22.Abril.08
Pela ética ambiental
Hoje é o dia da Terra, e nós, do Faça a sua parte, estamos coordenando uma blogagem coletiva sobre essa data, que é considerada sem dúvida como uma das mais importantes do calendário ambientalista. Nesse mesmo mês, coincidentemente, o Roda de Ciência decidiu discutir sobre o papel do cientista nas decisões éticas da sociedade. E eu aproveito então a dupla oportunidade surgida para compartilhar algumas reflexões randômicas minhas, relacionadas à ética ambiental.
O conceito mais simples que achei de Ética é:
"Um ramo da filosofia que estuda os valores e costumes de uma pessoa ou grupo, incluindo a análise de conceitos como bom e ruim, certo e errado e de moral e responsabilidade."
É um conceito amplo e termina sendo utilizado em outros contextos por diversas áreas do conhecimento que lidam minimamente com responsabilidade e moral. Há portanto a ética dos negócios, a ética científica, a ética social, a bioética, e por aí vai. Todos englobam a postura humana perante os demais e/ou o ambiente intelectual ao redor. Ultimamente, entretanto, é o conceito de ética ambiental que vem martelando na minha cabeça. Na definição mais abrangente possível, ética ambiental é "a parte da filosofia que aborda as questões éticas entre humanos e o ambiente natural que os circunda". E é aí que meu cérebro começa a dar nó.
Porque se analisarmos com cuidado e ao pé da letra, percebe-se logo que os valores e costumes do grupo humano em relação ao ambiente natural ao redor (nosso querido planeta azul) vêm sendo de uma falta de responsabilidade absurda - e portanto não-éticos. Poluímos, extinguimos espécies, aquecemos o planeta, sujamos os mares, nos importamos egoisticamente apenas com o conforto da nossa própria espécie - tudo em tamanho extra-large. Só que o planeta não cresce em tamanho extra-large para acompanhar e aguentar toda a irresponsabilidade do Homo sapiens onipotente-onipresente-oniinconsciente: ele continua com o mesmo tamanho geográfico de quando foi formado há alguns bilhões de anos. Ou seja, recursos limitados e uma espécie que não quer nem pensar em ter limites soa como a receita perfeita para o fracasso. Que é o que estamos presenciando, o início de um grande desastre ambiental.
Recentes pesquisas apontam para um crescimento de 1.5m do nível do mar até 2100 - e não os 59 cm imaginados antes. O mar já estará sem peixes até lá, graças à fome de muitos e ao lixo exagerado que jogamos nele. Calotas polares se partem perante os nossos olhos. Grupos inteiros ameaçados de desaparecer para sempre. E o que a maioria dos seres humanos que compartilham o planeta faz para evitar tudo isso? NADA. Absolutamente nada.
Será essa uma atitude ética, no mais amplo sentido da palavra? Será que nossa noção humana do que é "certo" ou "errado" em relação ao ambiente é de cunho minimamente responsável?
A meu ver, a resposta é um sonoro "não". Triste isso.
Para (tentar) ter ética ambiental, é necessário primeiro que as pessoas entendam o que vem a ser "certo" e "errado" de se fazer com o planeta e que diminua os danos já sofridos, e para isso, o único caminho plausível que vejo é o binômio educação/informação. São essas duas armas que podem mudar a atitude humana. A base da educação e da informação, entretanto, deve ser projetada pelos que entendem um pouco mais do assunto: os cientistas, das mais diversas áreas envolvidas com problemas ambientais da atualidade. São eles que deveriam ter a responsabilidade moral de informar o público (ou pelo menos repassar de forma clara e pragmática) sobre a realidade que os dados vêm mostrando e principalmente, informar os políticos, para que eles sejam capazes de tomar decisões lúcidas sobre os problemas ambientais que surjam. Tanto público quanto políticos, por sua vez, têm a responsabilidade moral de se dispor a querer entender esses problemas, tentar apaziguar e/ou encontrar soluções que não ponham em risco o equilíbrio populacional de outros indivíduos, seja de que espécie for. A partir dessas responsabilidades assumidas, podemos finalmente demonstrar um mínimo de ética ambiental.
Infelizmente não é isso que vemos e, às vezes, a sensação que eu tenho é de caos total. Cientistas que parecem falar pras paredes, em linguagem ininteligível; governos que não fazem a mínima questão de ouvir quem entende do assunto (ou quando ouvem, fingem tomar atitudes esdrúxulas); pessoas leigas desorientadas, sem saber pra onde correr, que atitude tomar. Como ser ético num ambiente desses?
