01.Junho.09
Entrevistando a expatriada
O post de hoje está, na realidade, lá. A Mirella gentilmente me convidou para uma entrevista no auge da minha mudança pro Havaí - e eu, a enrolada-mor, só tive condições de responder com o carinho merecido há poucas semanas. Peço aqui a elas desculpas públicas pela super-demora. Mas finalmente saiu, no blog Entrevistando expatriados, que ela e o marido editam e que eu acompanho já há algum tempo.
Acho aliás a idéia deste blog muito peculiar. Ao fazer as mesmas perguntas para um leque de expatriados muito diferente, você termina com um verdadeiro "estudo sociológico" da vida expatriada. Porque há de tudo: desde o fulano que se decepcionou com o Brasil, saiu e não quer nunca mais voltar àquele que ama o Brasil, sabe que quer viver lá e não vê a hora de voltar e sentir o berço esplêndido da pátria-mãe. E todas as nuances possíveis pelo meio. É muito interessante. Fora o enorme blogroll de expatriados, que merece um tempo da atenção carinhosa de quem curte o tema.
Então convido a todos para saberem um pouco mais do que penso sobre alguns aspectos do expatriamento.
Tudo de bom sempre.
*****************
- Aproveitem a visita aos Expatriados e votem nele para o prêmio Top 100 International Exchange & Experience Blogs 2009!
28.Abril.09
Malla entrevista: bióloga Ginnie Carter
Vi a Ginnie pela primeira vez lá no Instituto de Biologia Marinha do Havaí. Sentada na bancada, parecia muito compenetrada em seus experimentos, com vários tubinhos enfileirados. Não a incomodei. Ao sair do lab, fiquei sabendo que ela trabalhava num projeto bem diferente e único sobre criopreservação de corais e que, além de tudo, era DJ nas horas vagas. A curiosidade tomou conta de mim: escrevi para ela e propus uma entrevista pro blog, onde ela contasse mais um pouco sobre suas pesquisas, compartilhando aqui com mais pessoas suas descobertas e elocubrações. Eis então minhas perguntas e as respostas da Ginnie Carter, bióloga e DJ. Como de costume com convidados estrangeiros, a entrevista está publicada no post anterior em seu original em inglês, de modo que minhas lambanças de tradução sejam passíveis de conserto, por quem as detectar, nos comentários.
*********************
- Conte um pouco sobre você: como se interessou pela carreira de bióloga?
Ginnie: Eu cresci numa fazenda de cavalos na Virginia e sempre amei todos os animais. Também passei boa parte dos meus verões em San Diego, CA, visitando meus avós, e ia ao Zoológico de San Diego, ao Wild Animal Park e ao SeaWorld todo ano. Sempre fui atraída pela vida marinha em particular. Quando eu estava no último ano de colegial, tínhamos que fazer um estágio como requisito para a formatura, e eu escolhi fazer o meu no Aquário do Tennessee, em Chattanooga (TN), que é o maior aquário de água doce do mundo. Antes do meu estágio, eu pensava que era mais interessada em sistemas marinhos que de água doce, mas terminei realmente me apaixonando pelos peixes de água doce durante aquele período. Esta experiência me animou a entrar na faculdade de Ciências de Pesca na Virginia Tech. Depois do curso, sabia que iria querer uma pós-graduação, e achei que teria uma perspectiva mais abrangente se entrasse num programa mais voltado para a biologia em si. Então fiz meu curso na Universidade do Kentucky, estudando aspectos olfativos de reprodução e côrte em peixes.
- O que te levou a estudar corais?
Ginnie: Eu nunca realmente "planejei" estudar corais, já que estava mais interessada em peixes, mas terminei vindo parar no Havaí como uma serendipidade no meio do meu período planejado na Universidade do Kentucky. Eu estava trabalhando no PhD, mas meu orientador precisava se mudar para Taiwan. Aconteceu então que eu havia executado um projeto paralelo com uma professora visitante que era do tamanho exato para escrever como uma tese de Mestrado; então fiz isso, e consegui o título de Mestre ao invés de Doutora. Meu orientador conhecia a Dra. Mary Hagedorn, mas achava que ela ainda estava trabalhando no Zoológico Nacional de Washington, D.C.. Na realidade, ela estava já no Havaí, e ficou feliz em me aceitar como sua assistente aqui. Nossa pesquisa aqui tem duas vertentes, nós trabalhamos com corais, mas também trabalhamos com peixes. Então originalmente eu tinha em mente trabalhar mais com peixes no Havaí, mas desde então comecei a curtir o trabalho com os corais tanto quanto.

