos de insetos e plantas, uma informação que por si só já é papo para muitas horas de divagação evolutiva (o que não é o meu objetivo aqui)... Mas as selenoproteínas não estão presentes em grande número. Nós, humanos, temos 25 selenoproteínas no organismo, dentro de um universo estimado de mais de 1,000,000 de proteínas total - and counting. Entretanto, não pensem que as selenoproteínas, por estarem em números risíveis, são dispensáveis. Não são - pelo menos não para nós, humanos.

Já se sabe que diversas funções normais do organismo requerem a presença de selenoproteínas. A molécula de selenocisteína está no centro ativo de enzimas essenciais a nossa vida, como as que regulam os níveis de hormônios da tiróide, a fertilidade do espermatozóide e as que diminuem o estresse que os radicais livres causam dentro da célula. Sem selênio, a pessoa não produz selenocisteína e desenvolve uma patologia grave neurológica. E sem a capacidade de entender o TGA como selenocisteína, nem o embrião sobrevive, quiçá o indivíduo adulto.

Já foi demonstrado que diversas doenças estão ligadas aos níveis, insuficientes ou exagerados, de selenoproteínas diversas - como as que citei em meu comentário empolgado, mais algumas doenças autoimunes, a demência relacionada ao HIV e certos tipos de câncer (pulmão, próstata, fígado). Entretanto, a solução não é simples. Porque os níveis de selênio que precisamos para viver estão numa faixa muito estreita: pouco selênio é ruim, muito selênio pode ser pior ainda. Mas deixo o recado: se nossa dieta é balanceada e variada, não precisamos nos preocupar, haverá selenocisteína suficiente no sistema para todas as selenoproteínas que a gente precisa para funcionar direitinho. O organismo resolve o dilema sozinho. E isso é o que importa. :)

Tudo de bom Sempre.

27.Maio.09

Indústria farmacêutica parte 2: indicações, contra-indicações e reações adversas

Se o post anterior foi bastante descritivo, o de hoje pretendo fazer mais divagatório. É pincelado com as questões e confusões que cercam a indústria farmacêutica e o desenvolvimento de novas drogas. O problema é: são muitas questões, e pior, um sem-fim de pontos de interrogação. Então vou escrever as que for me lembrando e/ou que acho mais importantes, e nos comentários, tergiversamos todos mais sobre o que esqueci de falar. O importante é tentar olhar pro quebra-cabeça completo, encaixando as partes.

Prossigamos.

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O que descrevi anteriormente foi o modo de funcionar do processo de desenvolvimento de novas drogas, que envolve em grande parte indústria farmacêutica e governo. Mas foi tudo explicado como se ocorresse numa situação "ideal" de mundo - o que sabemos está longe de ser a realidade.

Em primeiríssimo lugar, quero sublinhar o seguinte fato: a indústria é um business. Ela lida com saúde, que é um produto mais melindroso - e por isso, ela está sujeita a mais regulamentações pelo governo, mais escrutínio pela sociedade. Mas mesmo assim, ela é gerida primordialmente pelas regras do mercado. A escolha de que doença pesquisar, em que países vender, qual o público-alvo e o ônus/gasto da pesquisa e produção de remédios... tudo isso é conduzido como um business. Não dá para descontextualizar essa realidade em momento algum do post.

Comecemos pelo problema mais elementar: de onde vêm os "compostos X". No exemplo de ontem, usei um chá da China. Mas sabemos que a indústria constantemente corre atrás de inovações e para isso, vem fuçando todo o cabedal de substâncias da biodiversidade do planeta para achar substâncias que sejam potenciais agentes de "cura" para doenças "importantes" - é a motivação econômica por trás desses assuntos "quentes" que fomenta minhas aspas; afinal, como se classifica o grau de importância de uma patologia? É a que mata em maior número ou é a que, dentro do modo de funcionar do sistema indústria/governo, tem maior mercado consumidor, que cronicamente irá comprar uma $olução paliativa? E a quem pertence a biodiversidade? À espécie humana? A uma fronteira geográfica? A uma fronteira biológica (que pode englobar diversos países)? E se o país que possui tal riqueza não quiser explorá-la? Tem direito perante a sua população a vender/trocar/negociar com quem queira? Em minha opinião, o governo de um país precisa estar preparado para agir perante esse tipo de situação, sem excessos e com bom senso. Ter gente competente tomando e gerenciando as decisões é o primeiro e importante passo. O segundo é saber exatamente o que temos de tão "especial". Negociar uma parte dos lucros para a nação também soa como uma boa alternativa, pois prestigiaria e valorizaria a fonte básica de tal droga.

