11.Novembro.09
Parques nacionais americanos: de volta ao Kilauea
Parte da tarefa fotográfica era visitar mais uma vez o Parque Nacional dos Vulcões - uma repetição de passeio sem problema algum, já que cada dia a lava está brotando num ponto diferente, o que torna a paisagem sempre nova. A idéia era ver o pôr-do-sol no local onde a lava escorre no mar, algo que já havíamos feito em 2006 de forma inesquecível na nossa lua-de-mel: picnicamos à luz da lava.

O Parque Nacional dos Vulcões do Havaí é um patrimônio reconhecido pela UNESCO desde 1987, como mostra essa placa no centro de informações.
Mas íamos no fim de semana a um dos grandes shows do Kilauea recentemente: a lava havia abocanhado na sexta-feira anterior um pedaço considerável da rodovia que leva até Kalapana [veja o slideshow completo para ver as cenas da rodovia]. A animação tomou conta da gente. Afinal, esta estrada está fora do parque, o que significaria melhores chances de ver a lava de pertinho (e melhores fotos, entenda-se bem). No parque, os rangers geralmente colocam as barricadas de proteção a muitos metros de distância. Como a lava que escorre do Kilauea é do tipo 'a'a (que eu chamo de "campos de sucrilhos", devido a consistência quebradiça que fica depois que ela passa) ou então pahoehoe (que é super-lenta e gera as famosas esculturas de lava), dá pra ver ambas sem maiores riscos a sua integridade física - quer dizer, quase, porque os pulmões sempre estarão reclamando do ar sulfurado.
Chegamos no início da tarde, e decidimos primeiro passar pelo centro de informações do parque para saber exatamente o ponto de brotamento da lava naquele dia. Como sempre muda, é fundamental perguntar essa informação no dia que você vai lá para não perder tempo procurando lava em campo deslavado. No centro de informações, há sempre funcionários para explicar a geologia local, curiosidades, etc. e aproveitei que a guardinha falava com um casal para ouvir de lambuja os comentários.
Começamos fazendo a "ronda" tradicional pelo Chain of Craters Road, que é a via principal dentro do parque que passa pelas diversas crateras e zonas de erupção do Kilauea desde sempre, além das aberturas onde vapor do vulcão é expelido. Há placas indicando a data de cada uma das erupções responsáveis por cada pedaço da paisagem.

Vai um lifting facial de graça, aí? ![]()
A primeira parada foi no observatório principal, de onde temos uma belíssima vista para toda a cratera do Kilaueua, em especial para o vent Halema'uma'u, que voltou a expelir gases em 2008 (quando estive lá da última vez ela estava paradinha, sem uma nuvenzinha sequer) e um dia depois da nossa visita seu teto literalmente caiu - e agora os sortudos que visitam o parque à noite podem ver o brilho da lava dentro da cratera direto do observatório. Do observatório, tirei uma foto com meu celular que postei no twitter, e o André capturou o exato momento do crime:
Foi a primeira vez que vi a cratera com tanta fumaça, achei o máximo. Mas, a consequência dessa fumaceira tóxica é que a Chain of Craters Road estava fechada dali pra frente, para evitar maiores problemas de saúde nos que visitam o parque. Então aproveitei o tempo extra para curtir melhor o museu do observatório, que conta mais da geologia da área e que tem na entrada uma rendição artística bacana da Pele, a deusa dos vulcões na cultura havaiana:
Basicamente, o que está acontecendo na cratera do Halema'uma'u é um efeito sanfona: incha/desincha. O salão de magma subterrâneo enche de lava, o que aumenta a produção de gases ao ponto de que eles são expelidos; aí o salão desincha, dando espaço para mais magma ser acumulado ali. A montanha do Kilauea basicamente cresce e decresce igual bolo, e os vulcanólogos percebem e medem isso. MUITO fascinante.
Bom, findo o passeio dentro do parque, tomamos o caminho de Kalapana, para o campo de lava mais fresco do dia. São umas 30 milhas de distância. O cenário no caminho já é indicativo do que o vulcão fez naquela comunidade. Muitas casas estão de pé abandonadas; uma delas estava à venda... quem quer morar na lava?