Ginnie e a Dra. Hagedorn trabalhando com corais-cogumelo no Havaí.
- Recifes de coral são bem sensíveis às mudanças no ambiente, como temperatura, pH, etc. e sabemos que podem ser afetados pela atividade humana. Na sua opinião, qual área de pesquisa precisa ser priorizada para entendermos este fenômeno?
Ginnie: Esta sempre parece uma questão difícil para mim, priorizar o foco de "salvar o planeta". Sem parecer que quero me livrar da questão, acho que é realmente importante nesse momento de crise crescente que percebamos a necessidade de colaboração entre os diferentes ramos, não só da ciência dos corais em particular, mas da ciência em geral. Cada mudança ambiental, se causada ou não pela atividade humana, é quase sempre ligada a um outro fator ambiental, como temperatura, pH e ciclo do carbono. Estes fatores podem afetar diferentes aspectos da biologia e fisiologia do coral e estas coisas podem afetar a ecologia de todo o ecossistema do recife de coral. É importante que as pessoas trabalhem juntas para conseguirem uma idéia geral do que pode ser feito e do que deve ser feito. Um bom exemplo disto vem do trabalho que a Dra. Hagedorn e eu nos envolvemos em Porto Rico. Nós viajamos para lá nos últimos verões para aplicar algumas das técnicas de criopreservação que aprendemos com os corais saudáveis do Havaí em espécies ameaçadas de coral lá. Entretanto, quando a gente vai para Porto Rico, trabalhamos com um grande time de aquaristas de zoológicos e aquários ao redor do mundo que vêm aprendendo quais são os requisitos necessários para que esses corais ameaçados sobrevivam e cheguem à juventude, além de outros pesquisadores de genética populacional dos corais restantes fora do recife, de forma que todos os aspectos se encaixam ao fim em prol da restauração prática dos recifes de Porto Rico, em uma ação conjunta que esperamos que comece nesse próximo verão. Eu não me canso de enfatizar o quão importante colaborações assim são para determinar o que pode ser feito para salvar os recifes de corais e o nosso planeta.
- No seu projeto de pesquisa, você está tentando fazer criopreservação de espécies de coral. Por que criopreservar é importante? O que você conseguiu até agora com a sua pesquisa?
Ginnie: Eu imagino que, idealmente, criopreservação de corais não deveria ser tão importante. Sei que soa estranho falar assim, considerando o trabalho que nós fazemos, mas o que eu quero dizer com isso é que numa situação ideal, os corais do mundo estariam em perfeita saúde e não precisariam ser guardados num banco genético desta forma. Para esclarecer, quando nós falamos sobre criopreservação de corais, ou de qualquer organismo para esse fim, significa que algumas partes do seu material genético, em geral esperma ou embriões ou linhagens celulares, estão congeladas em temperaturas super-baixas para preservar o material genético. Estes métodos existem há algum tempo e em lugares como o Zoológico Nacional e o USDA, material genético importante já tem sido crioguardado. Para algumas espécies, como as importantes para a agricultura ou para a medicina, o material é mantido para uso futuro dos humanos. Por exemplo, nossa outra linha de pesquisa lida com padronização do esperma de peixe-zebra [n.ed.: ou paulistinha, Danio Rerio]. Peixe-zebra é um importante modelo na pesquisa biomédica e possui diferentes linhagens. Manter estas linhagens vivas pode ser caro, então se pudermos criopreservar em um banco genético as mesmas, isto reduz o custo e ainda permite que as linhagens sejam reconstituídas e usadas no futuro. Corais, por outro lado, precisam ter seu material genético guardado desta forma porque estão ameaçados no ambiente natural. Este tipo de banco genético age como uma apólice de seguro, garantindo que se uma espécie de coral é extremamente reduzida na natureza, ainda haja material genético disponível dela caso precisemos no futuro restaurá-la, um processo entretanto que ainda precisa ser melhor elaborado. Isto é o que quero dizer quando acho que seria legal que minha pesquisa não fosse importante, porque eu espero que os corais do mundo possam ser salvos antes de termos que usar um material criopreservado para poder trazê-lo de volta da beira da extinção.
