23.Setembro.09

Heavy metal fish

Apesar do título parecer nome de banda indie e ter a cara de título sugerido pelo Tiagón, este não é um post de bereteios criativos como vocês encontram pelas bandas de lá. É infelizmente bem concreto: o teor de mercúrio, um metal pesado, no peixe nosso de cada dia.

Afinal, saiu esses dias um estudo feito aqui no Hawaii em que os pesquisadores mediram a quantidade de mercúrio em diversos peixes que são vendidos no mercado - e consequentemente consumidos pelas pessoas. O que eles descobriram foi muito interessante.

O mercúrio é um metal pesado que chega ao mar via despejos de poluentes nos rios ou pela atmosfera. O mercúrio da atmosfera vem de basicamente 2 fontes: erupções vulcânicas (portanto fonte natural) e poluição (fonte antropogênica: queima de carvão nas usinas termelétricas ou atividades de mineração, em sua maioria). Uma vez no mar, o mercúrio-metal-pesado é convertido por bactérias e elementos do plâncton a metil-mercúrio, e este sim é o agente causador de todos os problemas neurotóxicos que a gente ouve por aí associados com ingestão de mercúrio há tempos.

O metil-mercúrio é facilmente assimilado pelos seres vivos, incluindo a gente. Uma vez no organismo, ele se acumula e gera stress oxidativo nas células, principalmente no cérebro. O organismo basicamente não dá conta de tão poderoso agente, e à medida que a concentração de mercúrio começa a subir, o organismo começa a não ser capaz mais de se desintoxicar sozinho, porque as enzimas responsáveis pela desintoxicação de metais pesados que a gente tem começam a ser inativadas. Com o tempo, o acúmulo exagerado pode levar a problemas neurológicos graves e de comportamento. (Exemplo clássico aqui.)

Nossa principal "fonte" de mercúrio direta é a dieta, principalmente via peixes. O metil-mercúrio tende a se bioacumular na cadeia alimentar, o que gera elevados índices de tal composto pesado nos animais do topo da cadeia. Por conta dessa bioacumulação, o FDA americano já há algum tempo recomenda que mulheres grávidas e crianças pequenas diminuam a quantidade de peixe ingerida, principalmente das espécies mais pelágicas, para evitar que cérebros ainda em processo de formação já sofram com os danos causados pelo acúmulo de metil-mercúrio. Mas, que peixes podem e não podem ser ingeridos?

Foi em cima dessa pergunta que muitos pesquisadores se debruçaram - e vêm se debruçando em cada vez mais lugares no mundo. Aqui no Havaí, este tópico tem aparecido com cada vez mais frequência nos jornais locais, o que demonstra uma preocupação real em responder a pergunta.

Daí que o estudo publicado no PNAS há algumas semanas traz em si uma revelação interessantíssima para o manejo da pesca - e para o nosso nível de contaminação por mercúrio, diga-se de passagem. Os pesquisadores descobriram que os peixes que se alimentam mais ao fundo acumulam mais mercúrio em sua carne, enquanto os que comem mais no raso acumulam menos. As implicações desse achado são enormes - e a repercussão já começou.

Boa parte da pesca industrial está baseada em peixes pelágicos carnívoros (ou seja, de topo de cadeia alimentar), que se alimentam no fundo: cações/tubarões, atuns, peixes-espada. Estes peixes possuem níveis de mercúrio mais elevados que os demais, como o dourado, que se alimenta mais próximo da superfície. Mas não somente peixes: os pesquisadores também mediram os níveis de mercúrio em crustáceos, lulas e polvos, e constataram que nestes animais o mesmo padrão existe: quanto mais fundo o animal vive, mais mercúrio no seu sistema.

dourado
O dourado acima possui menos mercúrio acumulado em seu organismo que a espécie de atum abaixo. Ambos são consumidos por nós, espécie humana.

atum

E para mim, a frase que o pesquisador-líder do estudo disse no press-release da universidade é a "moral da história":

"O fundo do mar é remoto, difícil de ser estudado e muitas vezes ignorado, mas nossos resultados claramente mostram como a biologia está diretamente conectada aos interesses humanos, tanto de pesca como de saúde. Alguns dos peixes que a gente se delicia na mesa de jantar crescem numa dieta de criaturas estranhas e exóticas a mais de 1,000 pés de profundidade no mar."

