25.Outubro.09
Inquietações de uma viajante inveterada
Em meu último post de desafio, deixei a foto de uma igrejinha para que as pessoas tentassem descobrir onde fica. Confesso que achei que seria um desafio facílimo, já que tal construção fica muito perto de São Paulo. Mas até agora, ninguém acertou - e eu finalmente deixei lá a resposta. O fato é que o desconhecimento de uma cidade tão pertinho de Sampa me levou a viajar supor que as pessoas talvez não conheçam os arredores de onde moram... aliás, nem a própria cidade, já que eu mesma, carioca da gema, levei 23 anos para subir enfim no Corcovado - e 32 para finalmente conhecer a simpaticíssima Vista Chinesa.
Isso revela um lado da nossa natureza humana em busca sempre da novidade. Queremos o novo, mas o novo não precisa ser só "novo": precisa ser "distante" da nossa realidade. As pessoas não encaram ir a cidade vizinha como uma "viagem". Viajar parece ser apenas o ato de ir a mais de (x + y) quilômetros (cada um escolhe seu limiar para resolver a equação), embora nada efetivamente defina isso num livro. Mas na nossa cabeça é assim. O que me leva a outra viagem na maionese, claro.
Viajar significa, na definição mais simples do Michaelis:
"viajar
vi.a.jar
(viagem+ar2) vti e vint 1 Fazer viagem; ir de um lugar para outro ou outros: Viajar para algum lugar. Viajar pelos sertões. Há muito já não viajo."
Ou seja, o mero andar de um ponto X a um ponto Y. Nessa definição mais que abrangente, ir na padaria da esquina pode ser uma "viagem". Eu gosto dessa definição, porque ela nos tira de um monte de amarras que temos com o ato de viajar. A principal delas é a financeira (que parece ser a maior amarra da maior parte das pessoas). Simplifica o ato.
Desde criança, meus pais me incentivaram a viajar. Ainda bebê, aliás, havia um instinto de querer conhecer outros mundos, "viajar" - e eu arrastava sacolas plásticas de supermercados com roupas dentro pela sala de casa, indicando às visitas que queria conhecer um pouco do mundo físico delas. Aparecia uma dessas "excursões" de escola e eu era talvez a única da minha classe que não precisava nem perguntar se podia ir: tinha certeza que meus pais me apoiavam nessa empreitada. Isso porque meu pai era (e é ainda) uma pessoa que curte muito cair na estrada.
Aí na adolescência e pré-vida adulta, quando estava na faculdade, eu me pegava sem dinheiro algum. Mas queria viajar, e ao primeiro sinal de 20 reais eu comprava uma passagem pra cidade vizinha e passava o dia lá, no estômago apenas um pão de queijo e um cafémas na cabeça a inquietação para conhecer outros mundos. Às vezes uma senhorinha bondosa, dessas que vão à igreja todo fim de tarde, me via olhando curiosamente pelas ruas de uma cidadezinha qualquer perdida de Minas e me oferecia um café em sua cadeira na varanda - e um tico de prosa deliciosa, trazendo lições universais de uma vida inteira entre dois pedaços de broa. E eu viajava ali, sentada numa calçada nova.
Eu adoro relatos de viagens. Meus, dos amigos, de desconhecidos... é das minhas leituras prediletas em qualquer momento da vida. Não à toa, adoro todos os blogs de viagem que conheço que contam verdadeiras histórias em seus posts, principalmente os recheados de fotografias e emoções (a Luisa e a Emília são minhas mestras nessa vertente). Os relatos me fazem viajar com eles, entender perspectivas diferentes. E gosto de perceber a perspectiva que as outras pessoas têm de uma mesma situação, o quão diferente é essa percepção de um mesmo destino e o quão isso muda de acordo com quem o experimentou. Por exemplo, recentemente, a blogosfera brazuca foi inundada por posts de viagem a um mesmo destino, "culpa" de um evento propagandístico-marketeiro. Mais que análises midiáticas (que disso eu não entendo mesmo), eu, viciada declarada em relatos de viagens, adorei a "experimentação" quase científica: o fato de ouvir as histórias de tantas pessoas em curto espaço de tempo sobre o mesmo ponto - porque, muito mais que meras descrições das atrações legais de um lugar bonito (isso qualquer guia de viagens já faz), elas também trazem o olhar de cada um e realçam a realidade pungente de que viajar é, muitas vezes, se incomodar. Em minha opinião, faz bem esse incômodo que um lugar novo oferece: é ele que nos faz pensar, refletir; é a inquietação da experiência nova, distante da nossa realidade, seja ela na padaria da esquina, na calçada de uma cidadezinha, em Pernambuco ou em Bangkoc que nos leva a aprender algo, que embaralha nossa perspectiva acomodada de vida e que torna o ato de ir e vir muito mais complexo do que a mera definição, que nos permite entender porque esse é um direito humano fundamental. O mundo seria mais bacana se mais pessoas viajasssem - porque viajar enriquece a nossa aventura de viver. Viajemos e nos inquietemos sempre, para quem sabe, perceber com outros olhos a nossa própria realidade rotineira.
