25.Outubro.09

Inquietações de uma viajante inveterada

Em meu último post de desafio, deixei a foto de uma igrejinha para que as pessoas tentassem descobrir onde fica. Confesso que achei que seria um desafio facílimo, já que tal construção fica muito perto de São Paulo. Mas até agora, ninguém acertou - e eu finalmente deixei lá a resposta. O fato é que o desconhecimento de uma cidade tão pertinho de Sampa me levou a viajar supor que as pessoas talvez não conheçam os arredores de onde moram... aliás, nem a própria cidade, já que eu mesma, carioca da gema, levei 23 anos para subir enfim no Corcovado - e 32 para finalmente conhecer a simpaticíssima Vista Chinesa.

Isso revela um lado da nossa natureza humana em busca sempre da novidade. Queremos o novo, mas o novo não precisa ser só "novo": precisa ser "distante" da nossa realidade. As pessoas não encaram ir a cidade vizinha como uma "viagem". Viajar parece ser apenas o ato de ir a mais de (x + y) quilômetros (cada um escolhe seu limiar para resolver a equação), embora nada efetivamente defina isso num livro. Mas na nossa cabeça é assim. O que me leva a outra viagem na maionese, claro.

Viajar significa, na definição mais simples do Michaelis:

"viajar
vi.a.jar
(viagem+ar2) vti e vint 1 Fazer viagem; ir de um lugar para outro ou outros: Viajar para algum lugar. Viajar pelos sertões. Há muito já não viajo."

Ou seja, o mero andar de um ponto X a um ponto Y. Nessa definição mais que abrangente, ir na padaria da esquina pode ser uma "viagem". Eu gosto dessa definição, porque ela nos tira de um monte de amarras que temos com o ato de viajar. A principal delas é a financeira (que parece ser a maior amarra da maior parte das pessoas). Simplifica o ato.

Desde criança, meus pais me incentivaram a viajar. Ainda bebê, aliás, havia um instinto de querer conhecer outros mundos, "viajar" - e eu arrastava sacolas plásticas de supermercados com roupas dentro pela sala de casa, indicando às visitas que queria conhecer um pouco do mundo físico delas. Aparecia uma dessas "excursões" de escola e eu era talvez a única da minha classe que não precisava nem perguntar se podia ir: tinha certeza que meus pais me apoiavam nessa empreitada. Isso porque meu pai era (e é ainda) uma pessoa que curte muito cair na estrada.

Aí na adolescência e pré-vida adulta, quando estava na faculdade, eu me pegava sem dinheiro algum. Mas queria viajar, e ao primeiro sinal de 20 reais eu comprava uma passagem pra cidade vizinha e passava o dia lá, no estômago apenas um pão de queijo e um cafémas na cabeça a inquietação para conhecer outros mundos. Às vezes uma senhorinha bondosa, dessas que vão à igreja todo fim de tarde, me via olhando curiosamente pelas ruas de uma cidadezinha qualquer perdida de Minas e me oferecia um café em sua cadeira na varanda - e um tico de prosa deliciosa, trazendo lições universais de uma vida inteira entre dois pedaços de broa. E eu viajava ali, sentada numa calçada nova.

Na-calçada

Eu adoro relatos de viagens. Meus, dos amigos, de desconhecidos... é das minhas leituras prediletas em qualquer momento da vida. Não à toa, adoro todos os blogs de viagem que conheço que contam verdadeiras histórias em seus posts, principalmente os recheados de fotografias e emoções (a Luisa e a Emília são minhas mestras nessa vertente). Os relatos me fazem viajar com eles, entender perspectivas diferentes. E gosto de perceber a perspectiva que as outras pessoas têm de uma mesma situação, o quão diferente é essa percepção de um mesmo destino e o quão isso muda de acordo com quem o experimentou. Por exemplo, recentemente, a blogosfera brazuca foi inundada por posts de viagem a um mesmo destino, "culpa" de um evento propagandístico-marketeiro. Mais que análises midiáticas (que disso eu não entendo mesmo), eu, viciada declarada em relatos de viagens, adorei a "experimentação" quase científica: o fato de ouvir as histórias de tantas pessoas em curto espaço de tempo sobre o mesmo ponto - porque, muito mais que meras descrições das atrações legais de um lugar bonito (isso qualquer guia de viagens já faz), elas também trazem o olhar de cada um e realçam a realidade pungente de que viajar é, muitas vezes, se incomodar. Em minha opinião, faz bem esse incômodo que um lugar novo oferece: é ele que nos faz pensar, refletir; é a inquietação da experiência nova, distante da nossa realidade, seja ela na padaria da esquina, na calçada de uma cidadezinha, em Pernambuco ou em Bangkoc que nos leva a aprender algo, que embaralha nossa perspectiva acomodada de vida e que torna o ato de ir e vir muito mais complexo do que a mera definição, que nos permite entender porque esse é um direito humano fundamental. O mundo seria mais bacana se mais pessoas viajasssem - porque viajar enriquece a nossa aventura de viver. Viajemos e nos inquietemos sempre, para quem sabe, perceber com outros olhos a nossa própria realidade rotineira.