A estrada para Kalapana obviamente pára quando se aproxima do mar, porque a lava destruiu a estrada há poucas semanas. De longe, já dá pra ver o fumaceiro gerado pelo encontro da lava super-quente com a água do mar fria (que na realidade mede ali no ponto de entrada cerca de 100ºC, mas ainda assim, fria).
Mas aí veio a decepção. Embora fora do parque (ou talvez por causa disso), a área está sendo controlada e vigiada pela prefeitura da cidade, que só abre para observação de 5 da tarde às 8 da noite. É tudo gratuito, mas as barricadas para ver a lava escorrendo no mar estão mais longe ainda do que quando fomos em 2006. Então as pessoas se aglomeram num ponto de onde não dá pra ver perfeitamente o espetáculo, como a foto de abertura do post pode mostrar.

Olha a distância que a galera fica da lava fresca...
Percebi no entanto a presença de barcos que vão no pôr-do-sol para bem perto do ponto de entrada da lava. Tours talvez? Se for, é a melhor forma de ver lava escorrendo, porque os barcos chegam assustadoramente perto.
Depois de apreciar a luz da lava na noite de Halloween (que mesmo de longe ainda me emociona), foi chegada a hora de voltar. Rumo à Kona, onde mais um dia de aventuras nos esperava. Mas essa história só no próximo capítulo. ![]()
Tudo de bom sempre.
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- Dica malla: Para andar no campo de lava, vá de tênis com meia. Dependendo de onde a lava estiver, você pode ter que passar por campos de 'a'a, que em geral são muito afiados. Uma encostada de perna ali é corte certo. E leve água, caso você descubra que vai ter que andar bastante para chegar na lava. O campo é preto, o sol castiga ali, absorvendo calor insano; adicione a isso os gases de sulfa e voilá! Garganta seca - e sede.
- O parque fica aberto 24h, então tente visitá-lo pelo menos um dia à noite. O brilho da lava iluminando o céu é fantástico. Desses momentos únicos na vida da gente...
17.Outubro.09
Política afundada: Maldivas oficialmente debaixo d'água
Enquanto o resto do mundo se prepara para a grande discussão que ocorrerá em Copenhague em dezembro, hoje o primeiro escalão do governo federal das Maldivas anunciou o início de sua campanha engajatória "350", cujo objetivo principal é ter como meta uma atmosfera com menos de 350 ppm de CO2 emitidos (já estamos em 384.72 ppm - and counting).

Gráfico das emissões de CO2 per capita no mundo feito pela ONU (e retirado do site deles). Embora o Brasil esteja "clarinho", isso é apenas reflexo de como esses dados foram gerados: não levam em conta emissão de CO2 fruto de queima de biomassa, principal contribuição de CO2 para a atmosfera que o Brasil faz; apenas consideram emissões derivadas de indústrias, produção de energia e transporte. Portanto, não temos motivo para comemorar.
Para atingir tal meta, o documento pede a colaboração de todos os países do mundo para que determinem um limite de menos de 350ppm de emissões. O detalhe mais bacana e criativo é que a reunião para assinar a campanha e torná-la oficial foi feita debaixo d'água, simbolizando o que pode vir a acontecer num futuro próximo ao país.

(Foto da AFP - Getty, tirada do NYTimes.)
Durante a semana, os políticos maldivenses treinaram mergulhos com dive masters do arquipélago e hoje puderam finalmente descer ao fundo da laguna e ter seu dia oficial sub sem maiores problemas. O Presidente Nasheed mais a cúpula ministerial, todos debaixo d'água. Sem dúvida, é um dia histórico para as Maldivas, e (deveria ser...) alarmante para nós, população humana que compartilha o mesmo planeta com eles. Afinal, serão alguns centímetros de elevação que poderão fazer o país desaparecer, e há previsões que indicam que isso acontecerá em menos de 100 anos.

Ministros e presidente, antes da reunião oficial sub.

O gabinete sub. Olha lá os peixinhos presenciando esse momento histórico!