A ética ambiental requer uma postura mais "ativa" de todos no planeta. Não adianta só uma meia dúzia de gatos pingados se dispôr a reciclar, porque o planeta Terra já está quase atingindo o chamado tipping point, ou seja, um ponto em que será impossível controlar a reversão da situação ambiental para os níveis adequados à sobrevivência confortável nossa e de tantas outras espécies. É preciso uma mobilização em massa para reverter esse quadro, um investimento relevante em educação e informação sobre ambiente e uma tomada de atitude ontem.
Só assim poderemos nos vangloriar de sermos ambientalmente éticos: deixando um planeta decente para as futuras gerações viverem.

Crianças das Ilhas Marshall: em 2100, o país delas provavelmente não mais existirá e os filhos delas serão refugiados ambientais. É esse o futuro que você quer garantir para eles?
Pela ética sempre. De todos e para todos.
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- Esse post é um duplo-cross: faz parte da blogagem coletiva do dia da Terra e é a minha contribuição do mês para os debates no Roda de Ciência. Exercite sua responsabilidade ambiental: informe-se e participe das discussões sem pudor.
- Você não sabe o que fazer sobre o aquecimento global? O 1001 Gatos de Schroedinger liberou um esquema divertido e simples de como fazer a sua parte. Ações simples e eficazes para começarmos a demonstrar um pouco de ética ambiental.
- Foi escolhida pela blogosfera gringa a semana de 27 de abril a 02 de maio como a "Semana dos Recifes de Corais" - no Ano Internacional dos Recifes de Corais. Alguns blogs em inglês envolvidos com causas marinhas postarão durante a semana toda sobre o tema. Eu pretendo fazer em português o mesmo por aqui. Vai ser uma semana de festa aberta a todos: sintam-se convidados a participar. ![]()
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Blogs que participaram da blogagem coletiva pela Terra:
Aline (Sotaque Mix)
Allan (Carta da Itália)
Ana Cláudia Bessa (O futuro do presente)
André Marmota (Marmota mais dos mesmos)
Andréa Motta (Leio o mundo assim...)
Andréa N. (Brazil Nut e In other worlds)
Andréa Poça (Dicas de ciências)
Anny (Blog Linha)
Banco do Planeta
BHY
Branco Leone (Um blog sem conteúdo)
Carla do Brasil (Enquanto seu blog não vem)
Carla do Brasil (Recanto da deusa doméstica)
Carlos Hotta (Brontossauros em meu jardim)
Carol Costa (Guindaste)
Catatau
Cidão (Chronicles & Tales unlimited)
Clarisse (Clabrazil nas Zuropas)
Cláudia (Sabiá sabe assobiar)
Claudio Costa (Pras Cabeças)
Cristiana Passinato (Meio ambiente, química e derivados)
Cristiana Passinato (Pesquisas de Química)
Daíza (Farofa na neve)
Danilo (Tkgeo)
Denise Arcoverde (Síndrome de Estocolmo)
Denise BC (Alecrim Dourado)
Denise Rangel (Sturm und drang!)
Eduardo (Drops Azul Anis S)
Elvira (Pensieri...)
Fátima Queiroz (Blogosfera solidária)
Flávio Prada (Lixo tipo especial)
Georgia (Saia Justa)
Jugioli (...Só poesia e outros itens...)
Juliana (Fragolina)
Laerte Pupo (Ipsis photos)
Laura (Caminhar)
Lenissa (Centelhas de idéias)
Lucia Freitas (Ladybug Brasil)
Lucia Malla (Uma Malla pelo mundo)
Luma (Luz de Luma)
Luma Rosa (Amigos da Blogosfera)
Lunna (Acqua)
Luz Fernández (Carbono Zero)
Lyanne (Viajante consciente)
Madalena Barranco (Letras de morango)
Maffalda (Maffalda convoluta)
Marcelo (A sopa no exílio)
Maria Augusta (Le Jardin Ephémère)
Mariza (O poço dos desejos)
Meiroca (Pensieri e Parole)
Menina Eva (Cintaliga)
Miriam Salles
Nana (Lealdade feminina)
Núccia (Psicologando)
Projeto Jogo Limpo (Blog do Jogo Limpo)
Rafael Motta (Por aí)
Ramos (Ramos Forest Environment)
Rede Jornal de Bordo
Regina (Always por um triz)
Regina Ramão (Neurótika.com)
Rodrigo Barba
Silvia D. Schiros (Faça a sua parte)
Tristão (Sarapalha)
V. Carlos (Amando ao próximo)
Ví (A Vísion of Eden)
Zé (Zé Offline: parodiando o mundo online)
Zel (Zel v3.4)
26.Janeiro.08
Rodando na Ciência: Coréia do Sul

Prédio onde trabalhávamos em Ansan, Coréia do Sul.