Estrada

Tudo de bom sempre.

19.Setembro.09

Nosso lugar no mundo

Na lista de discussão do luluzinhacamp, a Ana Cláudia começou um papo sobre vacinação, que virou uma discussão sobre a indústria farmacêutica e que eu, no mais tradicional estilo "viagem na maionese" que me caracteriza, consegui desviar para "o nosso lugar no mundo". Explico.

Vacinas, remédios, construir escolas, colocar ou não um semáforo na esquina da padaria, ter tal alimento na merenda escolar... tudo isso são decisões que passam, direta ou indiretamente, em última análise, pelas decisões de um governo. Pela forma como um governo decide... governar. Pelas tendências políticas que o caracterizam. Vem daí termos como conservadores, liberais, anarquistas, etc. Mas, independente da tendência que o governo tenha, ele existe tecnicamente para satisfazer, organizar e trazer melhorias para a população geral. Acontece que essa população geral não é homogênea, há diversidade biológica, de pensamento, de escolhas, e o governo, essa entidade abstrata, precisa então tomar decisões e atender a média da população (média aqui no sentido estatístico, não no sentido classe média, que essa eu deixo pra outro blog pintar melhor).

Mas o que é a média da população? Logo no início deste blog em 2004, eu fiz um post sobre o coreano médio, onde escrevi o seguinte:

"Existe o que eu chamaria de “brasileiro médio”, uma pessoa existente nos gráficos do IBGE, mas que na vida real é dificil de encontrar por completo. Quase um ente abstrato. (Ninguém se adequa a 100% dos quesitos do “brasileiro médio” do IBGE.)"

O "brasileiro" (e o coreano, o africano, o vegetariano, o biólogo... insira aqui a sua categoria de escolha) médio é revelado pelo conjunto de características que boa parte daquela população tem ou carrega consigo. Mas não significa que todos têm as mesmas características. As decisões do governo levam em consideração geralmente essa "média" geral, porque, por mais que seja bonito na utopia, o governo não consegue governar para indivíduos separados. Dada a diversidade inerente às pessoas, isso provavelmente geraria mais conflitos que parcimônia. Ele precisa governar para a média, e entra aí desde o miserável até o milionário.

Mas é claro, somos acima de tudo indivíduos. Então, óbvio, é nossa experiência pessoal que termina por falar mais alto nas nossas decisões. O que acontece, daí, é que a gente tem a tendência de achar que do jeito que a gente faz e/ou pensa é o "modo certo", e tenta incutir isso nas decisões macroscópicas do governo, muitas vezes sem olhar pro vizinho que não pensa bem assim - ou que não pode, dadas as circunstâncias, pensar ou agir assim. É muito fácil (e totalmente compreensível), por exemplo, exigir menos carros nas ruas quando você, asmático de tanto escapamento poluente, não mora naquele lado da cidade que não tem transporte público direito. Tendemos a valorizar e lutar pela nossa "verdade" sem se colocar na posição do outro. E é exatamente para harmonizar tantas "verdades", tentar achar o caminho do meio que satisfaça ambos os casos, que um governo decente existe (decente porque na prática, sabemos que os governos podem também assumir verdades que não estão na média, o que gera problemas. Vide muitas guerras.).