Tudo de bom sempre.
24.Outubro.09
10 músicas que me fizeram ser
O Doni postou sobre as músicas que moldaram a personalidade dele. Ele escreveu:
"Este pequeno romance que escrevemos todos os dias e chamamos de vida sempre tem uma trilha sonora. Mas, mais do que "acompanhar a ação", as músicas podem ser as grandes responsáveis por determinados turning points que, no fim das contas, nos fazem ser quem nós somos."
Como eu concordo com a idéia, resolvi memeficar a idéia do Doni. Faz mais sentido ainda depois de uma semana pra lá de atribulada; cansada que estou, nada como um refresco musical que te leve a relembrar os caminhos da sua vida até agora. Eis aí abaixo as 10 músicas que me fizeram ser a malla que sou, de alguma forma (ou as 10 que me lembro agora). Incrivelmente, quase todas elas têm um quê de liberdade, de otimismo ou de mobilidade. Viagens musicais? Ei-las.
10) União da Ilha: "É hoje" [muitas madrugadas acordadas na infância assistindo aos desfiles das escolas de samba do Rio. É minha recordação número 1 de carnaval quando criança, a farra que se instaurava na sala de casa noite adentro, rindo. Lembrança que me ensinou a apreciar sempre com olhos de criança a alegria popular. O link leva a uma pedaço da transmissão da Globo daquela época.]
9) P.O.D.: "Alive" [Foi a trilha sonora de um grande turning point. Quando, há 7 anos, pulei de pára-quedas e percebi que precisava mudar tudo na minha vida, recomeçar do zero. Uma música que me dá uma sensação de liberdade enorme.]
8) The Beatles: "Eight Days a Week" [Ah, a pré-adolescência na beira da praia, nas rodinhas de violão, cheia de esperanças, curiosidades por um mundo a ser ainda descoberto...]
7) Chick Corea Akoustic Band: "Morning Sprite" [muitas madrugadas sentada na calçada do Recanto dos Vagabundos conversando e aprendendo com grandes amigos a ouvir com carinho, atenção e emoção o que as pessoas têm a dizer.]
6) Stockhausen: "Helicopter String Quartet" [Descobrindo São Paulo, sua vida über-urbana e tomando as lições que ela imprimiria em mim.]
5) Frank Zappa: "G-spot tornado" [Entendendo a importância da crítica. Momentos de explosão de pensamento, quando percebi que estar aberta às novidades, tentar entendê-las, era a melhor maneira de encontrar a minha realização.]
4) Jaco Pastorius: "Teen Town" [Acordando para o mundo aqui fora e amando cada detalhe que ele revela. E eu sei, essa música é do Weather Report, não só do Jaco. Mas foi a versão dele que me marcou. Aliás, todas as músicas dele, e essa só ilustra um momento definitivo de descobertas. Mas todas as outras poderiam entrar aqui; sendo interpretada pelo Jaco, não interessa qual, é tudo lindo.]
3) Jack Johnson: "Bubble toes" [Rodas de violão com 'ukulele, a descoberta de que momentos de tranquilidade da vida não têm preço. E que me fizeram almejar uma vida mais equilibrada, em harmonia com o ambiente ao redor.]
2) Hermeto Pascoal: Viajando pelo Brasil [Liberdade é tudo na vida. Foi o Hermeto quem me ensinou a apreciá-la, com toda a criatividade e liberdade que têm ao manejar as notas musicais. Esse clipe em particular me é muito querido porque foi gravado em Viçosa, 1988 e colocado na web pelo Jovino Santos Neto, que tocou muito tempo com o Hermeto...]
1) Pat Metheny: "First circle" [Eu sempre brincava que se o céu existisse mesmo, era essa música que tocavam na nossa "bendita" recepção. Uma música que me faz acreditar num mundo melhor, que me tira da tristeza toda vez que ela insiste em aparecer, que me dá uma esperança crescente na beleza da vida. É minha música predileta de todos os tempos, todos os momentos, todas as emoções.]
Tudo de música na vida de todos sempre.
19.Outubro.09
Trânsito
Com o arco-íris sobre a cratera do vulcão na beira da estrada, achei ótimo estar lerdando no engarrafamento: a velocidade tartaruga permitiu que a gente apreciasse a vista com a calma que ela merecia. ![]()
Fim de tarde ontem, na rodovia H1 em Honolulu.
Bom início de semana a tod@s!
18.Setembro.09
Sexta Sub: snorkelando em Palau
Essa aí em cima sou eu, snorkelando num lago de água salgada em Palau. Como esta semana confessei ser um dos posts de Palau o meu predileto de todos os tempos neste blog, decidi homenagear o local na Sexta Sub e relembrar com a foto um momento delicioso de uma viagem que foi das melhores que fiz na vida. Taí um lugar que eu gostaria muito de voltar.
