11.Outubro.09
Mergulho com os leões marinhos da Patagônia
Era 2 de abril, feriado na Argentina. A saída de mergulho planejada mais parecia uma reunião de família: o dono da operadora, seus filhos e sua esposa no barco, aproveitando o dia de descanso para interagir um pouco com os leões marinhos do sul (Otaria flavescens). O local escolhido para o mergulho era Punta Loma, a 17 km de Puerto Madryn, na Patagônia Argentina, área designada em 2005 como protegida pelo governo da província de Chubut. Ali há uma Lobería (como os argentinos chamam os locais onde os lobos mariños se agregam) mais tranqüila para se mergulhar – embora nada tornasse água a gélidos 14 graus “tranqüila”, pelo menos a ausência de corrente e a pouca profundidade não tornariam o mergulho mais complicado.

Praia de Punta Loma: areias restritas aos leões marinhos do sul.
O barco da operação corta o mar calmíssimo do golfo Nuevo e rapidamente chegamos ao point. Na praia, já dá para ver as dezenas de leões marinhos residentes da área, tomando sol, descansando ou brincando. Muitos filhotes, menores e mais agitados, nascidos há menos de 3 meses, agora brincam na praia, fazendo suas primeiras investidas no mar.

Filhotes de leões-marinhos brincando.
O mergulho com os leões marinhos em geral não oferece perigo e é de baixíssima exigência técnica. O local é bem próximo à costa e você não passa de 5 metros de profundidade. Apesar de ser tão raso, não é permitido fazer ali snorkel – as leis argentinas proíbem qualquer pessoa de chegar perto dos leões marinhos sem equipamento de scuba, além de exigirem o pagamento de uma taxa de conservação alta, que em geral está embutida no preço da saída de mergulho. A regra é não tocar no animal, nem assustá-lo com movimentos bruscos nem levantando areia do fundo. A visibilidade não é das melhores, em média 5 metros, o que requer mais cuidado ainda nos movimentos de cada mergulhador. Os leões marinhos que se aproximam são normalmente os mais jovens, curiosos que estão por descobrir um mundo novo – ou pelo menos descobrir o que aquele monte de gente soltando bolhinhas e olhando para eles são.
Os leões marinhos do sul, como são conhecidos, vivem restritamente no hemisfério sul do planeta, na costa da Argentina, do Chile e do Peru, além das ilhas Falklands e na ilha dos Lobos, no litoral gaúcho. O nome leão marinho deriva do fato de que os machos exibem uma cabeleira dourada na cabeça quando estão secos, não tão vistosa quanto a dos leões africanos, mas igualmente atraente para as fêmeas do bando – que também têm a cabeleira, apenas mais rala que a dos machos. Os leões marinhos machos, aliás, pesam em média 300 kg, o dobro das fêmeas, e mantém haréns, com várias fêmeas para cada macho.

Um pequeno harém de leões-marinhos com filhotes descansando ao sol.
Haréns que são muito sonoros, diga-se de passagem. De longe, podemos ouvir os gritos e urros dos leões marinhos, que se comunicam basicamente para garantir seu território e suas fêmeas. As mães também urram para alertar os filhotes dos perigos e os filhotes urram de volta para indicar que ouviram o chamado materno; então, no somatório de machos, fêmeas e filhotes, é uma urraria só e é essa barulheira que torna mais fácil identificar que você está numa Lobería. Nesses locais, os leões marinhos se agregam – e pode ser na areia, em rochas ou penhascos, nas piscinas de maré e até mesmo em praias de cascalho ou pedrinhas. Da praia, só saem para pescar seu alimento: anchovas, crustáceos, polvos, lulas e até pingüins, de preferência em áreas onde o fundo do mar é recheado de algas. Nos primeiros meses de vida, as mães saem por 3 dias para pescar e ao voltar, amamentam o filhote por 2 dias, e esse ciclo continua por 2 meses, quando os filhotes já aprenderam a nadar e dão suas primeiras investidas na água. Demorará pouco para que os leões marinhos jovens consigam se equiparar aos mais experientes do grupo, que chegam a mergulhar até incríveis 300 metros de profundidade atrás de sua comida. Haja fôlego e adaptação para um mamífero que vive na terra (e respira com pulmões!) agüentar tamanha pressão e tempo debaixo d’água.