Teoricamente, cabe ao governo (composto por cidadãos eleitos pela população geral, lembremos) ao se deparar com um problema X, olhar para o coletivo de indivíduos, ouvir o que eles tiem a dizer sobre o problema X, achar o que é a média naquele caso e buscar uma solução que abarque e felicite, na melhor medida possível, o maior número de pessoas. Pensemos na curva chavão de distribuição normal (o nome já diz tudo, né?) de uma população qualquer:

normal distribution
(Imagem da Wikipedia)

O governo deve concentrar esforços para aquele meio da curva em azul escuro, onde a maior parte da população está, porque assim ele estará beneficiando o maior número possível de indivíduos dentro da sociedade que o escolheu pra governar. A curva pode mudar? Claro que pode; aliás deve, porque a gente felizmente não vive num mundo estático e as mudanças são contínuas. Se, por exemplo, hoje a maior parte da população não tem saneamento básico (e dado que este é o fator gerador de uma série de doenças que minam a saúde da sociedade), o governo precisa transformar essa "média" em extremo da curva, e trabalhar, juntar esforços, ter como objetivo que a média passe a ser "ter saneamento básico", e não o contrário, como vemos agora. E isso vale para quase tudo em nossa vida. porque no final das contas, o objetivo geral é ter uma sociedade harmoniosa, com menos desigualdade social, mais qualidade de vida - e esse é um conceito que também difere, lembremos, mas que deixo aqui como food for thought.

Como comentei na lista de discussão, toda vez que me deparo com uma situação/problema costumo fazer um exercício mental de me inserir nesse quadro: quando sou média? quando sou extremo? Para cada problema/situação que a vida social e a biologia me trazem, tento perceber em que área da curva normal estou. Preciso mudar de área? Dá pra melhorar? Quantos conheço em situação similar? É estatisticamente significativo? Como o governo age neste caso? Quais são os outros lados desse problema? Educar um indivíduo, em minha opinião, passa por esse entendimento. Porque acho que assim, entendendo o seu lugar ao mesmo tempo que o insere num contexto maior, a gente passa também a entender melhor o outro, e a convivência em harmonia fica menos utópica, mais pragmática. E este "lugar" é dinâmico: somos pilar de um ponto mas massa amorfa em outro, constantemente, e isso é saudável. É inevitável que sejamos média e extremo, dependendo do que está sendo medido/discutido/avaliado/pensado e, contanto que não nos acomodemos perante as mudanças do mundo, participar desse equilíbrio entre todas as partes da curva é a existência ideal de uma sociedade. Para mim pelo menos, identificar e tentar entender nosso lugar dentro da sociedade e no mundo, esse lugar que está circundado por nossas escolhas, birras, conhecimentos e desconhecimentos, abre mais facilmente as portas da tolerância, que é o que a gente mais precisa para viver em harmonia na sociedade - e para melhorar a sociedade em que vivemos. :)

Tudo de bom sempre.

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P.S.: Espero não ter sido confusa demais... Porque um colateral dessa história toda também é a situação das minorias esmagadas de maneira criminosa. Pela saúde social, o governo precisa agir, garantindo em diversos casos que o extremo possa existir, entendendo que isso é parte da diversidade e que é com diversidade que a gente cresce e melhora nosso futuro. Nós também como sociedade, temos que agir, entender a diversidade. Porque o lugar de ninguém é fora desta curva.

15.Setembro.09

Minhas viagens prediletas - ano 3: Você já ouviu um muriqui na mata?

Minha 3a viagem predileta de escrever está profundamente relacionada com a biologia - e, ironia das ironias, não é um animal marinho, pelo contrário. Mergulhado em fragmentos minúsculos de Mata Atlântica, está uma das maiores preciosidades faunísticas do Brasil e do mundo, o muriqui. Nossa breve visita a Caratinga, relatada em 27 de abril de 2007, foi ao mesmo tempo emocionante e triste. Escrever este post foi também assim, emocionante a cada linha, alegre de ver o quanto o animal é dócil, o quanto podemos aprender com ele; e triste, por saber que tão poucos restam e que o esforço de conservação para sua sobreviviencia precisa ser tão complexo que praticamente inviabiliza-o. Escrevi por necessidade de criar o alerta, com vontade de gritar pro mundo o quanto este animal é precioso, mas ao final do post escrito, sentada na cadeira em nosso apê, imersa em artigos sobre o muriqui, chorei.

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Muriqui1

Fim de semana passado eu estava no meio da remanescente floresta Atlântica da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Feliciano Miguel Abdala - mais conhecida entre os biólogos como Estação Biológica de Caratinga. O que me levou até lá foi o interesse por um animal lindo, infelizmente a um pequeno passo de desaparecer da Terra (está na categoria "criticamente ameaçado de extinção" da lista vermelha do IUCN): o muriqui, ou macaco monocarvoeiro.

Muriqui3
Entrada da RPPN Feliciano Miguel Abdala, em Caratinga (na realidade, em Piedade de Caratinga, cidade vizinha).

Muriqui4
O famoso e raro habitante daquela área.