Mas, a não ser que o composto X seja realmente ultra-especial e insubstituível, as farmacêuticas preferem buscar esses novos medicamentos nas chamadas "bibliotecas de compostos". É uma alternativa mais barata e evita o imbroglio diplomático que tanta mídia negativa gera. Numa biblioteca de compostos existem milhares de compostos sintetizados em laboratório, com estrutura molecular similar ou não a compostos encontrados na natureza. São vendidas por outras empresas, especializadas em desenvolvê-las - ou se a farmacêutica é muito grande, pode fazer a sua própria. Os compostos destas bibliotecas são "escaneados" em testes in vitro para um determinado resultado de acordo com a doença pesquisada (ex.: diminuir a glicose, atacar vírus mais eficientemente, etc.). Os compostos que apresentam uma performance positiva nesse screening inicial, são os chamados "leads" e serão levados então para os testes in vivo em células e roedores. A partir daqui, o processo do post passado se inicia.

Muitos argumentarão que, já perante toda essa trabalheira, o melhor é continuar a tomar apenas o "chá da China", que milenarmente funciona, etc. O que poucos sabem é que esta é uma solução capenga do ponto de vista da sua própria saúde. No chá, ocorre a interação de diversos fatores entre si. Dada nossa diversidade genética, ninguém sabe o resultado de um número quase fatorial de interações entre chá e organismo humano. Pode ser que funcione muito bem para os chineses e seja inócuo (ou talvez até prejudicial) para ilhéus do Pacífico - e só o que funcionaria neste caso é o efeito placebo. Uma droga desenvolvida por pesquisa biomédica é uma solução muito mais eficiente, requintada, simplificada (porque é apenas um composto isolado que está ali) e minimizadora dos problemas possíveis com o próprio organismo. Embora tenha sido "sintetizada", as interações daquela droga com o organismo humano foram estudadas à exaustão, questionadas, supervisadas pelos órgãos competentes, e há pelo menos a possibilidade de uma previsão mais confiável do seu resultado, e dos problemas que pode acarretar. Todas aquelas informações que constam nas bulas de remédio são isso: o jogo aberto das informações do que pode ou não acontecer a você tomando aquela droga. Todo o processo de desenvolvimento no final se sumariza ali. E por mais que os efeitos colaterais sejam uma lista enorme, acho mais confortável ter esta informação disponível do que não a ter, como no caso dos chás e afins. Porque o remédio passou pelo processo de desenvolvimento que foi exatamente organizado por seres humanos para aumentar a segurança e a confiabilidade do que ingerimos. Enquanto o remédio farmacêutico passa por todos esses crivos (e se falha, não entra no mercado), o chá do curandeiro da esquina não passa por nenhum desses testes e é mais do que comprovado que em maioria esmagadora só funciona como placebo. Esta alternativa desregulada e sem validação científica, sem dados factuais detalhados de como age, na minha visão, é a solução do comodismo e da desonestidade intelectual. Porque é a nossa saúde que está em jogo (muitas vezes à beira da morte, lembremos).

(E é claro também que o jogo aberto das farmacêuticas na bula dos remédios só existe porque o governo regulamenta, e está aí um papel importantíssimo do governo durante o processo. A indústria não é santa e sabe que cada palavra que coloca naquele pedaço de papel de letrinhas miúdas pode virar uma imensa dor de cabeça numa corte judicial. Por isso, a idéia de qualquer departamento jurídico é colocar cada vez menos - e o governo cumpre seu papel pedindo cada vez mais esclarecimentos, protegendo, no fim das contas, o cidadão que compra.)

Mas o governo também não é santo. É, principalmente, corrompível em nome do poder - controlar a "cura" de uma doença, algo que pode afetar milhares ou milhões de pessoas, é um poder considerável, convenhamos. A corrupção em diversas esferas do processo, no mundo inteiro, prejudica o bom andar da pesquisa e pode comprometer o "mercado consumidor" a que se destina: nós. Desde minimizar o que precisa ser relatado em bulas até aprovar ou não um incentivo à droga Y da empresa T em detrimento do incentivo à droga Z do instituto H, cada vez que uma dessas maracutaias aparece, é a nossa saúde que está sendo ameaçada da forma mais cruel, já que quase nunca temos acesso à tomada de decisão direta nesse escalão do poder e portanto, nada podemos fazer.