Durante o mergulho com os leões marinhos, sua excelente flexibilidade é evidente, pois giram toda hora o corpo e a cabeça a fitar os intrusos ali presentes. Os leões marinhos não ficam constantemente com os mergulhadores – vão e vêm, como a explorar e desencanar da exploração, inúmeras vezes, enquanto a maior parte do bando está sob o sol na praia.

Este leão marinho que vimos no dia anterior tentou várias vezes subir na pedra em meio ao mar revolto. Na enésima tentativa, conseguiu.
Sua flexibilidade na água permite eficiência na pesca, mas o corpanzil com nadadeiras, cheio de gordura e desengonçado dificulta sua locomoção em terra firme. Mas mesmo assim, eles “caminham”, devagar e sempre na areia. Ali, raramente são predados por outros animais. Correm maiores riscos ao mergulharem atrás de alimento, quando podem efetivamente virar comida de tubarões, orcas e algumas espécies de baleias.
Apesar da população pequena que vive na América do Sul (cerca de 230.000 indivíduos), os leões marinhos do sul não são considerados ameaçados de extinção. Foram no passado alvo de predação humana intensa, por causa da quantidade de gordura extraída deles. Mas hoje a maior ameaça que enfrentam é a perda de seu habitat e de sua comida, pela ação da pesca excessiva e do desenvolvimento das zonas costeiras. Por isso, saber que boa parte das Loberías argentinas são áreas de proteção ambiental é uma boa notícia: garante que mais pessoas terão a chance de mergulhar e interagir com os leões marinhos no futuro, pois eles estão devidamente salvaguardados desde já.

Lobería de Puerto Pirámides, outra área de preservação argentina mais ao norte, já na Península Valdés propriamente dita.
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- Texto publicado na revista Mergulho n. 144 de julho/2008. Mas devo confessar que me animei a finalmente colocar esta história aqui no blog depois de ler um post bacaninha da Maryanne sobre as brigas entre os leões marinhos que ficam no Píer 39, em San Francisco. Mary, obrigada por reacender minha memória e inspirar! ![]()
15.Setembro.09
Minhas viagens prediletas - ano 3: Você já ouviu um muriqui na mata?
Minha 3a viagem predileta de escrever está profundamente relacionada com a biologia - e, ironia das ironias, não é um animal marinho, pelo contrário. Mergulhado em fragmentos minúsculos de Mata Atlântica, está uma das maiores preciosidades faunísticas do Brasil e do mundo, o muriqui. Nossa breve visita a Caratinga, relatada em 27 de abril de 2007, foi ao mesmo tempo emocionante e triste. Escrever este post foi também assim, emocionante a cada linha, alegre de ver o quanto o animal é dócil, o quanto podemos aprender com ele; e triste, por saber que tão poucos restam e que o esforço de conservação para sua sobreviviencia precisa ser tão complexo que praticamente inviabiliza-o. Escrevi por necessidade de criar o alerta, com vontade de gritar pro mundo o quanto este animal é precioso, mas ao final do post escrito, sentada na cadeira em nosso apê, imersa em artigos sobre o muriqui, chorei.
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Fim de semana passado eu estava no meio da remanescente floresta Atlântica da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Feliciano Miguel Abdala - mais conhecida entre os biólogos como Estação Biológica de Caratinga. O que me levou até lá foi o interesse por um animal lindo, infelizmente a um pequeno passo de desaparecer da Terra (está na categoria "criticamente ameaçado de extinção" da lista vermelha do IUCN): o muriqui, ou macaco monocarvoeiro.

Entrada da RPPN Feliciano Miguel Abdala, em Caratinga (na realidade, em Piedade de Caratinga, cidade vizinha).

O famoso e raro habitante daquela área.