Neste momento, nós somos o único laboratório no mundo trabalhando com criopreservação de coral. Já conseguimos bons resultados, sendo capaz de criopreservar esperma de corais. Na realidade, esperma de espécies ameaçadas de coral com as quais trabalhamos em Porto Rico já foram armazenadas em diversas instituições nos EUA e na Europa.
- Quais são as limitações da técnica de criopreservação na atualidade?
Ginnie: Corais têm se mostrado bem difíceis de serem criopreservados. Como disse acima, nós somos capazes de congelar o esperma do coral, mas as técnicas ainda precisam ser otimizadas. Muitos fatores estão envolvidos, da taxa de congelamento à taxa de derretimento passando pelos químicos fortes onde você os congela. Nós trabalhamos tentando congelar a larva do coral, mas o processo para fazê-lo tem se mostrado bem laborioso e até agora ainda estamos nas tentativas. E nós também temos planos de tentar preservar células-tronco de coral.
- Quais são seus principais interesses fora da ciência e dos corais?
Ginnie: Fora da ciência, meus interesses são bem diversos. Quando não estou no laboratório, eu "toco" Drum & Bass e promovo alguns eventos em clubs aqui em Honolulu. Isso ocupa a maior parte do meu tempo livre. Também voluntario para a Terapia Equestre do Havaí, que é uma organização muito legal que usa cavalos como ferramenta para melhorar o corpo e a mente de crianças e adultos com diversos problemas físicos e mentais. Estando no Havaí também tento ir à praia quando dá, e até surfo um pouco.
- Sua mensagem final para os leitores.
Ginnie: Tente ser consciente do planeta em sua rotina diária. Pode ser difícil às vezes enquanto estamos ocupados e queremos nossas conveniências, mas qualquer pequena coisa que você possa fazer ajuda. Como eu disse em minha resposta sobre tentar priorizar áreas de pesquisa, todo mundo tem que trabalhar junto em tudo que acontece agora. Não é suficiente focar em reciclagem e esquecer da poluição atmosférica. Tudo precisa ser considerado, e manter isto em mente, de que cada pequeno ato que as pessoas fazem para ajudar pode ser tão importante quanto tentar criopreservar larvas de coral. Vamos todos trabalhar juntos para elaborar um planeta em que os corais vivos que temos agora em nossos oceanos possam se recuperar e florescerem, e que os corais que a gente criopreserva não sejam nunca requisitados.
- Obrigada, Ginnie, pela entrevista! ![]()
*******************
[English original, here.]
- Publicado também no Faça a sua parte.
Malla interview: coral biologist Ginnie Carter
I first saw Ginnie working at her bench in an HIMB lab. Surrounded by little eppendorf tubes, she seemed really focused on what she was doing. I decided not to disturb her at that moment. Then I learned she was working on a unique project, trying to cryopreserve corals. I thought that was fascinating - so fascinating that "needed" to be shared with more people. So I wrote her inviting for a blog interview. She delightfully accepted it, and explained a lot about her research goals, some related environmental issues and her life outside science. Please take your time to read what Ginnie Carter, biologist and DJ, has to tell about her experience with the coral reefs around the world.
*****************
- Tell us a little bit about you: how did you decide to study Biology?
Ginnie: I grew up on a horse farm in Virginia and always loved all animals. I also spent quite a bit of time each summer in San Diego, CA visiting my grandparents and went to The San Diego Zoo, the Wild Animal Park and Sea World every single year. I was always drawn to marine life in particular. When I was a senior in High School we had to do an internship as a requirement of our graduation, and I chose to do mine at the Tennessee Aquarium in Chattanooga, TN which is the largest freshwater aquarium in the world. Before my internship I had thought I was more interested in marine systems rather than freshwater, but I really ended up falling in love with freshwater fish during that time. That experience prompted me to pursue my undergraduate degree in Fisheries Science at Virginia Tech. After that I knew I wanted a graduate degree, and thought it would make me more well-rounded to go into a more biology based program, so I did so at the University of Kentucky (UK), studying the olfactory aspects of fish courtship and reproduction.
