02.Outubro.09
Enquete malla: mascote olímpico, uma prévia
...e eis que o Rio de Janeiro, minha cidade natal, levou as Olimpíadas de 2016. Muito bacana! Afinal, incentivo a conhecer uma das cidades mais naturalmente bonitas do mundo é sempre interessante. Mas este blog começa agora um lobby mais que esperado: a escolha do mascote.
Óbvio dos óbvios, eu adoraria ver um animal marinho como mascote - de preferência um tubarão... imagino que pessoas como Marcelo Szpillman, defensor de tubarões e que foi consultado sobre o projeto do Aquário do Rio, também adorariam ver um tubarão no coração das pessoas de maneira positiva, cute, fofinha, como de um animal ameaçado que merece ser lembrado e protegido. Tirar um pouco da imagem de matador obcecado que o animal ainda tem para a maioria das pessoas. É uma oportunidade de divulgação científica e de conscientização ambiental que não merece ser perdida, sem dúvida. Quem topa desenhar um tubarão mascote? ![]()
O problema é: que espécie? É óbvio que há outros animais brasileiros que merecem também tal "lembrança" (o muriqui, a tartaruga marinha e o boto rosa são os primeiros que me vêm à cabeça assim de sopetão, mas há outros mais que simbolizam bem o país). Poderiam ser vários mascotes, como fez a China. Mas, dado o tamanho da nossa costa e a importância do tubarão para o ecossistema marinho (do qual dependem muitos brasileiros diretamente), acho que seria bacana privilegiar pelo menos um animal desse habitat, vocês não acham?
Como este blog também é um espaço viajante na maionese coletivo, eu lanço aqui a pergunta: que outros animais vocês gostariam de ver como mascotes olímpicos para o Rio 2016?
UPDATE: Algo parecido com o Sharka não seria bacana? ![]()
12.Julho.09
No mundo azul de Stan Waterman
Na última sexta-feira, fui assistir a uma palestra no gramado do Aquário de Waikiki depois do pôr-do-sol - num dia inundado por arcos-íris. Professada pelo pioneiro Stan Waterman, o maior videógrafo sub do planeta, vencedor de 5 Emmy's em cinematografia. Aos 87 anos, Waterman é uma verdadeira lenda viva do mundo sub. Ele ainda mergulha, num dos inúmeros exemplos de vitalidade que demonstrou durante a palestra - e que inspirou imensamente a todos presentes no evento.
Waterman foi um dos pioneiros em mergulho no mundo. Começou a snorkelar em 1936 na Flórida, quando máscara e pé de pato ainda não "existiam" - eram protótipos gambiarrísticos o que ele usava em suas aventuras marinhas. Em 1950, comprou um aqualung, recém-desenvolvido por Jacques Cousteau, e começou sua exploração mais elaborada do mundo marinho. Em 1954, adquiriu sua primeira filmadora em 16mm - e nunca mais parou de registrar o fundo do mar, principalmente o comportamento dos grandes pelágicos. Apaixonado por tubarões, na década de 70 era vizinho de Peter Benchley, autor de "Jaws", e trabalharam juntos por mais de 10 anos. Foi membro inaugural do prestigiado Scuba Diving Hall of Fame, honraria máxima do mundo do mergulho dedicada àqueles que de alguma forma inspiraram o esporte nas gerações subsequentes.
Durante a palestra, Waterman mostrou 3 vídeos curtos seus, todos deliciosos. Sua capacidade de contar histórias incríveis de maneira simples, direta e amável fascinou a todos presentes. O primeiro vídeo mostrou Lucy, uma tubarão-tigre fêmea que vive em Fiji cujo comportamento pacífico surpreende. Para quem não sabe, tubarões-tigres (Galeocerdo cuvier) são os mais agressivos e é uma das poucas espécies que efetivamente atacam humanos. Lucy, entretanto, parece uma lady, brincando com os mergulhadores.
No segundo vídeo, uma incursão incrível ao mundo da videografia macro. Usando lentes de aproximação, Waterman mostrou e contou sobre uma variedade de comportamentos de peixes e invertebrados encontrados no mar de Sulawesi, na Indonésia. Destaque especial aos seus comentários sobre as populações ribeirinhas que ali vivem, e que dependem da pesca para sua subsistência e sobrevivência.
