20.Maio.09

Divagações sobre pirataria

Há muito a se dizer sobre a pirataria na Somália.

Já há alguns anos, a região é evitada por boa parte dos veleiros, por receio de serem tomadas por "piratas" - no livro de Heloisa Schurmann que resenhei há tempos, ela cita bem superficialmente esse problema. O litoral somali, dentro do mundo dos navegadores "independentes", é o reino dos piratas, lugar a ser evitado em sua rota. Mas... quem são esses piratas?

O Catatau, em um post traduzido pela Caia Fittipaldi de 2 artigos excelentes, jogou essa pergunta, que ficou rondando a minha cabeça esses dias. Nos artigos que ele postou, mostra-se a realidade por trás de toda a questão da pirataria. O por quê da Europa agora reclamar dos piratas - e a Ásia, no reboque. Da Somália como destino final do lixo atômico europeu. De um Estado desmantelado, por corrupção e outras misérias. Dos barcos de pesca industrial que, na ânsia de alimentar os países desenvolvidos, depletaram ilegalmente toda a costa somali por décadas, deixando os pescadores locais, com barcos menores e sem tanta tecnologia, sem peixe.

São estes pescadores, homens do mar sem alternativa viável num cenário político e econômico de caos, que apelam para a ilegalidade da pirataria, como última chance de chamar a atenção do mundo para os graves problemas de seu país. É a face de um desespero.

(Há bandidos entre eles, sem dúvida. Mas acredito que não na proporção que boa parte da mídia quer nos fazer crer.)

Seriam estes pescadores completamente culpados? (Mais uma vez, perante a mídia do mundo, parece que sim.)

São muitas perguntas, poucas respostas. Mas nada me tira da cabeça que a pressão da sobrepesca do litoral é elemento chave para o ressurgimento do "problema" com tanta força. Então dou um passo a mais nas minhas divagações: se lembrarmos que há outras comunidades pesqueiras (em áreas de conflito, inclusive) que vêm percebendo a decadência numérica dos peixes no mar (uma evidência empírica clara que coletei pelo Brasil todo, entrevistando pescadores), seria a Somália o primeiro país a demonstrar violentamente o que um mar sem peixes pode causar às pessoas - e à estrutura social?

Será essa a ponta do iceberg para problemas maiores que podem vir? Como lidaremos com isso? Será que outros povos se jogarão ao mar como piratas? Estamos preparados para uma onda de saques em alto-mar, essa terra de ninguém na vista de todos, onde qualquer um pesca o que quer sem preocupações legais?

Food for thought. As cartas estão aos poucos sendo jogadas na mesa, numa rodada que pode custar a estabilidade social no planeta.

Tudo de questões sempre.

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- O sempre maravilhoso The Big Picture publicou há algum tempo uma coletânea de imagens dos piratas na Somália. Muito emblemático.

- Aliás, falando em blog de fotos, um off-topic: o NYTimes começou um blog de fotojornalismo, chamado Lens. Mas no feed RSS não mostram nenhuma foto. Acho um FAIL considerável feed incompleto em qualquer blog, por sinal.

- Obrigada, Catatau, pelo seu post-denúncia.

15.Junho.08

Viajando por email: Iraldo em Angola

A entrevista de hoje é um pouco diferente das que normalmente eu publico aqui. Em geral, pergunto sobre as viagens do entrevistado de uma maneira abrangente, que engloba por assim dizer todas as viagens que o mesmo já fez na vida. Com o Iraldo foi diferente, porque ele está morando em um país que eu pouco comento aqui no blog, vivendo uma rotina de transformações e literalmente de reconstruções - então eu não podia perder a chance de focar exatamente nas descobertas legais que essa experiência está trazendo para ele. Aproveito a deixa e recomendo o blog "Angola em fotos", que ele criou para colocar, sem muita firula e texto, as fotos que tem tirado por Angola - e nem precisa de texto, as imagens falam sozinhas. Muito revelador mesmo. E viajem aqui com as palavras gentilmente deixadas na entrevista pelo Iraldo!

