22.Agosto.09
Em Ficarolo
Durante nossa ida a Itália em abril, passamos um dia por Ficarolo, uma cidadezinhazinha do interior da Comune de Rovigo e às margens do rio Pó. É dessas cidades pequenininhas, extremamente agrícolas, que têm 3 ruas, uma praça, a igreja e fim. Mas nem por isso deixa de ter seu charme - ou talvez exatamente por isso o tenha.
Ficarolo está a meio caminho entre Bologna, Rovigo e Padova, acessada em uma das saídas da A13. A cidade não possui nenhuma iguaria culinária típica - o que na Itália é quase um sacrilégio. Entretanto, a influência de Bologna já basta: há uma enorme quantidade de defumados vendida no mercado.
Chegamos em Ficarolo à noitinha. Sem muitas opções de estadia, terminamos nos hospedando numa pousadinha na beira da estrada muito simpática. Estrategicamente ao lado da pousada, um restaurante familiar. Decidimos encarar aquela experiência gastronômica.
E ainda bem que fomos. Pedi uma macarronada carbonara e André uma pasta de frutos do mar, tudo com um vinho da casa pra acompanhar. Não nos decepcionamos. A comida preparada era dos deuses. Na Itália, mesmo num restaurante de beira de estrada, a comida é deliciosa. (Ajuda muito o fato da gastronomia italiana ser a minha favorita, é claro.) Adorei.
No dia seguinte, ainda no café da manhã, ficamos sabendo do terremoto na região de Abruzzo. O jornal mostrava um verdadeiro caos em Roma. Ali, na pacatez do meio do nada, aquela notícia parecia distante. Café findo, fomos então conhecer Ficarolo. Chegamos cedinho no centrinho da cidade. Ainda da estrada, vemos a imponência da torre cívica da cidade, meio torta como a de Pisa.
Para chegar até ela, passamos por um portal, que na realidade é uma continuação da igreja central, toda construída com tijolinhos.
Visitamos também a parte interna da igreja e de lá, fomos dar uma volta pelo vilarejo.
Nessas viagens a lugares pequenos, gosto de entrar em supermercados. Minha sensação é de incorporação: ali está registrada um pouco da rotina das pessoas locais e ao observar o que elas compram em geral, os produtos que são vendidos, você passa a entender um pouco mais a dinâmica do local. Então fui ao mercado enquanto André fotografava a praça central - aliás, a Itália oferece um problema grave ao fotógrafo: tudo é fotogênico, lindo, histórico, "único"; então se você não se policiar, volta pra casa com dezenas gigabytes de imagens e depois para selecionar para um álbum é uma confusão. É claro que esse foi nosso caso.

A Igreja central e a Torre Cívica de Ficarolo.

Um prédio do governo (mas não é o Comune, já que este ficava em outro local e tinha uma aparência mais moderna).
Como não poderia deixar de ser, antes de tomar a estrada rumo a Ancona (portanto na direção para onde todas as ambulâncias, bombeiros e equipes de resgate seguiam para tentar ajudar as vítimas do terremoto), fui tomar um capuccino. Estando na Itália, minha fonte de hidratação passou a ser doses maciças de capuccino, a qualquer hora do dia - supostamente, um sacrilégio para os italianos, que só tomam capuccino de manhã cedo.
O capuccino, como esperado, estava maravilhoso.
Partimos. E Ficarolo, com sua vidinha pacata de interior, deixou saudade.
Tudo de bom sempre.
22.Julho.09
Um passeio pelo Aquário de Gênova
Quando estivemos na Itália em abril passado, passamos 2 dias em Gênova, visitando uma amiga que trabalha vendo todos os dias os tubarões no Aquário de Gênova - sortuda... ![]()
O Aquário de Gênova é o 2º maior da Europa. Está localizado na área costeira do píer de Gênova, próximo ao cais do porto, e foi inaugurado em 1992, como parte das celebrações dos 500 anos da viagem de Cristóvão Colombo de "descoberta" das Américas durante a Expo 92. Colombo era um navegador/explorador genovês - ou seja, um orgulho da cidade.
Há tempos eu ouvia falar do Aquário, considerado um dos melhores do mundo entre alguns especialistas. Como eu adoro aquários, visitar Gênova logo entrou na lista de "must-go", especificamente para ver o Aquário. Assim que chegamos, já de tarde, fomos recepcionados pela nossa amiga no píer, animadíssima com nossa visita. Depois da matação de saudade inicial e muitos abraços, fomos guiados pelos corredores da exposição principal, ela contando as histórias sobre o trabalho ali e sobre as espécies mais divertidas (tubarões, claro!).