Pense nisso na próxima ida à peixaria. ;)

Tudo de informação sempre.

******************

- Li essa história sobre mercúrio e profundidade primeiro no antenado blog Deep Sea News, antes mesmo de sair o release da Universidade do Havaí. E depois tem quem ainda ache que blogs são "fracos" como fonte de informação em 1a mão... afe.

- Publicado também no Faça a sua parte.

30.Julho.09

Deu no New Tork Times

Ontem o New York Times trouxe dois artigos pequenos que muito me interessaram - de forma mais "próxima", digamos assim. Explico abaixo o por quê. Não sei se ambos são abertos à leitura gratuita. Caso não sejam, avisem-me que faço um adendo com o texto original. O artigo do NYTimes do item 20 está ao fim.

1) Um editorial sobre a dizimação dos tubarões para a famigerada sopa de barbatana. É o artigo mais sucinto, claro e direto ao ponto que já li sobre o assunto. A concisão com que os fatos são expostos, a razão para a matança, as medidas que precisam ser tomadas... está tudo ali, em 5 parágrafos curtos. Não há voltas nem "mallices" exageradas, aquela prolixidade tão comum por essas bandas. Esse é o tipo de artigo que facilita o entendimento do público sobre temas polêmicos, em minha opinião. Muito bom.

2) O segundo artigo merece uma pausa para historinha.

Semana passada, houve a visita do imperador japonês Akihito aqui no Havaí. Em uma das muitas cerimônias que houveram para homenagear a ilustre visita, o imperador encontrou-se com estudantes de um tipo de bolsa financiada pelo governo japonês. Um amigo do André, chamado Shingo, japonês cujos pais emigraram pro Havaí há décadas, foi um dos contemplados, e teve a honra de saudar o imperador pessoalmente.

Shingo mora em Boston e foi colega de laboratório do André aqui em Honolulu. Então, claro, passando por Honolulu, ligou pro André para encontrar com ele e pôr o papo em dia. Eu não o conhecia, fui apresentada a ele aqui em casa, numa pequena petiscada que fizemos para celebrar. Depois dos mini-quitutes, fomos a um restaurante italiano, onde tive o prazer de conversar mais com ele, pessoa super-simpática e desprovido completamente da arrogância comum em muitos cientistas.

Papo vai, papo vem, jantar delicioso, etc. Shingo nos conta que seu artigo havia sido aceito para publicação na Nature desta semana - o que por si só já foi motivo de vários tintins com vinho italiano Chianti. O artigo é realmente um breakthrough: Shingo descobriu que um complexo de proteínas (PRDM16 e C/EBPbeta) estão simplesmente na base para a geração de tecido adiposo marrom (BAT, na sigla em inglês) a partir de qualquer linhagem celular disponível. Shingo mostrou que qualquer célula, seja ela de músculo ou de pele, tratada com as substâncias adequadas incluindo este complexo de proteínas, pode se diferenciar em BAT - e funcionar perfeitamente como tal.

Shingo-BAT-Nature
Na figura, que está no artigo da Nature e foi gentilmente enviada pelo Shingo, podemos ver nos primeiro quadro a foto em microscópio da área transplantada com expressão dos fatores PRDM16 e C/EBP-beta, que se transformou em BAT (controle BAT no último quadro da 1a linha; no meio, o tecido adiposo branco, nossa "gordurinha"). No painel de baixo, a confirmação de que era exatamente BAT: verifica-se a expressão da UCP1, proteína característica somente das células do BAT. Como podemos ver, ela está presente no 1º quadro da linha de baixo (são os pontos mais escuros), um emonstrativo de que as células de tecido branco transplantadas estão virando BAT. Ou seja, bastou estes fatores para o tecido até então branco se transformar em marrom.

