14.Abril.09
Lost in translation: Hrvatska*
Eu adoro viajar, como todos devem estar carecas de saber. O que poucos sabem é que um dos momentos que mais me inspira numa viagem é quando não entendo absolutamente nada do que o povo local fala/escreve/expressa. Há ali uma incógnita deliciosa; uma oportunidade de prestar atenção na sonoridade e na musicalidade da língua sem se ater ao que efetivamente está se falando, ao significado; uma abertura para novos sons, sotaques e possiblidades fonéticas.
Para muitos, entretanto, estar "lost in translation" é um pesadelo. Entendo: é o momento em que você sai totalmente da sua zona de conforto e isso tem grandes chances de ser uma experiência traumatizante, principalmente num país alheio. Há a sensação de insegurança contínua - porque a língua é um dos portos mais seguros de um viajante, e quando você desancora dela, o barco pode ficar à deriva. Há o medo de ser mal-compreendido. Há a ansiedade a cada tentativa de interação, frustrada ou não. Há principalmente a sensação de impotência linguística. E há, é claro, as emergências, médicas e quetais, quando comunicação clara é imprescindível, e você torce a cada segundo no país de língua estranha para não passar por um apuro desses.
(Mas minha experiência parca me diz que não há (quase) nada que uma boa mímica não resolva, em qualquer canto do mundo, mesmo em algumas emergências.)
Nesta última viagem, fomos à Croácia e confesso que para mim, os primeiros minutos andando por Split, cidade na costa central croata, se perdendo em um monte de indicações ininteligíveis, foram os mais intrigantes da viagem. Não pela paisagem ou qualquer outro atrativo físico local, e sim pela impossibilidade completa da comunicação. Há um quê de liberdade bizarra em não entender e não ser entendido literalmente.
A língua croata (ou hrvatski, em croata) deriva do eslavo e é escrita em alfabeto romano, o que a torna a meu ver ainda mais intrigante, já que são caracteres aos quais estamos familiarizados. Mas as possibilidades de mistura são tão diferentes que encantam. O croata possui uma série de acentos estranhos, encontros consonantais impensáveis ao nosso ouvido latino. Para vocês terem uma noção do quebra-cabeças que é, copiei abaixo da página da Wikipedia sobre croata como são escritos os meses do ano:
Siječanj - Janeiro
Veljača - Fevereiro
Ožujak - Março
Travanj - Abril
Svibanj - Maio
Lipanj - Junho
Srpanj - Julho
Kolovoz - Agosto
Rujan - Setembro
Listopad - Outubro
Studeni - Novembro
Prosinac - Dezembro
Tentei usar a sonoridade que a Wikipedia mostrava, e percebi que nenhum mês soa parecido com nenhuma língua que conheço. Fascinante.

À venda nas cestas de uma rua de Split, ovos pintados para a Páscoa. A moeda local é o kuna (KN), enquanto o euro não chega.
Em todas as placas, letreiros, conversas e cartazes, o mesmo enigma. A senhora da barraquinha, o menino indo pra escola, o adolescente rebelde, o homem que fumava um cigarro: todos unificados pelo entendimento da mesma língua, e eu, noves-fora do cenário. São esses momentos, de total lost in translation que me reafirmam a beleza do viajar. Que tornam a caminhada impagável. E que nos mostram que a vida é mesmo uma grande viagem de aprendizado contínuo.
Tudo de bom sempre.

A única palavra que eu consegui entender de imediato em croata. ![]()
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- Apesar da curtíssima estadia, aprendi a falar obrigado (hvala, fala-se "hualá") e bom dia (dobro jutro, fala-se "dobru ultro") e... só. ![]()
- A segunda língua da Croácia deve ser o alemão, porque a todos que nos dirigíamos para tentar perguntar algo, logo nos retrucavam com "sprechen sie deutsche?" e não o chavão "do you speak english?".
*Hrvatska é o nome Croácia em croata. Daí vem o .hr, do final dos websites croatas.
30.Julho.08
Lost in translation: hangul, o alfabeto coreano

Fachada de um prédio comercial em Ansan, Coréia do Sul.