Tanque com focas. Elas adoram brincar e se empolgam nadando perto do público.
Passei meus olhos por todos os tanques abertos ao público. Há um especialmente dedicado à fauna e geologia do parque marinho de Cinque Terre, que fica ali perto e é das atrações mais visitadas da Itália. Algumas espécies endêmicas estão enfatizadas e minha amiga comentou já ter visto quase todas mergulhando pela costa genovesa. Há também tanques representando o ecossistema do Mediterrâneo e de águas frias. Essa, aliás, é uma tendência dos aquários em geral, a de destacar a paisagem sub do local onde estão, educando o público para o ambiente mais próximo de seu cotidiano. Acho excelente e importantíssimo para a conservação eficaz.
Entretanto, o tanque que mais gostei foi o dos grandes peixes pelágicos. Ali curiosamente há um tubarão-galhudo (Carcharhinus plumbeus) com uma barriga enorme. Fiquei observando as pessoas observarem o animal: todas sem exceção assumiam que era uma fêmea grávida. Achei fascinante, porque na realidade, o animal é um macho com um problema de coluna grave, o que gerou tal curvatura bizarra. Por conta dessa "curvatura", a barriga parece crescida; daí a confusão. Acho que eles precisam esclarecer melhor nos painéis explicativos...

Tubarões-serra descansando no fundo do aquário. No mesmo tanque, estava o tubarão-galhudo corcunda, que não aparece nas fotos.
Um dos tanques mais populares é o do "Nemo". Na verdade, é sobre os peixes dos recifes de coral e no painel explicativo, as espécies do filme "Nemo" aparecem desenhadas e identificadas. As crianças aprendem sobre os "personagens" do filme na prática, vendo-os nadando dentro do tanque. Um barato.

Aprendendo sobre o Nemo e seus amigos de recife.
Há ainda 2 "chavões" de aquários: um tanque cheio de piranhas brasileiras (provavelmente do Pantanal...) e um aberto com arraias. Este último, bem raso, permite que o visitante interaja com inúmeras arraias, tocando-as quando elas passam próximas a você. Este display me gera mixed feelings. Explico: as arraias são animais naturalmente tímidos que, ao ver outro animal "desconhecido" (no caso, nós, humanos) tende a se enterrar na areia ou se afastar. Acontece que o objetivo daquela exposição é justamente a interação. Então para que seja bem-sucedida, as arraias precisam estar em número elevado num espaço pequeno, o que causa stress. Mas se são colocadas em número que não sejam estressadas pelo espaço, aí elas não interagem, apenas fogem - e o público reclama. Um dilema educativo. No final das contas, a intenção é boa, e qualquer educador sabe que essa interação física ajuda muito a fazer as pessoas se preocuparem com a causa marinha em geral, mas por outro lado, o animal não está tranquilo, o que não é legal mesmo. Um equilíbrio entre educação e conforto animal ainda precisa ser alcançado, em minha opinião.

Interação "educativa" com arraias: vale o stress?
Outro deslize educativo que achei: na exposição dos tubarões, cita-se muito superficialmente a questão do finning. O cartaz fala que os animais estão ameaçados de extinção, mas não explica direito por quê - não vai ao cerne da questão, como evitando a reflexão mais profunda. Claro, quis entender o por quê daquela relutância, e nossa guia especial respondeu que os responsáveis pelos cartazes são de outro departamento, mais relacionado a educação e público. Estes, para não melindrar os turistas asiáticos (grande fonte de vi$itas), acharam melhor deixar tudo meio "nas sombras". Não gostei disso, sinceramente. Aqui no Aquário de Waikiki, por exemplo, na parte de tubarões fala-se com clareza sobre a matança de tubarões, o finning e o por quê da prática, assim como qual o mercado consumidor principal destas barbatanas (a China) e a questão "cultural". Sem pudor algum nem rodeios, deixando o gancho saudável para discutir a questão ambiental de forma clara. (E olha que a maior parte do turismo havaiano vem da Ásia...) É muito mais eficiente para educar, em minha opinião.