Escândalos recentes no FDA, má conduta e corte de verbas durante os anos Bush na administração do órgão (e do time de transição de Obama) também tornam a imagem do FDA cada vez mais trincada. Onde está a ética, se a empresa com mais dinheiro e melhor lobby em Washington é a que faz prevalecer sua droga de interesse comercial?

A pressão em Washington é enorme, mas, por outro lado, não podemos esquecer do outro lado desse cabo de guerra: a pressão dentro dos laboratórios. Paga-se muito bem aos cientistas que trabalham na indústria, e o orçamento em geral é muitas vezes superior ao que um laboratório de universidade teria, o que enche os olhos de alegria de muitos cientistas. Entretanto, há um preço: a indústria quer resultados. Na contínua pressão por agilidade e eficiência e por publicações em jornais peer-reviewed, uma das moedas que o FDA utiliza para avaliar uma droga, muitos cientistas (que também não são santos) terminam se desviando da ética: criando resultados (ou "espremendo os números com a estatística até eles falarem"), compactuando com a "invenção" de jornais e revistas de publicação de artigos científicos que na verdade nada mais são que validações sem revisão adequada dos resultados que intere$$am à indústria, conduzindo testes clínicos sem o devido cuidado, de maneira irresponsável e sem ética em pessoas mais pobres, desavisadas de que seriam voluntárias de um estudo - parece roteiro de filme, mas é a dura realidade. E por último, caindo de amores por sua pesquisa de forma tão obcecada que terminem comprometendo sua própria racionalidade para ver, entender e aceitar os erros. Tudo em exagero é ruim, afinal.

(Se o fazem por desvio de caráter, medo, ganância ou por falta de alternativas são outros quinhentos. Imagino que um pai com um filho doente e sem poder pagar as contas do hospital começa a fazer qualquer coisa para manter seu emprego, para não perder "aquele" seguro-saúde que o garante tratamento. Há inúmeros lados do por quê alguém se "corrompe", e não entrarei nesta questão a fundo. As motivações aliás não interessam no final das contas: uma vez que o desvio ético é ato consumido, tudo que interessa é se o cientista vai ou não assumir a responsabilidade por seus atos, o que é, em última e mais grave instância, decisão de um tribunal.)

Mas o exagero maior está, obviamente, no faturamento das indústrias farmacêuticas. São muitos bilhões por ano, um mercado agitado que movimenta boa parte de Wall Street - e das finanças do mundo, consequentemente. Um mercado que deixa alguns poucos muito felizes, mesmo em tempos de crise. A saúde é um dos mais arriscados, mais valiosos e mais lucrativos negócios do mundo: essa é outra realidade a que precisamos encaixar toda e qualquer tentativa para resolver o paradoxo. E como em todo lugar onde rola dinheiro, cheia de desvios de conduta da ordem de bilhões também, como sonegação de impostos (ou evasão dos mesmos, o que não é crime, mas viola o acordo não-declarado de "cavalheiros" entre indústria e governo de que falei ontem). Afinal, as grandes indústrias farmacêuticas em geral são multinacionais, vão para onde a banda toca a música que mais lhe apraz ao ouvido e ao bolso.

E por que lucram tantos milhões? Obviamente porque cobram caro, algumas vezes mais do que deviam. O preço de passar por todo o processo laborioso de desenvolvimento de uma droga e aprovação no FDA custa alto. Mas, se uma droga dá certo, dependendo do tamanho e da qualidade do "mercado" ( = pessoas sofrendo com aquela patologia), é garantia certa de muito dinheiro. O preço bruto que se cobra por um remédio reflete esses 2 pontos: o quanto custou para produzi-lo e quanto a farmacêutica quer lucrar em cima dele. Mas, que tipo de drogas geram mais lucros?

Mais uma vez, super-faturamento; agora de doenças. Há algum tempo, os meios de comunicação vêm sendo inflados para vender "doenças", não soluções para elas - e se tem um departamento que nunca perde dinheiro e nunca é cortado no orçamento de qualquer farmacêutica, é o de marketing. (O penúltimo é o de diabetes, considerada o "chantilly" de qualquer orçamento. O primeiro a ser cortado são de doenças raras. A análise de que doença pesquisar e quanto gastar nesta pesquisa é um complexo jogo de orçamento, na mão de administradores e economistas.) Num cálculo simples, quanto mais doenças você "inventa", mais mercado consumidor você terá, claro. E aumento de mercado é o que qualquer indústria com fins lucrativos quer. Não falo aqui das disfunções e patologias claras: um câncer é um câncer, precisa ser tratado; idem para depressão, Alzheimer, diabetes, entre milhares de outras. Falo das doenças que nada mais são que um estado de espírito comum - às pessoas parece ser negado o direito à tristeza, ou à melancolia, ou ao choro. Temos que ser felizes e sorridentes 24 horas por dia. Se você está simplesmente triste, porque seu time de futebol perdeu ou porque levou um fora do(a) namorado(a), está "doente". Para a indústria, quanto mais as pessoas se acharem doentes, mais lucros. Business is business. [Artigo ótimo sobre um caso clássico de invenção de doença, a disfunção sexual feminina, aqui.]