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Angola 1

- Iraldo, conte um pouco sobre como você foi parar em Angola. Onde você estava antes de ir para Luanda?

Iraldo: Lucia, sou um engenheiro civil e trabalho na produção de obras de infra-estrutura (saneamento básico, pavimentação, viadutos, rodovias, barragens, etc.). Nasci no interior do estado, mas moro em São Paulo desde 1990, onde me especializei neste tipo de obra, sobretudo as construídas em áreas densamente povoadas. Em 2005 fui trabalhar na construção de uma rodovia em plena selva peruana, depois trabalhei nas obras de construção de uma usina hidroelétrica em Rondônia e agora me encontro aqui em Luanda, capital de Angola, onde estamos pavimentando algumas ruas e avenidas do bairro Cazenga, uma enorme concentração humana com quase dois milhões de habitantes que se formou a partir da vinda de refugiados de guerra do interior do país e também de países vizinhos, como o Congo, Zâmbia, Zaire e Namíbia. Volto para o Brasil a cada sessenta dias para visitar a família, onde permaneço por dez dias.

- Como é a rotina de sua vida no país?

Iraldo: Moro em uma república, numa casa de um condomínio fechado em Luanda Sul, no melhor bairro da cidade, com mais quatro companheiros de trabalho. Acordo às quatro e meia da manhã, preparo meu café e saio às cinco e meia para o acampamento da obra. Atravesso a cidade gastando no mínimo uma hora e meia para percorrer uma distância de dez quilômetros (já cheguei a gastar três horas), o que me deixa com saudades enormes da Av. 23 de Maio. Luanda ainda está construindo suas vias arteriais, não possui um sistema de transporte coletivo, e a população se utiliza das “candongas”, as vans particulares pintadas de azul e branco pilotadas por cidadãos comuns, para se locomover pela cidade. É a materialização do caos. Passamos cerca de quatro a cinco horas por dia em congestionamentos. Nunca chego em casa antes da nove da noite. E, nos dias de folga, geralmente vou à praia.

- E como é a rotina de um angolano médio?

Iraldo: Veja, Lucia, Angola é um país com doze milhões e meio de habitantes onde quarenta e três por cento da população tem menos que quatorze anos de idade, e que está passando por um processo de reconstrução após vinte e sete anos de uma guerra civil que matou um milhão e meio de pessoas e criou quatro milhões de refugiados. É um país rico em recursos naturais, exporta petróleo, diamantes, e possui ricas jazidas de minérios de ferro, ouro, e cobre. Mas a impressão que fica num primeiro olhar é que não existe uma classe B por aqui. Somente uma pequena classe A e um vasto contingente de pessoas que formam as classes C e D. Ou seja, acho que existem apenas milionários e miseráveis. A distribuição de renda ainda está longe de ser a ideal. Nota-se isto facilmente pelos congestionamentos, que são formados basicamente por candongas, carros velhos e SUV’s de última geração.

O angolano da capital começa o seu dia lutando para conseguir água. O governo disponibiliza caminhões-pipa para que a população possa se abastecer, mas claro, nunca é suficiente para todos. É comum ver mulheres e crianças carregando galões de água na cabeça logo quando o dia amanhece. A taxa de desemprego é alta e a economia em Angola é basicamente informal. Pode-se comprar qualquer coisa nas ruas, de papel higiênico a ventiladores. E o angolano comum e desempregado vive cada dia com o resultado do que consegue vender pelas ruas.

- Qual cena foi a mais inesquecível para você em Angola? Por quê?

Iraldo: Foi assistir a passagem de um funeral, com o caixão enfiado dentro de uma candonga lotada de pessoas que batucavam sobre ele, riam e tomavam cerveja, assim como todos os passageiros dos outros carros que seguiam o cortejo. A morte de alguém por aqui é celebrada com festa. É cultural. E o funcionário, por lei, pode gozar de até três dias de folga por luto em família.