O muriqui é o maior primata das Américas e é encontrado apenas no Brasil. Há duas espécies desse macaco: o muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus) que vive em MG e ES e tem a cara rosada, e o muriqui-do-sul (Brachyteles aracnoides), presente em SP, RJ e PR, com a cara preta. É o muriqui-do-norte que está mais ameaçado: são pouco mais de 500 indivíduos ao total no mundo. Desses poucos, cerca de 250 deles vivem na reserva de Caratinga, que tem apenas 1000 hectares - um fragmento de mata atlântica em meio a pastos e fazendas de café. O muriqui é essencialmente arborícola: nasce, cresce, vive, alimenta-se e reproduz-se em cima das árvores. Além de movimentar-se muito nelas, é claro. Portanto, é a destruição da mata para pastagens e plantações a maior ameaça a sua sobrevivência, já que sem árvores grandes em cobertura contínua ele padece. E sinceramente, é muito triste pensar que um animal como o muriqui perecerá. A razão pelo qual isso é triste eu deixo pro Luciano Candisani, autor do livro "Muriqui" (2004), dizer:
"Os muriquis, em especial, têm surpreendido os primatologistas pelo comportamento peculiar, se comparado ao das outras espécies de macaco. Maiores mamíferos endêmicos do Brasil (tanto a fêmea quanto o macho chegam a medir 1.5m e pesar 15 kg na fase adulta), não brigam nem pelo domínio de um grupo, nem pela comida, nem pelo acasalamento. Ao contrário organizam-se com base na fraternidade, trocam abraços a todo momento e mantém-se unidos conforme uma espécie de hierarquia que é regida pelo afeto - coisa inusitada entre os briguentos primatas. Ademais, são as fêmeas adolescentes que tomam a iniciativa de largar seus bandos para ingressar em outros grupos."
Esses macacos são os primatas mais pacíficos conhecidos pela ciência. Vivem numa sociedade em completa harmonia - e durante o período em que estivemos com eles na mata, pudemos ver isso claramente: a todo momento eles se abraçam, brincam, fazem cafuné no vizinho, preocupam-se uns com os outros. Não há competição: há cooperação intensa entre os muriquis. Um verdadeiro exemplo de convivência social aos primatas humanóides.

Entrando no fragmento de Mata Atlântica da RPPN de Caratinga.
Passamos um dia inteiro na mata seguindo os animais. Eles se movimentam bastante, usando o rabo como um quinto membro para se pendurar nos galhos, e nós o avistamos primeiro - com a ajuda do super-guia Jairo, é claro - no topo de um morro (haja perna para subir aqueles barrancos escorregadios...). Alimentavam-se da Mabea fistulifera, uma flor que produz um néctar que eles adoram e cuja densidade florestal é gigantesca no topo de um dos morros da reserva. A Mabea só floresce nessa época do ano, então nesse período, os muriquis visitam as árvores dela constantemente para o banquete efêmero da comida predileta. Local certo de vê-los.

As Mabeas, alimento preferido pelos muriquis, na árvore.

Detalhe da inflorescência (conjunto de flores), que contém o néctar açucarado que o animal tanto gosta.