Um grande desafio. Foi assim que encarei a proposta de ir para a Coréia do Sul, quando fomos contratados, André e eu, por uma empresa de biotecnologia próxima a Seul. Eu pouco sabia da Ásia a não ser o básico da informação geográfica. A curiosidade falou mais alto: "vamos!". Matriculei-me na aula de "coreano de sobrevivência" e 6 meses depois encarei o desafio de morar na Coréia do Sul.
Ainda não me lembro direito do dia que cheguei em Seul - o jet lag me consumiu por boas semanas, e eu dormia e acordava fora do ar. Mas aos poucos fui acertando meu relógio biológico de modo a poder trabalhar efetivamente. Com tanta coisa nova de uma vez só e a enorme dificuldade para me comunicar com os coreanos, não foi raro eu chegar com dor de cabeça em casa no início da nossa temporada nas terras de Confúcio. Ainda lia coreano como uma criança de 6 anos aprendendo a ler sua própria língua, e me sentia patética levando 1 minuto para entender o nome de uma estação de metrô - para não falar dos erros de leitura que geravam pequenos micos, é claro.
Com o passar do tempo na Coréia, todas essas dificuldades de iniciantes foram se amenizando, e eu comecei a focar profundamente na nova linha de pesquisa que me levara ali. Estávamos numa empresa, a temática principal era "proteômica", e precisávamos bolar um projeto que envolvesse diabetes tipo 2. Nem eu sabia direito o que era proteômica, naquela altura do campeonato. Mas eu entendia um mínimo de fisiologia de diabetes, e partimos daí para bolar o projeto.
Nossa chefe era uma expert em espectrometria de massa e havia um químico colaborador da Universidade de Dankook que produzia requintadamente compostos derivados de vanádio e zinco para testes - é sabido desde o início do século XX que alguns derivados de metais pesados melhoram a resistência à insulina que acomete o diabético. A vantagem desses compostos é que eles poderiam se transformar num futuro longínquo em pílulas, ou seja, tratamentos orais. Montamos então um ensaio em grande escala (o chamado "high throughput") feito por um braço robótico (aprender a lidar com o "robô" foi uma novela à parte) para testar esses compostos modificados, usando como parâmetro a eficiência da inibição do PTP1B, enzima-chave do metabolismo de insulina em humanos. A cada nova ligação carbônica que o colaborador adicionava nos compostos de metal pesado, a inibição do PTP1B era registrada e, inúmeros ensaios depois, concluímos que o composto mais simples entre os vanádios era o de melhor eficiência.
Resolvemos então olhar para a inibição que esse composto acarretava em células de tecido adiposo (gordura) de camundongo, ou seja, num sistema vivo. Como bons fisiologistas endócrinos que somos, puxamos a sardinha pro nosso lado e incrementamos os experimentos analisando alguns hormônios e substâncias que o tecido adiposo libera normalmente - como esses hormônios se comportavam com tratamentos de vanádio. Indiretamente, medíamos a inibição da mesma enzima trocentos passos depois. Para o projeto, tive a ajuda fundamental de um estudante de graduação chamado Min-chol, que mal falava inglês - imagine a dificuldade de explicar ciência para ele, era como falar hebraico para um tuvalense. Min-chol me ajudava a fazer zilhões de Western Blots por dia, e graças à ajuda dele, conseguimos no final resultados bem legais das medições de hormônios secretados pelas células de gordura.
Entretanto, estávamos numa empresa pequena, onde o espaço para delírios viajantes científicos é restrito. De modo que por mais que o projeto de fisiologia fosse interessante, tivemos que começar a investir tempo numa aplicação que rendesse algo de volta à empresa. Talvez essa mentalidade da "ciência-business" tenha sido o maior aprendizado de ciência que tive na Coréia.