Eu sempre fui uma apaixonada por línguas. Filha de professora de francês, aprendi desde cedo a prestar muita atenção às diversidades sonoras dos idiomas. Minha mãe murmurava francês dentro de casa e mesmo eu não entendendo nada, adorava repetir algumas das frases feito papagaio. O som me encantava. Na adolescência, me empolguei e entrei na Aliança Francesa - já fazia curso de inglês desde os 9 anos.
Por isso, quando soube que iria morar na Alemanha, qual foi a primeira ação que tive (antes mesmo de olhar passagem e passaporte)? Matriculei-me num curso de "alemão de sobrevivência". Quando cheguei no Havaí anos depois, o que fiz? Assisti a aulas de havaiano por 1 ano. Eis então que em 2003 soube que iria me mudar para a Coréia do Sul e meu primeiro pensamento foi: preciso aprender coreano. Fucei e achei aulas de coreano básico na Universidade, e lá fui eu me aventurar pela nova língua.
Existe um abismo enorme entre aprender uma língua que usa os mesmos caracteres que os de sua língua nativa (no nosso caso, os caracteres romanos) e aprender um novo sistema completamente diferente. Você precisa ser alfabetizado novamente, e a percepção desse desafio é o que faz muita gente desanimar no início. Mas para mim, era mais empolgante ainda. Matriculei-me no "coreano de sobrevivência" e seja-o-que-silla-quiser.
Eis que então um universo novo começou a desabrochar na minha cabeça. O coreano é uma língua completamente peculiar e a única falada (e adotada oficialmente por um país) 100% inventada por uma pessoa, o rei Seojong, com uma data de surgimento precisa: em 09 de outubro de 1446. Seojong era um rei da dinastia Jeosong (ou Choson), cujo território engloba o que são hoje Coréias do Sul e do Norte. Muito interessado em cultura e artes em geral, durante seu reinado viu-se um florescimento de diversas invenções e tecnologias avançadas para a época. Além disso, Seojong também foi o responsável pela expansão do império coreano, e tinha preocupações militares que o inquietavam. Uma delas era a questão da comunicação.
Antes de inventar o alfabeto coreano, o povo daquela região falava uma língua que advinha do chinês, com modificações de estrutura gramatical e ordem das sentenças. Escrever, por outro lado, era privilégio dos mais nobres, que se utilizavam da complexa escrita chinesa, ou seja, dos caracteres chineses. Dessa forma, qualquer ordem estratégica militar escrita que caísse em mãos chinesas era facilmente decodificada pelo inimigo. Seojong então resolveu criar uma forma de escrever única, que apenas os habitantes do então reino de Jeosong pudesse entender. Inventou o hangul (ou hangeul), o alfabeto coreano.
O hangul foi imediatamente institucionalizado por Seojong, que obrigou todos os habitantes de seu reino a aprenderem a lê-lo e escrevê-lo, unificando assim a linguagem da península e facilitando a disseminação da informação para toda a população - o que de quebra fortaleceu estrategicamente a região, já que era um "código" único que só a península falava, desconhecido pelos invasores. Isso garantiu sua soberania política por mais de 100 anos na região. Os intelectuais da época foram contra a mudança (por que tanta honra aos trabalhadores braçais? Ler e escrever eram privilégios da elite, oras!). Tanto pressionaram que o hangul foi proibido no início do século XVI de ser utilizado em documentos. No entanto, já estava imortalizado entre as pessoas: era a língua do povo. Desde então, houve uma série de "proíbe-permite" do ensino do hangul nas escolas, até que depois da 2a Guerra, o hangul se estabeleceu definitivamente como o idioma da península coreana.