Para quem não sabe, o BAT está na linha de frente das pesquisas sobre obesidade, já que, diferente do tecido adiposo branco (a fatídica gordura que acumulamos no corpo), este tecido consome energia, produz calor e pode ser um alvo precioso para futuros medicamentos de emagrecimento eficazes e cientificamente sólidos. Ou seja, esta descoberta abre caminhos inacreditáveis no campo da obesidade - e por consequência indireta, da diabetes.

Aí que ontem eis que André abre o site do New York Times e lá está, na parte de ciência, um artigo sobre o trabalho excelente do Shingo. Ficamos super-empolgados. Porque quando a ciência que você faz aparece (e é elogiada) num artigo geral do New York Times, jornal mais lido do planeta, a conclusão só pode ser uma: é muito provável que você esteja no caminho certo da pesquisa. Ou pelo menos, que está fazendo a sua parte nesse quebra-cabeças chamado mundo. Imediatamente André escreveu pro Shingo parabenizando-o. É uma enorme alegria ver um conhecido (e amigo do André) ter seu trabalho científico de qualidade reconhecido dessa forma.

Parabéns, Shingo! Tudo de bom sempre pra você.

*********

P.S.: 1) Prometo em breve explicações melhores sobre o BAT. Por hoje, basta a comemoração. :>>

2) Estive numa palestra do Spiegelman, líder do grupo da Harvard em que Shingo está, enquanto morava na Coréia. Que mente brilhante, darwin-do-céu. Impressionante sua competência como cientista.

(Depois da quebra, o artigo do NYTimes sobre o trabalho do Shingo para os que não assinam.)

=> Continua ...

20.Julho.09

O dilema da selenocisteína

Às vezes, eu me empolgo com umas bizarrices.

Semana passada, estava eu almoçando e lendo meus feeds no GReader quando esbarrei num post do blog Massa Crítica, traduzido diretamente do Molecule of the day, sobre selenocisteína. Extremamente surpresa em achar nos feeds algo tão bizarro e tão próximo da minha rotina diária, me empolguei e compartilhei o post com meus poucos amigos de GReader, acrescentando um comentário maionesístico-alucinado:

"Senhoras e senhores, conheçam a molécula com que eu trabalho. Ela é linda, reativa e essencial à vida - de bactéria a nós. Está em 25 proteínas do nosso corpo - que auxiliam a resposta ao stress oxidativo, participam do metabolismo da tiróide, estão envolvidas na prevenção do câncer, Alzheimer, Parkinson e certas distrofias musculares, ajudam a diminuir a ação de tóxicos como o mercúrio, contribuem imensamente para a fertilidade masculina e indiretamente paga as minhas contas. :D

No texto, o moço diz que selênio é raro - não é, pelo menos na quantidade que necessitamos para sobreviver. Encontramos selênio em brócolis, alho, castanha do Pará, carnes, entre outros alimentos e, exceto em uma região da China e no Nebraska, onde os solos são pobres em selênio, o resto do mundo tem em quantidade suficiente na dieta para viver sem precisar se preocupar com isso.

Esta intervenção GReaderística é um oferecimento especial de uma Malla mala sem alça apaixonada por selênio. :)))

[malluca, eu? por quê?]"

É, eu sei, me empolguei - sorry, galera. Mas também, puxa, não é todo dia que minha molécula predileta aparece assim de surpresa num blog. De modo que resolvi expandir um pouco sobre a selenocisteína em si - sim, porque o post supra-citado fala mais de selênio, um átomo da tabela periódica, que da molécula de selenocisteína itself, que é um conjunto de átomos de carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio e um selênio. (Esse foco no selênio é comum. Devo ressaltar, entretanto, que o selênio no organismo é incorporado de diversas maneiras, em inúmeras moléculas, mas apenas na selenocisteína a incorporação é feita por um mecanismo que evoluiu especificamente envolvendo o código genético. Isso faz a diferença.)