Entramos de cabeça em proteômica, de alta categoria. Começamos a desenvolver testes fisiológicos para comprovar a eficácia de placas de MALDI-TOF que a própria empresa desenvolvia, a preços beeeeem mais baratos que as do mercado. A tecnologia inovadora do produto foi patenteada.
Apesar do sucesso do produto, cada vez mais nós sentíamos que era chegado o momento de partir. 3 anos de Coréia se passaram e no final das contas, com todos os tropeços, micos e risadas, acho que eu passei no teste da Ásia. E de vez em quando me pego com saudades de dizer umas palavras, como...
Anyeong hasseyiô!
(Vocês sabem o que significam as palavras que acabam um post em terras mallas...)
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- Meu blog nasceu na Coréia, então muitos posts contam a vida por lá. Para lê-los, basta clicar na categoria Coreanices.
- A ascensão e queda do professor Hwang e sua clonagem humana falsificada aconteceu no período em que estávamos na Coréia. Pudemos acompanhar toda a comoção nacional que envolveu o caso. Educativo, pra dizer o mínimo.
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Os posts da mini-série Rodando na Ciência você pode ler nos links abaixo:
- Rodando na Ciência: Viçosa
- Rodando na Ciência: Potsdam - Sampa
- Rodando na Ciência: Boston
- Rodando na Ciência: Honolulu
- Rodando na Ciência: Coréia do Sul
25.Janeiro.08
Rodando na Ciência: Honolulu
Eu estava na casa dos meus pais quando o aloha spirit entrou na minha carreira científica. Trabalhava então em Boston, estava resolvendo coisas no Brasil, e precisei por algum motivo banal ligar para minha chefe na Harvard. Ao ligar, ela cheia de dedos, começou a falar que o laboratório estava de mudança, que ela havia feito um concurso em outro lugar e passara. "Se você não quiser ir junto, não se preocupe, não ficarei chateada, entendo perfeitamente, e te referencio para outro professor que te aceite aqui, sem problema algum. Mas quero deixar a escolha a seu critério."
"E para onde o lab vai se mudar?" perguntei já com receio da resposta. Sair de Boston para um cafundó republicano qualquer dos EUA não era o plano de carreira que eu pretendia viver. Mas aí veio a resposta em voz cautelosa:
"Er... Pro Havaí..."
"Eu topo!"
Sério, eu não pensei nem 2 segundos para responder. Como dizia minha vó, "vai perguntar a macaco se quer banana?" Ao ouvir a palavra mágica "havaí", logo a imagem de sol e ondas me inundou o cérebro, e eu percebi que essa chance era única. Melhor, eu ia para lá trabalhar com o projeto científico que mais gostei na vida, aquele a que mais me dediquei de corpo e alma, que mais me estimulara até então. Biologia molecular, praia, vulcões, calor: eu vislumbrava o paraíso.
Mudar um laboratório de um estado para outro não é tarefa simples. Pior, a alfândega no Havaí é bem rigorosa - afinal, numa ilha, há de se controlar com cuidado o que entra e o que sai para não vandalizar o ecossistema. Uma semana antes da mudança efetiva, o laboratório foi "empacotado pra viagem" e nós, pesquisadores, liberados. Passei uns dias em San Francisco, e desembarquei em Honolulu numa linda e ensolarada manhã de sábado.
Parece incrível, mas ao desembarcar no aeroporto eu já me senti em casa. Fomos para o alojamento reservado para nós nesse período de transição, e eu mal deixei as malas no chão e peguei um ônibus até Waikiki. A primeira vez que você vê o Diamond Head, você não esquece. Jamais. A cada esquina andada, mais eu me encantava com a cidade. Bastava saber como seria trabalhar ali.
Levou quase um mês para liberar nosso "laboratório" das docas. Nesse período, fomos nos familiarizando com as pessoas e regulamentações da universidade, comprando equipamentos que não pudemos trazer de Boston, planejando os experimentos. Eu ia continuar o mesmo projeto com que trabalhava em Boston, o de tentar entender o mecanismo de tradução das selenoproteínas. Como fonte de inspiração tínhamos a cratera do Diamond Head vista de uma das janelas, e o vale de Manoa com seus arco-íris quase diários da janela dos fundos, duas das paisagens mais belas da ilha de Oahu. Quando a mudança chegou, estávamos prontos e inspirados para começar a agir.