- What brought you to study corals?
Ginnie: I had never really planned to study corals, as I was mostly interested in fish, but ended up here in Hawaii rather serendipitously mid-way through my planned time at UK. I was working on my PhD, but my advisor needed to move to Taiwan in the middle. It just so happened that I had done a side project with a visiting professor that was about the right size to write up as a Master’s thesis, so I did so, and graduated with my MS instead. My advisor knew Dr. Mary Hagedorn, but thought she was still working at the National Zoo in Washington, D.C. It turned out she was out here in Hawaii, but was happy to have me come join her as her assistant here. Our research here is two sided, we work on corals, but we also work on fish as well, so I originally had more of the fish work in mind when I came, but have since really come to enjoy working with coral as well.
- Coral reefs are very sensitive to environmental changes such as temperature, pH etc. and known to be affected by human activity. In your opinion, what area of research should be prioritized to address this concern?
Ginnie: This always seems like a difficult question to me, to prioritize the focus of “saving the planet”. Without seeming to cop-out of the question, I feel it is really important that at this time of growing crisis, we see the need for collaboration among the different branches of, not only coral science in particular, but science in general. Each environmental change, whether caused by human activity or not, is almost always tied to another environmental factor, i.e. temperature and pH and the carbon cycle. These factors may affect various different aspects of the coral’s biology and physiology and then these things may affect the ecology of the whole coral reef ecosystem. It is important to have people working together to get a broad sense of what can be done and what should be done. A good example of this is some of the work Dr. Hagedorn and I have become involved in Puerto Rico. We have traveled there the past few summers to apply some of the cryopreservation techniques we have learned here in Hawaii with healthy corals to some threatened coral species there. When we go, however, we have been working in large teams with aquarists from zoos and aquaria around the world who have been learning the requirements of what these threatened corals need to survive and grow as juveniles along with other researchers who have been working on the population genetics of the remaining corals out on the reef so that all these aspects can come together to work towards restoration of the reefs in Puerto Rico, which is hopefully something that is actually getting started this summer. I can’t emphasize enough how important collaborations like this are in determining what can be done to help our coral reefs and our planet.

Ginnie and Dr. Hagedorn at work with mushroom corals in Hawaii.
- In your research project, you're trying to apply cryopreservation to coral species. Why coral cryopreservation is important? What have you discovered so far from your research on coral cryopreservation?
Ginnie: I suppose, ideally, cryopreservation of corals would not be that important. I know that sounds like a strange statement to make considering the work that we do, but what I mean by that is that in an ideal situation, the coral around the world would be in perfect health and not need to be banked down in such a way. To clarify what I mean by that, when we talk about cryopreservation of corals, or any organism for that matter, it means that some part of its genetic material, usually sperm or embryos or cell lines, is frozen at super-low temperatures to preserve that genetic material. These methods have existed for awhile and at places such as the National Zoo and USDA, important genetic material is banked this way. For some species, such as agriculturally or medically important species, the material is banked down for future use by humans. For example, our other main line of research deals with standardizing zebrafish sperm. Zebrafish are an important medical research model that has many different strains. Maintaining the strains alive can be costly, so by being able to cryopreserve and bank down the genetic material from these strains, this reduces this cost but still allows the strains to be reconstituted and used in the future. Corals, on the other hand, need to be genetically banked in this way because they are imperiled in the wild. This type of genetic banking acts as a sort of insurance policy to ensure that if a certain species of coral gets severely reduced in the wild, there is still that genetic material available in case we can figure out how to restore it in the wild in the future. This is why I say, it would be nice for this not to be important, as I hope that the corals around the world can be saved before it would come time for us to use the genetically banked material to have to bring them back from the brink of extinction, so-to-speak.
Currently, we are the only lab in the world working on cryopreservation of coral. We have come pretty far with being able to cryopreserve sperm from corals. In fact, sperm from the threatened species that we work on in Puerto Rico is currently banked down in several institutions in the US and Europe.
- What are the limitations to the technique(s) of cryopreservation at the moment?