Um idioma de lógica muito simples, entenda-se. Composto por vogais e consoantes, como o nosso, e palavras formadas por sílabas, exatamente como as nossas. Embora a aparência pareça complicada (pelo menos nos olhos ocidentais), é das línguas mais lógicas do mundo. Seojong teve a preocupação de desenhar cada letra responsável por um som de acordo com o formato anatômico que a língua, a garganta, os dentes e a boca fazem ao pronunciarem aquele som. Ou seja, o hangul é um alfabeto totalmente baseado na fonética - suas letras (os jamos) são desenhadas pela fonética, usando tracinhos e bolinhas (essas últimas representam o som mudo, tipo "h" em "hotel"). Por exemplo, o som do "G" é representado pela letra "ㄱ", que é um diagrama básico da anatomia da língua em relação à garganta quando sai o som "gá".
O alfabeto tem 14 consoantes e 10 vogais e 11 ditongos (considerados como 1 letra), e as sílabas são sempre formadas por pelo menos uma consoante e uma vogal, desenhadas dentro de um quadrado imaginário que delimita a sílaba. Há também as "letras duplicadas", que seria mais ou menos como nossos "rr" ou "ss", mas com outros sons (em geral dando mais força à letra única que representam). Por exemplo, o "ㄱ" que falei acima tem sua dupla escrita "ㄲ" e fala-se com um pouco mais de força e ar expirado, soando quase como um "ká". Embora na Wikipedia comenta-se sobre a existência de 11 uniões consonantais, em 3 anos de Coréia eu não vi sequer uma palavra escrita com uma dessas letras. Portanto, em termos práticos do dia-a-dia, encontros consonantais são praticamente inexistentes.
Uma vez que você aprende as letras, você vira criança de 5 anos aprendendo a ler: para em frente a uma palavra e leva 30 segundos para falar uma sílaba, juntar letra a letra que acabou de memorizar com o som correto. Levei um bom tempo para conseguir ler um pouco mais rápido. Só a prática te permite isso e dado que o coreano é uma língua rara fora da Coréia (só nos bairros coreanos espalhados pelo mundo você tem contato com o hangul), meu conselho é que se você quer aprender coreano, vá passar um tempo por lá. Seul é legal e moderna, vale a pena.


No metrô de Seul, há placas e informações em 3 línguas: inglês, coreano e chinês. Com as Olimpíadas em 88, dentro dos carros do metrô também foi instaurada uma voz que anuncia em inglês a estação. Tradução da placa luminosa: "Próxima estação: Irwon. Saída pela direita."
Mas, uma vez que fui "alfabetizada", mais uma vez igual criança, queria ler tudo que via pela frente. Em termos gerais, se você sabe ler o coreano, já é o suficiente para se virar um pouco na Coréia (uns 30%, eu diria). Por uma razão simples: muitas das palavras utilizadas no dia-a-dia hoje vêm do inglês, e estão nas placas/avisos em inglês, apenas escritas com as letras coreanas. Veja o exemplo da placa abaixo:
"Snack Car" é a exata fonética do que está escrito em hangul. Ou seja, não há uma palavra em coreano para designar "snack" - então eles usam a palavra em inglês, apenas escrita com as letras coreanas. E isso se repete o tempo todo pela cidade, deixando mais fácil a vida pro estrangeiro que sabe ler o coreano. (By the way, esse é um ônibus-lanchonete, que estava estacionado perto do rio Han. Tinha um debaixo do viaduto perto da minha ex-casa que era "ônibus-restaurante", com aquário para peixes e lulas vivos, e de aparência mais dark que os filmes do Batman.)
Foi aprendendo coreano que percebi também outro abismo: aprender a ler e entender o vocabulário. Não me considero jamais uma falante de coreano. Sei ler, mas não sei o significado das palavras que leio, e nesse sentido, sou uma analfabeta funcional do idioma. O vocabulário da língua, exceto o que vem do inglês, é completamente diferente de tudo que se pode imaginar. Algumas palavras têm raízes chinesas, mas boa parte delas são únicas, criadas para e pelos coreanos. Isso para não falar da confusão dos números.
Há 2 sistemas numéricos em vigor na Coréia, o coreano e o chinês. Ambos são utilizados corriqueiramente, com regras que não parecem fazer sentido. Na dúvida, meu professor dizia para usar o chinês (?!?!). Por exemplo, para dizer as horas é assim: 8:40 você fala o "8" em coreano e o "40" em chinês. Telefones sempre use os números em chinês. Para contar coisas "palpáveis", use o sistema coreano. O preço das mercadorias é no sistema chinês que se fala. Durma com uma matemática dessas.
