11.Outubro.09

Mergulho com os leões marinhos da Patagônia

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Era 2 de abril, feriado na Argentina. A saída de mergulho planejada mais parecia uma reunião de família: o dono da operadora, seus filhos e sua esposa no barco, aproveitando o dia de descanso para interagir um pouco com os leões marinhos do sul (Otaria flavescens). O local escolhido para o mergulho era Punta Loma, a 17 km de Puerto Madryn, na Patagônia Argentina, área designada em 2005 como protegida pelo governo da província de Chubut. Ali há uma Lobería (como os argentinos chamam os locais onde os lobos mariños se agregam) mais tranqüila para se mergulhar – embora nada tornasse água a gélidos 14 graus “tranqüila”, pelo menos a ausência de corrente e a pouca profundidade não tornariam o mergulho mais complicado.

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Praia de Punta Loma: areias restritas aos leões marinhos do sul.

O barco da operação corta o mar calmíssimo do golfo Nuevo e rapidamente chegamos ao point. Na praia, já dá para ver as dezenas de leões marinhos residentes da área, tomando sol, descansando ou brincando. Muitos filhotes, menores e mais agitados, nascidos há menos de 3 meses, agora brincam na praia, fazendo suas primeiras investidas no mar.

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Filhotes de leões-marinhos brincando.

O mergulho com os leões marinhos em geral não oferece perigo e é de baixíssima exigência técnica. O local é bem próximo à costa e você não passa de 5 metros de profundidade. Apesar de ser tão raso, não é permitido fazer ali snorkel – as leis argentinas proíbem qualquer pessoa de chegar perto dos leões marinhos sem equipamento de scuba, além de exigirem o pagamento de uma taxa de conservação alta, que em geral está embutida no preço da saída de mergulho. A regra é não tocar no animal, nem assustá-lo com movimentos bruscos nem levantando areia do fundo. A visibilidade não é das melhores, em média 5 metros, o que requer mais cuidado ainda nos movimentos de cada mergulhador. Os leões marinhos que se aproximam são normalmente os mais jovens, curiosos que estão por descobrir um mundo novo – ou pelo menos descobrir o que aquele monte de gente soltando bolhinhas e olhando para eles são.

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Os leões marinhos do sul, como são conhecidos, vivem restritamente no hemisfério sul do planeta, na costa da Argentina, do Chile e do Peru, além das ilhas Falklands e na ilha dos Lobos, no litoral gaúcho. O nome leão marinho deriva do fato de que os machos exibem uma cabeleira dourada na cabeça quando estão secos, não tão vistosa quanto a dos leões africanos, mas igualmente atraente para as fêmeas do bando – que também têm a cabeleira, apenas mais rala que a dos machos. Os leões marinhos machos, aliás, pesam em média 300 kg, o dobro das fêmeas, e mantém haréns, com várias fêmeas para cada macho.

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Um pequeno harém de leões-marinhos com filhotes descansando ao sol.

Haréns que são muito sonoros, diga-se de passagem. De longe, podemos ouvir os gritos e urros dos leões marinhos, que se comunicam basicamente para garantir seu território e suas fêmeas. As mães também urram para alertar os filhotes dos perigos e os filhotes urram de volta para indicar que ouviram o chamado materno; então, no somatório de machos, fêmeas e filhotes, é uma urraria só e é essa barulheira que torna mais fácil identificar que você está numa Lobería. Nesses locais, os leões marinhos se agregam – e pode ser na areia, em rochas ou penhascos, nas piscinas de maré e até mesmo em praias de cascalho ou pedrinhas. Da praia, só saem para pescar seu alimento: anchovas, crustáceos, polvos, lulas e até pingüins, de preferência em áreas onde o fundo do mar é recheado de algas. Nos primeiros meses de vida, as mães saem por 3 dias para pescar e ao voltar, amamentam o filhote por 2 dias, e esse ciclo continua por 2 meses, quando os filhotes já aprenderam a nadar e dão suas primeiras investidas na água. Demorará pouco para que os leões marinhos jovens consigam se equiparar aos mais experientes do grupo, que chegam a mergulhar até incríveis 300 metros de profundidade atrás de sua comida. Haja fôlego e adaptação para um mamífero que vive na terra (e respira com pulmões!) agüentar tamanha pressão e tempo debaixo d’água.