Ginnie: Corals have proven fairly difficult to cryopreserve. As I said above, we are able to freeze coral sperm, but the techniques are still being optimized. Many factors are involved, from the freezing rate to the thawing rate to the solution and strength of solution in which you freeze. We have worked quite a bit to try to freeze coral larvae, but the process to do so has been quite lengthy and as of now, still going on. Right now, we also have plans to try to preserve stem cells from the coral.
- What are your main interests outside of coral science?
Ginnie: Outside of coral science, my interests are quite diverse. When I’m not in the lab, I spin (DJ) Drum & Bass and promote a few club events here in Honolulu. That takes up much of my free time. I also volunteer for Therapeutic Horsemanship of Hawaii, which is a really great organization that uses horses as a tool to improve the bodies and minds of kids and adults with different mental or physical issues. Being in Hawaii I always try to get to the beach as much as I can, and I even surf a little.
- A take-home message you wanna tell the blog readers.
Ginnie: Try to be conscientious of the planet in your daily lives. It can be hard sometimes as we get busy and want our conveniences, but any little thing you can do helps. Just like I said in response to trying to prioritize research areas, everyone has to work together on everything that is going on right now. It isn’t enough to focus on recycling and forget about air pollution. Everything needs to be considered, and keeping that in mind, every little thing that everyday people do to help out can be just as important as trying to cryopreserve coral larvae. Let’s all work together towards making a planet in which the live corals we have right now in our oceans bounce back and thrive and the coral we cryopreserve is never needed.
- Thank you very much, Ginnie! ![]()
***************
[Em português, aqui.]
25.Agosto.08
Viajando por email: Malla e a mochilla
Pois é. Eu pretendia fazer uma auto-entrevista aos moldes da maluquice edneyca mais pra frente, em algum momento do futuro, usando as perguntas que normalmente faço às pessoas sobre viagens. Mas aí em junho a Maisa, repórter simpática do iG Turismo, me procurou pra fazer uma entrevista sobre minhas mochilagens. Só que eu, na bagunça virtual habitual que vivo, só consegui responder ao questionário que ela me enviou 2 dias depois - e com isso, ela já tinha publicado outra coisa na reportagem dela. Deadlines de redação não são brinquedo, eu imagino.
Mas o negócio foi que eu adorei a entrevista. Respondi com muito gosto. Então pensei: por que não compartilhar na íntegra com o pessoal que me lê no blog? Pois eis aí, minhas divagações sobre mochilagens. As perguntas são do iG Turismo. Obrigada especial à simpática repórter Maisa, por permitir que eu agregasse em um só lugar algumas das minhas viagens sobre mochilas mais queridas. (E pela paciência com as minhas respostas tardias...)
************************
- Pra começar, queria saber um pouco quando você começou a ter esse gosto pelas viagens e quais os lugares pelos quais já passou.
LM: Olha, eu acho que desde bebê. Minha mãe viajava comigo a tiracolo para visitar minha avó em Aracaju, e relatos do meu pai contam que bastava alguém chegar lá em casa para eu (engatinhando) pegar a primeira sacola de mercado que via pela frente, abrir a gaveta mais ao alcance e enfiar todas as roupas dentro. Já encontrava a visita na sala com a “mochila” pronta pra sair de casa! Meus pais também adoravam cair na estrada, então acho que esse gosto pelas viagens veio… de casa.
Mas desde que comecei a viajar por minha conta, passei por muitos lugares no Brasil e no mundo. Morei também em diversas cidades do planeta e isso permite conhecer novos arredores, planejar novas “esticadas”. Uma lista antiga e super-rápida de alguns dos meus locais prediletos do mundo fiz nos primórdios do blog - preciso atualizá-la um dia...
- Vamos imaginar pessoas que não são "mochileiras" ou viajantes profissionais. Qual a primeira dica que você daria para uma pessoa que quer mochilar mas não sabe nem como escolher o destino? Há lugares que são mais ou menos favoráveis a esse tipo de viagem? O que levar em conta na hora de escolher o roteiro?
LM: Primeiro, leia sobre o local. A internet abriu um leque de opções e minhas viagens hoje começam pela rede. É lá que você vai achar dicas, se livrar de roubadas, ter uma idéia das experiências que o destino escolhido pode oferecer. Já para praticar, aconselho a mochilar na própria cidade como teste: tente andar com uma mochila nas costas pelas ruas, se deslocar de ônibus, metrô, etc. Pode te indicar se está ou não na hora de cair na estrada. Aí comece com viagens curtas, de poucos dias, não muito longe de casa. Se a pessoa gostar da experiência, planeje um tempo maior de viagem da próxima vez.