Apesar das dificuldades, o coreano é uma língua interessante, e a construção/criação do hangul é, a meu ver, simplesmente brilhante. O hangul pode até não se expandir mais militarescamente falando, mas veio pra ficar e para dar orgulho a uma nação unida pela ancestralidade e pela territorialidade.
Tudo de bom sempre.
******************
- A romanização das palavras coreanas ainda é motivo de muita discussão, acadêmica e popular. Por exemplo, a cidade de Busan também pode ser escrita como Pusan. Não há um consenso ainda na melhor romanização, e vai se fazendo do jeito que soa melhor.
- O hangul não tem fonemas para "V" nem "F" - esses sons não existem na língua. Portanto, toda vez que eles precisam traduzir pro coreano uma palavra com uma dessas letras, eles colocam "B" ou "P". Exemplo: "fork" vira "pork" e "video" vira "bideo".
- Vale lembrar mais uma vez: apesar de tudo parecer um monte de bolinha e pauzinho, o coreano usa letras, enquanto o japonês e o chinês escrevem por ideogramas. E pensa bem: não são as nossas letras também um monte de pauzinho e bolinha? ![]()
28.Outubro.07
Domingo à tarde, num bar em Minas...
Não me considero uma pessoa chata com português - pratico o exercício de não apontar os erros alheios já que eu também sou passível a eles, e evito indelicadezas desnecessárias acreditando que o cerne da comunicação é o entendimento, afinal. Mas quando abri o cardápio de um barzinho que fomos em Minas, na parte das pizzas, uma palavra me saltou à vista: muçarela. Escrita assim, com cê cedilha.
É claro, eu não devo ter sido a única a se incomodar com essa grafia, porque logo abaixo dessa mesma seção no cardápio havia o recado explicativo visto no rodapé da foto acima, dizendo que o dicionário Michaelis registra a grafia muçarela ou mozarela, e não mussarela.
A Wikipedia apresenta um sucinto compêndio sobre esse bizarro imbroglio gramatical envolvendo o queijo mais consumido no Brasil:
"Embora a origem da palavra seja italiana, conforme o local onde é fabricado, tem nomenclatura diferenciada. No Brasil, embora seja popularmente grafado como mussarela, encontra-se dicionarizado como "muçarela" (Houaiss, Michaelis) ou "mozarela" (Dic. Aurélio). "
Enfim. Enquanto comíamos uma pizza de muçarela no bar, saboreamos um delicioso chop de groselha e outro de menta, esses sem maiores problemas grafológicos. Eu adoro chopes com sabor. Acho que são as cores desses líquidos que me fascinam, porque trazem essa sensação de domingo à tarde tranquilo, com boas expectativas de uma semana melhor por vir. Um tintin colorido a todos, então.
Tudo de bom sempre.
15.Dezembro.06
Akamai
Dia desses li num jornal havaiano:
"Vastly improved maps and global positioning systems make it easier to figure out what the risks might be, and people are now "way more akamai about at least assessing" where they are in relation to the rift zone, he said."
Akamai. Tenho certeza que a palavra deixa mesmo aqueles que têm vivência da língua inglesa com dúvidas. Afinal, o que é "akamai" nesse contexto? Está num jornal de circulação razoável dos EUA, um veículo de informação que requer um tratamento jornalístico claro da língua. Entretanto, o uso de um termo 100% havaiano já nos mostra que mesmo onde a clareza deve ser lei, a realidade local fala muito alto.
Essa flexibilidade da língua entre os povos me fascina. Percebo isso principalmente com o inglês, tão difundido, que tropeça, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima, apesar de tudo. Molda-se nos diferentes locais do planeta por onde passa - e se enriquece.
Na ciência, o inglês é a língua oficial por excelência. Desde os primórdios do meu curso de graduação, todos os professores faziam questão de frisar que um bom inglês era essencial para um bom cientista - fato que comprovei quando saí do país. Mas, paralelo ao inglês, existe uma pseudo-língua que permeia a ciência: o cientifiquês.