Para incrementar ainda mais essa necessidade de mais doenças, a indústria estrategicamente usa a via de acesso direto mais fácil possível: os médicos e estudantes de medicina. A estratégia é velha, mas funciona bem: "corrompa" um médico com bônus, presentinhos, viagens ou financiamento para suas pesquisas e possivelmente terás um aliado na venda de seus produtos. O médico lida direto com o "mercado consumidor" da indústria farmacêutica; além do mais, está numa posição de confiança com o "cliente". Haja cruzeiros pagos pela indústria e festinhas jet-set... os médicos se sentem realmente especiais quando percebem o "nível" de quem quer os comprar, acreditem. E como é fácil atrair o cliente.

Cliente, aliás, que está em geral sob um plano de saúde. Plano este que cobra normalmente apenas parte do gasto com medicamentos. Aqui mais uma vez entra o governo: remédios muito caros e necessários à sobrevivência de uma parcela considerável da população, deveriam ser distribuídos gratuitamente. Sei que é assim no Brasil com drogas anti-rejeição para transplantados; coquetel anti-viral para HIV; insulina para diabéticos; mas esta não é a realidade nos EUA. Aqui, o governo não fornece gratuitamente nem uma agulha - porque o lobby político das seguradoras [link via Idelber no twitter] e da própria indústria farmacêutica é muito forte para manter a situação do jeito que está.

E por fim, há ainda um efeito colateral do desconhecimento do processo de desenvolvimento de novas drogas e do esquema de negócios da indústria que catapulta o caos: os exageros da mídia. Canso de ver artigos em que composto K é a nova "esperança" de cura para doença Z - aí vou ler o artigo e descubro que um laboratório testou apenas em ratos e foi bem-sucedido. Ou seja, um mega-jump, já que nem as etapas de testes clínicos foram realizadas, portanto ainda há grandes chances do composto K nem chegar ao mercado. Em parte a culpa é dos jornalistas que estão atrás de headlines que "vendam" - afinal também são um negócio. Acredito também que eles simplesmente não entendam todo o processo de desenvolvimento e ficam confusos ao ler os press-releases das indústrias, escrito cuidadosamente para esconder as mazelas e sublinhar os benefícios. (Daí vem por quê quis escrever o primeiro post: para botar todo mundo no mesmo pé de conhecimento para que as divagações sejam mais substanciadas.)

Mas parte da responsabilidade do que lemos na mídia sobre remédios, tratamentos e "esperanças" é das indústrias, que na ânsia de querer acelerar a aprovação no FDA, começam a divulgar seus resultados em press-releases e distribuí-los nos "canais certos". Por que fazem isso? Porque investidores serão atraídos (via mercado de ações, principalmente) se há a mera sugestão de uma droga que potencialmente pode ser uma grande descoberta. Mais investidores = mais dinheiro para a indústria. Business as usual.

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Como tudo na vida, há também um lado "menos negro" da indústria farmacêutica - e faço questão de dedicar alguns parágrafos pelo menos a essa reflexão, porque penso muito na dualidade da indústria farmacêutica, sintetizada pelo velho ditado: ruim com ela, pior sem ela.

Os avanços tecnológicos e de tratamento da maioria das patologias que existem - muitas delas que antes eram letais e hoje não o são mais - foram resultado de intenso trabalho dentro dos laboratórios das indústrias farmacêuticas. É claro, o processo inicial pode se desenvolver numa instituição de pesquisa, mas é comum, depois de uma determinada etapa, o trabalho ser "abraçado" por uma farmacêutica. Até mesmo porque os testes clínicos são a etapa mais cara do processo, e muitas instituições públicas não podem pagar integralmente por isso - lembrando que as universidades são a maioria privadas nos EUA. Embora o governo venha financiando um número cada vez maior de testes clínicos via órgãos públicos, ainda não são suficientes para o leque de patologias que existem. E, embora ainda deficitária em certos aspectos e depndente de regulamentações locais, a distribuição de remédios tende a ser homogênea em todos os recantos do mundo - a que preço e a que estrato da sociedade local são outras discussões por si só.