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Durante o mergulho com os leões marinhos, sua excelente flexibilidade é evidente, pois giram toda hora o corpo e a cabeça a fitar os intrusos ali presentes. Os leões marinhos não ficam constantemente com os mergulhadores – vão e vêm, como a explorar e desencanar da exploração, inúmeras vezes, enquanto a maior parte do bando está sob o sol na praia.

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Este leão marinho que vimos no dia anterior tentou várias vezes subir na pedra em meio ao mar revolto. Na enésima tentativa, conseguiu.

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Já este, subiu de primeira!

Sua flexibilidade na água permite eficiência na pesca, mas o corpanzil com nadadeiras, cheio de gordura e desengonçado dificulta sua locomoção em terra firme. Mas mesmo assim, eles “caminham”, devagar e sempre na areia. Ali, raramente são predados por outros animais. Correm maiores riscos ao mergulharem atrás de alimento, quando podem efetivamente virar comida de tubarões, orcas e algumas espécies de baleias.

Apesar da população pequena que vive na América do Sul (cerca de 230.000 indivíduos), os leões marinhos do sul não são considerados ameaçados de extinção. Foram no passado alvo de predação humana intensa, por causa da quantidade de gordura extraída deles. Mas hoje a maior ameaça que enfrentam é a perda de seu habitat e de sua comida, pela ação da pesca excessiva e do desenvolvimento das zonas costeiras. Por isso, saber que boa parte das Loberías argentinas são áreas de proteção ambiental é uma boa notícia: garante que mais pessoas terão a chance de mergulhar e interagir com os leões marinhos no futuro, pois eles estão devidamente salvaguardados desde já.

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Lobería de Puerto Pirámides, outra área de preservação argentina mais ao norte, já na Península Valdés propriamente dita.

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- Texto publicado na revista Mergulho n. 144 de julho/2008. Mas devo confessar que me animei a finalmente colocar esta história aqui no blog depois de ler um post bacaninha da Maryanne sobre as brigas entre os leões marinhos que ficam no Píer 39, em San Francisco. Mary, obrigada por reacender minha memória e inspirar! :)

12.Outubro.08

Sendo franca

Baleia franca

A viagem que estamos fazendo dá um pulo enorme para falar de um "evento" que aconteceu na semana que passou e que me emocionou deveras. (Depois eu volto e conto o intermezzo.)

Fomos à Imbituba, cidade do litoral sul catarinense e capital brasileira das baleias francas (Eubalaena australis). É nesse pedaço de litoral que a espécie vem todo ano, de julho a novembro, se reproduzir e ter os filhotes. Estamos em outubro; logo, nós não podíamos perder a oportunidade de ver a baleia franca em nossa viagem pelo sul do Brasil.

Praia do Porto, Imbituba (SC)
Praia do Porto, em Imbituba, vista do mirante. O morro que vemos ao fundo é o da trilha do Farol, de onde se tem uma visão pro mar aberto muito tranquilizadora.

Imbituba em si é uma cidadezinha simpática, com algumas praias: a do Porto, onde há um porto grande (duh!); a da Vila, onde se realizará uma das etapas do WCT desse ano - ou seja, uma praia excelente para surfe; a da Ribanceira, onde predominam os windsurfistas; e a de Ibiraquera, que parece ser a que as baleias mais gostam. Mal chegamos em Imbituba e fomos fazer a trilha do Farol, no canto esquerdo da praia da Vila. Trilha simples, de 1km e pouco de sobe-e-desce em rochedos, ao final vê-se um farol feito de azulejos brancos e toda a imensidão azul do mar de Santa Catarina. Bela visão.