Ficamos por horas com um grupo de 25 muriquis (10% de todos os indivíduos da reserva!) bem pertinho, observando seu comportamento, fotografando, dando risadas com suas brincadeiras, "xingando" alegremente toda vez que eles por brincadeira faziam xixi nas nossas cabeças, e em delírio completo por avistarmos tão amigável e pacato primata. Havia filhotes no bando, e esses são mais desengonçados, usam muitas vezes a mãe como ponte para passar de um galho para outro. Depois de alimentados, os muriquis se deslocaram para áreas mais baixas do morro, para uma sesta básica, e se encolheram em seus galhos. O mais interessante, no entanto, é que o trabalho científico em Caratinga foi/é tão intenso, que os pesquisadores e guias conhecem os muriquis pelo nome (os animais não são marcados ou anilhados): Guga, Fernanda, Nilo, Darlene... foram alguns dos que vimos. Essa nomenclatura veio da cabeça de Karen Strier, pesquisadora americana da Universidade de Wisconsin que dedicou 20 anos de sua vida aos muriquis, vivendo com eles e estudando-os ali, em Caratinga. Estudou tanto que passou a reconhecê-los individualmente, o que facilitou a análise das relações sociais e comportamento dentro dos grupos - Karen mapeou os laços de amizade de maneira precisa. Além de tê-los acostumados à presença humana: nenhum deles fugiu ao nos avistar por entre folhas. Os esforços de Karen, aliados ao dos primatologistas Célio Valle, Russel Mittermeier e Álvaro Aguirre, permitiram que os muriquis não fossem completamente extintos. Batalharam por anos para a criação da reserva - mesmo quando a pressão dos fazendeiros vizinhos para comercializar a madeira que ali restava era enorme. Hoje, alguns pesquisadores ainda se debruçam em questões básicas de comportamento e estratégias de preservação da espécie ali mesmo em Caratinga e em alguns outros lugares do Brasil, onde felizmente a espécie já foi avistada. A estação de Caratinga, pela sua população bem estudada e de maior número, recebe cientistas do mundo inteiro e a agência Conservação Internacional (filial brasileira da Conservation International) está envolvida diretamente na luta pela manutenção do muriqui. No período em que lá estivemos, conhecemos Fernanda, Luísa e Carla, pesquisadoras de doutorado que estão fazendo parte de sua coleta de dados ali. Convivem diariamente com o muriqui, sabem seus hábitos e personalidades, e apesar do trabalho árduo e do isolamento (a estação não tem telefone nem internet, e elas deslocam-se à vizinha cidade de Ipanema para comunicar-se com o mundo exterior), parecem amar estar na RPPN, em contato com animais tão raros e tão dóceis.
Mas os esforços da Karen teriam sido em vão se, primeiramente, a fazenda não tivesse sido desde sempre mantida intacta. Feliciano Abdala, antigo dono das terras, também possuía outros alqueires na região, que transformou em áreas de plantação. Mas por uma visão ecoambiental privilegiada (e promessa no ato da compra), manteve uma área de mata generosa em suas terras, cerca de 80% da fazenda. Nessa área, hoje, vive o muriqui. Se Seu Feliciano tivesse desmatado tudo naquela época (como o fizeram seus vizinhos), provavelmente o muriqui estaria extinto. Seu Feliciano faleceu em 2000, e hoje a fazenda é cuidada por Ramiro, seu filho. Mas são ainda as palavras de seu Feliciano, lidas no livro do Candisani que citei acima, que ecoaram na minha cabeça por todo o tempo em que interagi com os macacos:
"Eu não tinha a menor idéia do valor e da utilidade científica que essa mata teria no futuro. Durante toda a minha infância, ouvia do meu pai que era preciso cuidar das matas porque o fim delas traria algo de muito trágico. Isso ficou gravado na minha memória. Uma coisa é certa: não podemos retirar da natureza aquilo que jamais poderemos devolver."
Seu Feliciano sabia no fundo que o relincho de um muriqui na mata é um valor que a gente realmente não devolve à natureza, muito menos esquece ou deixa fenecer.
Tudo de muriqui sempre.
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Para viajar mais com a macacada...
- Há populações de muriquis ainda não completamente aferidas na Serra do Caparaó, na Serra do Brigadeiro e em Santa Maria de Jetibá (ES). A idéia da CI era fazer um corredor de mata atlântica, para que os diferentes grupos desse macaco pudessem se encontrar e misturar seu material genético. O corredor seria uma extensão floresteira que conectaria 4 grandes áreas já protegidas: o Parque Nacional do Rio Doce, a Serra do Caparaó, a Serra do Brigadeiro e a reserva de Caratinga. Em todas essas áreas, há relatos de visualizações de muriquis - em baixíssima quantidade, mas há. Para que isso ocorra, muito mais que logística científica, é necessário boa-vontade política, principalmente entre os fazendeiros da região - e é aí que o muriqui torce o rabo.
- Perguntei a uma das pesquisadoras sobre níveis de endogamia, e ela me respondeu de forma evasiva. Aparentemente, ainda não é alto para ameaçar a espécie (as fêmeas ainda acasalam bastante com machos de grupos diferentes), mas é difícil imaginar que um grupo tão pequeno consiga se manter geneticamente "intacto" numa área fragmentada.