- E qual foi a mais triste? Por quê?

Iraldo: Não cheguei a presenciar, mas fiquei sabendo que, no bairro onde trabalho, um motorista de um caminhão de bebidas atropelou uma criança e, ao descer para prestar socorro à vítima, foi apedrejado até a morte pela população. E saquearam o caminhão. Esta cena ficou passando por minha mente durante dias.

- O que os angolanos comentam sobre a vida deles, sobre a dificuldade por que passam? Como encaram viver numa sociedade pós-guerra com uma divisão abissal de classes?

Iraldo: Tenho conversado muito com as pessoas e noto que todos esperam uma mudança para melhor. Anseiam por mais escolas para seus filhos e lutam para melhorar os seus padrões de vida. E, todos, repudiam a corrupção, uma prática enraizada na estrutura local de poder. É comum a polícia, sobretudo a de trânsito, parar as pessoas na rua e exigir dinheiro forjando multas inexistentes. Tudo funciona na base da “gasosa” (refrigerante). A burocracia é enorme e incentiva esta prática nefasta.

- Que características inerentes ao povo angolano são apreciadas por você? Você já teve algum contato com a música angolana? O que achou, o que indica?

Iraldo: O angolano padrão é uma pessoa alegre e bem humorada, de bem com a vida, muito parecido com os brasileiros. Gostam de carnaval, música, praia e de viver bem como a gente. Adoram brasileiros devido às novelas da Globo. Dentre os gêneros musicais escutam semba, kizomba, cuduro e muita, muita música brasileira. De Roberta Miranda a Skank. De MPB a Bruno e Marrone. Sabem tudo sobre nossa música.

Angola 3

- O que você acha que o futuro guarda para Angola?

Iraldo: Angola já lidera naturalmente, juntamente com a África do Sul, o bloco dos países da África subsaariana. Sua economia cresceu quase vinte por cento em quatro anos. E agora, com este imenso aporte de capital estrangeiro proveniente da China, Europa, EUA e Brasil, a tendência é que cresça ainda mais. Só posso, portanto, vislumbrar um futuro brilhante para esta nação. E me sinto feliz em poder modestamente contribuir com o meu trabalho para que isto aconteça.

- Muito obrigada pela entrevista, Iraldo! E boa sorte em seus projetos de reconstrução! :)

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*As fotos do post foram gentilmente cedidas pelo Iraldo e podem ser vistas no blog Angola em Fotos.

05.Fevereiro.08

O caos no Chade em primeira pessoa

No final do ano passado, recebi um email de um grande amigo meu britânico - cujas aventuras pelo mundo dariam um livro, by the way, pois vão desde pedalar da Inglaterra à Mongólia até caminhar ao redor das ilhas havaianas. Enfim, ele hoje é voluntário de uma grande ONG internacional e estava notificando seus amigos por email em dezembro que partiria para o Chade para uma missão de 4 meses num lugarejo remoto na fronteira com o Sudão.

Eis que dias atrás um verdadeiro pandemônio político se estabeleceu na capital do Chade. Rebeldes metralhando o palácio presidencial na capital, querendo tomar o poder. Do outro lado, sudaneses assaltando campos e cidades chadianas na fronteira - centenas de milhares de pessoas fogem de Darfur rumo ao Chade, o que só agrava a situação. Um infelizmente típico caos africano.

O Chade se tornou hostil à atuação de ONGs desde o escândalo envolvendo voluntários franceses de uma ONG obtusa que roubavam crianças de suas famílias chadenses para entregar à adoção em famílias francesas. Ou seja, desde então, voluntários para ajudar o país não são muito bem-vindos.