Mas estávamos ali por causa das baleias. Do mirante da cidade, dava para ver alguns pares de mãe e filhote nadando perto da praia - perto mesmo, a uns 50m da arrebentação das ondas. Eis daí aliás o seu nome "baleia franca" (em inglês, right whale): por ficar tão perto da costa e tanto tempo na superfície, era facilmente caçada por qualquer um, inclusive pescadores com barquinhos pequenos, que simplesmente a arrastavam para a praia depois de arpoá-la. Ou seja, era a baleia "certa", "franca" de ser pescada, e seu nome já deriva do uso abusivo que fazíamos da espécie. No passado, dizia-se que as baleias francas foram as responsáveis por "tirar o mundo da escuridão", já que seu óleo foi o primeiro utilizado na iluminação pública das cidades ainda no século XVIII - e para fazer cimento em boa parte das construções antigas.

A baleia franca foi considerada extinta na costa brasileira na década de 70 - lembra da triste ecomúsica do Roberto Carlos "As baleias" de 1981?

"Seus netos vão te perguntar em poucos anos/ pelas baleias que cruzavam oceanos/ que eles viram em velhos livros ou no filme dos arquivos dos programas vespertinos de televisão/ (...) de uma cauda exposta aos ventos/ em seus últimos momentos/ relembrada num troféu em forma de arpão".

Pois é, quando Roberto escreveu a letra desta música, a população de baleias francas no Brasil chegara no menor número de toda a história, praticamente não era mais avistada na costa - não sei exatamente se foi essa dura realidade que o inspirou, mas imagino que tenha feito parte na decisão de escrever sobre o tema. Estima-se que a população de baleias francas original (antes do massacre crônico em busca de sua espessíssima camada de gordura) era de 70,000 baleias, e elas visitavam anualmente até a altura da costa da Bahia. A última baleia arpoada no Brasil foi em 1973, ali em Imbituba - uma franca, óbvio. Hoje, depois de anos de preservação e um trabalho intenso de recuperação, a população de baleias em todo o hemisfério sul é de cerca de 7,000, ou seja 10% da população original, apenas.

Desde 1987, é proibido pela lei federal 7643 de se pescar e/ou molestar cetáceos marinhos (baleias e golfinhos). Em 2000 [link do decreto-lei em pdf] foi criada a Área de Preservação Ambiental da Baleia Franca, uma região de 156.100 hectares que vai da costa sul da Ilha de Santa Catarina (onde está Florianópolis) até o Balneário do Rincão, no extremo sul do estado (mapa aqui). Com essas medidas, a população de baleias pode aos poucos se recuperar. E, mesmo ainda em processo de recuperação, vale ressaltar que o número de baleias vem aumentando a cada ano.

No passado, os humanos ganhavam dinheiro com a baleia morta. Hoje, em tempos de prática ecológica mais aflorada, de leis mais claras e exigentes, e com cada vez mais baleias aparecendo no litoral catarinense (e com mais humanos morando na região), o ideal que vejo é o desenvolvimento do ecoturismo - ou seja, a comunidade local lucrando com a baleia viva, ano após ano. Isso já é feito na Península Valdés, na Argentina, onde a maior parte das baleias francas se concentram no hemisfério sul. Em Valdés, já existe todo um esquema de ecoturismo da baleia franca, e a região lucra bastante a cada temporada com a vinda das baleias.

Santa Catarina tem o mesmo potencial ecoturístico com baleias que Valdés - maior até, porque há mais atividades possíveis de se fazer em geral em SC que na Península Valdez. Respeitando-se as leis básicas, pode-se investir em divulgar a biologia e importância biológica da baleia franca pro ecoturista e envolver a população local nessa empreitada. Essa estratégia é, a meu ver, a mais adequada e a mais rentável para os moradores locais.