- O governo federal, no ano retrasado, dedicou 1 milhão de reais para retirar o muriqui da lista mundial de animais ameaçados de extinção. Achei interessante essa informação, apesar de ingênua da parte do governo - como se apenas a boa vontade científica dos pesquisadores com suas bolsas fosse suficiente para que o muriqui se reproduzisse mais (e não mais áreas e recursos naturais para ele viver). Não é bom para a imagem internacional do Brasil que o muriqui se extinga, mas muito mais que dinheiro para pesquisa (que também é necessário), o governo faria melhor pela preservação da espécie se convencesse os fazendeiros ao redor da necessidade de reflorestamento. Ou talvez até se comprasse as terras adjacentes e reflorestasse. A esperança é a última que morre...
- A idéia da ONG Preserve Muriqui é transformar o animal num símbolo da preservação brasileira (uma "espécie-bandeira"), como o panda é para a China. Mantida pelos membros da família Abdala, conta com a colaboração de primatólogos e interessados na salvação do animal.
- Além de muriquis, a reserva de Caratinga possui também macacos bugios, macacos-prego e sagüis-da-cara-amarela. Vimos apenas o bugio e o sagüi - os pregos são de difícil interação, contou-nos o mateiro.
UPDATE: O IUCN retirou o muriqui-do-norte da lista dos 25 primatas mais ameaçados do mundo em 26 de outubro de 2007, ou seja, ele melhorou um pouquinho seu status - mas continua criticamente ameaçado de extinção.
27.Agosto.09
Sexta Sub: o caso do peixe-leão nas Bahamas
A notícia marinha da semana foi sem dúvida a que trouxe ao público o (antigo) problema da invasão de peixes-leão no mar do Caribe. O NOAA já tem um programa de educação ambiental para alertar sobre o quão danoso ao ambiente caribenho pode ser o peixe-leão - ali ele não tem predadores e vem desequilibrando deveras o ecossistema coralino do Caribe (que, tão ameaçado, definitivamente não precisava de mais esse estresse). Além disso, o peixe-leão se reproduz rapidamente, com cada fêmea produzindo cerca de 30,000 ovos por semana. É um peixe venenoso, mas como raramente ataca humanos, não há risco sério num mergulho se você vie um peixe-leão pelo caminho. E é impossível não vê-lo, como podem perceber na foto desta Sexta Sub, dado que ele mais se assemelha a um membro de comissão de frente de escola de samba carioca esbanjando exuberância fenotípica na ginga do mar. É a Unidos do Peixe-leão chegando na Sapucaí, gente! ![]()
O peixe-leão é nativo do Pacífico. A forma como chegou ao Atlântico também é ortodoxa, pra dizer o mínimo. Durante a passagem do furacão Andrew pela Flórida, em 1992, um aquário ornamental que continha 6 peixes-leão como "animais de estimação" (ou decorativos...) foi destruído pelos ventos, vazou para o mar e esses indivíduos caíram no Golfo do México. Foi o suficiente para eles popularem o Caribe e o Atlântico Norte, já tendo sido visto até em Long Island, perto de Nova Iorque. Os cientistas não têm idéia do tamanho da população que se encontra atualmente pelo Atlântico, mas acreditam que deter esta invasão é praticamente impossível neste ponto.
E por que esta notícia velha voltou essa semana a mídia? Porque a criativa solução encontrada nas Bahamas foi "formalizar" uma "aquacultura selvagem" do peixe-leão. Trocando em miúdos: organizaram um campeonato nesta semana para quem pescasse mais peixes-leão. Ao final da brincadeira, o peixe-leão virou fritada. Na realidade, este é o desejo da maior parte das organizações ambientais caribenhas: transformar o peixe-leão em item de supermercado e, em última instância, comida na mesa do consumidor. Isso mesmo, vão tentar pescar o máximo possível de peixes-leão. Tarefa hercúlea, pra dizer o mínimo. Good luck for them... [irony mode on]
E há um outro lado desta história, que é o que envolve o comércio de espécies exóticas para aquarismo. Aqui no Havaí, por exemplo, há leis rigorosas para trazer qualquer animal que não seja daqui para um aquário ou zoo. Qualquer cão ou gato, por exemplo, é obrigado a ficar de quarentena no aeroporto (já ouvi casos de até 2 meses), imagine animais selvagens. Esta medida veio, claro, depois de um grande problema com peixes introduzidos aqui, principalmente o tucunaré. E se você quer ter um peixe exótico de um local longínquo no seu aquário em casa, o ideal seria que a lei fosse rigorosa para diminuir ao máximo a probabilidade de que um animal desse chegasse a um ambiente a que ele não pertence. Mas nunca é demais lembrar: acidentes acontecem. Furacões incluso. ![]()
O Caribe, onde estarei mergulhando amanhã, entende bem isso agora.