Presidente maldivense assinando o documento oficial da campanha "350". (As 3 fotos acima foram retiradas do press release da campanha, encontrado aqui para download gratuito.)
Das palavras do Presidente Nasheed:
"'What we are trying to make people realize is that the Maldives is a frontline state. This is not merely an issue for the Maldives but for the world.''
Ou seu discurso em setembro passado na ONU:
As Maldivas há tempos vêm lutando mundialmente por uma postura mais rígida de emissão de CO2. Mostrando preocupação pungente, criaram em novembro passado um fundo monetário para comprar terras em outros países para seus refugiados climáticos. Isso porque o país será dos primeiros, junto com Tuvalu, a ser inundado pelo aumento do nível dos oceanos (causado pelo derretimento das calotas polares).
Por mais que eu adore mergulho, ver o gabinete todo embaixo d'água é uma cena que me surpreende, pelo tanto que ela significa. E pelo tanto que eu gostaria que a gente acordasse para não deixar isso acontecer. Porque acontecendo, significa que não só as Maldivas foram pro fundo do mar: nossa capacidade de contornar um problema grave também foi jogada aos tubarões - se até lá eles ainda existirem... Triste.
Tudo de bom sempre.
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- Essas fotos do presidente das Maldivas embaixo d'água me lembraram um fato. Quando fui a Noronha em 2003, na operadora Águas Claras tinha uma foto pendurada na parede do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso embaixo d'água. Entretanto, ele estava ali de férias presidenciais, não em reunião oficial como o presidente maldivense. Quer dizer, a não ser que seu gabinete tivesse se transformado em tartarugas... ![]()
- Publicado também no Faça a sua parte.
15.Outubro.09
Blog Action Day 2009: Era uma vez Tuvalu
Para quem não conhece, o Blog Action Day é uma mega-super-über-blogagem coletiva mundial, em que blogs do mundo inteiro são convidados a escrever sobre um mesmo tema de importância geral ao planeta. Em 2007, o tema foi Meio Ambiente - e eu participei comentando sobre o gelo do Ártico. Em 2008, o tema foi Pobreza, e não participei porque estava literalmente na estrada. Este ano, o Blog Action Day resolveu discutir sobre Mudanças Climáticas, um tema muito caro por mim.
Na página de abertura do site do Blog Action Day em português, tem lá umas sugestões de temas para blogs de diferentes segmentos. Para blogs de viagens, a sugestão é:
"(...) escrever sobre os lugares que você quer ver agora, antes das alterações climáticas os tornarem de difícil acesso, ou até, sob o mar."
Coincidência das coincidências, eu já estava acumulando links e afins para um texto sobre Tuvalu, um dos primeiros países que desaparecerá no evento de elevação do nível dos mares, por um motivo nada aleatório: estamos muito tentados a fazer uma viagem de mergulho para lá num futuro breve - ou antes do mar invadir por completo. Então a oportunidade juntou-se com a vontade e apertou o botão do play da escrita bloguística.
Tuvalu é um atol-arquipélago do Pacífico Sul, próximo a Fiji, e a meio caminho entre Havaí e Austrália. No Google Earth, dá pra ter uma noção melhor do quão esse pedacinho do mundo de 26 km2 é no meio do azul: é esse ponto amarelo (um pin) no meio do azul.
Para complicar a situação, a altura máxima do país é 4.5 metros. Ou seja, no provável evento de uma elevação dos níveis dos mares, o país inunda (entenda-se desaparece). Em 2002 e 2005, os habitantes locais puderam ter uma idéia do que isso significa, quando um aumento do nível das marés deixou todos embaixo d'água - e querem transformar isso em atração turística, pelo menos por enquanto. Enquanto cientistas debatem sobre quanto será essa elevação, o governo local [link excelente em pdf], junto a ONU, vem tomando providências para garantir a sua população um refúgio para quando suas casas afundarem, já que provavelmente serão evacuados todos para Austrália e/ou Nova Zelândia. Além de abraçar a energia solar, que é o mínimo que se espera do governo de um país muito vulnerável pode fazer. Vale ressaltar que um medo do governo, entretanto, é que o povo de Tuvalu perca a sua identidade cultural ao se mudar para outro país. Ou seja, medo de que bizarramente virem "arqueologia" ou "fósseis vivos", longe de seu habitat natural - seu país afundado.