Contactei no dia que chegamos em Imbituba a Carolina, bióloga do Instituto Baleia Franca (IBF), com sede na descolada Praia do Rosa, e combinou-se a saída de barco para ver a baleia na manhã seguinte. Antes mesmo disso, do mirante da cidade, dava pra ver grupos de baleias nadando na praia do Porto. Muito vagarosas, elas se deslocavam pra lá e pra cá. A ansiedade de vê-las de perto só foi aumentando.

No dia seguinte, chegamos na praia do Porto às 9 da manhã, quando o barquinho para ver baleias saía. A praia é retona e o barco é um bote inflável, que não vira de jeito nenhum - para um local com ondas de surfe, importante quesito. O passeio é uma parceria do IBF com a Pousada Vida, Sol e Mar: o Henrique da pousada é o responsável pelo barco e pela logística da operação; parte do dinheiro arrecadado com o passeio vai para manutenção das atividades básicas e de pesquisa do IBF, além das biólogas utilizarem o barco para coletar dados das baleias que visitam a região; em troca, o IBF auxilia durante o passeio, divulgando a baleia franca para os turistas, através de uma palestra antes da saída pro mar (na praia mesmo), onde são explicados aspectos gerais da biologia e conservação da baleia.

Biólogas do IBF Mônica e Carolina
Biólogas Mônica e Carolina dando a palestra introdutória das baleias na praia do Porto.

O passeio começa, então, e o barco vai rumo à Ibiraquera, praia onde as baleias francas parecem se concentrar. O primeiro impacto que temos é com a distância entre baleia e praia: o animal está tão perto da arrebentação, que fica difícil pro barco se aproximar, pelo receio de que uma onda quebre em cima da gente. Da praia, facilmente se vê a baleia, que mais parece um torpedo parado na superfície. De repente, percebemos que há pelo menos 8 baleias ao nosso redor, com filhotes. É uma festa de baleias francas.

Baleia franca com filhote próxima à praia de Ibiraquera
Baleia franca com filhote na beira da praia de Ibiraquera (SC). A distância da praia é absurdamente pequena.

Uma das características da baleia franca é facilmente visível quando ela se aproxima do barco, o borrifo em "V". Todas as baleias borrifam, mas só a franca consegue fazê-lo em formato de V, devido à forma como o orifício respiratório da cabeça do animal se abre. Além disso, percebe-se também suas calosidades brancas na cabeça, formadas por espessamento da pele da baleia - esse espessamento termina favorecendo o acúmulo de crustáceos ciamídeos (cracas) na pele da baleia, tornando-o branco. Cada baleia tem um padrão de calosidade, e isso é utilizado para identificação individual visual dos animais que visitam o Brasil.

Calosidades da cabeça da baleia franca
A cabeça da baleia franca se caracteriza pela presença das calosidades brancas.

Barbatanas
A baleia franca não possui dentes, e sim essas estruturas filtradoras da foto, feitas de queratina, chamadas "barbatanas" - que ficam dentro da boca, entenda-se bem. Ela se alimenta de krill na Antártica, e fica todo o tempo em águas brasileiras sem comer - por isso a importância da presença de uma camada de gordura de cerca de 40cm embaixo da pele, para garantir a sobrevivência do animal durante a viagem e estadia pelas águas tropicais.

Quando uma baleia se aproxima, o barco desliga os motores. Dessa forma, a baleia pode se aproximar sem ser incomodada pelo barulho sub. São enormes: podem chegar a 5m e pesar 4 toneladas. Uma das baleias em nosso passeio se aproximou demais: seu corpanzil passou por baixo do barco e tocou-o, dando uma certa emoção para todos ali. Lindo.

Foi difícil dizer tchau para as baleias. A vontade que dá é de ficarmos ali o tempo todo, analisando deslumbrados cada respirada, cada caudada que ela dá, suas interações e brincadeiras com o filhote. Mas depois de quase 2 horas no mar, era hora de voltar à terra, com a certeza de que interagir de perto com a baleia franca respeitando seus limites é a melhor maneira de tornar as pessoas mais conscientes da importância da sua preservação. E serei franca, como a baleia: eu acredito na aproximação controlada como forma eficiente de educação ambiental para as pessoas em geral, e cada vez que eu tenho uma dessas experiências, mais me convenço de que no final das contas, com ecoturismo bem-feito, ganham as baleias (ou o animal em questão que se quer preservar). Que mais boas iniciativas, integradas com leis e comunidade, venham pelo mundo a fora.

