23.Setembro.09
Heavy metal fish
Apesar do título parecer nome de banda indie e ter a cara de título sugerido pelo Tiagón, este não é um post de bereteios criativos como vocês encontram pelas bandas de lá. É infelizmente bem concreto: o teor de mercúrio, um metal pesado, no peixe nosso de cada dia.
Afinal, saiu esses dias um estudo feito aqui no Hawaii em que os pesquisadores mediram a quantidade de mercúrio em diversos peixes que são vendidos no mercado - e consequentemente consumidos pelas pessoas. O que eles descobriram foi muito interessante.
O mercúrio é um metal pesado que chega ao mar via despejos de poluentes nos rios ou pela atmosfera. O mercúrio da atmosfera vem de basicamente 2 fontes: erupções vulcânicas (portanto fonte natural) e poluição (fonte antropogênica: queima de carvão nas usinas termelétricas ou atividades de mineração, em sua maioria). Uma vez no mar, o mercúrio-metal-pesado é convertido por bactérias e elementos do plâncton a metil-mercúrio, e este sim é o agente causador de todos os problemas neurotóxicos que a gente ouve por aí associados com ingestão de mercúrio há tempos.
O metil-mercúrio é facilmente assimilado pelos seres vivos, incluindo a gente. Uma vez no organismo, ele se acumula e gera stress oxidativo nas células, principalmente no cérebro. O organismo basicamente não dá conta de tão poderoso agente, e à medida que a concentração de mercúrio começa a subir, o organismo começa a não ser capaz mais de se desintoxicar sozinho, porque as enzimas responsáveis pela desintoxicação de metais pesados que a gente tem começam a ser inativadas. Com o tempo, o acúmulo exagerado pode levar a problemas neurológicos graves e de comportamento. (Exemplo clássico aqui.)
Nossa principal "fonte" de mercúrio direta é a dieta, principalmente via peixes. O metil-mercúrio tende a se bioacumular na cadeia alimentar, o que gera elevados índices de tal composto pesado nos animais do topo da cadeia. Por conta dessa bioacumulação, o FDA americano já há algum tempo recomenda que mulheres grávidas e crianças pequenas diminuam a quantidade de peixe ingerida, principalmente das espécies mais pelágicas, para evitar que cérebros ainda em processo de formação já sofram com os danos causados pelo acúmulo de metil-mercúrio. Mas, que peixes podem e não podem ser ingeridos?
Foi em cima dessa pergunta que muitos pesquisadores se debruçaram - e vêm se debruçando em cada vez mais lugares no mundo. Aqui no Havaí, este tópico tem aparecido com cada vez mais frequência nos jornais locais, o que demonstra uma preocupação real em responder a pergunta.
Daí que o estudo publicado no PNAS há algumas semanas traz em si uma revelação interessantíssima para o manejo da pesca - e para o nosso nível de contaminação por mercúrio, diga-se de passagem. Os pesquisadores descobriram que os peixes que se alimentam mais ao fundo acumulam mais mercúrio em sua carne, enquanto os que comem mais no raso acumulam menos. As implicações desse achado são enormes - e a repercussão já começou.
Boa parte da pesca industrial está baseada em peixes pelágicos carnívoros (ou seja, de topo de cadeia alimentar), que se alimentam no fundo: cações/tubarões, atuns, peixes-espada. Estes peixes possuem níveis de mercúrio mais elevados que os demais, como o dourado, que se alimenta mais próximo da superfície. Mas não somente peixes: os pesquisadores também mediram os níveis de mercúrio em crustáceos, lulas e polvos, e constataram que nestes animais o mesmo padrão existe: quanto mais fundo o animal vive, mais mercúrio no seu sistema.