Pela própria estrutura de mundo que vem se desenvolvendo nos últimos anos, as farmacêuticas também precisam ganhar pontos no quesito negociação. Aqui, mais uma vez, quem manda é o cliente (business is business). E quando o cliente são governos de países inteiros, como Brasil, Índia e China, com mercados consumidores gigantes, muitas delas têm se dobrado perante esses governos, optado por uma margem de lucro menor (o que pode prejudicar futuras pesquisas, já que o dinheiro de pesquisa e desenvolvimento vem direto do lucro delas) para não perderem o cliente por completo. Terminam ficando bem na fita, quando isso ocorre, o que é uma vantagem colateral no mínimo considerável.

E há ainda a questão social. A indústria farmacêutica emprega diretamente só nos EUA 292,000 pessoas. Os salários são mais altos que os das demais grandes indústrias - é portanto, uma "boa" carreira, sólida e segura. Há muitas famílias que dependem do sucesso da indústria farmacêutica para sua sobrevivência, e quando uma indústria destas colapsa, pode levar cidades inteiras à crise. O que geralmente termina evitando esse problema social é a compra da empresa por outra farmacêutica. Por isso essas movimentações de mercado, de merging de indústrias, geram tanto buzz no mundo dos negócios: sabe-se que é um processo caro o de "salvar" uma empresa, mas se uma companhia tem cacife para fazê-lo, é um sinal de que está bem das pernas. Ou pelo menos parece. Isso atrai mais investidores, etc.

Não acho sinceramente errado que as indústrias lucrem com tudo isso. Acho até justo: um retorno pelo investimento de recursos financeiros e humanos num risco em prol de um benefício à humanidade. É a base do sistema, porque esse lucro em tese é a mola propulsora de mais pesquisa. Para cada droga que está no mercado, há um punhado grande de outras que não chegaram a serem aprovadas, que falharam pelo caminho - mas que não deixaram de representar gastos, de tempo e dinheiro, para a indústria. Portanto, mais que natural que a droga de sucesso termine "pagando" pelas outras. Esse feedback positivo é bacana. O problema, para mim, são os exageros: nos lucros, nas doenças, nas estratégias de marketing agressivo, na politicagem, no lobby, nas maracutaias. A sensação que a gente fica quando lê tudo isso é de que a saúde pública é a última preocupação de um desenvolvedor de drogas - quando deveria, por ética, ser a primeira e mais importante motivação.

Muito mais que revoltar-mo-nos contra as farmacêuticas, precisamos pensar em como melhorar/aperfeiçoar o processo de modo que as soluções cheguem mais eficientemente ao paciente que precisa. Acho que a solução é exigir mais olho vivo do governo sobre elas - em todo o processo de desenvolvimento de drogas e marketing, principalmente. O governo, nesse caso, é o único elo de ligação entre os cidadãos e a esfera multinacional em que as indústrias agem. Para as farmacêuticas, o doente é "mercado", "cliente"; para o governo, é "cidadão", a unidade que forma uma nação. Essa diferença semântica não é nada sutil, já traz dentro de si o papel do governo e o nível de comprometimento que se espera para encarar e regulamentar o processo do desenvolvimento de drogas. Um futuro sem as farmacêuticas regulamentadas de forma restrita é um futuro que afeta a saúde pública de um país; mas um futuro sem farmacêuticas at all é um descompromisso com a melhoria da nossa própria saúde e existência, além de uma escolha pela desinformação. É negar o fator principal que nos trouxe tão longe enquanto espécie, que melhorou tanto nossa qualidade de vida: a busca pelo conhecimento. Dependemos da pesquisa para o aumento da nossa longevidade, para uma velhice mais ativa, para crianças mais saudáveis. E são, dentro do sistema que vivemos, as farmacêuticas as mais bem estruturadas financeira e logisticamente a realizá-la.