Tudo de bom sempre.

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- Em Imbituba, também fica o Museu da Baleia de Imbituba, hospedado onde a última armação baleeira do Brasil funcionava.

23.Maio.08

Santuário das Baleias

Baleias jubarte

Ontem, lendo o sempre-ótimo Deep Sea News, fiquei sabendo que o número de baleias jubartes que vivem/visitam o Pacífico Norte chegou a quase 20,000 - em 1996 eram 1,800. Graças a uma política de conservação intensa, que incluiu a criação de diversas áreas como parques ambientais ou santuários de baleias, a espécie está aos poucos se recuperando do perigo de extinção.

Isso é, por si só, uma excelente notícia. Mas mostra também que a existência de algumas áreas onde as baleias podem circular sem ameaças robustas melhora seu status de existência num todo, em diversos lugares.

A pergunta que eu faço é: quando teremos isso no Brasil? E no Atlântico Sul?

Já há o Parque Nacional Marinho de Abrolhos, local de agregação dessa espécie. Assim como na Península Valdés, na Argentina, a baleia franca é protegida durante o período que por lá passa. No Brasil, temos o Projeto Baleia Jubarte, que cuida de perto dessa espécie. Mas... e as demais espécies de baleias? E o resto da área litorânea? A jubarte não se teletransporta para Abrolhos - durante a migração ela passa por diversos pontos do litoral.

Pois eis que o governo brasileiro, num ato de primazia exemplar, está querendo criar o santuário do Atlântico Sul - aos moldes do que existe em certos pontos do Pacífico Norte, permitiria que espécies como um todo se recuperassem. O Greenpeace está liderando o movimento de apoio a essa medida, e dia 26, segunda-feira agora, uma carta será entregue nas mãos do presidente Lula, reforçando a importância de tal santuário. Para apoiar tal medida, basta que cada um assine a carta que será entregue na 2a, que está nesse link. Leva menos de 5 minutos para ler e assinar. E o apoio será sem dúvida importante pro futuro das baleias de nossa costa.

Tudo de baleia sempre.

Blogagem das baleias - Greenpeace
*Esse post faz parte da blogagem coletiva pelas baleias, que o blog Meu Veneno organizou. Passe lá para ver o que a Carol já publicou sobre o tema (é nota 10) e o que os demais participantes têm a dizer.

- A Carol informa que a meta de assinaturas já foi conquistada (mais de 11,000), mas não custa assinar se você ainda não o fez... para dar mais força ainda ao pedido.)

14.Abril.08

No Ecocentro de Puerto Madryn

"Podemos decribir el mar, pero nunca conocerlo."
(Frase exposta na entrada do Ecocentro de Puerto Madryn.)

A cidade de Puerto Madryn, além do importante porto, é o principal ponto de partida na província argentina de Chubut para a Patagônia norte, de onde a maior parte dos tours saem para visitar a Península Valdés. Uma cidade agradável, muito iluminada, ampla, que me lembrou MUITO Santa Barbara, na California. Uma cidade outdoors, basicamente, ensolarada e convidativa aos exercícios ao ar livre.

Há diversas atrações por lá, mas a maior parte delas envolve entrar num ônibus/van para visitar lugares ao redor pela província de Chubut, como a Pinguiñera de Punta Tombo ou a própria Península Valdés. Mas, se você está cansado dessas "mini-viagens" para ver atrações da região - que tem uma paisagem pra lá de monótona, tudo muito amplo, plano e constante - mas ainda quer aproveitar os últimos minutos de sua viagem à Patagônia, não deixe de visitar o Ecocentro.