No terceiro vídeo, mais tubarões. Dessa vez, cenas de sexo entre tubarões-galha-branca na Ilha de Cocos, parque nacional na Costa Rica onde uma concentração gigantesca de tubarões de diversas espécies são encontrados. As cenas deste vídeo de 2001 são impressionantes: Waterman foi capaz de registrar uma fêmea sendo disputada por 2 machos, um mordendo de cada lado a nadadeira peitoral da fêmea. Disputa acirrada para ver quem introduz primeiro o clásper no orifício reprodutivo da fêmea. A cena é tão rara que foi mostrada a pesquisadores aqui da Universidade do Hawaii e serviu de base para um artigo científico [link em pdf] publicado no jornal Animal Behavior em 2004. Muita emoção.
Os vídeos foram todos fenomenais. Entretanto, mais fenomenal mesmo foi a oportunidade de ouvir Waterman. Ele é um excelente contador de histórias, capaz de colorir com matizes suaves e emocionantes todas as experiências que narra. Uma jóia rara. Embora ele tenha completa noção do desastre ambiental que temos causado nos mares do mundo, quis focar sua palestra nas belezas, mostrar as riquezas marinhas, numa verdadeira ode poética aos oceanos do mundo. Não tenho palavras que descrevam o quanto me emocionei com as imagens e histórias que Waterman contou. He rules.
Como o evento no Aquário foi organizado por uma amiga minha, depois da palestra, fomos conversar com Waterman e registrar o momento único que vivenciamos ao lado da lenda. Waterman, no dia seguinte, viajou para Kona, para mergulhar e registrar o mundo sub daquela costa maravilhosa. Aos 87 anos, apesar de toda a experiência, ele confessou que nunca deixa de se surpreender com o mar e seus habitantes. E estava ansioso pelos mergulhos que virão pela frente em sua vida de retinas salgadas.
Inspirador é o mínimo que posso dizer.

Nós com Stan Waterman no Aquário de Waikiki.
Tudo de mar e mergulho sempre.
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- Achei um vídeo de uma entrevista com Waterman aqui e abaixo, deixo um pedaço de um dos vídeos que ele mostrou no Aquário sexta passada, o dos tubarões em Cocos Island:
13.Abril.09
Truk na Mergulho
Já estou em casa, mas ainda sofrendo com o jet lag. Enquanto me recarrego na vida real, passo aqui para dizer que a revista Mergulho deste mês de abril (n. 153) tem uma reportagem minha, sobre o mergulho nos naufrágios de guerra da laguna de Truk, do qual falei um pouco aqui antes. É um museu de guerra subaquático, muito interessante. Para ler mais, corram às bancas. ![]()
Tudo de bom sempre.
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- Aproveito o mergulho e deixo a dica também de uma reportagem no Dive Photo Guide de Matt Weiss com fotos bem legais sobre a costa de Kona, que de vez em quando aparece aqui no blog.
30.Março.09
Surfe no Maine
Uma vez apenas tentei entrar no mar em Massachusets, EUA. Era fim de julho, auge do verão, e fazia calor - coisa rara por aquelas bandas. Muitas pessoas na água - moradores, acostumados com aquela temperatura.
De biquini, acreditando piamente que conseguiria tomar banho naquele mar de latitude temperada, fui correndo em direção à água do Cape Cod. Não aguentei 10 segundos: senti meus pés congelando como num passe de mágica, uma onda iceberguiana passando pelas minhas veias. Saí rapidamente e tive a certeza que nunca mais tentaria entrar num mar acima dos trópicos se não estivesse com roupa apropriada - um dry suit, entenda-se bem. (Um exagero da minha parte, convenhamos: terminei mergulhando uma vez na Coréia, e estava geladésimo, mas não precisei de dry suit.)
Mas é por essas e outras, para mim, que isso aqui é que é esporte radical. Uns bravos seres humanos esses moços. Surfar no Maine (!) não é para qualquer maluco mesmo.