O cientifiquês é um dialeto formado principalmente pelos termos técnicos da ciência. Subdivide-se inúmeras vezes: existe o biologuês, o quimiquês, e dentro deles outras divisões, como o genetiquês, o bioinformatiano, etc. Em geral, o dialeto é apenas acessível ao cientista especialista, embora sua construção gramatical seja a mesma do inglês. Veja esse exemplo de fisiologuês, subdialeto do biologuês:
"Here we report that despite a normal plasma 3,5,3'-triiodothyronine (T3) concentration, cold-exposed mice with targeted disruption of the Dio2 gene (Dio2(-/-)) become hypothermic due to impaired BAT thermogenesis and survive by compensatory shivering with consequent acute weight loss." (Tirei daqui.)
É claro, aos cientistas da área, esse parágrafo está cristalino como água. Mas se você perguntar a um cientista de outra área, ele provavelmente terá dificulades em entender o significado geral do que foi dito. Ou seja, o cientifiquês é tão hermético que gera compartimentalização mesmo dentro da ciência. Ao público em geral, que não lida ou não está acostumado com o linguajar, só resta confiar nos meios de comunicação e nos seus jornalistas científicos para "traduzir" aquela mensagem do cientifiquês geral para a língua corrente (escrita ou falada), um processo não tão simples e em geral frustrante. Basta abrir qualquer caderno de ciências dos grandes jornais em circulação no país para perceber essa realidade: cientistas frustram-se porque suas idéias não foram compreendidas adequadamente pelos jornalistas, e jornalistas frustram-se porque não conseguem simplificar uma idéia complexa sem banalizá-la ou reduzi-la a um chavão (muitas vezes errôneo). No final, quem sai perdendo é o leitor. Esse problema em geral deve-se a uma falha na comunicação: o cientista fala um dos subdialetos do cientifiquês, e o jornalista só aprendeu a lidar com o cientifiquês, e não detecta que existe um subdialeto no que o cientista fala. Fica realmente como se estviessem falando línguas diferentes, e o que sai dessa salada da comunicação é o que temos no momento como divulgação da ciência na grande mídia.
Já existem iniciativas interessantes que tentam "traduzir" os subdialetos do cientifiquês a pessoas de outras áreas - vejo isso muito, por exemplo, nos blogs de ciência, com seu potencial de discutir assuntos até então restritos à academia com um leque maior de pessoas, leigas ou não. A discussão abrange a todos nesse caso, e em geral, são nessas caixas de comentários que vemos a idéia complexa ser digerida e repassada da maneira mais simples, com um linguajar adequado ao público geral. Ou seja, a transição perfeita do subdialeto do cientifiquês para a linguagem corrente, simples e adequada, feita da forma mais orgânica e colaborativa possível.
Entretanto, gostaria de frisar que, em minha opinião, cabe também ao cientista tentar ser o mais claro possível, sem perder a essência do seu trabalho; adaptar seu linguajar ao seu público. Não é tarefa só do jornalista a tradução da idéia complexa em dialetos do dialeto: quando o cientista a passa de maneira clara, a informação chega muito mais facilmente ao público geral. A existência do cientifiquês, em minha opinião, é necessária, para que a velocidade de comunicação entre 2 especialistas seja mais fluida e permita maior assimilação de conceitos mais profundos entre eles. Mas isso não significa que ela deva se estender a todos. É necessário que o o cientista exerça bom-senso e não faça uso das mesmas expressões complicadas, e principalmente, assuma que a pessoa o entendeu perfeitamente. O cientista precisa se desligar do cientifiquês hardcore em certos momentos, principalmente na divulgação da ciência. Parece que estou falando o óbvio, mas canso de encontrar colegas que discorrem sobre seu tema fervorosamente como se o interlocutor fosse quase obrigado a entender tudo o que ele está dizendo. E vejo principalmente o interlocutor tímido, apenas balançando a cabeça, com cara de ponto de interrogação; ou seja, nada entendendo.