Ecocentro

O Ecocentro é um pequeno museu do mar, muito caprichado e simpático, localizado no topo de um penhasco no final da praia de Puerto Madryn (há ônibus que fazem o traslado até o Ecocentro de graça para os turistas, saindo do escritório de informações turísticas da cidade na beira-mar). O Ecocentro se dedica a explicar um pouco da biologia e dinâmica das espécies marinhas que moram e/ou visitam a Península Valdés e adjacências. Mais ou menos como o Aquário de Monterey faz na California, guardadas as devidas proporções - aliás, o Ecocentro tem estreitos laços colaborativos com o Aquário de Monterey, e a parte dedicada às profundezas do oceano é toda baseada nas descobertas feitas na baía de Monterey, gerando um vácuo de informação sobre a fauna das profundezas daquela região argentina que é uma excelente oportunidade para teses de doutoramento de interessados em deep sea. No Aquário de Monterey, você vê os animais e interage com alguns deles; em Puerto Madryn, há só painéis explicativos, já que a maior parte dos bichos que visitam a baía é grande, sazonal e "selvagem" demais para ser mantida ali. (Os custos operacionais de se manter grandes representantes da fauna num aquário provavelmente são a razão número 1 para sua ausência no Ecocentro de Puerto Madryn.) Mas mesmo sem a presença física dos animais, a atividade de conscientização desenvolvida no Ecocentro é importantíssima e merecedora de aplausos.

Vista da praia de Puerto MadrynVaranda do Ecocentro
Relax: da varanda do Ecocentro, o mar inebria... A vista da praia de dentro da cafeteria do Ecocentro tem tanto azul, que dá vontade de juntar umas cadeiras e tirar uma soneca... :D

Vejamos por exemplo as explicações sobre a geografia submarina da Argentina. A Patagônia é uma grande planície de vegetação rasteira, um estepe. Diferente do que acontece em Monterey (que há poucos metros da costa já tem uma queda na sua plataforma em profundezas abissais de alguns milhares de metros), na Argentina o relevo plano continua embaixo d'água, mantendo a profundidade máxima de 100m até as Malvinas, a 500 km da costa - e essa é a principal razão hoje pela qual a Argentina reclama na ONU as Malvinas para si: ela é a continuação de sua plataforma continental pouquíssimamente inclinada; onde a plataforma finalmente termina. É a maior planície submarina do hemisfério sul do planeta, e muito rasa para tamanha distância da costa. Essa diferença básica com Monterey já é intrigante o suficiente para atiçar uma vontade de entender a fauna dali, principalmente a de fundo (bentônica) mas ainda há muito poucos estudos argentinos, como o próprio Ecocentro mostra e tristemente cita.

Plataforma plana argentinaEsqueleto de baleia franca
Mapa da plana plataforma submarina argentina. Quanto mais claro o azul, mais raso. Repare que até a região das ilhas Malvinas a plataforma alcança apenas 100m de profundidade. É muito pouco para uma área tão distante do continente. Simplesmente incrível. Ao lado, um esqueleto montado de uma baleia franca que encalhou em Puerto Madryn em 2002, que agora fica exposto no jardim de acesso ao Ecocentro.

Boa parte do Ecocentro é dedicado à informação sobre as espécies da região, principalmente as de megafauna e ameaçadas de extinção, como baleias e pinguins. Você vai ouvir (e entender a diferença de frequência) entre o canto de uma jubarte, uma baleia franca e uma orca. Vai se surpreender com o incrível ciclo de reloginho dos pinguins de Magalhães, que todo ano saem e voltam na mesma época para a Patagônia. Vai sentir levemente como é se alimentar de krill, ao visitar a sala da baleia franca, que possui uma cortina de cordas na entrada que simula as cerdas filtradoras da boca da baleia. É lúdico e interessante você ter qe ser "engolido" pela baleia para aprender sobre ela.