O muriqui é o maior primata das Américas e é encontrado apenas no Brasil. Há duas espécies desse macaco: o muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus) que vive em MG e ES e tem a cara rosada, e o muriqui-do-sul (Brachyteles aracnoides), presente em SP, RJ e PR, com a cara preta. É o muriqui-do-norte que está mais ameaçado: são pouco mais de 500 indivíduos ao total no mundo. Desses poucos, cerca de 250 deles vivem na reserva de Caratinga, que tem apenas 1000 hectares - um fragmento de mata atlântica em meio a pastos e fazendas de café. O muriqui é essencialmente arborícola: nasce, cresce, vive, alimenta-se e reproduz-se em cima das árvores. Além de movimentar-se muito nelas, é claro. Portanto, é a destruição da mata para pastagens e plantações a maior ameaça a sua sobrevivência, já que sem árvores grandes em cobertura contínua ele padece. E sinceramente, é muito triste pensar que um animal como o muriqui perecerá. A razão pelo qual isso é triste eu deixo pro Luciano Candisani, autor do livro "Muriqui" (2004), dizer:

"Os muriquis, em especial, têm surpreendido os primatologistas pelo comportamento peculiar, se comparado ao das outras espécies de macaco. Maiores mamíferos endêmicos do Brasil (tanto a fêmea quanto o macho chegam a medir 1.5m e pesar 15 kg na fase adulta), não brigam nem pelo domínio de um grupo, nem pela comida, nem pelo acasalamento. Ao contrário organizam-se com base na fraternidade, trocam abraços a todo momento e mantém-se unidos conforme uma espécie de hierarquia que é regida pelo afeto - coisa inusitada entre os briguentos primatas. Ademais, são as fêmeas adolescentes que tomam a iniciativa de largar seus bandos para ingressar em outros grupos."

Esses macacos são os primatas mais pacíficos conhecidos pela ciência. Vivem numa sociedade em completa harmonia - e durante o período em que estivemos com eles na mata, pudemos ver isso claramente: a todo momento eles se abraçam, brincam, fazem cafuné no vizinho, preocupam-se uns com os outros. Não há competição: há cooperação intensa entre os muriquis. Um verdadeiro exemplo de convivência social aos primatas humanóides.

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Entrando no fragmento de Mata Atlântica da RPPN de Caratinga.

Passamos um dia inteiro na mata seguindo os animais. Eles se movimentam bastante, usando o rabo como um quinto membro para se pendurar nos galhos, e nós o avistamos primeiro - com a ajuda do super-guia Jairo, é claro - no topo de um morro (haja perna para subir aqueles barrancos escorregadios...). Alimentavam-se da Mabea fistulifera, uma flor que produz um néctar que eles adoram e cuja densidade florestal é gigantesca no topo de um dos morros da reserva. A Mabea só floresce nessa época do ano, então nesse período, os muriquis visitam as árvores dela constantemente para o banquete efêmero da comida predileta. Local certo de vê-los.

Muriqui9
As Mabeas, alimento preferido pelos muriquis, na árvore.

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Detalhe da inflorescência (conjunto de flores), que contém o néctar açucarado que o animal tanto gosta.

Ficamos por horas com um grupo de 25 muriquis (10% de todos os indivíduos da reserva!) bem pertinho, observando seu comportamento, fotografando, dando risadas com suas brincadeiras, "xingando" alegremente toda vez que eles por brincadeira faziam xixi nas nossas cabeças, e em delírio completo por avistarmos tão amigável e pacato primata. Havia filhotes no bando, e esses são mais desengonçados, usam muitas vezes a mãe como ponte para passar de um galho para outro. Depois de alimentados, os muriquis se deslocaram para áreas mais baixas do morro, para uma sesta básica, e se encolheram em seus galhos. O mais interessante, no entanto, é que o trabalho científico em Caratinga foi/é tão intenso, que os pesquisadores e guias conhecem os muriquis pelo nome (os animais não são marcados ou anilhados): Guga, Fernanda, Nilo, Darlene... foram alguns dos que vimos. Essa nomenclatura veio da cabeça de Karen Strier, pesquisadora americana da Universidade de Wisconsin que dedicou 20 anos de sua vida aos muriquis, vivendo com eles e estudando-os ali, em Caratinga. Estudou tanto que passou a reconhecê-los individualmente, o que facilitou a análise das relações sociais e comportamento dentro dos grupos - Karen mapeou os laços de amizade de maneira precisa. Além de tê-los acostumados à presença humana: nenhum deles fugiu ao nos avistar por entre folhas. Os esforços de Karen, aliados ao dos primatologistas Célio Valle, Russel Mittermeier e Álvaro Aguirre, permitiram que os muriquis não fossem completamente extintos. Batalharam por anos para a criação da reserva - mesmo quando a pressão dos fazendeiros vizinhos para comercializar a madeira que ali restava era enorme. Hoje, alguns pesquisadores ainda se debruçam em questões básicas de comportamento e estratégias de preservação da espécie ali mesmo em Caratinga e em alguns outros lugares do Brasil, onde felizmente a espécie já foi avistada. A estação de Caratinga, pela sua população bem estudada e de maior número, recebe cientistas do mundo inteiro e a agência Conservação Internacional (filial brasileira da Conservation International) está envolvida diretamente na luta pela manutenção do muriqui. No período em que lá estivemos, conhecemos Fernanda, Luísa e Carla, pesquisadoras de doutorado que estão fazendo parte de sua coleta de dados ali. Convivem diariamente com o muriqui, sabem seus hábitos e personalidades, e apesar do trabalho árduo e do isolamento (a estação não tem telefone nem internet, e elas deslocam-se à vizinha cidade de Ipanema para comunicar-se com o mundo exterior), parecem amar estar na RPPN, em contato com animais tão raros e tão dóceis.