Meu amigo já passou maus momentos em suas andanças (chegou a ter "mal da montanha" no acampamento-base do Everest e quase morreu numa nevasca no Nepal), mas dessa vez temi de verdade por sua vida, dado todo o contexto do local onde ele está. Antes mesmo que eu preocupada escrevesse para ele perguntando qual era a situação de verdade, ele escreveu um longo email para vários amigos, dizendo que estava bem, vindo de um lugarejo tão remoto que nem mesmo os rebeldes sudaneses querem chegar lá.

Perguntei se podia compartilhar algumas sentenças-chaves de seu email aqui no blog, para que eventuais interessados em política mundial que passem por aqui pudessem ler uma opinião em primeira pessoa. Ele aprovou a idéia. Mesmo que sejam notícias que muitos leram no jornal, acho muito valoroso que um amigo esteja no meio dessa confusão que parece tão distante aos nossos olhos - de repente ela ficou preocupantemente próxima de mim. Eis então alguns pedaços de seu longuíssimo email sobre a situação no Chade:

"(...) We're now in Goz Beida. But then news came in that the Ade project (three hours from Goz Beida, almost on the Sudanese border) had been attacked by armed bandits and looted (...) and even as I write this at 6.30 am today, they are beginning emergency evacuation (...) to Goz Beida by road, where there is an airstrip. The plan was to fly them to Abeche, but now it seems Abeche is more dangerous than Goz Beida so we are all crowding in tightly here. Going to Ndjamena [n.e.: capital do Chade] is even less of an option now. There are no civilian flights to or from Ndjamena. The UN have evacuated non-essential personnel. French troops are said to be holding the airport and bringing in reinforcements from Gabon and Ivory Coast to supplement their already considerable forces in Chad, and will take on responsibility for evacuating us if need be, if our own plane cannot make it."

"(...) The rebels had entirely other ideas, and skirted past Goz Beida, heading towards Abeche (the only significant town east of the capital). Again, the Chadian Army (ANT) encircled the town to defend it, while several more much bigger columns of rebels seem to have come in from Sudan (they are almost all supported and funded by the Sudanese government) and headed west at high speed. It seems that quite a few of the nearly dozen rebel movements opposed to president Deby have united for this offensive. Again, with only a little bit of fighting, the rebels avoided Abeche and made straight for the capital, which they have now encircled. In Goz Beida and Abeche the ANT have almost all left, rushing up to Ndjamena to help the defence of the city, or join the rebels, or join whichever side seems to be most likely to come off best at the end of the day. Poor president Deby is rumoured to have even lost the support of his own family, and may have fled the country, but what really matters to him is whether the French will continue to back him, because they are the ones with the Mirage jet fighters and that is what counts here. We are just getting reports of another column of vehicles coming in from Sudan, but these are rumoured to be ToraBora rebels, who support Deby and are rebelling against the Sudanese government. Rebels against the rebels."

"The very latest news is that large parts of Ndjamena have fallen to the rebels after heavy fighting in the town, especially around the presidential palace complex. (...) Our two expats in the capital are safe, under French army protection. Abeche is expected to fall soon."

"Here in Chad, things becoming messier by the minute and most the other NGOs in this part of the country are evacuating or have already gone. Most of our people were flown out to Cameroon or Gabon by UN today."

Sobre a rotina no lugarejo remoto na fronteira com o Sudão em que ele estava antes de Goz Beida (deve ser minúsculo mesmo, porque não consta no atlas super-power aqui de casa):

"On Thursday everything changes, and it is market day. There is no other market to compete for fifty km south, east or west so this small village suddenly becomes flooded by thousands of farmers, nomads, traders and foragers who arrive on foot, on donkey and on camel from every settlement within two days walk."