Tudo de sub sempre.
16.Julho.09
Uma carta sobre a acidificação dos oceanos
Hoje a blogosfera marinha gringa foi especialmente convidada a publicar uma carta escrita por Sally-Christine Rodgers e Randy Repass sobre o alarmante processo de acidificação dos oceanos. O convite veio (via Rick) de Sheril Kirshenbaum, do blog Intersection, que está coordenando a blogagem. A carta é um depoimento e um alerta. Em inglês, contém detalhes práticos de como as pessoas residentes nos EUA podem agir em prol da causa, demonstrando ao seu representante político a importância de se conter a diminuição do pH dos mares, o quanto esse processo pode modificar drasticamente o ecossistema marinho, levando-o a um caminho deveras imprevisível. De certa forma, esse conselho deveria valer para nós brasileiros também; afinal, pentelhar o seu representante político é uma das formas de alertá-lo que aquela é uma questão que importa pra você, que o elegeu. Entretanto, o desinteresse pelo povo do poder legislativo brasileiro é assunto deveras complexo e desestimulante. Por isso, a intenção do conselho ainda é vealida, mas requer mais persistência nossa na terra tupiniquim. Enfim.
Para os amigos que lêem meu blog, fiz uma tradução livre em português, retirando as especificações que não competem aos brasileiros - caso você more nos EUA e se interesse pela causa, pode ler em inglês e contactar seu senador e falar exatamente do projeto de lei a que tudo isso se refere. Há algumas considerações que poderiam ser mais discutidas sobre o tema, mas como a idéia hoje é espalhar pela web as palavras dos dois que já lutam pelo tema, deixo essas considerações para um post futuro. Agora, é hora de ouvir a mensagem de quem está na linha de frente pelos mares do mundo.
Eis a mensagem de Randy & Sally-Christine sobre a acidificação dos oceanos. Logo abaixo da quebra de post, a original em inglês.
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"Nós somos velejadores desde sempre. O que a gente vem aprendendo navegando pelo Pacífico nos últimos 6 anos, e especialmente dos cientistas focados na conservação marinha, é espantoso. Independente se você passa seu tempo na água ou não, a acidificação dos oceanos afeta a todos nós e é algo que acreditamos você vai querer saber mais.
O que você faria se soubesse que muitas espécies de peixes e animais que vivem nos oceanos desaparecerão em 30 anos caso os níveis de CO2 continuem aumentando na taxa atual? Nós acreditamos que você pode agir de forma a evitar este processo de acontecer, porque pessoas informadas fazem escolhas conscientes. Esta carta é sobre o que podemos e devemos fazer juntos agora para ajudar a resolver este problema tão sério e tão desconhecido, a acidificação dos oceanos.
A acidificação dos oceanos é primariamente causada pela queima de combustíveis fósseis. Quando o dióxido de carbono da atmosfera chega aos oceanos, modifica o pH deste ambiente, tornando o mar acídico e mais hostil à vida. Com o tempo, o CO2 reduz o carbonato de cálcio, o que dificulta a formação de conchas de alguns invertebrados e a formação dos recifes de corais. Na realidade, as conchas existentes podem começar a dissolver com o pH ácido. Ostras e mexilhões não terão mais a capacidade de construir suas conchas. Caranguejos e lagostas? Seus bisnetos podem ter que apenas imaginar qual era o sabor real deles.