As piranhas, arroz-de-festa de quase todos os aquários que já visitei.
Depois do passeio tradicional, fomos para o passeio não-convencional: pela parte interna do aquário. Ali, não há glamour nem carpetes nem iluminação especial; apenas bombas de água, filtros, molhação e canos. Nossa amiga estava cuidando de 2 tubarões-de-recife que tinham chegado há pouco. Um deles com uma infecção enorme causada pelo outro tubarão: os dois brigaram e um deu uma mordida avantajada no outro. Antes de nos recepcionar, ela tinha dado antibiótico ao tubarão infeccionado, que estava separado do outro por uma rede enorme. Vimos os dois da parte de cima do tanque dos tubarões, que os visitantes normalmente vêem de baixo.

Tanque dos tubarões visto das passarelas por onde os tratadores mergulham para alimentá-los.
Outra curiosidade foi ver os berçários para alguns peixinhos e águas-vivas. Eles são cruzados no próprio aquário. Os filhotinhos fofos minúsculos... uma graça. Adorei a visita.
Aliás, no geral, gostei muito do Aquário. Tenho minhas considerações, que obviamente expressei para minha amiga mais tarde em volta de uma mesa de jantar repleta de parmeggiano e vinho. Mas, considerações à parte e independente de qualquer questão, o Aquário continua sendo um passeio excelente para quem vai a Gênova, principalmente para as crianças, que têm a oportunidade de ver diversas espécies diferentes e aprender muito sobre o ambiente marinho. Eu aconselho sem pestanejar.
Terminado o passeio pelo Aquário, saímos então para conhecer a cidade. Mas isso é papo para outro post...
Tudo de bom sempre.
21.Julho.09
Vermelho coca-cola
Viajar nos faz esbarrar muitas vezes em pitadas de diversidade em objetos ou atitudes que pareciam até então, em nossa visão de mundo estreita e acostumada, nunca mudar [link via favoritos]. Como a surpresa da foto acima, tirada em abril passado. A garrafa plástica completamente vermelha é a embalagem típica da coca-cola na Croácia - pelo menos foi o único tipo que vi durante minha estadia por lá. Adorei.
Tudo de curiosidades sempre.
07.Julho.09
Minhas 3 obras de arte favoritas
A Charô, que comenta sobre artes em geral no seu blog, lançou a pergunta: qual sua obra favorita? Ela citou a sua, uma escultura super-delicada. Pensei muito. Não entendo de arte; para mim, ela é o que me emociona, de alguma forma. Dentro desse conceito, não consegui escolher "uma" obra apenas; então falei de 3 que me tocam profundamente, nem tanto pelo que são ou pela importância histórica, mas pelas lembranças de vida que me trazem quando as vi e/ou tomei conhecimento pela primeira vez de sua existência. E claro, sei que arte inclui literatura, fotografia, música, teatro, etc. mas, como a Charô fala bastante em seu blog sobre artes plásticas e pinturas, tentei focar nessa "categoria" de arte.
Eis então minhas 3 obras de artes plásticas favoritas (com a absoluta certeza de que estou esquecendo pelo menos umas 20, mas.) e o por quê:
1) "Olympia", quadro de Édouard Manet

(Foto retirada da Wikipedia.)
Eu era uma adolescente cheia de espinhas no rosto quando um livro me caiu em mãos, via Círculo do Livro (!!!): Olympia, de Otto Friedrich (uma antiga resenha aqui). Na eepoca, eu começava a me interessar em Impressionismo e decidi encarar a leitura. Decisão acertada: Friedrich conta a história (e as fofocas...) por trás da obra famosa de Manet. Ao terminar o livro, acrescentei mais um sonho maluco a minha lista: ver Olympia ao vivo.
Corta a cena.
O ano é 1997 e estou mochilando na Europa, com o objetivo de ver o maior número possível de quadros de Van Gogh. É meu primeiro dia em Paris, e lá pelas 4 da tarde, estava perto do Musée D'Orsay, onde sabia que os Van Gogh's estavam. Tive uma "brilhante" idéia: ir ao D'Orsay me familiarizar com a sala dos Van Gogh's, vê-los en passant, e voltar no dia seguinte para ficar mais tempo, mas já sabendo onde eles estariam fisicamente no museu. Não "perderia tempo" no dia seguinte - tolinha eu... mal sabia que perder tempo é o que se deve fazer em Paris... Enfim, ao chegar no D'Orsay no fim de tarde, peguei um mapa, localizei a sala dos Van Gogh's e decidi ir firmemente até lá. Eis que entro numa das salas em que eu cortava caminho e dou de cara com Olympia. Enorme, um quadro ocupando toda a parede, aquele sorriso desafiador, a nudez pacata de um Manet cheio de intenções. As emoções vieram à tona e as lágrimas desceram pela surpresa misturada de realização ao relembrar o sonho da juventude. Àquela altura da vida, eu nem sabia que Olympia estava no D'Orsay. Mas estava, e eu a encontrei. Os Van Gogh's ficaram pro dia seguinte. Fiquei o resto da tarde admirando Olympia, emocionada, realizada. O primeiro presente que Paris me ofereceu foi simplesmente inesquecível.
2) "Fonte de Mercúrio", escultura/instalação de Alexander Calder (que eu achava ser de Miró até ontem, quando decidi escrever esse post - vivendo, escrevendo e aprendendo...)