O dourado acima possui menos mercúrio acumulado em seu organismo que a espécie de atum abaixo. Ambos são consumidos por nós, espécie humana.
E para mim, a frase que o pesquisador-líder do estudo disse no press-release da universidade é a "moral da história":
"O fundo do mar é remoto, difícil de ser estudado e muitas vezes ignorado, mas nossos resultados claramente mostram como a biologia está diretamente conectada aos interesses humanos, tanto de pesca como de saúde. Alguns dos peixes que a gente se delicia na mesa de jantar crescem numa dieta de criaturas estranhas e exóticas a mais de 1,000 pés de profundidade no mar."
Pense nisso na próxima ida à peixaria. ![]()
Tudo de informação sempre.
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- Li essa história sobre mercúrio e profundidade primeiro no antenado blog Deep Sea News, antes mesmo de sair o release da Universidade do Havaí. E depois tem quem ainda ache que blogs são "fracos" como fonte de informação em 1a mão... afe.
- Publicado também no Faça a sua parte.
01.Agosto.09
Cervejas havaianas
Cerveja foi o tema curioso da semana. Entre o link bizarríssimo de uma cerveja de alga que Tiagón compartilhou no GReader e a cervejada na Casa Branca entre Obama e as partes envolvidas na confusão de Cambridge, resolvi aproveitar o cheiro de cevada no ar e unir o útil ao agradável. Já que estamos na celebração do estado do Havaí, nada como começar a festa brindando a todos com um lado das ilhas quase desconhecido: as cervejas havaianas.
Na realidade, estas cervejas estão expostas num museu pequenininho escondido num shopping mall em Waikiki, dedicado à memorabilia havaiana. As aí de cima não são mais produzidas. Eram produtos de pequenas cervejarias que já fecharam há alguns anos e hoje estas cervejas se tornaram itens de coleção - por isso estão no museu.
Entretanto, no mesmo museu há umas prateleiras dedicadas a Primo Beer, cerveja tradicionalíssima produzida aqui no Havaí desde 1898.
A cervejaria passou por uma grande crise no passado, mudou sua produção para o continente - e com isso as vendas caíram também no Havaí. Em 1997, a cervejaria Primo fechou (algumas fotos de memorabilia da Primo aqui) e em 2007, depois de ser comprada por outra cervejaria de Chicago, voltou a ser comercializada aqui no Havaí.
Hoje, além da Primo, existe uma meia dúzia de diferentes marcas de cerveja havaiana vendidas pelas ilhas. As mais famosinhas são as da Kona Brewing, que podem ser achadas no mercado em caixas com 12 garrafinhas, variadas: Longboard Island Lager, Fire Rock Pale Ale, Pipeline Porter, Wailua Wheat e Big Wave Golden Ale. As cervejas da Kona Brewing só podem ser tomadas aqui no Havaí, em alguns lugares do Japão e em locais selecionados dos EUA. São uma boa pedida para os que curtem cerveja e passam pelas ilhas, em minha opinião. Pelo menos, são "exóticas" e darão um tom diferente a sua estadia. Mas não se esqueçam da regrinha básica: apreciem com moderação - para poderem aproveitar também as demais belezas da ilha conscientemente...
Cheers!
Tudo de bom sempre.
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- Esse post só pode ser dedicado, pela coincidência do nome internético, ao... Primo! ![]()
27.Abril.09
Energético da moda

"O açaí nosso de cada dia, nos dai hoje... e amanhã e depois também."
Açaí: a "fruta" cujo nome o americano não consegue falar direito - virou algo como "akái" aqui - mas que é facilmente encontrada em supermercados e lojas do ramo.
Algumas perguntas vieram à minha mente malla, though: tem plantação suficiente no Brasil pra suprir tamanha demanda como o mercado americano exige? Ou esta demanda ainda é pequena, já que a fruta é associada com "dieta saudável" estando, portanto, longe da maior parte das refeições hiper-trans-saturadas da média da população? Será que a cultura de pequenos produtores na Amazônia se mantém mesmo com uma demanda aumentada?
Com tantas questões pendentes, só pedindo ajuda aos economistas de plantão... 
(By the way, a foto acima foi tirada num fast-food do aeroporto de Los Angeles.)
Tudo de bom sempre.
UPDATE RELACIONADO: O João me mandou a notícia de que a ANVISA vai aumentar a fiscalização do açaí para evitar contaminação. Como ele diz, "imagina se os gringos ficam sabendo disso..."
18.Fevereiro.09
Tubaronices à mesa
A minha amiga Cynthia me enviou um email outro dia indicando este post do blog Bem Legaus, onde o André Montejorge mostra um infuser de chá no formato de barbatana de tubarão - e ainda faz uma brincadeirinha com um chá vermelho, que aos poucos vai saindo na água feito sangue. No mesmo blog, ele já tinha mostrado uma tigela com barbatana - ótima para colocar um bolo de cenoura bem gostoso.
Mas aí eu chego na cozinha do laboratório ontem e me deparo com essa jarra para guardar biscoitos:
...que eu apelidei de "cookie jawr", é claro. [Piada fraca detected.]
Já pensou um chá das cinco com todos esses itens tubaronísticos à mesa?
Amei! Quero todos. ![]()
Tudo de tubas sempre.
05.Outubro.08
Gastronomia Mimosa de fazenda