Tudo de sub sempre.
16.Setembro.09
Minhas viagens prediletas - ano 4: Rio Sucuri impressionista
Diferente dos meus demais posts prediletos, onde em geral eu estava tranquila no aconchego do meu lar escrevendo, o do Rio Sucuri foi escrito na estrada, enquanto eu viajava pelo centro-oeste e sul do país. Mesmo estando na estrada (confesso que essa não é a forma que mais gosto de escrever, durante uma viagem), estava eu tão hipnotizada por esse local que terminei me empolgando e escrevendo, tudoaomesmotempoagora, e, ainda emocionada por ter visto tal beleza, publiquei no dia 25 de setembro de 2008. Enjoy this impressionist ride.
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Em nosso segundo dia em Bonito, depois de rapelar pelo Anhumas, fomos relaxar à tarde fazendo uma flutuação pelo rio Sucuri, outra atração imperdível de Bonito.
É interessante quando a gente comenta sobre Bonito e fala das flutuações. Uma parte das pessoas acha que fazer somente uma flutuação na região é suficiente, pois todo o resto será "a mesma coisa". Nada pode ser mais longe da realidade, pelo menos para os minimamente interessados em paisagens submersas. Se no rio da Prata, há um cenário dramático com rochas, troncos, algas, areia e eventos inusitados como o Vulcão, no passeio pelo rio Sucuri vemos um domínio do verde intenso das plantas aquáticas por todo o percurso e da mata nas bordas. É claro, há troncos e rochas no fundo, mas a sensação de estar passando por um jardim submerso é muito mais intensa. O rio Sucuri me lembra o tempo todo uma grande tela natural de Monet em dezenas de experimentações de verde.
O passeio começa numa trilha de mata ciliar dentro da fazenda São Geraldo em área que foi transformada em RPPN. Depois de uma pequena caminhada sossegada, chegamos na nascente principal do rio Sucuri. A nascente parece um lago de lírios, tamanho o pontilismo dos tons de verde que vemos da plataforma de observação. Ali é proibido cair na água, verdadeira tortura, pois a visibilidade da água e a beleza do local convidam imensamente.
Depois da nascente, chegamos ao ponto onde a flutuação em si começa. Como era um dia calmo no Sucuri, tínhamos um guia dedicado para nós, o Kiko Canindé, um estudante de biologia bastante animado com o curso, que nos explicou com clareza diversos aspectos ecológicos e zoológicos do local. Caímos então na água - Canindé ficou no barco. No rio Sucuri, a flutuação é o tempo todo obrigatoriamente acompanhada por um barquinho de apoio (no rio da Prata isso só não acontece por causa de uma corredeira intensa num trecho do rio).
No rio, o cenário sub tem todos os tons de verde imagináveis, verdadeira aquarela de pintura. Há uma diversidade botânica considerável. Eu estava muito cansada do rapel no Anhumas de manhã, então usei o Sucuri como meu "spa" natural e flutuei como a voar por cima de um mar verde. Em diversos momentos inclusive abri os braços, para me sentir passarinha da água.
Mas o rio não era só relaxamento. Há trechos mais fundos e de correnteza um pouco mais forte, onde tive que gastar suada energia em braçadas na contra-corrente, aguardando o André, que fotografava o máximo possível e vinha atrás de mim no ritmo de fotografia. Mas mesmo tal "exercício" não comprometia meu estado psicológico geral de leveza e felicidade.
Mais ou menos na metade do passeio, o guia nos pediu para tirarmos a cabeça da água para ver um pássaro enorme. Logo depois, foi a vez de uma mamãe-lontra aparecer com 2 filhotinhos na beira da água. O sol estava delicioso iluminando a cena como no famoso quadro de Monet, e as lontras tomavam sol. Mergulharam então na água em velocidade de vapt-vupt, levantando uma poeira considerável do fundo. Mas nossa tarde já estava sorridente com esse encontro-surpresa.
Fomos flutuando em nossa velocidade. O fato de estarmos sozinhos na água colaborou para vermos mais detalhes do rio, que próximo ao final ficara mais cheio de partículas em suspensão, provavelmente devido à seca. Depois do passeio terminado e já em terra, meus olhos ainda estavam enxergando as tonalidades esverdeadas que vira embaixo d'água. Não é todo dia que voamos sob um tapete verde molhado e gosto de pensar que se Monet tivesse conhecido o rio Sucuri, sua série de quadros de flores aquáticas teria incluso visões submersas fenomenais.
Porque o quadro que a gente vê embaixo d'água ali no Sucuri é tão lindo e iluminado que deve ser guardado no recanto íntimo das artes da gente, junto com as ninféias de Monet, onde as grandes belezas do mundo se tornam inesquecíveis.
Tudo de Bonito sempre.



