Na Nova Zelândia, há uma empresa chamada “Kiwi Experience”, cuja proposta é muito interessante. Eles têm diversos ônibus que cortam o país carregando mochileiros. Só param em locais para mochileiros, mas há uma certa “organização” na viagem, você não precisa pensar muito sobre logística (quando você viaja sozinho, você tem que pensar com afinco em coisas como passeios em dias de chuva). Então uma excursão assim, de “mochilagem organizada”, também pode funcionar como teste para uma pessoa que não mochile normalmente mas que esteja pensando em experimentar pela primeira vez. É uma forma branda de começar, em minha opinião, com o equilíbrio de dois estilos de viagem, e caberá então à pessoa decidir o que melhor lhe aprouver.

Busão da Kiwi Experience, para mochileiros menos hardcore e afins. Vi vários deles lotados em diferentes cidades pela Nova Zelândia, sinal de que eles devem funcionar como opção para muita gente...
- Vale a pena planejar uma viagem de mochila nos mínimos detalhes ou, geralmente, os roteiros mudam radicalmente? O que não pode faltar nesse roteiro?
LM: Olha, eu sou adepta do equilíbrio. Planejo algumas coisas (geralmente aquelas que não podem ser deixadas de lado, como por exemplo permissão de parques) e outras deixo “no ar”. Acho que se a pessoa vai mochilar por muito tempo, deveria guardar um dia de descanso a cada 7 dias. Ter um dia sem ter que pensar em deslocamento, visitar museus, etc. Para relaxar num ambiente diferente do que está acostumado em casa e curtir a rotina de um povo diferente.
- Dá para mochilar em qualquer estação do ano?
LM: Eu acho que dá, basta saber escolher os destinos e planejar para não passar por situações que estraguem o passeio. Imprevistos vão acontecer inevitavelmente, mas o mochileiro pode se preparar para alguns deles e evitar aborrecimentos. Em questões de tempo, o que mais pode atrapalhar um mochileiro, em minha opinião, é a chuva; mas para isso, cubra sua mochila com uma proteção plástica e aproveite o passeio.
- Os destinos de um mochileiro precisam ter, no mínimo, que tipo de estrutura?
LM: Albergues são fundamentais, porque eles aliviam no preço do mais caro dos itens “crônicos” de uma viagem, que é o alojamento. Além de serem uma ótima pedida para conhecer gente, compartilhar dicas e experiências ao vivo. No último albergue que estive, em Buenos Aires, eles organizaram uma ida ao jogo do Boca, entre os alberguistas. O albergue “parou” para um grupo bastante internacionalizado aproveitar uma experiência argentina. Isso é muito legal, experiência única para o turista.
- Espíritos não aventureiros podem aproveitar uma viagem no estilo "mochileiro"? Se sim, como?
LM: Olha, eu acho que podem, mas eu sou uma pessoa mais desencanada e de repente meus parâmetros são fora da realidade da maior parte das pessoas que viajam no mundo. Muitas vezes vejo gente reclamando sobre coisas que para mim são super-divertidas numa viagem, mas para aquela pessoa obviamente não são. Eu mesmo devo reclamar de coisas que outros achariam besteira. Porque cada um viaja da maneira que mais gosta. O importante é a experiência. Agora se a pessoa nunca viaja mochilando e decide testar… acho que não deixa de ser uma experiência nova, não? Eu iria adorar a novidade.
- Pelas suas andanças, quais dicas você daria para as pessoas evitarem entrar em uma "roubada"?
LM: Leia sobre o local. Hoje em dia há diversos sites e blogs sobre os locais do mundo. Procure essas informações principalmente vinda das pessoas que moram no destino que você escolheu: eles são a melhor fonte para evitar roubadas. Mas eu acrescento um porém: muitas vezes o que é “roubada” para um, não é para outros. Boa parte dos sites que li sobre Buenos Aires, por exemplo, desaconselhavam ir à pé do El Caminito até o San Telmo (“é perigoso", "o bairro é estranho”, etc.). Nós fizemos essa caminhada tranquilamente e adoramos. Em questão de segurança, não difere de andar num mercado de peixes em Tefé (AM) ou pelas ruas do Chinatown de São Francisco. Por isso, é importante auto-conhecimento e senso crítico, para saber detectar até que ponto aquela “roubada” escrita num guia é para você ou não.