Aproveitando a era digital, e pensando nessa perspectiva do problema (entre outras...), um grupo do Japão decidiu montar o 10000 Tuvaluans, projeto de levantamento das histórias pessoais dos tuvaluanos, e que agrupou recentmente o Tuvalu Visualization Project. Um projeto muito bacana que de certa forma humaniza o problema do aquecimento global, ao mostrar o rosto dos habitantes de cada uma das casas de Tuvalu, um verdadeiro mapa humano do país.
Via site do projeto, dá pra fazer o download de um aplicativo pro Google Earth (minha webparada favorita, by the way) que te permite surfar pelas casas de cada um, pelos recantos do atol, ouvir depoimentos, mandar mensagens, etc.

(Tirado daqui)
Ao permitir a comunicação, abre oportunidade para trazer o problema das mudanças climáticas para mais perto da gente, e isso a meu ver é muito valioso. Porque um dos problemas que eu vejo sempre nessas coisas da conscientização de massa é a falta de humanização do problema, falta de proximidade com nossa realidade, nosso dia-a-dia. No sentido de que sempre lidamos com "entidades" abstratas na hora de reclamar e conclamar soluções: governo, população, refugiados etc. Mas essas "abstrações" são formadas por indivíduos - e embora essa afirmação pareça um tanto óbvia, quando a gente lida com os problemas no âmbito macro tem uma tendência forte a desumanizar, transformar em número. O Projeto 10,000 Tuvaluans chacoalha um pouco essa noção e nos relembra de que, atrás de cada número, há uma história, cheia de experiências e emoções. E onde há emoções, há aproximação, o primeiro passo para a real conscientização de qualquer problema, inclusive das mudanças climáticas. Como bem disse Heidegger:
"Só entendemos quando fazemos parte do que nos é dito."
Tudo de melhor ao povo de Tuvalu.
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Outras contribuições ao Blog Action Day 2009 na blogosfera brazuca:
- RNAm - Mudanças climáticas: perigosas para o planeta... e para a saúde global
- O Divã de Einstein - "O que está de errado com a vida cotidiana?"
- Gene repórter - Aquecimento global
- Blog do Planalto - A ousadia brasileira contra as mudanças climáticas vai a Copenhague
- A Janela Laranja - Exija ciclovia!
- Faça a sua parte - Pensar localmente, agir globalmente (E viva o aquecimento global?!)
- Ecodesenvolvimento - Mudanças Climáticas - Blog Action Day
- Teorias impossíveis - São Paulo da garoa
- O futuro do presente - "Pode ser insuportável"
- Carbono Zero - Blog Action Day - Mudanças climáticas
- Do mar à praia... na Noruega - Blog Action Day 2009 - O que eu posso fazer?
- Projeto Bioeducação - Como o aquecimento global vai afetar o Brasil?
- Sublime Biologia - Mudanças climáticas
- Colorida vida - 50 maneiras de ajudar o planeta
- Geófagos - Mudanças climáticas, produção agrícola e qualidade de hortaliças
- O Chato - Blog Action Day 2009
- About headlines - Blog Action Day 2009 - Mudanças climáticas
- Ladybug Brazil - Mudar já para viver sempre
- Miriam Salles - Blog Action Day: Mudanças climáticas
- Sem destino - Visite antes que seja tarde demais
- Dia de folga - Blog Action Day 2009 - Mudanças climáticas
- Contatos Imediatos - Quinta do caos: Blog Action Day
- Café com ciência - Como medir o aquecimento global?
- Ppplease - Uma dia e muitas emoções...
- Rastro de carbono - Blog Action Day 2009 - Multipost
- Xis-xis - Sabia que os corais fazem barulho?