Além dessas questões básicas de biologia marinha, há no Ecocentro uma grande parte da exposição dedicada à conservação dos mares e da fauna marinha da Patagônia. Quadros ilustrativos da "cidade" pesqueira que existe em plena zona de convergência das 2 correntes marinhas que ali se encontram, a das Malvinas (fria) e a do Brasil (quente), que se movimentam à velocidade de 20 cm/seg, movimentando cerca de 70 bilhões de litros de água do mar por segundo na altura da Península Valdés e trazendo próximo da superfície cerca de 80 espécies diferentes de zooplâncton crustáceo. Tanta riqueza de krill obviamente atrai animais maiores, o que faz a festa da indústria pesqeira. Embora seja proibido pescar na região da Península Valdés, a pesca é liberada em mar aberto, e o resultado é essa cidade iluminada, um símbolo da predação humana exagerada.

Nas cerdas filtradoras da baleia franca"Cidade" pesqueira
A entrada para a sala da baleia franca simula as cerdas filtradoras do animal, e faz você literalmente ser "engolido" para o aprendizado sobre o bicho. Ao lado, uma foto de satélite tirada à noite do mar da Patagônia mostrando a intensa atividade pesqueira na área de convergência das correntes marinhas, onde os nutrientes se acumulam. A seta vermelha indica as ilhas Malvinas, mas todo o branco que aparece logo acima em mar aberto são as luzes dos barcos pesqueiros na região - é mais intenso do que a cidade de Puerto Madryn toda!

Mas, depois que você refletiu sobre a fauna, a conservação, a (falta de) informação sobre as zonas abissais da borda da plataforma continental argentina e sobre os problemas da pesca, é hora de tomar um café na cafeteria do Ecocentro, parte imperdível da visita. A cafeteria fica num local privilegiado do prédio, com vista para o mar pacatíssimo do Golfo Nuevo. Serve-se um bolo galês fantástico ali, e se você não for visitar Gaiman, a cidade galesa a 100km de Puerto Madryn, essa é sua oportunidade para apreciar a iguaria típica. Depois de curtir o café, o bolo e a vista, você pode dar uma caminhada até a borda do penhasco, e descansar sentindo o vento forte que bate por ali e apreciando o mar azul. A localização privilegiada do Ecocentro permite boas horas de distração e relaxamento, olhando pro infinito.

Cafeteria with a viewCafé com bolo galês
Cafeteria com vista para um mar belíssimo, de intenso azul. Ao lado, aprecio o café e o famoso (e delicioso!) bolo galês, típico da região de Puerto Madryn por causa da colonização galesa em Gaiman.

O Ecocentro é uma parada instrutiva e relaxante, que eu indico a todos que se aventuram pela região patagônica.

Tudo de bom sempre.

*************

- Há no Ecocentro uma citação bem "californiana" na sala de fauna abissal, que delata a ajuda de Monterey na montagem da exposição: a capa do disco de 1973 "Tales from Topographic Oceans", da banda psicodélica que eu adoro Yes. Junto com a capa ultra-viajante, há o seguinte texto:

"(...) The art of the cover, as well as the whole aesthetic of the group, was developed by the artist Roger Dean. In the cover of its LP (there were no CDs then!) there appears a scene from the bottom of the sea with fish and some well-known rocks of the British landscape and history such as Stonehenge; also the Mayan temple Chichen Itza and the unmistakable markings from the plain of Nazca... mysterious and suggestive collage. Why its presence here? For some of us this was the first hint of the existence of a sea in the depths. There was more than the brilliant surface that we could see. That is why."

07.Abril.08

Resposta do desafio malla: Puerto Pirámides, Argentina

Bem-vindos a Puerto Pirámides!

E não é que o João acertou na mosca o último desafio malla? Eu estava em Puerto Pirámides, um vilarejo na Península Valdés, litoral argentino, na parte mais ao norte da Patagônia argentina. A Península é uma das áreas mais ricas de megafauna marinha nas Américas e por isso, considerada pela UNESCO como Patrimônio Natural da Humanidade. E Puerto Pirámides é a porta de entrada para a Península, como podemos ver no mapa abaixo.