- Por fim, o que não pode faltar na mochila?
LM: Como sou friorenta, na minha mochila não pode faltar uma blusa de lã merino, que é super-leve e quente. Além do óbvio: documentos, dinheiro e a vontade enorme de conhecer o mundo.
***************
P.S.: Espero organizar minha bagunça virtual e amanhã postar algumas fotos do LuluzinhaCamp, assim como minha impressão geral do delicioso encontro. Tenham calma, ok? ![]()
26.Julho.08
Viajando por email: o "bravo novo viajante" Ian MacKenzie
A entrevista de hoje é super-especial para mim por várias razões. É, pra começar, a primeira entrevista realizada nesse blog em inglês. Então para evitar confusões e facilitar pra todo mundo, está aqui traduzida para o português e, no post anterior no original em inglês. Assim, quem ficar em dúvida com algo dito, pode ler o que o entrevistado efetivamente falou. A tradução é minha, então pode não ficar lá uma brastemp, mas pelo menos a informação se compartilha mais.
E por que essa entrevista em inglês? Porque o entrevistado é o viajado Ian MacKenzie, um canadense de Vancouver que se descreve rapidamente à la twitter como "um viajante, escritor e produtor de filmes, especializado em viagens, cultura pop, novas mídias e tecnologia, com uma paixão por direitos humanos, espiritualidade e meio ambiente". Passei a admirá-lo muito depois que conheci seu blog, o Brave New Traveler (BNT), facilmente o meu blog de viagens gringo predileto. Ian é o editor/criador do BNT, que hoje conta com a contribuição de diversos outros viajantes de todos os cantos do planeta. Os posts do BNT dedicam-se a aspectos filosóficos e aventurescos do ato de viajar, discute questões políticas, econômicas e existenciais que interferem com o turismo, e em cada texto está a marca registrada da qualidade editorial supimpa. Um brinco.
Ter a oportunidade dessa entrevista exclusiva, de ouvir o que ele tem a dizer sobre suas viagens ao redor do mundo foi uma alegria enorme. Só posso agradecer muito ao Ian pela prestatividade em responder à Malla e torcer para que um dia ele venha por essas bandas tupiniquins. Conte comigo e com os amigos brasileiros da blogosfera viajante para dicas e afins! ![]()
Com muito orgulho deixo vocês com as palavras de Ian MacKenzie, o "bravo novo viajante".
**********************
Ian MacKenzie no Cambodja. Foto gentilmente cedida pelo próprio.
- Há quanto tempo você vem escrevendo sobre viagens? Como essa atividade começou?
Ian MacKenzie: Eu comecei a escrever sobre minhas experiências viajantes para meus amigos e familiares antes de existirem "blogs". Quando eu percebi que eles pareciam curtir minhas histórias de andanças no exterior, eu decidi que deveria tentar alcançar uma audiência maior. Comecei a submeter meus textos para publicações. Até que decidi também começar minha própria revista de turismo, a BraveNewTraveler.com.
- Em minha opinião como leitora, o Brave New Traveler é um blog de viagem muito peculiar, porque os posts tocam profundamente a filosofia viajante mais que o destino per se. Como você teve a idéia do BraveNewTraveler?
Ian MacKenzie: Eu cheguei à conclusão de que existia um vazio no mundo de textos de viagem online, que deveria haver algo mais que "dicas de passagens baratas" e "como conseguir as melhores promoções". Viajar em sua essência é realmente uma experiência pessoal que abre sua cabeça e te desafia a descobrir novas pessoas e novos lugares. Então eu criei o Brave New Traveler para discutir essas questões e a filosofia por trás do ato de viajar em geral.
- Como editor/criador do site, quais das suas "primeiras intenções" foram realizadas? O que não funcionou direito?