- Scrapzone - Efeito estufa
- Bonito BirdWatching - Blog Action Day 2009
16.Setembro.09
Minhas viagens prediletas - ano 4: Rio Sucuri impressionista
Diferente dos meus demais posts prediletos, onde em geral eu estava tranquila no aconchego do meu lar escrevendo, o do Rio Sucuri foi escrito na estrada, enquanto eu viajava pelo centro-oeste e sul do país. Mesmo estando na estrada (confesso que essa não é a forma que mais gosto de escrever, durante uma viagem), estava eu tão hipnotizada por esse local que terminei me empolgando e escrevendo, tudoaomesmotempoagora, e, ainda emocionada por ter visto tal beleza, publiquei no dia 25 de setembro de 2008. Enjoy this impressionist ride.
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Em nosso segundo dia em Bonito, depois de rapelar pelo Anhumas, fomos relaxar à tarde fazendo uma flutuação pelo rio Sucuri, outra atração imperdível de Bonito.
É interessante quando a gente comenta sobre Bonito e fala das flutuações. Uma parte das pessoas acha que fazer somente uma flutuação na região é suficiente, pois todo o resto será "a mesma coisa". Nada pode ser mais longe da realidade, pelo menos para os minimamente interessados em paisagens submersas. Se no rio da Prata, há um cenário dramático com rochas, troncos, algas, areia e eventos inusitados como o Vulcão, no passeio pelo rio Sucuri vemos um domínio do verde intenso das plantas aquáticas por todo o percurso e da mata nas bordas. É claro, há troncos e rochas no fundo, mas a sensação de estar passando por um jardim submerso é muito mais intensa. O rio Sucuri me lembra o tempo todo uma grande tela natural de Monet em dezenas de experimentações de verde.
O passeio começa numa trilha de mata ciliar dentro da fazenda São Geraldo em área que foi transformada em RPPN. Depois de uma pequena caminhada sossegada, chegamos na nascente principal do rio Sucuri. A nascente parece um lago de lírios, tamanho o pontilismo dos tons de verde que vemos da plataforma de observação. Ali é proibido cair na água, verdadeira tortura, pois a visibilidade da água e a beleza do local convidam imensamente.
Depois da nascente, chegamos ao ponto onde a flutuação em si começa. Como era um dia calmo no Sucuri, tínhamos um guia dedicado para nós, o Kiko Canindé, um estudante de biologia bastante animado com o curso, que nos explicou com clareza diversos aspectos ecológicos e zoológicos do local. Caímos então na água - Canindé ficou no barco. No rio Sucuri, a flutuação é o tempo todo obrigatoriamente acompanhada por um barquinho de apoio (no rio da Prata isso só não acontece por causa de uma corredeira intensa num trecho do rio).
No rio, o cenário sub tem todos os tons de verde imagináveis, verdadeira aquarela de pintura. Há uma diversidade botânica considerável. Eu estava muito cansada do rapel no Anhumas de manhã, então usei o Sucuri como meu "spa" natural e flutuei como a voar por cima de um mar verde. Em diversos momentos inclusive abri os braços, para me sentir passarinha da água.
Mas o rio não era só relaxamento. Há trechos mais fundos e de correnteza um pouco mais forte, onde tive que gastar suada energia em braçadas na contra-corrente, aguardando o André, que fotografava o máximo possível e vinha atrás de mim no ritmo de fotografia. Mas mesmo tal "exercício" não comprometia meu estado psicológico geral de leveza e felicidade.
Mais ou menos na metade do passeio, o guia nos pediu para tirarmos a cabeça da água para ver um pássaro enorme. Logo depois, foi a vez de uma mamãe-lontra aparecer com 2 filhotinhos na beira da água. O sol estava delicioso iluminando a cena como no famoso quadro de Monet, e as lontras tomavam sol. Mergulharam então na água em velocidade de vapt-vupt, levantando uma poeira considerável do fundo. Mas nossa tarde já estava sorridente com esse encontro-surpresa.