Tentarei ser didática daqui pra frente, mas sei que o assunto é árido para a maioria - para mim, inclusive.

selenocisteína

A selenocisteína é um aminoácido (ou seja, uma molécula formadora de proteínas). Como tal, para ser incorporado a uma proteína, precisa ser especificamente codificado pelo DNA. (Lembram do batido "dogma central" DNA -> RNA -> proteína das aulas de 2º grau?) Interessantemente, a selenocisteína é codificada por uma sequência-código (TGA, de timidina, guanidina e adenosina, que compõem o DNA) que também funciona para determinar o fim da produção de uma proteína - uma sequência que nós, na biologia molecular, chamamos de stop codon. De modo que a maquinaria celular poderia ficar confusa quando, ao iniciar-se a síntese de uma proteína, de repente esbarrasse num código de finalização - quando não é pra terminar nada, e sim inserir uma selenocisteína. E agora?

É esse dilema de interpretação do código (stop ou selenocisteína?) que permeia meus estudos. Tentar entender o mecanismo pelo qual a célula "lê" o código TGA como "é hora de colocar uma selenocisteína na proteína" e não um fim do trabalho. Há "pistas": alguns fatores e moléculas que precisam estar presente para facilitar a decisão e resolver o dilema. Mas, mesmo com essas pistas, existe ainda uma série de pontos de interrogação e dúvidas sobre os meandros de como a leitura do código é feita, reconhecida pela máquina celular. Um verdadeiro trabalho de detetive molecular.

E por que é tão importante entender esse dilema? Veja bem, não há muitas selenoproteínas (como são chamadas as proteínas que contém selenocisteína) no universo vivo. Elas estão presentes de bactérias até os mamíferos mais complexos - mas estão completamente ausentes em certos grupos de insetos e plantas, uma informação que por si só já é papo para muitas horas de divagação evolutiva (o que não é o meu objetivo aqui)... Mas as selenoproteínas não estão presentes em grande número. Nós, humanos, temos 25 selenoproteínas no organismo, dentro de um universo estimado de mais de 1,000,000 de proteínas total - and counting. Entretanto, não pensem que as selenoproteínas, por estarem em números risíveis, são dispensáveis. Não são - pelo menos não para nós, humanos.

Já se sabe que diversas funções normais do organismo requerem a presença de selenoproteínas. A molécula de selenocisteína está no centro ativo de enzimas essenciais a nossa vida, como as que regulam os níveis de hormônios da tiróide, a fertilidade do espermatozóide e as que diminuem o estresse que os radicais livres causam dentro da célula. Sem selênio, a pessoa não produz selenocisteína e desenvolve uma patologia grave neurológica. E sem a capacidade de entender o TGA como selenocisteína, nem o embrião sobrevive, quiçá o indivíduo adulto.

Já foi demonstrado que diversas doenças estão ligadas aos níveis, insuficientes ou exagerados, de selenoproteínas diversas - como as que citei em meu comentário empolgado, mais algumas doenças autoimunes, a demência relacionada ao HIV e certos tipos de câncer (pulmão, próstata, fígado). Entretanto, a solução não é simples. Porque os níveis de selênio que precisamos para viver estão numa faixa muito estreita: pouco selênio é ruim, muito selênio pode ser pior ainda. Mas deixo o recado: se nossa dieta é balanceada e variada, não precisamos nos preocupar, haverá selenocisteína suficiente no sistema para todas as selenoproteínas que a gente precisa para funcionar direitinho. O organismo resolve o dilema sozinho. E isso é o que importa. :)

Tudo de bom Sempre.

08.Maio.09

Sexta Sub: tubarão bate-volta

Tubarao-tigre

Na sexta-feira passada, a capa do Honolulu Advertiser estampava um quadro de meia página com uma foto de um amigo nosso ajudando a colocar um tag (marcação) em um tubarão-tigre, que estava em imobilidade tônica.