Vale entretanto ressaltar: embora eu tenha recorrido à generalizações classistas ("indústria", "governo", "médicos", "cientistas" etc.) em todo o processo que divaguei, a força-motriz por trás são pessoas. Com individualidade e motivações próprias, inseridas numa mesma sociedade e também potencial mercado consumidor de suas próprias drogas. Não dá para analisar caso a caso as motivações que levam cada um a se corromper, corromper o sistema ou simplesmente ignorar as lambanças. São características do ser humano que independem inclusive da própria existência das farmacêuticas. Mas, com as generalizações, pelo menos aqui neste post, fica mais fácil ver o quadro completo. Mais: dá pra entender, exercitar a discussão e ficar atento às movimentações deste mercado, a quem uma notícia ou desenvolvimento está beneficiando. Entendendo todos esses problemas, dá pra cobrar de forma mais eficiente do governo por soluções eficazes, que beneficiem a outra grande generalização classista desse sistema: o povo.

Da próxima vez que for à farmácia comprar um remédio ou a uma clínica fazer um exame, pense um pouco em tudo isso.

Estas são, no geral, minhas questões. Sintam-se à vontade para discutirem as mesmas e compartilharem outras questões que envolvam o desenvolvimento de drogas e a participação das farmacêuticas no processo.

Tudo de bom sempre.

****************

- Este post é muito inspirado na minha leitura regular desde 2005 do blog PharmaGossip, escrito pelo Insider. Foi o blog que me apresentou à blogosfera de análise da indústria farmacêutica, uma das minhas prediletas nessas tantas galáxias blogosféricas que orbitam por aí. Muitos dos links do post vieram diretamente do PharmaGossip e se você se interessa sobre o assunto, é um must-read blog.

- Nem citei os crimes ambientais em que as indústrias muitas vezes estão envolvidas. Se o processo "simples" já é esse mar de nebulosidade, imagina quando começamos a acrescentar os problemas indiretos decorrente de cada etapa... Isso merece um post por si só. Quem sabe um dia eu escrevo sobre (não agora).

- Um outro detalhe: a importância das farmacêuticas pode ser melhor entendida se pensarmos no câncer, não na dor de barriga de ontem que o chá de camomila curou. Enquanto a dor de barriga pode realmente ser curada por qualquer placebo (na realidade, curada pelo seu próprio sistema imune, mas as pessoas tendem a fingir que ele não existe), o câncer não tem medicina alternativa que conserte: é quimioterapia, radioterapia ou remédios de desenvolvimento avançado apenas que o curam de verdade. Toda essa tecnologia só está à nossa disposição porque houve pesquisa séria, com dados robustos e detalhados produzidos da forma que relatei no post anterior. Se hoje, podemos felizmente nos vangloriar de que mais de 50% dos casos de câncer são curáveis, essa é o atestado final da importância da existência de uma indústria regulamentada por trás de tudo isso.

- Como podem perceber, preferi generalizar. Evitei comentar casos específicos de cada país, meandros detalhistas de cada caso. Usei os EUA como exemplo porque é onde o FDA está, mas os processos e reflexões gerais da indústria farmacêutica, suas honras, pecados e sua integração com o governo podem valer em praticamente qualquer lugar do mundo. A característica mais intrínseca da indústria farmacêutica é a ausência de bandeira definida, ser multinacional; portanto, realmente está na mão de cada país regulamentá-la.

26.Maio.09

Indústria farmacêutica parte 1: modo de usar

Há tempos (na verdade, desde um comentário do Gui neste post de 2005 dos tempos de blogspot) venho matutando para tentar expressar num post minhas visões sobre a dualidade da indústria farmacêutica, uma das maiores e mais lucrativas do planeta. Dualidade esta que se resume no fato de que ela possui inúmeros defeitos dentro de nosso sistema econômico capitalista, mas sem ela estaríamos definitivamente muito pior em questões de saúde. E por isso uma certa relutância de minha parte em abranger o tópico: o equilíbrio na análise é deveras complicado.

Mas acho desde sempre um tema necessário. Então decidi fazer esta mini-série de posts (2 apenas): um explicando como a pesquisa de remédios funciona (e como a indústria se insere nela) e outro com minhas divagações/questões sobre os meandros do processo e os rumos éticos, econômicos etc. de tudo. Indústria, para fins dos posts, não serão as fábricas pequenas nem de fundo de quintal; são as chamadas big pharmas, que dominam o mercado dos remédios. Aguentem-me, pois: os posts serão longos.