Fomos flutuando em nossa velocidade. O fato de estarmos sozinhos na água colaborou para vermos mais detalhes do rio, que próximo ao final ficara mais cheio de partículas em suspensão, provavelmente devido à seca. Depois do passeio terminado e já em terra, meus olhos ainda estavam enxergando as tonalidades esverdeadas que vira embaixo d'água. Não é todo dia que voamos sob um tapete verde molhado e gosto de pensar que se Monet tivesse conhecido o rio Sucuri, sua série de quadros de flores aquáticas teria incluso visões submersas fenomenais.
Porque o quadro que a gente vê embaixo d'água ali no Sucuri é tão lindo e iluminado que deve ser guardado no recanto íntimo das artes da gente, junto com as ninféias de Monet, onde as grandes belezas do mundo se tornam inesquecíveis.
Tudo de Bonito sempre.
14.Setembro.09
Minhas viagens prediletas - ano 2: Lucy in the lake with jellyfishes*
Meu post predileto do 2º ano deste blog (e meu post predileto de todos os tempos até agora) é uma viagem surreal para Palau, ilha-paraíso do Pacífico, melhor point de mergulho do mundo. Publicado em 18 de janeiro de 2006, relembrou meu passeio pelo Jellyfish Lake, um dos pontos mais bizarros (senão "o" mais) que já visitei neste planetinha azul. Na época da mudança pro Interney, também, quando precisava de uma imagem que contasse sobre mim pro banner, pensei em usar a foto abaixo. Cheguei a incluir o nome do blog nela, mas só não passou no meu crivo pessoal porque requereria um blog em tons de verde, e pra mim, não tem jeito: o azul comanda. Esta é a primeira vez mostro aqui o banner 2º lugar:
De qualquer forma, escrever esse post foi uma viagem psicodélica, e ao (re)lerem, vocês entenderão por quê. ![]()
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"Picture yourself in a boat on a lake with tangerine trees and marmelade skies..."
Surrealismo existe.
Um recanto onde todo o lisergismo da mãe-natureza floresce sob a forma fantástica de lago. O Lago de Água-Viva - ou Jellyfish Lake, em inglês.
"Somebody calls you, you answer quiet slowly: a girl with kaleidoscope eyes!"
A história do surgimento do lago é muito interessante. Um pedaço do mar, que com a movimentação de placas tectônicas, erosão e fenômenos geológicos adjacentes por alguns milhões de anos, ficou isolado no interior de uma das ilhas no que hoje chamamos de República de Palau. Um lago de água salgada, alimentado por infiltração da água do mar através das rochas. Com um paredão de rochas como barreira, nenhum animal grande conseguiu chegar no lago, apenas os microscópicos e as larvas vinham com a infiltração. Inalcançável aos grandes, alegria dos pequenos. Algum plâncton entrou - e as larvas de Mastigias, uma espécie de água-viva. Os demais invertebrados "curiosos" aos poucos foram desaparecendo, por causa da pobreza nutricional do lago. Começou então o reinado das águas-vivas.

"Jellyfish flowers of yellow and pink..."
Inicialmente, as água-vivas ali existentes eram como as que encontramos pelos mares afora, com tentáculos cheios de nematocistos - as células que liberam as toxinas que irritam a nossa pele - para queimar e afastar qualquer bicho fariseu que quisesse se "aprochegar" mais. Entretanto, o tempo, esse inevitável parceiro do processo evolutivo, foi passando, e a água-viva, retida naquele lago isolado de água salgada com quase nenhum outro animal, já não contava com predadores naturais. Não precisava se defender. Nematocistos não eram mais "necessários", um gasto energético, e sem pressão seletiva suficiente para se manter, com o tempo foram desaparecendo da população. Evolução. Isso mesmo: as águas-vivas deixaram de queimar ao simples toque. Precisavam concentrar energias na luta perante novos desafios, como... alimentar-se.
"Look for the girl with the sun in her eyes and she's gone..."