Mapa da Península Valdés
Mapa da Península Valdés escaneado de um folheto explicativo dado na entrada do parque. As estradas pontilhadas são de ripio e o istmo tem uma largura mínima de 4km.

A Península Valdés e suas atrações naturais merecem um post a parte. Por ora, basta saber que toda a área de 360 mil hectares da península é uma reserva natural protegida pelo governo argentino mas de propriedade privada, e paga-se uma taxa de 40 pesos para entrar nessa área, utilizada para a manutenção do parque - e o vilarejo de Puerto Pirámides está dentro do parque (é claro, os moradores de lá não precisam pagar). Chega-se até Pirámides em estrada de asfalto vinda de Puerto Madryn, mas dentro da Península, todas as estradas são de ripio, termo espanhol para a cobertura de pedrinhas escorregadias que cobre o chão de terra. Facílimo de perder o controle do carro e capotar, além de fazer a festa das lojas de para-brisas para reparar os danos comuns.

Puerto Pirámides

O vilarejo todo de Puerto Pirámides está visualizado na foto acima, tirada do mirante da cidade. São apenas duas ruas, uma que corta a cidade e a outra que vai para a praia, sendo que metade das casas ou é pousada ou é restaurante ou é operadora de mergulho/tours. Ou os 3 ao mesmo tempo. É de Puerto Pirámides que saem a maior parte dos passeios para ver a baleia franca, entre setembro e dezembro, quando ela passeia pela região. Nessa época do ano (março-abril) estamos fora de temporada, a baleia franca não está por lá para atrair a atenção dos turistas e por isso o vilarejo estava uma calmaria só.

Além desses estabelecimentos, há ainda uma escola, um museu, a delegacia, o posto de saúde, um mercadinho e o único posto de gasolina da península, o que o torna parada obrigatória para todos os visitantes que se aventuram pelo ripio do imenso parque. Os preços, dado o isolamento da região, até que não estavam abusivos, mas imagino que esse fato se deva pela época do ano, fora de temporada.

E há a praia. Ampla, plana, de areia dura, água geladésima, com muito vento e uma paisagem sedimentar das mais belas que já vi, rica em fósseis - você vê aos milhares nas diferentes camadas do terreno, principalmente de conchas marinhas, e pisa em terreno lotado de história natural de milhares de anos. Um desbunde paleontológico.

Relevo costeiroPirâmide de Puerto Pirámides
Um pouco do relevo belíssimo da costa da região de Puerto Pirámides. Ao lado, um dos montes que lembram o formato de uma pirâmide, visível do mar, e que inspiraram o nome da vila.

Perto do mirante, a 4km do centrinho, fica a entrada para a principal atração turística do vilarejo: a Lobería. Uma mini-baía de mar bravio e encosta escarpada, onde vive uma colônia de leões marinhos (que em espanhol são chamados lobos mariños). Os leões marinhos, nessa época do ano, estão com seus filhotes em fase de aprendizagem, e é uma delícia observá-los do topo do morro se divertindo na água, fazendo suas primeiras incursões para se alimentar no mar gelado.

Lobería
Vista geral da Lobería de Puerto Pirámides.

Fizemos de Pirámides nossa base para as andanças pela Península Valdés. A maior parte dos turistas escolhe Puerto Madryn (a 100km da região) como tal, mas preferimos estar mais perto da região, curtindo um pouco do bucolismo e da solitude patagônica nessa vilinha tão simpática, de pacatez tão aconchegante. Foi uma ótima escolha e eu aconselho aos mais ecodescolados.

Praia de Puerto Pirámides

Tudo de bom sempre.

***********

- É preciso mencionar honrosamente que o PH também deu um excelente palpite no desafio e merece os parabéns por acertar o país (Argentina) e o feriado do dia 02 de abril, que relembra o início da Guerra das Malvinas, outro pedaço das filosofices dessa viagem que merece um post futuro. Valeu, PH! :)

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