A reportagem contava os resultados da pesquisa recente publicada no jornal peer-reviewed MEPS [abstract only] sobre o comportamento de tubarões-tigre aqui no Hawaii. E, pela reportagem de divulgação que saiu no Honolulu Advertiser, fascinante.

O pesquisador Carl Meyer monitorou com transmissores de ultra-som o movimento de tubarões-tigre por 4 anos na costa havaiana, e descobriu que esses animais, quando adultos, fazem incursões bate-volta nas áreas mais rasas perto das praias, patrulhando a região atrás de presas fáceis, sem padrão reconhecível nem de periodicidade nem de tempo gasto no local à procura de comida. A estratégia de caça parece ser: quanto menos padrão, melhor - ou seja, mudar de estratégia sempre é a melhor estratégia. Assim, a presa nunca está preparada para fugir pois nunca sabe quando o animal estará por perto ou chegando. O tubarão-tigre é uma espécie generalista, ou seja, não faz muita escolha de presa, come o que estiver à vista dele se movendo - e por isso, é um dos poucos que atacam humanos. Dos tubarões-tigre estudados, vários nadaram algumas vezes em áreas rasas de praias famosas do litoral havaiano, como Kealakekua Bay, sem aparentemente terem incomodado os banhistas (que muito provavelmente nem perceberam a presença dele ali).

Além disso, uma notícia de ecologia sobre comportamento a longo-prazo de um animal selvagem (ciência!) descrita na primeira página de um jornal (o mais lido do estado) com um texto de qualidade e clareza bastante razoável - podia ser muito pior, convenhamos; sabemos o nível que as "editorias" de ciência em um jornal podem chegar, salvo raríssimas exceções. Confesso que fiquei impressionada.

Tudo de sub sempre.

28.Abril.09

Malla entrevista: bióloga Ginnie Carter

Vi a Ginnie pela primeira vez lá no Instituto de Biologia Marinha do Havaí. Sentada na bancada, parecia muito compenetrada em seus experimentos, com vários tubinhos enfileirados. Não a incomodei. Ao sair do lab, fiquei sabendo que ela trabalhava num projeto bem diferente e único sobre criopreservação de corais e que, além de tudo, era DJ nas horas vagas. A curiosidade tomou conta de mim: escrevi para ela e propus uma entrevista pro blog, onde ela contasse mais um pouco sobre suas pesquisas, compartilhando aqui com mais pessoas suas descobertas e elocubrações. Eis então minhas perguntas e as respostas da Ginnie Carter, bióloga e DJ. Como de costume com convidados estrangeiros, a entrevista está publicada no post anterior em seu original em inglês, de modo que minhas lambanças de tradução sejam passíveis de conserto, por quem as detectar, nos comentários.

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Ginnie Carter

- Conte um pouco sobre você: como se interessou pela carreira de bióloga?

Ginnie: Eu cresci numa fazenda de cavalos na Virginia e sempre amei todos os animais. Também passei boa parte dos meus verões em San Diego, CA, visitando meus avós, e ia ao Zoológico de San Diego, ao Wild Animal Park e ao SeaWorld todo ano. Sempre fui atraída pela vida marinha em particular. Quando eu estava no último ano de colegial, tínhamos que fazer um estágio como requisito para a formatura, e eu escolhi fazer o meu no Aquário do Tennessee, em Chattanooga (TN), que é o maior aquário de água doce do mundo. Antes do meu estágio, eu pensava que era mais interessada em sistemas marinhos que de água doce, mas terminei realmente me apaixonando pelos peixes de água doce durante aquele período. Esta experiência me animou a entrar na faculdade de Ciências de Pesca na Virginia Tech. Depois do curso, sabia que iria querer uma pós-graduação, e achei que teria uma perspectiva mais abrangente se entrasse num programa mais voltado para a biologia em si. Então fiz meu curso na Universidade do Kentucky, estudando aspectos olfativos de reprodução e côrte em peixes.