Foi então que eu me vi fazendo algo realmente novo: orientar estudantes. Minha chefe me deu um estudante para orientar - depois, mais 2 se juntaram nessa experimentação biológica. Orientar me abriu a cabeça. Percebi a dimensão da dificuldade e beleza intrínseca do processo de aprendizagem científico. Explicar detalhes, mostrar como faz... relembrei meu primeiro orientador "Nivaldo" e tentei ser como ele, minucioso, intrigante, indagador e respeitador do conhecimento alheio. Porque ensinar é uma via de dois caminhos: se você não aprende junto com seu estudante, você não está orientando.
Com os estudantes, o conceito de "rotina" mudou bastante. Antes, todo o trabalho dependia de mim, apenas - eu pedia ajuda a colegas de vez em quando para uma ou outra atividade, mas no final das contas, era eu colaborando comigo mesma. Já com orientados, passei a ter uma responsabilidade sobre a ciência do outro. Eu me esmerei ao máximo para transformá-los em cabeças pensantes científicas e não meros fantoches de bancada. Para isso, explicava, discutia, desafiava, animava-os a entender os fatos que o experimento coloca. Mostrei a importância da estatística e do ceticismo para a ciência. Imagino que essa responsabilidade de orientar seja, guardada às devidas proporções, como após se ter um filho: você sempre fez escolhas para sua vida pensando apenas em você e depois do bebê, você passa a ter um ser humano que depende diretamente das suas escolhas, o que te força a pensar muito mais no que realmente deve ser feito, para não estragar a vida do outro. Tenho orgulho de dizer que fui bem-sucedida com os 3 estudantes - uma delas inclusive se apaixonou tanto pelas intrigas e questões que se tornou uma CSI de verdade, usando a ciência para resolver pendências judiciais. Um barato.
De modo geral, minha rotina passou a ser menos de bancada e mais de organização do lab. Eu gerenciava os experimentos que os estudantes faziam, procurava novidades na literatura, tentava juntar as peças do quebra-cabeças que se desenvolvia na minha frente com todos aqueles dados de proteína, cultura de células, bactéria e microscopia confocal que se acumulavam. Era a tradução da selenoproteína que me intrigava, como o RNAm não se degradava no núcleo da célula, como isso afetava a função celular. Participava intensamente de todas as etapas do desenvolvimento científico, e essa estimulação constante me deu um prazer enorme. Foi a época mais intelectualmente recompensadora em um laboratório por onde passei.
E isso sim é a definição de paraíso para um cientista.
Tudo de bom sempre.
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- Rodando na Ciência: Coréia do Sul
23.Janeiro.08
Rodando na ciência: Boston

O "Quad" da Harvard Medical School.
No início, era o deslumbramento. Ou deveria ser, já que eu estava na Harvard, o sonho dourado de qualquer pesquisador do planeta. Acontece que eu cheguei lá com tanta vontade de aprender e fazer ciência que não tive muito tempo para me deslumbrar com a universidade em si. Encarei de corpo e alma o laboratório. Foi depois de algum tempo que comecei a realmente perceber a beleza e a delícia de andar sobre a grama do Quad da Medical School.
Boston é uma cidade vibrante, com uma vida cultural intensa. Espetáculos de dança contemporânea incríveis. Duas grandes escolas de música, a Berklee e o New England Conservatory, de onde saem os grandes nomes da música mundial, ambos a poucos quarteirões de onde eu trabalhava e com vários eventos musicais gratuitos nas noites da semana. Se tem uma palavra que resumiu meu período extra-lab em Boston, essa palavra é música. Vi inúmeros shows maravilhosos, com artistas geniais (Dave Brubeck foi o mais marcante deles, sem dúvida), conheci músicos nota 10, frequentei gigs em bares de jazz inesquecíveis - o melhor deles era sem dúvida o Wally's Café, na Mass Ave. Onde tinha jazz, eu estava pescoçando junto. Boston respira música e aquele ar me fazia bem.
Mas nem tudo eram claves de sol. Poucos meses depois de eu ter chegado, houve o 11 de setembro, que abalou tudo e todos. Além disso, eu sofro levemente de depressão sazonal. Não suportava o frio, que em Boston é multiplicado pelo vento - lembro de um Natal que fez -30 graus e eu chorei de frio no meio da rua. No inverno, tudo que eu queria era ficar em ambientes indoor, me dedicar mais ao laboratório, para pensar o mínimo no mundo ao redor que congelava.