Uma das cachoeiras da Estância Mimosa.
Muitas cidades pelo mundo são consideradas “turísticas” por suas atrações/belezas/bizarrices. Em geral, essas são as que a gente vai sem pensar muito no que vai comer porque o lugar se basta. Fernando de Noronha é um bom exemplo disso: se vou tomar toddynho ou champanhe, não interessa; o legal lá é mergulhar.
Mas há para mim um quê a mais num destino quando ele possui, além das atrações supimpas, uma delícia gastronômica qualquer. Mesmo que seja uma simples torta de chocolate, como Viena, ou um guaraná diferente (e rosa!) chamado Jesu.s, como no Maranhão. Aquela comidinha especial acrescenta sensações ao viajante que experimenta um lugar.
Em Bonito, da primeira vez que fui, nada existia de “exótico gastronomicamente” além da carne de jacaré – que eu logo fiquei encafifada com sua sustentabilidade – e da cachaça Taboa, feita com canela e muito deliciosa, por sinal. Mas quando se vai a Bonito, vai-se para curtir a natureza e a comida é um detalhe. Dessa vez, entretanto, além da carne de jacaré notei que há um movimento de vários restaurantes para melhorar a qualidade gastronômica da cidade, incorporá-la à visão pantaneira de alimentação, principalmente vendendo as chamadas carnes exóticas (javali, cateto, etc.) além de um sem-fim de pratos com peixes. E a carne de jacaré continua lá como carro-chefe - me garantiram vir de um criadouro em Miranda... Mas nenhuma dessas exoticidades gastronômicas se compara a mais simples e maravilhosas das atrações que visitei no último dia em Bonito: a Estância Mimosa. E que coloca Bonito de vez, a meu ver, na rota do turismo agrogastronômico.
Não são muitos os visitantes que vão à cidade e têm tempo para apreciar a Estância Mimosa. Mas deveriam. A fazenda tem uma trilha com diversas cachoeiras, muitas delas possível de se banhar, lindas e em meio a uma área bem preservada, com microambientes de cerrado e mata ciliar, rica em animais (alguns ameaçados). Passam-se cerca de 4 horas andando, quase o tempo todo ouvindo o barulho do rio correndo.


Trechos da trilha da Estância Mimosa.
Mas é a comida na Estância Mimosa que impressiona. Assim que chegamos, fomos recepcionados com um “lanchinho” da manhã, com bolos diversos, café servido em canecas de metal pintado (na melhor tradição da roça), sucos, um monte de geléias caseiras de frutas da região com biscoitinhos e um pote enorme de requeijão feito em casa – que na hora que chegamos ainda estava quentinho, tinha acabado de ser feito! Só ali, naquele início de visita, devo ter engordado um quilo.
Na companhia do guia Rafael, saímos só eu e André para a trilha, já bem alimentados. Rafael foi sensacional. Enquanto caminhávamos, contou diversas histórias de Bonito, de sua atuação como turismólogo, da vida na fazenda, dos detalhes ambientais do local, mostrou macacos, jabutis, nos fez passear de barco por um trechinho do rio, deu risadas quando contamos algumas de nossas aventuras pelo mundo, enfim, se enturmou com a gente. O barato dessa trilha é que você não se cansa muito, apesar de andar bastante: como há inúmeras paradas para banhos em cachoeira, toda hora você se refresca. Caminha, nada, caminha, nada, e nesse ritmo vamos relaxando em ar puro.


Ah, um banho de cachoeira num dia ensolarado...


Um mutum-de-penacho (Crax fasciolata, esse aí uma fêmea com filhotes), animal de "estimação" que perambula pelo quintal da Estância Mimosa - e ameaçado de extinção. Ao lado, uma visão da cachoeira de dentro de uma caverninha atrás da queda d'água.
Mas é depois da trilha que vem o melhor: o almoço na Estância. É comida de fazenda, feita toda ela em fogão de lenha. Nada de pratos mega-requintados: aqui o sabor está na simplicidade. É feijão com linguiça, arroz carreteiro, farofa de banana, carne ao molho de urucum, tudo farto e com gosto fresco de verdade. As verduras vêm todas da horta, as frutas do quintal, e ficam expostas em uma “pia” de água do rio corrente que no passado servia como pia de verdade para a casa, onde se lavava louça, etc. Hoje é decorativa – e que decoração. Adorei.


A comida sendo servida ainda no fogão a lenha; ao lado, as saladas que ficam nesse "mini-córrego" dentro da cozinha. Um barato!
É humanamente impossível comer apenas um prato, porque há um sabor especial e delicioso de roça em cada garfada. De modo que, depois do 2º ou 3º prato, parti para a sobremesa – e vem mais uma leva enorme de doces. Os que mais gostei foram os de jaracutiá queimado, de melancia (maravilhoso!) e o pé de moleque feito em casa. Mas comi um pouquinho de todos, para provar tudo, é claro.


A mesa de doces... o mais central é o de melancia, que eu mais recomendo a qualquer um que visite a Estância Mimosa. Simplesmente perfeito. Ao lado, meu café em canequinha de metal, verdadeira volta no tempo.
Ainda finalizei essa indulgência alimentar com um cafezinho básico. Perguntei então ao Rafael como ele sobrevive magro ali naquele ambiente onde se come tão bem todo dia. Ele sorriu e revelou: “Já engordei 6kg desde que cheguei aqui”. Fica aí a dica para aqueles (raros) seres que têm dificuldade de engordar: uma semana na Estância Mimosa dão jeito em qualquer magreza esquelética. E garanto, de forma saborosa e saudável.
Tudo de bom sempre.