- O que te levou a estudar corais?

Ginnie: Eu nunca realmente "planejei" estudar corais, já que estava mais interessada em peixes, mas terminei vindo parar no Havaí como uma serendipidade no meio do meu período planejado na Universidade do Kentucky. Eu estava trabalhando no PhD, mas meu orientador precisava se mudar para Taiwan. Aconteceu então que eu havia executado um projeto paralelo com uma professora visitante que era do tamanho exato para escrever como uma tese de Mestrado; então fiz isso, e consegui o título de Mestre ao invés de Doutora. Meu orientador conhecia a Dra. Mary Hagedorn, mas achava que ela ainda estava trabalhando no Zoológico Nacional de Washington, D.C.. Na realidade, ela estava já no Havaí, e ficou feliz em me aceitar como sua assistente aqui. Nossa pesquisa aqui tem duas vertentes, nós trabalhamos com corais, mas também trabalhamos com peixes. Então originalmente eu tinha em mente trabalhar mais com peixes no Havaí, mas desde então comecei a curtir o trabalho com os corais tanto quanto.

Ginnie and Dr. Hagedorn diving
Ginnie e a Dra. Hagedorn trabalhando com corais-cogumelo no Havaí.

- Recifes de coral são bem sensíveis às mudanças no ambiente, como temperatura, pH, etc. e sabemos que podem ser afetados pela atividade humana. Na sua opinião, qual área de pesquisa precisa ser priorizada para entendermos este fenômeno?

Ginnie: Esta sempre parece uma questão difícil para mim, priorizar o foco de "salvar o planeta". Sem parecer que quero me livrar da questão, acho que é realmente importante nesse momento de crise crescente que percebamos a necessidade de colaboração entre os diferentes ramos, não só da ciência dos corais em particular, mas da ciência em geral. Cada mudança ambiental, se causada ou não pela atividade humana, é quase sempre ligada a um outro fator ambiental, como temperatura, pH e ciclo do carbono. Estes fatores podem afetar diferentes aspectos da biologia e fisiologia do coral e estas coisas podem afetar a ecologia de todo o ecossistema do recife de coral. É importante que as pessoas trabalhem juntas para conseguirem uma idéia geral do que pode ser feito e do que deve ser feito. Um bom exemplo disto vem do trabalho que a Dra. Hagedorn e eu nos envolvemos em Porto Rico. Nós viajamos para lá nos últimos verões para aplicar algumas das técnicas de criopreservação que aprendemos com os corais saudáveis do Havaí em espécies ameaçadas de coral lá. Entretanto, quando a gente vai para Porto Rico, trabalhamos com um grande time de aquaristas de zoológicos e aquários ao redor do mundo que vêm aprendendo quais são os requisitos necessários para que esses corais ameaçados sobrevivam e cheguem à juventude, além de outros pesquisadores de genética populacional dos corais restantes fora do recife, de forma que todos os aspectos se encaixam ao fim em prol da restauração prática dos recifes de Porto Rico, em uma ação conjunta que esperamos que comece nesse próximo verão. Eu não me canso de enfatizar o quão importante colaborações assim são para determinar o que pode ser feito para salvar os recifes de corais e o nosso planeta.

- No seu projeto de pesquisa, você está tentando fazer criopreservação de espécies de coral. Por que criopreservar é importante? O que você conseguiu até agora com a sua pesquisa?