"We jog through the empty market area, towards the rising sun and across the camel parking region, (...) and into the region we call the forest. Of course it is not a forest in the European sense, but by Chadian standards it is truly verdant even though most the trees are thorny and leafless at the moment. There are a lot of tall palm trees there among the other varieties, and there is about fifty percent shade on the ground even when the sun is higher. Iridescent blue birds fly among the branches. One morning we saw a small troop of monkeys. Another time we saw baboons, and a few days ago we saw a warthog. We can run in other directions too, within a 5 km radius of the village, but this is our favorite because of the trees, the wildlife, the lack of children and the absence of sandy ground and flies which are a nuisance in other places. If we meet other people, unless they are familiar with our strange activities, (...) we explain that we are just doing some sport and they have nothing to fear. In this place the sight of someone running has only one meaning, which is that they are running away from a danger. Nobody would run for fun, and two foreigners running in the forest which the locals consider a hazardous place anyway, can be terrifying. Two days ago we had to stop and walk because an old man started running with us and could not be made to understand that there was nobody chasing us all."

Tudo de bom sempre ao meu amigo no Chade.

27.Setembro.05

Morte e vida - severina?

Nos na rede - azul
Hoje é um dia de conscientização e discussão na nossa saudável blogosfera, e o tema da vez é a descriminalização do aborto. Uma ação combinada aberta a quem quiser participar, cujo objetivo é levantar o assunto que é um desses "nós na rede" - e principalmente levantar a opinião e a reflexão das pessoas que passeiam pela blogosfera. Vale a pena dar uma olhada com calma e atenção em cada um dos blogs que estão postando sobre o tema. A lista está gentilmente hospedada na Verbeat e atende pelo singelo nome de... "Nós na Rede".

Quando me decidi a escrever sobre o tema, não sabia como poderia abordá-lo - e talvez o texto que vocês estão prestes a ler por aqui ainda não seja sequer razoável. Na realidade, acho a decisão de submeter-se a um aborto de fóro totalmente íntimo. O que se discute, portanto, é apenas a garantia do amparo do estado para que tal ato seja feito de forma segura e eficiente, com o mínimo de sofrimento humano e o máximo de dignidade. Descriminalizá-lo, basicamente. As razões que levam a pessoa a decidir por um aborto não são discutíveis nem cabíveis de discussão pelos legisladores - são questões pessoais, muito íntimas, particulares. E ninguém tem condições de julgar ninguém por isso. Deve-se lutar portanto pelo amparo do estado no caso da decisão pelo procedimento de um cidadão.

Segundo o Medline HealthPlus (um dos sites mais confiáveis sobre medicina, organizado pelo National Institute of Health), o aborto é "um procedimento cirúrgico ou médico para terminar uma gravidez através da remoção do feto e sua placenta do interior do útero." (Reparem que não se trata aqui do aborto espontâneo, ok? Porque esse a legislação não tem o que discutir.) O site cita também as 3 razões pelas quais a mulher pode (à luz da medicina, entenda-se) ter a sua gravidez terminada:

1) a mulher não quer completar a gravidez (aborto eletivo);
2) a saúde da mulher está de alguma forma em risco por causa da gravidez (aborto terapêutico);
3) o feto apresenta uma anomalia grave ou um defeito irreparável (aborto de razões genéticas ou de má formação).

As formas de execução de um aborto variam de acordo com o estágio da gravidez - quanto antes, menos invasivas, é claro. Se o aborto for requisitado até 49 dias após o último ciclo menstrual, a mulher pode pedir ao médico para se utilizar de pílulas bloqueadoras de progesterona (RU-486) ou pílulas de prostaglandinas, moléculas que induzem o útero a contrair-se em excesso, expelindo o feto. Após esse período, entretanto, é necessária a presença de um cirurgião, pois os métodos vão da curetagem simples a uma cirurgia de retirada. Um procedimento não muito simples que sem dúvida requer um aparato médico. Mas que é renegado a clínicas de décima categoria ou a agulhas de tricô pela terra brasilis afora por devaneios do mundo político - o desamparo da lei. É mais cômodo simplesmente fechar o olho para essa realidade: milhares de mulheres arriscando sua saúde todos os dias porque o estado, essa instituição etérea e distante, não as concede um direito de escolha sobre o próprio corpo físico delas. Reflexivo, sem dúvida.