Para reverter esse quadro, talvez a solução esteja na arte de falar simples, arte que poucos dominam na ciência - o cientista se acostuma a só conversar com seus pares, e infelizmente perde o tato com o grande público. Isola-se em seu dialeto que apenas meia dúzia entendem. Ser claro, conciso e direto ao seu objetivo, sem rodopios ou palavras difíceis, especializadas deveria ser um objetivo preponderante nas conversas fora de seu círculo dialético. Muitas vezes o interlocutor não quer saber o detalhe do detalhe do seu trabalho: ele quer saber o seu objetivo geral - e é esse objetivo, seus resultados e afins que irão talvez chegar na grande imprensa, traduzidos do cientifiquês para o linguajar corrente por um jornalista ou divulgador. São os objetivos e resultados que precisam estar claros como água, para que o processo educativo e de conhecimento seja pleno para ambos os lados, cientistas e não-cientistas, sem mal-entendidos que geram frustrações. Para que ao lermos um texto especializado, o cientifiquês se flexibilize e seja incorporado à língua vigente tanto como o havaiano ao inglês: em ritmo de aloha.
Tudo de akamai sempre que possível.
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- Esse texto faz parte das discussões no Roda de Ciência nesse mês de dezembro, cujo tema é "a arte de falar simples".
- Akamai = vocábulo havaiano que funciona como substantivo, adjetivo ou advérbio: inteligente, esperto, ou inteligentemente, espertamente.
03.Janeiro.06
Alii 2006!
À parte meu desejo constante de passar todo e qualquer Ano Novo na praia, um sonho de infância que me perseguia desde sempre era o de passar a virada do ano numa praia remota de uma ilhota qualquer do Pacífico. Isso já havia semi-acontecido em 2002-2003, quando participei de uma festa brasileira em Waikiki - uma praia no Pacífico, mas nada remota. Portanto, quando decidimos passar o Réveillon 2005-2006 em Palau (Micronésia), comecei a vislumbrar que meu sonho de tanto tempo estava enfim por se realizar completamente.
(Parênteses: Fica aqui o lembrete para que outros não cometam as mesmas gafes geográficas que eu já cometi no passado: não confunda a região micronésia, que engloba 7 países - Palau, Ilhas Marshall, Ilhas Marianas, Kiribati, Nauru, Estados Federados da Micronésia (EFM) e Guam - com o país supra-citado pertencente a região micronésia chamado... Estados Federados da Micronésia, composto por 4 grupos de ilhas: Pohnpei, Yap, Chuuk e Kosrae. Toda vez que alguém cita qualquer coisa sobre a Micronésia, eu mallamente pergunto logo: "o país ou a região?" Fim do parênteses.)
Os planos começaram, assim como a organização para a viagem. Logo descobrimos que não há vôos diretos de Seul para Koror, capital de Palau, mas como era época das festas, no final de novembro uma agência de turismo coreana programou um vôo charter Seul-Koror sem escalas, e foi nessa jogada que nós entramos. Num vôo charter, a agência de turismo aluga um avião (no caso, da Asiana Airlines) e vende o pacote fechado - mas nós queríamos apenas as passagens aéreas, que conseguimos comprar após negociação. O resto da viagem ficava por nossa conta, e organizaríamos como quiséssemos. Apenas um porém: o vôo de volta sairia de Koror no dia 01 de janeiro às 3 da manhã. Apesar do horário péssimo, ainda seria possível aproveitar rapidamente a virada do ano em Palau, o que para mim era o que contava. Nada mal.
A confusão começou no dia da viagem de ida, ainda em Seul. Faltando menos de 6 horas para que saíssemos para o aeroporto, o agente de viagens ligou dizendo que o vôo da volta havia sido reprogramado para sair de Koror... às 11 da noite do dia 31/dezembro. Ou seja, bye-bye Ano Novo na praia, a festa agora teria que ser dentro de um avião. Minha frustração naquele momento era indescritível, meu sonho de criança desceu pelo ralo. E depois de meia dúzia de telefonemas, faltando 4 horas para sair de casa pro aeroporto, decidi me conformar em passar o Ano Novo dentro de um avião. E fui curtir Palau.