Ian MacKenzie: Você pode ler meu primeiro post no blog aqui. Eu acho que fui capaz de me manter apegado às minhas intenções originais, explorando o ato de viajar por uma miríade de perspectivas diferentes. No início pensei que seria fácil gerar uma audiência, mas aí percebi que requer tempo e muita dedicação para se publicar conteúdo de qualidade. Eu não teria sido capaz de fazer tudo isso se não contasse com a colaboração de grandes autores do mundo inteiro.
-Que surpresas você guarda para o futuro do BNT?
Ian MacKenzie: Eu gostaria de incorporar mais conteúdo na forma de vídeo no BNT, mas isso requer mais tempo ainda que escrever artigos, então nós teremos que esperar um pouco com essa idéia.
- O que te atrai num destino de viagem? E o que te desanima num lugar?
Ian MacKenzie: Eu sou atraído pelos destinos mais tropicais, já que sou um amante de coqueiros. Há algo de infinitamente confortável na possibilidade de andar de bermuda e chinelo o tempo todo. Eu me desanimo de lugares muito movimentados. Prefiro cidades e vilarejos mais relax.
- Qual foi a situação mais exótica/diferente que você provou/passou enquanto viajava?
Ian MacKenzie: Quando eu estava em Bangkok, comi grilos sauté. Foi definitivamente uma experiência inesquecível. Já na Costa Rica, fui picado 5 vezes por escorpiões.
- Você coleciona algum tipo de souvenir dos lugares que visita? O que e/ou por quê?
Ian MacKenzie: Eu costumava colecionar diversos souvenirs, mas quase não o faço mais. Hoje praticamente tudo é feito na China, então, a não ser que você esteja comprando algo muito único de um artesão local, simplesmente nada é mais tão especial.
- Que item você nunca deixa de carregar em sua mochila?
Ian MacKenzie: Tampões de ouvido. Absolutamente fundamentais. Quando você não tem controle do volume sonoro no local onde está dormindo, pelo menos você pode desligar o mundo lá fora com um bom par de tampões de ouvido.
- A era da internet: o que mudou em termos de filosofia viajante para você?
Ian MacKenzie: Eu acho que as pessoas sentem que o mundo está menor, agora que você pode olhar fotos/vídeos e blogs de viagens de qualquer destino do planeta. Isso pode levar a um sentimento de "tudo já foi feito antes". Mas eu acho que esse sentimento não é correto. Sua viagem jamais será exatamente igual a de ninguém. Além disso, ler sobre um lugar na internet dificilmente substitui estar lá de verdade.
- Qual foi o lugar mais ambientalmente correto que você já visitou?
Ian MacKenzie: Minha esposa e eu passamos nossa lua-de-mel na Costa Rica. Todos os hotéis tinham uma categorização por "folhas", dependendo em quão verde eles eram. Eu fiquei abismado por perceber quão avançados eles estão em termos de práticas ecológicas perante a maioria dos locais pelo mundo. Os lugares onde ficamos eram eco-lodges, e todos tinham de 4 a 5 folhas (5 sendo o máximo). Foi muito animador ver uma iniciativa assim, e um grande lembrete de que apenas alterando suas escolhas um pouquinho já se pode fazer uma viagem muito mais verde sem sacrificar sua experiência geral.
- Você planeja visitar o Brasil e/ou a América do Sul em algum momento da sua vida? Que tipo de expectativas você tem de uma viagem ao Brasil?
Ian MacKenzie: Eu com certeza planejo visitar a América do Sul, e certamente o Brasil. Embora tenho que confessar que minha imagem mental do Brasil é dominada por filmes como "Cidade de Deus". Estou ansioso para ter uma visão mais correta do que tenho certeza ser um país maravilhoso.
- Sua próxima viagem é para…
Ian MacKenzie: Minha próxima viagem é para acampar pela costa oeste dos EUA. Nós estamos indo para a festa anual do MatadorNetwork (do qual o BNT faz parte). A festa pretende levantar fundos para a juventude mais humilde da cidade, para que eles possam viajar por conta própria. Se algum leitor estiver pela área de San Francisco, venham também!
- Muito obrigada, Ian, por essa entrevista deliciosa. Parabéns pelo excelente trabalho no BNT e tenha uma boa viagem para a festa do Matador - e pelo mundo! ![]()
**************
*English version here.

