O inverno aos poucos me destruía, mas o trabalho no lab me renovava a cada momento. Meu projeto era de biologia molecular hardcore, como sempre sonhei: entender mais detalhes do mecanismo de tradução de selenoproteínas, as proteínas que contém selênio em sua estrutura. Minha rotina era semanal: na segunda-feira, preparava as células de mesotelioma (um tipo de câncer de pulmão que produz grandes quantidades de uma selenoproteína); na terça, transfectava o gene de interesse (mudava a cada semana, de acordo com os resultados que eu ia obtendo); quarta era o dia mais light, em que eu apenas checava o andamento das células (e em tese podia ir a biblioteca ler algo, ou resolver coisas na rua); quinta preparava as células para microscopia confocal, um processo que levava o dia inteiro de "tira e põe solução" em lâminas de vidro que escorregavam facilmente da mão; e sexta fazia finalmente a microscopia. Era sagrado passar as manhãs de sexta na sala do microscópio confocal com minha amiga Michelle, a técnica responsável pela máquina, vendo células coloridas e conversando harvardices. Na sexta à tarde, se o resultado fosse bom, mostrava à chefe, que era uma pessoa maravilhosa. Se fosse ruim, quebrava a cabeça tentando entender para melhorar na semana seguinte. E assim foi minha rotina semanal em Boston.

Algumas fotos de microscopia confocal que eu fazia nas manhãs de sexta. A figura completa foi retirada do artigo que publiquei há 2 anos, e são células embrionárias de rim (A, G e H), de mesotelioma (um tipo de câncer de pulmão; B, E e I) e de hepatoma (câncer de fígado; C e F). Em azul em A, G, H e I, o núcleo celular. Em vermelho ou verde, as proteínas que estudávamos.
Mas mais que a rotina laboratorial, trabalhar na Harvard me trouxe uma visão muito mais apurada da ciência em si. As discussões sobre o processo de formação de um cientista eram muito pragmáticas e riquíssimas, a concorrência entre labs era insana, e a sensação de "tenho que estudar mais" era uma constante adorável. Apesar do clima estressante, a Harvard era paradoxalmente muito boa de se trabalhar. No geral, não me sentia "estressada" em minha bancada, envolta em pipetas e placas de Petri.
Hoje, posso dizer que tenho saudades de Boston e dos tempos de Harvard. Não gostaria de voltar a morar lá, o frio excessivo ainda me espanta. Mas há uma saudade boa, de um momento que valeu muito a pena ser vivido. Fiz amigos de verdade, aprendi técnicas modernas, entendi a velocidade que a ciência tem no exterior (e por que a burrocracia brasileira é o maior empecilho ao pesquisador nacional) e principalmente como fazer/pensar ciência. Percebi que não precisa ser nenhum gênio para chegar na Harvard Square. É preciso determinação e aplicação, do fundo do coração, sem deslumbramento e com o pé no chão. Como em qualquer lugar e qualquer profissão do mundo, aliás.
Tudo de bom sempre.
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22.Janeiro.08
Rodando na ciência: Potsdam - Sampa
Minha história com São Paulo vem de muito longe. Mais precisamente, do outro lado do Atlântico.
Tudo começou em Potsdam, na Alemanha, para onde fui depois de me formar em Biologia. Fui fazer um estágio organizado pelo IAESTE, seria "summer student" de um laboratório de Fisiologia do Estoque Energético. Mas mais importante que qualquer outra coisa, seria também a primeira vez fora do país.
No laboratório, fui levada a trabalhar com um rapaz francês chamado Stéphane, que morava em Prenzlauerberg, Berlim. Rapaz sério, conhecia muito de metabolismo de gordura, além de Bauhaus e do Berliner-way-of-life dos primórdios da Love Parade. Stéphane se tornou um grande amigo. A gente se fala até hoje e ele veio ao Brasil 2 vezes - amou a Praia do Forte.