Ginnie: Eu imagino que, idealmente, criopreservação de corais não deveria ser tão importante. Sei que soa estranho falar assim, considerando o trabalho que nós fazemos, mas o que eu quero dizer com isso é que numa situação ideal, os corais do mundo estariam em perfeita saúde e não precisariam ser guardados num banco genético desta forma. Para esclarecer, quando nós falamos sobre criopreservação de corais, ou de qualquer organismo para esse fim, significa que algumas partes do seu material genético, em geral esperma ou embriões ou linhagens celulares, estão congeladas em temperaturas super-baixas para preservar o material genético. Estes métodos existem há algum tempo e em lugares como o Zoológico Nacional e o USDA, material genético importante já tem sido crioguardado. Para algumas espécies, como as importantes para a agricultura ou para a medicina, o material é mantido para uso futuro dos humanos. Por exemplo, nossa outra linha de pesquisa lida com padronização do esperma de peixe-zebra [n.ed.: ou paulistinha, Danio Rerio]. Peixe-zebra é um importante modelo na pesquisa biomédica e possui diferentes linhagens. Manter estas linhagens vivas pode ser caro, então se pudermos criopreservar em um banco genético as mesmas, isto reduz o custo e ainda permite que as linhagens sejam reconstituídas e usadas no futuro. Corais, por outro lado, precisam ter seu material genético guardado desta forma porque estão ameaçados no ambiente natural. Este tipo de banco genético age como uma apólice de seguro, garantindo que se uma espécie de coral é extremamente reduzida na natureza, ainda haja material genético disponível dela caso precisemos no futuro restaurá-la, um processo entretanto que ainda precisa ser melhor elaborado. Isto é o que quero dizer quando acho que seria legal que minha pesquisa não fosse importante, porque eu espero que os corais do mundo possam ser salvos antes de termos que usar um material criopreservado para poder trazê-lo de volta da beira da extinção.

Neste momento, nós somos o único laboratório no mundo trabalhando com criopreservação de coral. Já conseguimos bons resultados, sendo capaz de criopreservar esperma de corais. Na realidade, esperma de espécies ameaçadas de coral com as quais trabalhamos em Porto Rico já foram armazenadas em diversas instituições nos EUA e na Europa.

- Quais são as limitações da técnica de criopreservação na atualidade?

Ginnie: Corais têm se mostrado bem difíceis de serem criopreservados. Como disse acima, nós somos capazes de congelar o esperma do coral, mas as técnicas ainda precisam ser otimizadas. Muitos fatores estão envolvidos, da taxa de congelamento à taxa de derretimento passando pelos químicos fortes onde você os congela. Nós trabalhamos tentando congelar a larva do coral, mas o processo para fazê-lo tem se mostrado bem laborioso e até agora ainda estamos nas tentativas. E nós também temos planos de tentar preservar células-tronco de coral.

- Quais são seus principais interesses fora da ciência e dos corais?

Ginnie: Fora da ciência, meus interesses são bem diversos. Quando não estou no laboratório, eu "toco" Drum & Bass e promovo alguns eventos em clubs aqui em Honolulu. Isso ocupa a maior parte do meu tempo livre. Também voluntario para a Terapia Equestre do Havaí, que é uma organização muito legal que usa cavalos como ferramenta para melhorar o corpo e a mente de crianças e adultos com diversos problemas físicos e mentais. Estando no Havaí também tento ir à praia quando dá, e até surfo um pouco.

- Sua mensagem final para os leitores.

Ginnie: Tente ser consciente do planeta em sua rotina diária. Pode ser difícil às vezes enquanto estamos ocupados e queremos nossas conveniências, mas qualquer pequena coisa que você possa fazer ajuda. Como eu disse em minha resposta sobre tentar priorizar áreas de pesquisa, todo mundo tem que trabalhar junto em tudo que acontece agora. Não é suficiente focar em reciclagem e esquecer da poluição atmosférica. Tudo precisa ser considerado, e manter isto em mente, de que cada pequeno ato que as pessoas fazem para ajudar pode ser tão importante quanto tentar criopreservar larvas de coral. Vamos todos trabalhar juntos para elaborar um planeta em que os corais vivos que temos agora em nossos oceanos possam se recuperar e florescerem, e que os corais que a gente criopreserva não sejam nunca requisitados.

- Obrigada, Ginnie, pela entrevista! :)

*******************
[English original, here.]

- Publicado também no Faça a sua parte.

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