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Mas os esforços da Karen teriam sido em vão se, primeiramente, a fazenda não tivesse sido desde sempre mantida intacta. Feliciano Abdala, antigo dono das terras, também possuía outros alqueires na região, que transformou em áreas de plantação. Mas por uma visão ecoambiental privilegiada (e promessa no ato da compra), manteve uma área de mata generosa em suas terras, cerca de 80% da fazenda. Nessa área, hoje, vive o muriqui. Se Seu Feliciano tivesse desmatado tudo naquela época (como o fizeram seus vizinhos), provavelmente o muriqui estaria extinto. Seu Feliciano faleceu em 2000, e hoje a fazenda é cuidada por Ramiro, seu filho. Mas são ainda as palavras de seu Feliciano, lidas no livro do Candisani que citei acima, que ecoaram na minha cabeça por todo o tempo em que interagi com os macacos:

"Eu não tinha a menor idéia do valor e da utilidade científica que essa mata teria no futuro. Durante toda a minha infância, ouvia do meu pai que era preciso cuidar das matas porque o fim delas traria algo de muito trágico. Isso ficou gravado na minha memória. Uma coisa é certa: não podemos retirar da natureza aquilo que jamais poderemos devolver."

Seu Feliciano sabia no fundo que o relincho de um muriqui na mata é um valor que a gente realmente não devolve à natureza, muito menos esquece ou deixa fenecer.

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Tudo de muriqui sempre.

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Para viajar mais com a macacada...

- Há populações de muriquis ainda não completamente aferidas na Serra do Caparaó, na Serra do Brigadeiro e em Santa Maria de Jetibá (ES). A idéia da CI era fazer um corredor de mata atlântica, para que os diferentes grupos desse macaco pudessem se encontrar e misturar seu material genético. O corredor seria uma extensão floresteira que conectaria 4 grandes áreas já protegidas: o Parque Nacional do Rio Doce, a Serra do Caparaó, a Serra do Brigadeiro e a reserva de Caratinga. Em todas essas áreas, há relatos de visualizações de muriquis - em baixíssima quantidade, mas há. Para que isso ocorra, muito mais que logística científica, é necessário boa-vontade política, principalmente entre os fazendeiros da região - e é aí que o muriqui torce o rabo.

- Perguntei a uma das pesquisadoras sobre níveis de endogamia, e ela me respondeu de forma evasiva. Aparentemente, ainda não é alto para ameaçar a espécie (as fêmeas ainda acasalam bastante com machos de grupos diferentes), mas é difícil imaginar que um grupo tão pequeno consiga se manter geneticamente "intacto" numa área fragmentada.

- O governo federal, no ano retrasado, dedicou 1 milhão de reais para retirar o muriqui da lista mundial de animais ameaçados de extinção. Achei interessante essa informação, apesar de ingênua da parte do governo - como se apenas a boa vontade científica dos pesquisadores com suas bolsas fosse suficiente para que o muriqui se reproduzisse mais (e não mais áreas e recursos naturais para ele viver). Não é bom para a imagem internacional do Brasil que o muriqui se extinga, mas muito mais que dinheiro para pesquisa (que também é necessário), o governo faria melhor pela preservação da espécie se convencesse os fazendeiros ao redor da necessidade de reflorestamento. Ou talvez até se comprasse as terras adjacentes e reflorestasse. A esperança é a última que morre...