(Via @guykawasaki)
Tudo de brrrr sempre.
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- E uma boa notícia pros tubarões do mundo: o consumo de sopa de barbatana está caindo na China entre os jovens. Pelos motivos errados no geral (a crise econômica), mas ainda assim, dado todo o contexto de dizimação do grupo, é uma boa notícia.
15.Dezembro.08
O fenômeno do "Sardine Run" na costa da África do Sul
Quando a gente pensa em África, algumas imagens vêm imediatamente à cabeça da maioria: leões e girafas em safaris, pessoas passando fome (infelizmente), desertos a perder de vista, entre outras. Raros são aqueles que se lembram que a África é banhada por 2 oceanos (Atlântico e Índico) e 2 mares (Mediterrâneo e Vermelho), que lhe beneficia com uma costa extensa, com vários points de mergulho nota 10.
Entretanto, um dos mergulhos mais famosos e eletrizantes da África não é um "point" e sim um "evento" - diga-se de passagem, o maior evento marinho natural do planeta: o "Sardine Run" - em português, a corrida das sardinhas. (Vou usar o termo em inglês porque é o mais comum de se encontrar em sites de qualquer língua.)

Localização do estado de Kwazulu-Natal na África do Sul. A principal cidade do estado é Durban. Mapa tirado deste site.
Todos os anos entre fins de maio e início de julho, um cardume de milhões de sardinhas (Sardinops sagax) aparecem na costa de Kwazulu-Natal, na África do Sul (do lado Índico), entre Durban e Port Edward. Este cardume fica a cerca de 1 km da costa, tem em média 7 quilômetros de extensão e pode chegar a 30 metros de profundidade. Uma verdadeira muralha de sardinhas, cuja migração para a costa sul-africana foi oportunamente apelidada pelos moradores locais de "o maior cardume da Terra". O grande cardume se subdivide em cardumes menores, mas a mancha escura que indica a movimentação de tal agregação pode ser vista por medições térmicas via satélite. Pouco se sabe sobre o mecanismo exato do por quê elas se juntam ali daquela forma ou de onde as sardinhas vêm, mas sabe-se que é necessário que uma corrente de água fria venha do sul, do Cape Agulhas Bank, e chegue até ali com uma temperatura da água não maior que 21ºC - há anos em que a água não esfria e o fenômeno simplesmente não ocorre. Afinal, sardinhas são peixes de águas frias, não subiriam numa costa quente como a do leste da África se condições especiais não diminuíssem a temperatura da água. Especulava-se que a presença das algas que vêm junto com a corrente fria fosse um motivo provável das sardinhas aparecerem, mas um estudo de mais de 20 anos mostrou que não havia correlação entre a concentração de clorofila-a e a distribuição das sardinhas. Um grupo da Universidade de Kwazulu-Natal vem estudando o evento, levantando dados oceanográficos na tentativa de entender melhor a dinâmica do Sardine Run. Quem sabe um dia até prever ao certo a data e o local onde elas aparecerão.

Mapa com a temperatura da superfície do oceano na costa de Kwazulu-Natal em junho passado. Repare na corrente de água fria que vem chegando pelo sul, que provavelmente trará as sardinhas. Imagem tirada daqui.
Enquanto o mistério não é desvendado pela ciência, as pessoas interessadas em ver o Sardine Run (entenda-se mergulhadores, pescadores e apaixonados por vida marinha em geral) aguardam. Literalmente. As operadoras de mergulho em geral não colocam uma data certa para a viagem ao Sardine Run: elas acompanham mapas de temperatura da água e updates online como os do Ocean Planet para definirem a data em cima da hora, já quando as sardinhas estão a caminho. Ou seja, é uma expedição que você organiza que vai, mas não sabe quando, e fica esperando (em stand-by) o momento de embarcar. Há um hotline gratuito nos vilarejos de Kwazulu-Natal que informa sobre a chegada das sardinhas. Quando estas se aproximam da costa, a notícia se espalha rapidamente, trazendo turistas, pescadores e moradores para se aproveitarem, cada um a sua maneira, do espetáculo.