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E aí, sábado passado, enquanto eu pensava como escreveria algo decente sobre o aborto (e não as viagens na maionese que normalmente escrevo; afinal aborto é assunto muito sério), decidimos ir à exposição do Sebastião Salgado em Seul. Meu segundo fotógrafo predileto, o mestre mineiro do preto e branco. É o próprio Salgado quem diz em seu site:

"I hope that the person who visits my exhibitions, and the person who comes out, are not quite the same."

Saí da galeria do Centro de Imprensa (onde a exposição acontecia) chocada, em lágrimas. De verdade, não era a mesma pessoa - afinal, sou como Salvador Dalí: "Everything alters me, nothing changes me." Sebastião Salgado é um fotógrafo fenomenal. Mais que isso, é um ser humano de coração compreensivo e benevolente, profundamente preocupado e engajado nas causas sociais da humanidade. As fotos que tira expressam de forma crua uma realidade humana dolorida, impactante, trágica - e extremamente verdadeira. Salgado é um artista de quem o brasileiro deveria ter muito orgulho: é representante especial da UNICEF, e é um desses cidadãos do mundo de verdade, que viaja a uma terra desconhecida num ônibus simples, que prefere viver a realidade do povo que fotografa para exercer com plenitude sua fotografia engajada. Um cidadão que faz a sua parte pela melhoria do mundo.

Possui um trabalho reconhecido nos 5 cantos do planeta como da mais alta relevância e poesia - tragédia poética, assim dizendo. O branco e preto das suas fotos torna-se o retrato maniqueísta da realidade de um mundo cruel, o conflito diário da vida com a morte, da luz com as trevas. A benevolência severina. É dramático. E de uma certa forma, ciente de sua essencial força criativa, Sebastião Salgado nos faz viajar com ele por terras áridas, esquecidas, povos em desespero, sofridos, conformados com a pobreza, o subdesenvolvimento, a miséria da alma. Povos tristes. Povos que sofrem por não terem o devido apoio governamental ou do sistema, por serem dizimados por doenças, por não terem a oportunidade de sequer discutir sobre questões básicas, como saneamento, educação, saúde, alimentação, aborto ou qualquer outra coisa, enjaulados que estão na luta pela sobrevivência diária mais animal possivel. Povos sem esperança da dignidade humana.

Povos que são abortados do básico direito de viver.

Povos que mostram muito bem o quão desesperadora pode ser a vida. É mais cômodo simplesmente fechar o olho para essa realidade.

Nas palavras de Salgado sobre as fotos na África:

"I was injured in my heart and my spirit. For me, it was terrible what I saw. I came away from this with incredible despair."

It's insanely true.

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Outro lado desse cubo...

O mais recente trabalho de Sebastião Salgado chama-se "Genesis", e tem como objetivo fotografar áreas do planeta que são talvez os últimos redutos pristinos e intocáveis, menos ameaçados pela interferência humana. O trabalho é uma espécie de luta pela esperança no futuro, como ele define. Seu trabalho anterior, o "Exodus", marcou-o deveras, e segundo as palavras dele que reproduzi acima, deixou uma marca de descrença na bondade da humanidade muito grande. Para remover essa mancha (como eu, ele quer acreditar nas pessoas a qualquer custo...), planejou esse projeto de 8 anos pelo mundo, onde fotografará o que ainda resta de belo na natureza. E desde 2004, as fotos desse projeto belíssimo estão semanalmente aparecendo no Guardian inglês. Já esteve por 3 meses em Galápagos, passou um tempo nos vulcões da tríade Ruanda/Congo/Uganda, outro tanto de tempo com as baleias na Patagônia, e agora está na Antárctica. Suas fotografias do mundo animal são tão emocionantes quanto as humanas, dramáticas em sua esperança, e mais uma vez eu não contive as lágrimas. Sebastião Salgado é pura emoção, das mais profundas e belas que se pode imaginar num ser humano. E fica mais uma frase dele próprio narrando a experiência de encontrar-se com as baleias em seu hábitat natural, como conclusão desse outro lado da moeda da vida:

"When you have them in front of you, you do feel the power of life."