Em Potsdam, o laboratório trabalhava com fisiologia do tecido adiposo de hamsters na tentativa de entender a sinalização hormonal envolvida no desenvolvimento da obesidade. Minha chefe era renomada dentro do campo, e o mais interessante na rotina germânica eram as refeições, todas feitas em conjunto pelo departamento inteiro. Às 9 da manhã, café da manhã e às 12:30h, almoço (ou melhor, lanchinho do meio do dia, já que a maioria só tomava um copo de iogurte mas ficava sentado lá por meia hora conversando). Às 5 da tarde, a maioria já tinha ido embora para seus afazeres domésticos. Uma típica organização alemã, levada ao extremo. Nas palestras semanais, os cartazes anunciavam o horário e uma sigla estranha depois, que descobri significar 10 minutos de atraso. Ou seja, até para atrasar, os alemães eram organizados.
Fato é que saí da Alemanha muito interessada naquele novo campo que se abria para mim, o da Fisiologia Endócrina Humana. E escolhi-o como carreira. Entre os artigos que lera em Potsdam, havia o de um pesquisador brasileiro da USP. Escrevi para ele um longo email, perguntando sobre a possibilidade de trabalhar em seu laboratório. Fui aceita.
Precisava entrar no programa de pós-graduação da USP, e o fiz. Mas o pesquisador que me interessava estava saindo para um sabático em Boston, e fui então realocada para outro professor, supostamente da mesma área. Naquele momento, isso não me pareceu problema algum, mas burocraticamente, foi gerada uma tensão desnecessária que me calcificou muito na pós.
Foi nessa época que começou minha rotina laboratorial e estudantil. Entre uma aula e outra da pós, ralava no lab. Meu experimento consistia em colocar ratos na geladeira - e antes que qualquer um reclame, os ratos não sofrem à temperatura baixa, exatamente porque possuem um tecido adiposo diferenciado do humano, tecido este que eu pretendia entender melhor em termos de sinalização hormonal (principalmente, o envolvimento do hormônio tiroideano). Ratos no frio se comportam como se nada estivesse acontecendo, basta não se molharem - aí eles entram em hipotermia e podem morrer. Nas primeiras horas, ele até tremem um pouco, para produzir calor via ativação muscular, mas depois de um tempo, eles ficam a 4 graus numa boa, se adaptam mesmo. Entender as bases fisiológicas por trás desse mecanismo de adaptação ao frio dos roedores tornou-se então meu mote de tese. Era fascinante.
Em geral, chegava no lab e, após o café com o Zé e a Célia, começava o trabalho. Retirava as amostras de músculo e tecido adiposo do freezer -80, e começava a extrair o RNA dos ratos que ficaram na geladeira. Esse RNA era então utilizado para ser transcrito de forma reversa, ou seja, gerar uma molécula híbrida de DNA-RNA, que serviria de base para o famoso PCR, técnica que é largamente utilizada hoje nos laboratórios do mundo e rendeu o prêmio Nobel a um surfista que nas horas vagas fazia bioquímica. No PCR, ocorre uma multiplicação exponencial da molécula de DNA-RNA inicial, que realçará, depois de um número X de ciclos, as diferenças em expressão daquele RNA inicial.
Com os resultados de cada PCR feito, ia montando o quebra-cabeça do funcionamento fisiológico daqueles ratos. Mas vários problemas foram aparecendo pelo caminho - acho que raras são as pós-graduações sérias sem problemas, não? Frustrações principalmente com o meu orientador do papel, que era novato no departamento (eu era sua primeira aluna de pós). Frustrações também com a politicagem e burocracia envolvidas num curso de pós, com as fofocas de corredor, com os "Q.I.s" exigidos para que as coisas andassem. No meio da pós, eu era um estilhaço humano. Apesar da cidade de São Paulo, que eu descobrira, aprendera a gostar e cada dia se mostrava mais atraente e adorável para se viver, cheia da energia que eu precisava para sobreviver.
Fui então convidada a visitar um laboratório em Boston, onde alguns experimentos com camundongos em geladeira foram realizados na mesma linha de pesquisa - e onde meu escolhido orientador estava em sabático. Vieram de lá meus resultados mais interessantes, onde ficava claro o quão indispensável era o hormônio tiroideano no processo de adaptação ao frio dos roedores. De posse desses resultados, pude finalmente defender a minha tese.
A lição que ficou: ciência é uma caixinha de surpresas. Às vezes boas, às vezes nem tão boas. Mas o mais importante: você é quem decide quando abre sua próxima caixa de Pandora.
Tudo de bom sempre.
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- Rodando na Ciência: Coréia do Sul


