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Para começar, acho fundamental entender como funciona o processo de desenvolvimento de uma droga - de aspirina a quimioterápicos, todos passam por um processo relativamente similar; as diferenças são poucas, e quando elas existem, variam de acordo com o país, com a letalidade da doença pesquisada ou com o interesse para o público geral. Vale ressaltar que se a doença tiver um índice de morte elevado, todo o processo é agilizado, para que novos tratamentos cheguem logo ao "mercado" - que é basicamente o grupo de indivíduos que está doente. Quem regulamenta esse processo todo nos EUA é o Food and Drug Administration (FDA), um órgão federal. Como boa parte das farmacêuticas se concentram nos EUA, o mercado americano é mais "quente" para drogas e o FDA tem uma reputação razoável, as decisões do FDA terminam funcionando como base para as avaliações de todos os órgãos regulatórios de saúde no mundo. Para fins de post e generalizações facilitatórias ao entendimento, me deterei às regras do FDA e levarei em consideração que o sistema de análise do FDA é "perfeito" - o que sabemos que não é.

A história em geral começa com um conhecimento "popular" - e aqui incluo desde tradição oral até o que já está no mercado e funcionando. Digamos por exemplo que um chá qualquer seja usado na China para tratar diabetes. O que as farmacêuticas fazem? Ao saberem de tal uso, instruem seus pesquisadores a investigar os componentes do tal chá, ver qual o composto ativo que efetivamente está exercendo influência sobre a glicose humana. O chá é praticamente "dissecado" nos laboratórios e cada fração testada em modelos in vitro (linhagens celulares) ou in vivo (animais, geralmente roedores).

Depois de testes realizados, descobrem que o responsável pela queda da glicose é o composto X. Inicia-se então o processo de síntese dele em laboratório (mais pesquisa envolvida aqui), e uma vez que essa etapa se concretize, começam os estudos mais profundos e detalhados, chamados estudos pré-clínicos. Através da realização de experimentos mais complexos, que "mimetizam" o que acontece em humanos, os cientistas vão analisar uma longa lista de parâmetros. No exemplo acima, por exemplo, teriam que analisar como o composto é excretado, se é excretado, qual o tempo em que ele fica ativo no organismo, se interfere em alguma outra via metabólica importante, qual a dose mínima e máxima que pode ser usada sem causar danos ao organismo, por onde a droga é melhor assimilada (via oral? intravenosa? dérmica?), se gera efeitos colaterais e o quão estes efeitos são toleráveis, entre muitos outros. Esta etapa é feita em animais de laboratório e nenhuma droga vai pro mercado sem passar por isso - salvo raríssimas exceções (como no caso de doenças que matam em 100% dos casos e de forma rápida), o FDA não aprova uma droga se não houve um estudo detalhado em pelo menos um modelo animal, sendo que 2 modelos animais é o mais recomendado (em geral um roedor e outro que pode ser porco, macaco ou coelho). Afinal, se a droga em questão mata os ratos em uma dose mínima, é óbvio que ela não pode ser testada em humanos. A etapa de testes em animais é uma questão de segurança para nós, basicamente.

Digamos que o composto anti-diabético X tenha, após os estudos pré-clínicos, se mostrado promissor em animais para diminuir a glicose do sangue. O responsável pela "idéia" neste momento inicia o processo de patente de seu composto - e aqui entram basicamente várias das disputas que vemos pelos tribunais entre farmacêuticas e pesquisadores. Parte-se então para os estudos clínicos. Chama-se clínico porque agora envolverá seres humanos, só por isso - e este "só" é irônico, porque ao ultrapassar a barreira de espécie, uma série de leis e regras éticas passam a ser necessárias para minimizar os danos à pessoa. Na 1a fase, com grupos pequenos (em geral, voluntários saudáveis), testa-se a dose mínima e máxima, o ritmo de excreção (se é o mesmo que nos animais testados), os efeitos colaterais - ou seja, basicamente, se tenta confirmar e/ou adequar o composto X ao organismo humano. Há casos de drogas que funcionam maravilhas em modelos animais e quando são levadas a humanos geram problemas sérios. É incomum, mas acontece.

Se o composto X teve uma boa performance nesse pequeno grupo de voluntários, passa-se então para a 2a fase de testes clínicos. Nesta fase, pessoas voluntárias em diferentes estágios da doença a ser combatida pela droga (no meu exemplo, a diabetes) passam a utilizar a droga na dose que a 1ª fase de testes indicou ser a mais segura. Esta fase em geral tem um maior número de pessoas envolvidas. Os resultados são comparados com o grupo "controle" (pessoas saudáveis que tomaram a droga na 1a fase) e agora o responsável pela pesquisa pode finalmente descobrir a eficácia do tratamento usando o composto X para a diabetes. Caso nesta fase os pacientes que se sujeitaram ao tratamento tenham uma melhora significativa, o composto X pode passar então para a 3ª fase de testes clínicos.