Que, diga-se de passagem, é impressionante. Eu nunca fui à África, e sonho em assistir de perto ao Sardine Run, porque deve ser uma experiência ímpar. Todas as fotos que já vi sobre o evento são fantásticas. As sardinhas, para se protegerem dos inúmeros predadores que aparecem naquele feeding frenzy, formam os chamados "baitballs" (bolas de isca), e se movimentam freneticamente fugindo dos ataques de predadores. Que são vários: tubarões, golfinhos, baleias, pássaros, peixes-espada, mola-molas, focas e quem mais estiver a fim de se alimentar de sardinhas. É ataque por todos os lados, uma verdadeira guerra subaquática onde os predadores se unem e o alvo comum são as sardinhas. Quem em geral as traz "para cima", são golfinhos que "forçam" aos poucos as sardinhas a nadarem cada vez mais próximas da superfície. Uma vez que elas chegam a profundidades menores, a festa da alimentação começa. Ali, a costa índica da África do Sul (algumas vezes chega até Moçambique) passa a ter durante o Sardine Run a maior agregação de grandes predadores imaginável - ou seja, é o melhor estúdio fotográfico submerso que pode haver no planeta.
Entretanto, o mergulho no Sardine Run é para poucos. Primeiro, porque é muito caro. Segundo, porque você tem que esperar o momento certo, ou seja, na prática pode chegar em Durban em maio e só sair de lá em julho, porque as sardinhas resolveram aparecer mais tarde. Ou o inverso, se planejar para junho e elas vierem em maio. Você está a mercê da natureza. Consequentemente, é necessário ter tempo para este tipo de arranjo. Terceiro, porque o mergulho é em mar aberto, com correntes fortes, o que complica para a maioria dos mergulhadores recreacionais - é um mergulho avançado. Quarto e mais importante, o óbvio: você é jogado no meio de uma "bola" de sardinhas que vão ser comidas por inúmeros animais maiores vindos por todos os lados, inclusive de fora da água. A probabilidade de você ser machucado no meio desse frenesi é grande, e como as sardinhas fazem um paredão escuro, a visibilidade não é das melhores. De repente você pode dar de cara com um tubarão ou foca de boca aberta, pronto pra uma mordida no baitball. Ou seja, a chance de você ser confundido com comida é elevada. Adrenalina a 1000 é pouco para descrever a "brincadeira".
Mas, mesmo com todas estas dificuldades, os relatos que já li/ouvi de diferentes pessoas sobre a experiência de mergulhar e/ou assistir ao Sardine Run são fascinantes. É uma das milhares de peculiaridades biológicas da África que eu gostaria de um dia (quem sabe...) vivenciar. De preferência embaixo d'água. 
Tudo de bom sempre.
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Para viajar mais nas bolas de sardinha:
- O filme "Wild Ocean", feito para IMAX, mostra as belezas oceânicas da costa de Kwazulu-Natal, uma das mais movimentadas biologicamente da África. Há no filme, é claro, inúmeras cenas do Sardine Run. No site do filme, dá pra assistir ao trailler e ter um gostinho de leve da experiência.
- David Doubilet, um dos maiores fotógrafos subs de todos os tempos, chamou o Sardine Run de "um dos pulsos mais emocionantes da vida nos oceanos do mundo" ("one of the most amazing pulses of life in the world's oceans") neste artigo maravilhoso da National Geographic sobre todo o espetáculo que é a costa da África do Sul.
- Ok, é uma bobagem, mas eu adorei a animação da entrada do site do Sardine Run Association. ![]()
- Uma pequena lista com alguns artigos científicos sobre o Sardine Run.
- A foto vencedora do Wildlife Photographer of the Year 2005 foi de dois tubarões se alimentando no Sardine Run. Feita por Doug Perrine, com quem estivemos ano passado.
- Este post faz parte da blogagem coletiva sobre África, proposta supimpa feita pelo Carlos Hotta no Raio X. Participem, divulguem e leiam os demais posts. A meta é conhecer um pouco mais sobre esse continente ainda tão "esquecido" da mente coletiva.
UPDATE: O selinho da blogagem foi feito pela Cláudia Regina.



