Mas de que vivem as versáteis águas-vivas do Jellyfish Lake? Na falta de alimento propício, as águas-vivas associaram-se a algas zooxantelas - o mesmo tipo que estão associadas a corais. As zooxantelas fazem fotossíntese, produzem seu próprio alimento, e a água-viva, fornecedora da "carona" em direção ao sol para as algas, passou a produzir uma enzima que permitia aproveitar o alimento que a alga fotossintetizava. Uma relação mutualística que deu certo. Hoje, as águas-vivas passam o dia próximas à superfície, fornecendo sol para suas algas internas, e durante a noite, descem às profundezas do lago, onde o ambiente anaeróbico rico em nitrogênio fornece os nutrientes básicos para a fotossíntese das algas que alimentará as águas-vivas - as duas saem lucrando no final.
"Lucy in the lake with jellyfishes!"
O Jellyfish Lake de Palau é uma das atrações marinhas mais bizarras do planeta. E das mais psicodélicas também. Para chegar no lago, isolado do mar, sobe-se um pequeno monte, trilha desenhada para turistas. E se desce. E se vai ao encontro da água salgada do mar distante, ali concentrada.
"Follow her down to a hill by a boarder where japanese people eat marshmellow pies..."
Quando entrei no Jellyfish Lake, confesso que não acreditei que algo de "anormal" existisse. Ali, na beirinha do lago, não havia nenhuma novidade, a não ser o fato de ser salgado e lotado de turistas flutuando. Bastou dar meia dúzia de braçadas para começar a perceber o delírio viajante do local. À medida que chegávamos mais pro centro do lago, um número incontável de águas-vivas aparecia. E elas não tinham pudor algum em encostar em você - e de repente, tudo que eu sentia em volta de mim era aquela pasta gelatinosa vinda de todas as direções. Comecei a ficar com receio de quebrar alguma com uma braçada ou pernada, e passei a ser mais delicada com os movimentos. Mas eram muitas! Milhares e milhares de águas-vivas me engolindo.

"Everyone smiles as you drift past the jellyfishes...

...that grow so incredibly high..."
Comecei a achar que estava dentro de um filme do Buñuel ou de uma tela de Dalí. A água não era tão clara, e sim verde escura, com aqueles múltiplos "pontos" esbranquiçados, de todos os tamanhos, movimentando-se, pulsando em direção à superfície, como numa real viagem na maionese. Lucia no lago com as águas-vivas. Apesar de evitá-las por princícios biológicos, não dava para deixar de encostar nelas. Desencanei por completo, e comecei a pegá-las intencionalmente na mão, perceber aquela textura de gelatina. Mexer nos tentáculos, até então um movimento proibido com qualquer água-viva que se encontre pelo mundo. Minha curiosidade aguçou, e ali, dentro do lago, comecei a analisar as águas-vivas mais e mais - entretanto, o surrealismo era muito constante para permitir qualquer raciocínio lógico.
"Suddenly someone is there at the turnstyle: the girl with kaleidoscope eyes!"
Meu namorado tirava fotos sem parar. Eu delirava de emoção, me sentia numa nave espacial cheia de alienígenas. Ambos em êxtase. E não podíamos nos mexer muito, para não machucar os animais. Estaríamos numa realidade paralela? Aquele lugar parecia não existir. Não, Lucia Malla, é verdade. O Jellyfish Lake existe, e é uma das preciosidades de Palau, relíquia biológica do mundo, prova cabal da evolução, estudo ecológico de mutualismo, inspiração ideal para Magritte. Pequena amostra de que muitas vezes os delírios nossos de cada dia podem ser tão naturais como estar com milhares de águas-vivas sem nematocistos nadando num lago de água salgada no meio do Pacífico.
"Lucy in the lake with jellyfishes."
Tudo de surreal sempre.
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*Adaptação mallística livre e abusada da psicodélica música "Lucy in the sky with diamonds", dos Beatles.
**Na nossa realidade: Existem outros 2 lagos em Palau com águas-vivas. Um deles, entretanto, sofreu mais duramente o fenômeno El Niño em 1998, e suas águas-vivas quase todas morreram em decorrência do aumento da temperatura da água. O lago ainda está em processo de recuperação.
***Para mais fotos de Palau e do Lago das Águas-Vivas, visite a galeria da ArteSub.






