A viagem foi excelente. Mergulhos maravilhosos. Passamos 4 dias que mais pareceram 4 meses, tamanho relaxamento mental e desligamento do mundo em que estávamos. O lugar é paradisíaco, e nos próximos posts (uns 4, provavelmente) pretendo mostrar um pouco das aventuras que vivi, dos momentos curiosos, das viagens de barco, da história dessas ilhas.
Mas eis que a noite de 31/dezembro chega. Como íamos para o aeroporto às 9 da noite, decidimos fazer duas pequenas comemorações antecipadas: pela manhã, fomos tomar um mega-café da manhã num resort da ilha - uma indulgência razoável para o Ano Novo depois de dias numa pousada simples. A segunda comemoração foi no jantar, pois fomos a um restaurante indiano (eu amo comida indiana) onde pedimos uma champanhe para acompanhar. O dono do estabelecimento fez questão de abrir e nos servir, e trocamos votos de "Alii 2006" (Alii = bem-vindo, em palauano).


Vista da mesa de café-da-manhã onde começamos a celebração de Ano Novo. Ao lado, o indiano abrindo a champanhe comemorativa do Réveillon. Até aquele momento, ainda achávamos que nossa festa seria a muitos metros de altitude...
Fomos de mala e cuia às 9 da noite para o minúsculo aeroporto - que estava às moscas. Nenhum sinal de ninguém. Um guardinha veio nos perguntar o que estávamos fazendo ali, e informou que o próximo vôo só sairia de Koror às 5 da manhã. Até lá, o aeroporto estava fechado. Não entendemos nada. Já havíamos feito o check-out da pousada, sem contato algum com ninguém que pudesse nos informar da situação, pois o aeroporto de Koror nem guichê da Asiana tinha, já que era apenas um vôo charter. De repente, chegam 2 coreanos da agência de turismo e explicam que o horário do vôo havia sido alterado mais uma vez, e agora sairíamos às 6 da manhã de 1/janeiro. Apesar da desorganização e da raiva momentânea com toda essa prezepada da agência, percebi que meu Ano Novo na praia poderia voltar. Às 9:30 da noite de 31/dezembro, sem ter para onde ir, os mocinhos da agência decidiram nos hospedar num hotel onde estavam os demais clientes do pacote, e mal colocamos nossas malas no quarto novo, já começamos a matutar para onde poderíamos ir. Não pensei duas vezes: vamos para o resort do café da manhã, que tem uma praia, e onde eu lembrava ter visto um anúncio para um luau de Réveillon.


A brincadeira de passar por debaixo da "cordinha" (na realidade, uma pedaço de madeira) agitada pela banda palauana para o pessoal presente. Ao lado, o relógio digital do hotel já no Novo Ano que chegara há poucos segundos.
Ao chegar naquela prainha do resort, tive vontade de chorar de emoção. Já eram quase 11 da noite, e um grande painel digital fazia a contagem regressiva. Os hóspedes do hotel (a maioria japoneses ou americanos) se entretiam com uma bandinha palauana típica e com as brincadeiras feitas pelos cantores, que animados improvisavam uma dança da vassoura. Faltando 10 minutos para a meia-noite, serviram champanhe para todos - até para nós, penetras de última hora. Não conseguia parar de pular e dar risadas! Corri para perto da água, pulei ondas, gritei, corri, e aí comecei a ouvir a galera gritando... "Five! Four! Three! Two! One! HAPPY NEW YEAR!!!!!!!!!" E as pessoas brindando, se abraçando, naquele clima tropical, naquele calor humano, naquela esperança transcendente que só o Ano Novo traz a todos nós. Meu coração disparado de tanta alegria. E eu estava com meu amor ali, descalça, numa praia remota de areias branquinhas no Pacífico, isolada do mundo, vivendo aquele sonho há tanto esperado.
Alii 2006 para todos e, em breve, as outras histórias da Malla em Palau.
Tudo de bom sempre.
*Mais fotos de Palau aqui.




