- A idéia da ONG Preserve Muriqui é transformar o animal num símbolo da preservação brasileira (uma "espécie-bandeira"), como o panda é para a China. Mantida pelos membros da família Abdala, conta com a colaboração de primatólogos e interessados na salvação do animal.

- Além de muriquis, a reserva de Caratinga possui também macacos bugios, macacos-prego e sagüis-da-cara-amarela. Vimos apenas o bugio e o sagüi - os pregos são de difícil interação, contou-nos o mateiro.

UPDATE: O IUCN retirou o muriqui-do-norte da lista dos 25 primatas mais ameaçados do mundo em 26 de outubro de 2007, ou seja, ele melhorou um pouquinho seu status - mas continua criticamente ameaçado de extinção.

18.Agosto.09

Caminhos havaianos

Hoje, 18 de agosto, é véspera do dia mundial da fotografia - amanhã não poderei postar nada, e como gosto da data inventada, então comemoro de véspera. No ano passado, expliquei um pouco sobre a data. Como este ano decidi promover uma overdose de informações havaianas até dia 21 de agosto, quando se comemora os 50 anos do estado, escolhi mostrar no blog, para celebrar a data, algumas imagens que mostram um lado do Havaí mais desconhecido, saindo do eixo Waikiki-North Shore que parece ser a única coisa que a mídia vê. Acho que a fotografia consegue ocupar esse buraco de informação de uma forma direta e agradável aos olhos. Não são nem de longe as melhores fotos do Havaí que vocês verão, muito menos encontráveis em cartão postal; são fotos do nosso arquivo pessoal, que vão além do mero registro: relembram estradas que trilhamos nas ilhas. Paisagens que estão pelo meio do caminho entre 2 pontos turísticos - e que por serem apenas passagem, são geralmente esquecidas dos nossos olhos. E não é a fotografia também maravilhosa por permitir essa nostalgia gostosa das minúcias das viagens da nossa vida?

Enjoy the Hawaiian ride.

Honolulu waking up
Honolulu acordando. Foto tirada da estradinha que vai pro bairro do Tantalus - que lembra muito a estrada da Floresta da Tijuca, no Rio.

Road to happiness
"Road to happiness": esse é o título que dou a esta imagem. É da estrada no Kauai que leva à praia de Poipu, onde casei... ;)

H3
Rodovia H3 cortando as montanhas de Koolau, em Oahu. A foto foi tirada na lendária trilha Stairway to Heaven. A H3 sai de Kaneohe, no lado leste da ilha e termina em Pearl Harbor.

tempestade
Uma tempestade se aproxima da praia. A foto foi tirada da beira da estrada que margeia o mar no South Shore do Kauai.

Usina de- cana
Uma usina de cana-de-açúcar abandonada. Visível da beira da estrada que leva ao Waimea Canyon, no Kauai.

Waimea
Waimea, pequena cidade no norte da Big Island, à beira da estrada que leva aos cones do Mauna Kea.

Arco-iris no campo de abacaxi
Um arco-íris num campo de abacaxis, visto da beira da rodovia H2, que corta a ilha de Oahu, ligando Honolulu ao North Shore. O Havaí é chamado de "rainbow state" pela quantidade absurdamente enorme de arco-íris que são vistos por aqui.

Molokini
Molokini, restos vulcânicos que viraram um aquário natural perto de Maui, vista do ar. Porque às vezes a estrada dos nossos sonhos é feita de nuvens...

Tudo de bom sempre.

05.Julho.09

Fogos de 4 de julho

Ontem foi 4 de julho, o feriado da Independência americana, famoso por seus shows de fogos de artifício - algo que eu adoro ver. Mas não tive ânimo este ano de encarar a muvuca que se acumulou no Ala Moana Park desde de manhã cedo para ver o espetáculo. Preferi aproveitar o feriado e descansar, sinceramente. Então vimos de casa mesmo, com direito a sucos, música e maratona de filmes de James Bond. André tirou umas fotos da nossa varanda e compartilho aqui um pouco da beleza desse show, que teve um acompanhamento musical com emocionantes músicas havaianas, incluindo "Somewhere over the rainbow" na versão do Iz, a minha predileta. Uma festa! :)

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Tudo de fogos sempre.

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As aventuras de Lucia Malla pelos 5 cantos do planeta: um blog de viagens...

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