It's insanely true.

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Tudo de bom sempre.

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*Por questão de postura pessoal, não coloquei as fotos do Sebastião Salgado aqui. Deixo a vocês a magnânima experiência de admirá-las em cada um dos links acima citados.

**Uma boa colocação científica/sociológica sobre o aborto encontra-se nesse post do blog Gene Expression, que analisa o caso do bebê gerado fora do útero e que nasceu saudável.

***Esse post foi escrito em meados de agosto. A exposição do Sebastião Salgado em Seul saiu de cartaz no início de setembro.

15.Junho.05

Lugares impossíveis - pelo menos por enquanto

Decidi sem mais nem menos fazer uma lista de 5 lugares que eu gostaria muito muito muito muito muito de visitar um dia - mas que não há a menor chance atualmente (e talvez nunca haverá) por diversos motivos. Eis que são:

1) O topo do Everest - não tenho saúde para tamanha hipóxia nem fôlego para tal subida muito menos tolerância a temperaturas constantes abaixo de -20 graus. Mas ia ser um sonho chegar lá em cima... Se você quer ter um gostinho do que é estar lá em cima, esse site aqui te dá esse aperitivo.

2) A Fossa Mariana - deve ser um barato aquela escuridão total do fundo do mar, sabendo que você está no local mais próximo do centro da Terra que existe (está a 10,911m de profundidade). Fora os seres vivos que lá habitam, que devem ser um oásis de adaptações esdrúxulas pros biólogos. Se a tecnologia permitir, um dia, quem sabe...

3) Antártica - uma expedição na Antártica não ia ser nada mal, principalmente para ver todo aquele ecossistema dependente do gelo. Um cruzeiro eco-turístico servia, pra falar a verdade. Gostaria de mergulhar lá, mas sei que não sobreviveria à água super-hiper-ultra-gelada, nem com roupa seca de mergulho. Será que se alguém escrever um projeto de pesquisa sobre o metabolismo de geração de calor entre os seres humanos da subespécie Homo sapiens mallas, alguma instituição idônea financia?

4) Ilhas Comoros - na realidade, eu gostaria de poder ir num daqueles submergíveis até uma profundidade de uns 250m para ver um celacanto ao vivo de perto, em seu hábitat natural. Como nas Ilhas Comoros é onde a maior população deles se encontra, é lá que esse submergível utópico teria que descer.

5) Deserto da Namíbia - Embora não tão complicado de se chegar lá, é um local completamente inóspito, principalmente onde eu gostaria de ir, na costa do Esqueleto ao norte. Sonho com este lugar desde que vi em 1998 uma propaganda do cigarro Hollywood filmada lá, onde uns garotões desciam de sandboard por uma duna imensa vermelha que terminava numa praia. Na época, procurei no site da Hollywood e achei a informação do local exato onde foi filmada a propaganda. O lugar era lindo na TV, e desde então, sonho com essa aventura.

Sonhar não custa nada...

Tudo de bom sempre.

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P.S.: Feliz aniversário à jornalista especialista em TV e grande amiga de infância, adolescência, vida adulta e o que vier pela frente, Liana. Ela tem um blog de trabalho, onde publica assuntos que interessam aos seus alunos do curso de Comunicação. Mostrando sempre que está antenada com o mundo a sua volta... Parabéns, Liana! Muitos anos de vida, Liana!

As aventuras de Lucia Malla pelos 5 cantos do planeta: um blog de viagens...

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