Na 3ª fase, ocorre basicamente um aumento do número de pessoas. Pensando-se estatisticamente, saímos da análise amostral e (tentamos) ter uma visão mais populacional dos resultados. Porque quando você passa a analisar milhares de pessoas com a mesma patologia, em diferentes áreas geográficas, de diferentes backgrounds genéticos, a probabilidade de aflorar um problema que os testes mais controlados e reduzidos da 1ª e 2ª fase deixaram escapar é maior. (Exemplo aqui.) É à caça desses "problemas" (efeitos colaterais, dificuldade de excreção, ineficácia, etc.), dessa variabilidade, que estão os pesquisadores na 3ª fase de testes clínicos.

Se depois de analisada na população geral, a droga se mostrou segura e eficaz, com efeitos colaterais moderados (e isso varia de caso para caso, principalmente de acordo com a letalidade da doença), o processo todo é compilado no FDA para a decisão final - já houve diversos relatórios em cada etapa, mas agora é a chamada "revisão final". Se a droga for aprovada, o responsável pela idéia pode distribuí-la nas farmácias e hospitais do planeta. Caso haja dúvidas, o FDA fornece mais um tempo para que o problema seja resolvido, e se o responsável pela idéia não as respondê-las, o processo pode ser arquivado. (Há inúmeras instâncias para recorrer, mas a grosso modo é isso).

********************

Esse caminho longo entre o chá na China e a prateleira da farmácia leva, em média, 8 anos e meio. E, uma vez concedida a patente (em geral, isto é feito ao fim dos testes pré-clínicos), a pessoa pode "explorá-la" no mercado pelas leis americanas, por 20 anos. Quando o tratamento se torna popular, como foi o caso do Viagra por exemplo, é certeza de lucros biliardários para a indústria - no caso, a Pfizer, que agora se desespera porque a patente vai expirar em breve e seu pipeline de descobertas está "seco", para usar o jargão da indústria. O que pode desestabilizar a empresa completamente, já que uma vez expirada, qualquer pessoa/empresa pode produzir e marketear a droga a seu belprazer.

E aí entra o componente mais complexo da equação toda: dinheiro. A pesquisa para o desenvolvimento de drogas é extremamente cara. Envolve profissionais especializados, laboratórios e hospitais capacitados, voluntários que por lei americana precisam ser pagos (e em tempos de crise, tem sido uma forma de muitos levarem o pão para casa), processos e relatórios para o FDA, além de um monte de outros detalhes. Pior: é muito arriscada. A probabilidade de que um composto "promissor" falhe em uma das etapas é grande - por conta de interações com outras substâncias e células do organismo, principalmente. Qualquer entidade que se mete a pesquisar e desenvolver drogas sabe disso. Idealmente, o governo acamparia todo o processo para si, arcando com as despesas integrais, em nome da saúde pública - já o faz em boa parte do processo, através da própria existência e manutenção do FDA, além de verbas para financiamento de pesquisas em universidades e institutos públicos, investimento em hospitais, etc. Mas não é suficiente, e se o governo fosse 100% responsável pela execução e regulamentação de todas as etapas do processo de todas as drogas do mercado, facilmente iria à falência - ou outras áreas importantes da estrutura social, como educação, segurança pública, etc ficariam seriamente comprometidas. (Ou seríamos super-taxados para pagar o processo, o que geraria mais mal-estar econômico e social ainda). Daí entram as farmacêuticas.

A elas, é concedido o direito de exploração comercial de uma droga bem-sucedida como parte de uma "retribuição" por terem investido tempo e dinheiro na pesquisa (e resolução) de um problema de saúde pública. Funciona como um acordo entre governo/sociedade e a indústria. Para que a indústria se sinta sempre incentivada a buscar novos tratamentos, há a estipulação de um prazo de validade para a exploração comercial da droga.

Num mundo ideal cor-de-rosa, o sistema acima funcionaria perfeitamente. No post de amanhã, vou tentar divagar porque estamos muito longe do mundo ideal no que tange o desenvolvimento de drogas pela indústria farmacêutica.

Tudo de bom sempre.

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- Um excelente resumo esquemático de todo o processo de desenvolvimento de uma nova droga pode ser visto no esquema abaixo. Tirado desta página, recomendo a visita, pois cada palavra é um link que leva a uma explicação sucinta.

Esquema de desenvolvimento de novas drogas

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