O dióxido de carbono concentrado nos oceanos está tornando a água do mar mais acídica. Boa parte do zooplâncton, animais microscópicos na base da cadeia alimentar, têm esqueletos que não se formarão em condições acídicas, fazendo a vida nos níveis superiores da cadeia - peixes, mamíferos e aves marinhas que dependem do zooplâncton para comer - também perecerão. Sem comida não há vida. Um bilhão de pessoas dependem de peixe e frutos do mar como sua fonte primária de proteína. Muitos relatórios científicos documentam que no mundo inteiro os humanos já estão consumindo mais comida que o que vem sendo produzido. As implicações são óbvias.
A questão da acidificação dos oceanos está causando perda irreversível de espécies e habitats, e a tendência à acidificação está acontecendo até 10 vezes mais rápido que o projetado anteriormente. Nós queremos que você saiba o que isso significa, como afeta a nossa vida, e o que podemos fazer sobre.
Hoje, a concentração de CO2 na atmosfera é de cerca de 387 partes por milhão (ppm) e aumenta cerca de 2 ppm por ano. Se continuarmos com essa tendência, em 2040 a projeção é de que a atmosfera terá mais de 450 ppm, e os cientistas marinhos acreditam que o colapso da maior parte do ecossistema marinho será irreversível. Outros efeitos fisiológicos da acidificação sobre a vida marinha incluem mudanças reprodutivas, nas taxas de crescimento e até na respiração dos peixes.
Corais tropicais e de água fria estão entre as criaturas maiores e mais antigas que vivem na Terra; formam o ecossistema mais rico em termos de biodiversidade, fornecem áreas para reprodução, berçário e alimentação para 1/4 de todas as espécies do mar. Os recifes de coral estão sob risco. À medida que a concentração de CO2 aumenta, corais, crustáceos e outras espécies que produzem conchas não serão capazes de construir seus esqueletos e muito provavelmente se extinguirão.
A boa notícia é que nós podemos "consertar" este problema. Mas, como você pode imaginar, será difícil. A acidificação dos oceanos é causada pelo aumento do CO2 na atmosfera. Resolver um problema pode resolver o outro.
"O IPCC concluiu que, para estabilizar o CO2 na atmosfera a 350 ppm até 2050, as emissões de CO2 globais precisams er cortadas em 85% do nível de 2000." É bastante! Da forma como nosso sistema político funciona (ou não funciona) torna tudo mais complicado. Cabe a nós dar um passo a frente, se comprometer e arcar com a responsabilidade de permitir que isso aconteça na prática.
A acidificação dos oceanos é uma questão em que podemos fazer algo sobre. Precisamos de uma leva de cidadãos informados que sejam capazes de mobilizar o Congresso para ter coragem de se mobilizar contra os interesses arraigados da indústria de carvão, petróleo e gás que não se comprometem com a redução do CO2. Também precisamos de verdadeiros líderes que criem agressivamente empregos usando tecnologias sustentáveis. A escolha é nossa. Nós podemos resolver este problema. O que a gente sabe é que o futuro de nossos filhos, netos e de fato, de toda a humanidade, depende da nossa decisão.
Por favor, compartilhe esta carta com outros. Nós agradecemos que você tire seu tempo e contacte a sua representação política; é fácil de fazer e efetivo.
Obrigada pelo seu apoio.
Randy Repass
Presidente
West Marine
Sally-Christine Rodgers
Diretora
Oceana
(Um relatório mais completo sobre o tema você encontra aqui.)
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05.Junho.09
Sexta Sub: dia do meio ambiente
A Sexta Sub de hoje lembra esta dia especial no nosso calendário: o dia do meio ambiente. Para lembrar que a data é acima de tudo uma celebração do mundo natural que nos circunda (e onde vivemos), deixo aqui uma foto bem "verde", que me faz sentir muito bem toda vez que a vejo. Foi tirada em Bonito, um local que é para mim um exemplo de ecoturismo. Uma cena que eu torço muito para que seja cada vez mais o padrão: mais "verde" por todos os lados.
Tudo de bom sempre ao planeta.


