(Foto retirada daqui.)
Na mesma "mochilagem" pela Europa de 1997, estava eu em Barcelona fazendo a Ruta Del Modernismo - ou seja, visitando todos os Gaudís imagináveis, quando decidi visitar a Fundación Miró. Sendo Miró um artista que adora cores, não poderia perder. O museu era incrível, cheio de pinturas e esculturas deste catalão. Mas nenhuma me deixou mais impressionada que o "Tributo a Miró", feito pelo artista Alexander Calder - apelidada também de "Fonte de Mercúrio". A escultura fica dentro de uma vidraça e deve pesar horrores. Ela é exatamente isso: o metal mercúrio circulando em cascatinha, entre ferros esculturais. Mas há algo de enigmático e leve nela, que inspira. Foi essa leveza do mercúrio que me encantou. Não sabia de sua existência e foi uma das melhores surpresas de toda a viagem. Nunca me esqueço do tanto de tempo que fiquei ali, admirando a escultura, a síntese da Barcelona que conheci.
3) Qualquer "corte" do Lucio Fontana
A primeira vez que soube da obra de Lucio Fontana (imagens diversas aqui) foi num mini-curso de Arte Moderna e Contemporânea que fiz na faculdade, num período em que minha vida ia de sonho em popa. Dentre o monte de slides que o excelente professor passava, de repente na tela da sala aparecem aqueles "cortes" no vazio da tela. Tudo na obra me intrigou. Nem tanto pela beleza; mais pelo seu abuso: a arte cortada, "estragada", destruída, pungente nas cicatrizes. Fontana quis mostrar que a tela vai além, há mais que apenas o branco com tinta por cima. E eu, que adoro essas quebras de paradigma, me apaixonei à primeira vista. Mais tarde, vi vários quadros de Lucio Fontana espalhados pelos museus do mundo. Em todas as vezes que os encontrei, um suspiro e uma longa parada, para admirar aquela simplicidade conceitual tão destruidora e significativa. E relembrar das aulas de arte, que eu tanto gostara. (É, eu também de vez em quando posso ser considerada #loucadegrade...
)
E, assim como a Charô, deixo a pergunta para quem quiser divagar: qual a sua obra de arte favorita?
Tudo de arte sempre.
30.Junho.09
Os Alpes vistos de cima
Em nossa viagem para a Itália em abril deste ano, durante o vôo Nova Iorque-Milão, sobrevoamos os Alpes. Era manhãzinha de um dia claríssimo, e a luz do sol contribuía para uma cena espetacular sobre a neve branca. À medida que o sol subia, as tonalidades iam mudando e era impossível não admirar. Ficamos mais de meia hora grudados na janelinha, sem querer perder um segundo sequer daquela travessia. André fez umas fotos simples, visões de cima das nuvens daquela imensidão branca tão encantadora. E outro dia, enquanto eu tentava (mais uma vez...) organizar nossos arquivos no computador de casa (um trabalho sem fim de enorme prazer), esbarrei nestas fotos. Resolvi então compartilhar com todos aqui as fotos dos Alpes vistas da janelinha do avião, para recomeçar as "atividades" viajantes deste blog do jeito que eu mais gosto: com a cabeça nas nuvens, de olho no horizonte além das montanhas. E de preferência na paz e no silêncio apaziguador que a neve transmite.
Enjoy. ![]()
Tudo de bom sempre.






























